quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O freguês sempre tem razão

Marketing da terra
O freguês sempre tem razão
Richard Jakubaszko
O aforismo praticado pelos padeiros lusitanos jamais foi contestado pelos especialistas da mercadologia, comprovando-se como verdade insofismável. Entretanto, no mundo contemporâneo, tanto a mídia de massas, especialmente TVs e jornais, e adeptos de interesses comerciais tentam desmontar e distorcer a realidade. A tentativa de desconstrução dessa verdade encontrou respaldo nas afirmações dos ambientalistas de que o consumidor comum rejeitaria adquirir produtos que contribuíssem para a poluição ambiental ou que trouxessem perigo à sua saúde. Essas “ameaças” categóricas, causaram receios entre produtores rurais, o que é natural.
Três exemplos recentes comprovam que o consumidor não obedece a essa ótica ambientalista, ou não lê jornais e nem assiste TVs, ou ainda, o que é mais provável, definitivamente, não está nem aí para tais questões ambientais. Se não, vejamos:

1º – As sacolas plásticas de supermercados.
Conforme divulgado exaustivamente na mídia, os supermercadistas paulistas realizaram acordo político com o Governo do Estado de São Paulo para acabar com o fornecimento das mesmas aos clientes. A mídia ambientalista aplaudiu a iniciativa. Implantada a ideia houve uma reação crítica da sociedade, e as donas de casa protestaram de forma veemente (sem sequer apelar para a realização de passeatas) com a ausência das sacolinhas, mais ainda por terem de comprar outras sacolas, também de plástico (mas chamadas de biodegradáveis...).
Revelou-se, no episódio, que a “meritória” intenção dos supermercadistas nada tinha de interesse na questão ambiental, mas apenas de reduzir custos e aumentar lucros. A proibição foi revogada em junho último, e ninguém reclama mais.

2º – A paridade do etanol versus gasolina.
Há um consenso antigo de que o etanol deve custar no máximo de 65% do preço da gasolina para tornar-se vantajoso do ponto de vista econômico, mesmo tendo a vantagem de ser muito menos poluente. O etanol transmite mais potência ao veículo, mas consome mais por km percorrido, ou melhor, é mais esbanjador do que a gasolina. Desde 2011 assistimos no Brasil a uma guerra comercial do etanol versus gasolina que seria cômica, não fosse trágica. Os usineiros afirmam que o Governo sustenta preço artificial baixo da gasolina. Já o Governo acusa os usineiros de não investirem nos canaviais, o que ocasionou queda de produção, e de provocarem a anormalidade de fornecimento, para ter aumento dos preços do etanol. Na última entressafra os preços do etanol estiveram em 80% da paridade com a gasolina. Mesmo com a possibilidade de proporcionar visível benefício ambiental às cidades onde vive, o consumidor não quis saber de conversa, aderiu ao uso da gasolina, mesmo que essa não transmita tanta potência aos seus HPs. No jogo de empurra, o Governo Federal reduziu de 25% para 20% a adição de etanol à gasolina. Sobrou etanol no mercado, os preços caíram, mas os investimentos continuam baixos, e aguarda-se a próxima entressafra, quando a guerra deve continuar. O consumidor não está nem aí para a questão ambiental.

3º – Embalagens dos OGMs com avisos
 Os ambientalistas brigaram muito para tornar obrigatório o uso do triângulo amarelo com um ameaçador “T” em seu interior, nas embalagens de alimentos. Através de legislação tornou-se isso obrigatório no Brasil. Na visão idealizada dos ambientalistas o consumidor recusaria esses produtos, e os agricultores deixariam de comprar sementes GMs, liquidando com as empresas fornecedoras. A Europa, em recados através da mídia acrítica, exige do Brasil o fornecimento de alimentos não OGMs, mas jamais se dispôs a pagar um centavo a mais, comprovando a hipocrisia do discurso.

Pois vem da Europa outro exemplo da palavra final do consumidor.
Para observar consumidores em uma situação real, pesquisadores da Universidade de Otago * (Nova Zelândia), montaram barracas de frutas em ruas de 6 diferentes países: Bélgica, França, Alemanha, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido. As tendas vendiam morangos, uvas e cerejas que apresentavam 3 rótulos diferentes: “orgânico, certificado Biogrow” (produto que fortalece a planta), e “baixo resíduo, produzido em área potencial para conservação” e “100% livre de defensivos, geneticamente modificado".

Se os clientes perguntavam sobre as frutas GM, os fornecedores explicavam que continha genes que faziam a planta produzir seu próprio inseticida natural. Na verdade, todas as frutas tinham a mesma origem. Nas barracas de frutas, os frutos GM foram os mais escolhidos.

Com pequena redução na condição de preços, o fruto GM foi a escolha mais popular ou a segunda mais popular em 3 dos 5 países europeus nas bancas de fruta, apesar de ser a opção menos popular em pesquisas de mercado convencionais nesses mesmos países.
Depois de fazer as suas compras nas bancas, os clientes foram questionados sobre suas decisões. O preço foi um fator comum. Muitos clientes que compraram “orgânico” ou “baixo resíduo” disseram tê-lo feito por força do hábito, e alguns diziam que as frutas orgânicas pareciam melhor e mais saborosas. Mesmo tendo provado todas as frutas, alguns consumidores não acreditaram que todos os frutos eram os mesmos, com a mesma origem.

Os resultados sugerem que pesquisas feitas anteriormente podem ter exagerado o grau de sentimento negativo em relação aos produtos GM. Os investigadores concluem que “a expectativa social” leva as pessoas a fazer escolhas diferentes em uma situação de pesquisa das que fariam em uma situação de consumo real.
Em outras palavras, o consumidor pode escolher um produto mais barato, mesmo sendo GM, se acreditar que ninguém está olhando.
Entretanto, em situação de resposta a um questionário, há o desejo de optar por algo socialmente aceitável.
Os pesquisadores apontam que seu raciocínio foi inferido a partir dos comentários coletados.
No entanto, acreditam que as descobertas mostram que os GMs serão mais aceitos pelos consumidores se forem mais baratos e suas vantagens (por exemplo, ausência de resíduos de pesticidas) forem claramente identificadas ou explicadas.
Conclusão: a vontade do consumidor é soberana, pode até ser perversa, mas o freguês sempre tem razão. Revogam-se todas as boas e más intenções em contrário.
*  Fonte: European Commission – Science for Environment Policy

Publicado originalmente na revista Agro DBO / nº 36, agosto 2012 - Licença permitida de reprodução, desde que citada a fonte: www.agrodbo.com.br
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9 comentários:

  1. Aos comentaristas anônimos e aos não anônimos, mas raivosos: não publico comentários nem de um e nem de outro. Ataques pessoais, tetativas de desqualificações profissionais, adjetivações maliciosas, não são bem-vindas neste blog. Somente publico comentários com discordâncias de ideias, e que tratem, de forma civilizada, do conteúdo abordado em cada post.

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  2. Richard,
    com relacao aos OGMs (ou GMOs em ingles [1-3]), a maioria da populacao e' ignorante, inclusive varios cientistas, o que faz lembrar a quotacao de J. D. Watson: ‘One could not be a successful scientist without realizing that, in contrast to the popular conception supported by newspapers and mothers of scientists, a goodly number of scientists are not only narrow-minded and dull, but also just stupid.’ [1], como voce proprio chama a maioria da midia de burra. E' parte do marketing malicioso e das tecnicas de persuasao sem etica estudar formas de vender sem servir a nao ser aos proprios interesses de curto prazo [3]. Esteja certo de que em qualquer cultura esclarecida so' gente mal informada ou ignorante compra oGMs para dar para a sua familia ou para animais (talvez com excessao daqueles que recebem dinheiro para fazer marketing de OGMs). No filme em [4] ha' 23 minutos de demonstração realista, no campo, de muitas das falsas vantagens dos OGMs alardeadas pelas multinacionais interessadas em evitar precaucoes fundamentais quando se trata de produzir alimentos e de interferir com os equilibrios ambientais enquanto controlam o fornecimento de sementes e os precos de alimentos. Esta' mais do que demonstrado que as supostas vantagens economicas dos OGMs sao mentiras que se dissipam em poucas colheitas, exceto que os danos 'a saude de humanos, animais e meio ambiente sao permanentes - leia mais sobre OGMs nas referencias abaixo e em portugues em [5]. Confira as referencias cientificas abaixo inclusive sobre perda de fertilidade - e portanto nao ha' NADA de hipocrita na requisicao europeia de nao pagar mais por comida nao OGM. A realidade e' que OGM vale menos e 'a medida em que a educacao for chegando na consciencia do povo vai valer cada vez menos pois so' ignorante compra... Voce que sempre diz que temos um problema de superpopulacao, pois fique sabendo que os russos (e outros antes) confirmaram recentemente, mais uma vez, que OGMs acabam com a fertilidade em poucas geracoes [2]. Enquanto isso a elite real so' compra e produz organicos e os que teem algum conhecimento exigem os rotulos sem OGM e nao consomem nenhum produto com OGM.
    Gerson

    [1] http://www.i-sis.org.uk/list.php
    Open Letter from World Scientists to All Governments Concerning Genetically Modified Organisms (GMOs)
    [2] http://www.naturalnews.com/036710_GMO_animal_experiments_infertility.html
    GMOs cause animals to lose their ability to reproduce, Russian scientists discover
    Monday, August 06, 2012 by Jonathan Benson
    [3] http://gmo.mercola.com/
    GMO | Information on Genetically Modified Foods by Dr. Mercola
    [4] http://www.stopogm.net/content/farmer-farmer-truth-about-gm-crops
    [5] http://divulgarciencia.com/categoria/ogm/

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  3. Gerson,
    1 - a pesquisa de mercado foi feita em países europeus, portanto, presume-se, por gente esclarecida.
    2 - meu artigo não é sobre GM, e sim sobre o comportamento dos consumidores, ignorantes ou não.
    3 - OGMs são coisas realmente antigas, existem desde o antigo Egito: no pão, na cerveja, no vinho, na coalhada, e pelo jeito nunca causaram infertilidade.

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    1. Richard
      1- a pesquisa foi baseada em mentira e informou coisas erradas ou incompletas aos consumidores, nao atende a padroes de etica de nenhum lugar decente e inclusive expoe os responsaveis a acao legal
      2- notei claramente que o seu artigo nao e' sobre GM, so' tenho comentarios sobre GM e por isso os fiz
      3- a producao de plantas hibridas naturalmente e a selecao natural sao realmente antigas e nao causam mal, mas nao teem nada a ver com a engenharia genetica moderna e os transgenicos - alias nem poderiam sendo que a descoberta do DNA foi em 1953 e a primeira empresa a usar DNA recombinante foi fundada em 1978. A partir dai' ha' muita evidencia cientifica mostrando tanto a falha comercial de OGMs no campo depois de poucas safras como o efeito danoso 'a saude, embora em grande parte ignorada por agencias de 'seguranca alimentar' de varios paises sujeitas a acao de lobistas das multinacionais interessadas em controlar a industria de sementes e as cadeias de alimentos e dispostas a pagarem por cientistas e politicos. Nada disso e' necessario, so' se sujeita a isso gente ignorante.

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    2. Gerson,
      a pesquisa não foi baseada em mentiras, não. Citei a fonte: * Fonte: European Commission – Science for Environment Policy.
      Acho que vc está vendo chifres em cabeça de cavalo.
      O DNA foi "descoberto" em 1953, e não "criado", nessa data, já existia há milhares de anos, antes a natureza se incumbia de rearranjar as coisas, como sempre fez, e agora com ajudazinha da ciência.
      Se as pessoas ganham dinheiro com os OGMs, que mal há nisso? Elas ganham dinheiro falando e vendendo Deus... o que é muito pior... Ganham dinheiro vendendo até a natureza...

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    3. Richard
      - a fonte da pesquisa nao remove a falta de etica da mesma...
      - eu disse que o DNA foi descoberto e nao criado (e na realidade ele nem e' aquele modelito simples mas sim algo muito mais complexo e dinamico)
      - ha' uma diferenca imensa em combinacoes/evolucoes naturais -que sao saudaveis e desejaveis- e combinacoes transgenicas cujos resultados nao sao bons nem comercialmente (em todos os continentes houve problemas), nem estrategicamente, nem do ponto de vista de saude ou meio ambiente. Isso e' o que ha' de mal - impacta mais do que os ignorantes que querem usar a tecnologia sem saber ou ter como prever as consequencias para terceiros e apenas visando o lucro proprio (quase sempre usando de falacias de marketing com fundo pseudo-humanitario) quando ha' varias outras solucoes alternativas melhores e no frigir dos ovos mais baratas (e nao proprietarias). Got it?
      Gerson

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  4. Richard,

    quanto aos outros assuntos comentados neste artigo, sobre o uso do etanol x gasolina, e produtos geneticamente modificados, não tenho conhecimentos mais profundos para comentá-los. Mas, em relação as sacolinhas plásticas, creio que vc se equivocou. De um modo geral, o que percebi, através da mídia (odeio essa palavra, empregada de modo errôneo!!!aff) e das redes sociais, foi uma reclamação geral, no início, afinal, as pessoas queriam uma alternativa (como é que iriam levar suas compras para casa?), mas, aos poucos, e rapidamente, todo mundo foi se adaptando. Em um mês, no máximo, ninguém mais se lembrava das tais sacolinhas. Eu, pessoalmente, que trago minhas compras à pé, e ainda puxando a correia da Sofia (minha cadelinha), também tive dificuldades, mas sabendo que seria a melhor alternativa para o meio ambiente. E quando eu já estava me sentindo uma verdadeira francesa, perfeitamente adaptada à sacola de pano, eis que tudo voltou atrás, graças ao fortíssimo lobby dos fabricantes das tais sacolinhas. Tão úteis e tão indesejáveis, agora. Comparo o episódio ao da obrigatoriedade do uso dos cintos de segurança. No começo, ninguém queria andar amarrado dentro dos carros. Reclamamos, mas entendemos que era para o nosso bem. E aprendemos a usá-los, depressinha. Imagine quantas milhões de mortes não foram evitadas, depois dessa lei. Com as sacolinhas, tenho certeza que era um caso encerrado. Aí, não foi a vontade do consumidor que prevaleceu, mas sim, a força dos lobbistas poderosos. Um lamentável retrocesso da sociedade brasileira.

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  5. Pois agora a Justiça proibiu de novo...

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  6. Rogério Arioli Silva2 de setembro de 2012 09:29

    Parabéns pelo artigo Richard. Precisamos desmistificar o "politicamente correto" apregoado pela maioria dos ecochatos.

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