terça-feira, 7 de agosto de 2012

Aventura perigosa


Rogério Arioli Silva *
Viajar de carro pelas estradas brasileiras é, antes de tudo, um exercício de coragem.  Com raríssimas exceções a grande maioria da malha rodoviária brasileira encontra-se em estado precário e, mesmo com os recursos do PAC I e do PAC II, provavelmente este quadro não se modificará num lapso de tempo razoável. Há um visível descompasso entre o crescimento da frota de veículos no país e a necessária ampliação das estradas, de modo a suportar este ingresso dos novos usuários.

Segundo o DENATRAN (2011) a frota brasileira de veículos, incluindo automóveis, caminhões, carretas, ônibus e motocicletas atingiu 70,5 milhões de unidades o que significa um crescimento de 121% nos últimos dez anos. O incremento no número de motocicletas é ainda mais espantoso e superou 300% neste mesmo período, onde a população brasileira cresceu em torno de 12%. A estabilidade econômica obtida pelo país proporcionou a milhares de pessoas adquirirem seus veículos graças às parcelas fixas e às inúmeras opções de financiamentos disponíveis. Melhor para as montadoras que aproveitaram este bom índice de crescimento e também para o governo que viu sua arrecadação engordar via ICMS e IPVA, além de todos os desdobramentos tributários incidentes em peças automotivas, pneus e combustíveis.

Enquanto a frota brasileira cresce em progressão geométrica os investimentos na recuperação e manutenção das estradas crescem em progressão aritmética, malthusianamente falando. Estimativas do DNIT dão conta de que a demanda de investimentos na restauração das estradas fique em torno de R$ 16 bilhões por ano em serviços como prevenção de quedas de barreiras e erosão dos leitos das pistas, além de tapa-buracos, consertos de ondulações e demais adequações.  Importante frisar que se tratam apenas de investimentos para consertar o que está estragado e não de construir novas vias ou mesmo duplicar as já existentes.

Dados divulgados pela CNT (Confederação Nacional dos Transportes) demonstram que o Brasil gasta mais com os problemas advindos dos prejuízos causados pela precariedade das estradas do que com a ampliação e modernização das mesmas.  No ano de 2010, por exemplo, o governo gastou R$ 14 bilhões de reais com as 183 mil ocorrências que resultaram em 8.516 mortos nas estradas brasileiras.  Vejam que mesmo que estatisticamente a vida humana tenha um valor financeiro, este com certeza estará sempre subestimado para aqueles afetados pela tragédia do trânsito brasileiro.

Ao observar a classificação das condições das estradas no ranking costumeiramente divulgado, verifica-se que apenas 14% das rodovias estão em situação precária, das quais 11,2% são ruins e 2,8% consideradas péssimas.  Num primeiro momento cria-se a falsa impressão que o problema não é tão grande assim. Mas e quantas estão defasadas em relação ao volume de veículos que nelas trafegam? Qualquer leigo sabe que uma rodovia congestionada torna-se muito mais perigosa do que uma com fluxo racional. Portanto os dados são incompletos, senão mentirosos.

Os problemas na qualidade das obras realizadas em rodovias, infelizmente, são regra e não exceção. A maioria dos serviços executados pelas construtoras não suporta a primeira vistoria, como foi o caso da rodovia Cuiabá-Chapada e de inúmeras outras fiscalizadas Brasil afora. Demonstra que os gastos na maioria das vezes serão em vão o que resulta em perda de tempo e dinheiro. Talvez fosse o caso de deixar a manutenção da estrada sob responsabilidade da empreiteira que executou a obra de restauração durante um longo tempo, para que a mesma arque com o resultado do serviço executado e, assim, comprometa-se mais com a qualidade da obra.

Como estes problemas de qualidade e defasagem das estradas brasileiras ainda deverão permanecer por um bom tempo tornam-se necessários alguns conselhos àqueles que necessitam arriscar-se pelas estradas brasileiras: não ter pressa de chegar; evitar viagens noturnas; realizar ultrapassagens seguras; estar em dia com a manutenção do veículo; rezar bastante e, por fim, fazer um seguro de vida beneficiando seus dependentes.
                                                                                                                                   * O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT
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