domingo, 4 de novembro de 2012

República dos bananas

Rogério Arioli *

A Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira anunciou pomposamente a prorrogação da moratória da soja por mais um ano. Aplaudida pelas instituições patrocinadoras desta iniciativa, entre as quais a ABIOVE, ANEC, BB, Greenpeace, IPAN, WWF e outras mais, a Ministra usou como argumento o novo Código Florestal e as perspectivas de aumento na produção da oleaginosa, fundamentada nas suas altas cotações.

Para quem não acompanhou de perto esta novela chamada “Moratória da Soja”, cabem alguns esclarecimentos: A mesma foi instituída em 24 de Julho de 2006 para acalmar os clientes europeus que cismaram em dizer que era a cultura da soja quem estaria provocando o desmatamento do bioma amazônico. Em decorrência desta atitude, as principais compradoras da soja nacional recusaram-se a adquirir o grão produzido em áreas de abertura recente, mesmo que esta tenha sido feita de maneira legal. Após um amplo trabalho de mapeamento e identificação promovido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a área encontrada com soja no Bioma Amazônico foi de apenas dezoito mil hectares. Significou dizer que menos de meio por cento do desmatamento se devia ao plantio da soja, dado este que não foi muito divulgado, pois provocaria uma desmesurável vergonha aos arautos do caos ambientalístico.

Embora algumas ONGs ligadas aos clientes europeus estejam imbuídas no sentido de denegrir a imagem da soja brasileira em boa parte do mundo, vinculando-a com o desmatamento amazônico, depois da farsa divulgada, não houve nenhuma ação no sentido de reparar tal engano, causador de prejuízos significativos a todo o complexo exportador. Ao assumir o discurso da moratória, o governo não apenas sucumbiu à fraude como também jogou na lata de lixo, um documento que, pelo menos por aqui deveria ter algum valor: A Constituição Brasileira. Como ficou a situação daqueles produtores brasileiros que, constitucionalmente, por se encontrarem no bioma amazônico, poderiam explorar os parcos 20% de área que a lei permitia? Pois a resposta é enigmática: ficaram impossibilitados de comercializar seu produto, mesmo tendo respeitado as leis vigentes do seu país. Parece que está instituída novamente a “República de bananas”, só que agora não se refere às frutas e sim às pessoas.

Aqueles que deveriam defender a autonomia brasileira sobre seu território vergam os joelhos e aplaudem o “defloramento constitucional” em nome do falso desflorestamento causado pela soja.  A submissão prospera onde encontra a fragilidade de atitudes e convicções.  Sempre foi assim desde tempos remotos, onde as riquezas brasileiras só tinham valor quando exploradas pelos outros.

Fala-se em desmatamento zero como se, a partir de agora, toda modificação da paisagem natural fosse criminosa. Mas apenas no Brasil, é lógico. E o resto do mundo produz em locais onde antes havia o quê? As lavouras devem ter brotado em locais assemelhados à paisagem lunar onde nada existia anteriormente, pois ninguém, absolutamente ninguém, desmatou nada a qualquer tempo. São todos inocentes. Os criminosos são apenas os brasileiros, e mais ainda aqueles que se localizaram no bioma amazônico. Basta que somente estes sejam crucificados, e todos estaremos absolvidos deste ímpeto criminoso e cruel de destruir o planeta, modificando sua idílica paisagem.

Entretanto é bom que se diga que a imensa maioria de produtores e técnicos atualmente é contra a substituição da paisagem natural, seja ela cerrado ou floresta, para a instalação de lavouras. Na verdade, o Brasil possui milhões de hectares de pastagens degradadas fornecedoras de áreas para a agricultura, sem que haja necessidade de derrubar uma árvore sequer. Mas trata-se do DIREITO de explorar as riquezas brasileiras que está sendo subtraído.

Quando se aceita a ingerência de estrangeiros deslumbrados nos assuntos de interesse nacional abre-se mão da soberania, algo que nenhum país está disposto a fazer, a não ser que seja uma republiquetinha qualquer.

Enquanto por aqui se festeja a renovação da moratória da soja, certamente em algum local requintado, alguém abre uma garrafa de champagne brindando às modernas formas de colonização que rendem, num só tempo, lucros e aplausos. 
* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural

COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO, ADICIONAIS AO ARTIGO DO ARIOLI
Richard Jakubaszko
1 - a Aprosoja foi um dos signatários desta moratória nos primeiros anos, não sei se ainda é signatária dessa empulhação feita pela indústria exportadora. Não gostei da "filosofia" discricionária, já desaprovei e denunciei essa bajulação aqui no blog e também na Agro DBO. Aposto que a diretoria não consultou nas bases.

2 - Quem desmata a Amazônia são os madeireiros (sob os aplausos dos fiscais do Ibama, todos em conluio, devidamente propinados), para atender Europa, EUA e Ásia, e não vejo ninguém reclamando da madeira que compram. São hipócritas os importadores, a mídia e ONGs. A mídia é omissa, vendida ou burra!

3 - Depois dos madeireiros, quem derruba as árvores menores são os carvoeiros, para fornecer carvão às multinacionais do alumínio e outras. Se forem pegos pela polícia são acusados de trabalho escravo (pois os filhos trabalham com os pais, pela ausência de escolas). O mico fica com os ruralistas.

4 - Ninguém queima árvore na Amazônia, árvore é dinheiro vivo se for derrubada. O que se queima é um matagal precoce (chamado de capoeira) ao redor dos tocos, para implantar pastagens (que é sequestradora de CO2, e que nunca foi causadora de "aquecimento"). Os fogaréus duram 5 minutos, por ser mato ralo, apesar de verde e fazer muita fumaça. As opções para eliminar o mato seriam:
a - herbicidas, e daria margem para acusações de agropoluição.
Ou:
b - usar enxada, e não há caboclo macho que faça isso, pois tem de entrar na capoeira, onde tem cobras, aranhas, escorpiões e mosquitos.

5 - Ignoram os acusadores, e a mídia, que, para plantar soja, o solo precisa ser destocado, pois a soja é sucesso (entre outras coisas) por ser 100% mecanizada. E com toco não dá para passar semeadeira-adubadeira de R$ 300 mil em cima. Ignoram os acusadores que, para destocar uma árvore de tamanho médio, com mais de 5 metros de altura, há um tempo de espera de pelo menos 5 a até 10 anos para o toco secar e apodrecer, isto se não houver rebrota, sem o que o toco não sai de lá nem com reza brava, e impede a mecanização.

6 - Toda essa comédia teatral, com empresários circunspectos assinando contratos de moratória, ministros dando entrevistas, e os palhaços somos nós.

7 - Vivemos tempos pré-ditatoriais dos ambientalistas. Se for obtida a concordância de governos dos países membros da ONU para a instalação da pretendida Agência Ambiental Internacional, com poderes de multar e submeter países às suas vontades, como se pretende, aos moldes da Agência Internacional Nuclear, todo mundo pode se preparar para uma ditadura ambiental. Muito pior do que essa que já está aí, que é só politicamente correta.

8 - Parece que ninguém ouviu a confissão de James Lovelock, pai da “hipótese Gaia”, que se retratou de seu alarmismo em abril último. Leia aqui este post, publicado no blog em abril de 2012.

9 - Não são novas as ações e dificuldades impostas pelos EUA e Europa para frear o desenvolvimento brasileiro na produção de alimentos, onde eles não desejavam perder espaço, mas perderam, e vão perder mais ainda.

10 - Nos anos 1980 e até meados dos anos 1990 os países desenvolvidos ditaram normas ao Brasil para que a gente colocasse um fim aos subsídios agrícolas, que existia na forma de crédito mais barato para o custeio do plantio. Eles projetaram nosso crescimento e verificaram que perderiam a liderança ainda no final do século XX, o que os obrigaria a aumentar as bilionárias despesas com os subsídios gigantescos que sempre tiveram. A forma e pressão que usaram, para que cumpríssemos essa determinação, eram as cláusulas dos empréstimos concedidos via FMI, pois vivíamos endividados e com o chapéu na mão. O Brasil acabou com os subsídios agrícolas no início dos anos 1990. Com essa estratégia os países desenvolvidos seguravam o crescimento brasileiro e ainda recebiam os juros.

Já no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, depois de perceberem que continuávamos competitivos, e que ainda crescíamos, apesar da dependência externa dos fertilizantes e de outras tecnologias, apesar da falta de poupança interna, apesar da falta de infraestrutura e de logística, iniciaram o movimento ambientalista, via ONGs e imprensa, para impedir o avanço da produção de alimentos (carnes e grãos), pois o Brasil iria superar, como superou, todos os obstáculos, até mesmo a nossa internacionalmente conhecida incompetência.

 
Assim, a partir de 2005 o Brasil assumiu a liderança nas exportações de carne bovina, e não deixou mais esse posto. Eles perceberam ainda que, a partir do final dos anos 2010, seremos os líderes das exportações em soja, apesar das novas limitações ambientais impostas para o plantio, seja em áreas de cerrado, seja em áreas que já estavam estabelecidas.

 
Que não se permita o avanço dessa atrocidade do novo Código Florestal, como querem os ambientalistas e os ruralistas americanos e europeus, e que se poderia chamar de "confisco de terras produtivas", através de APPs e áreas de reserva, evento sem paralelo na história humana, a não ser em termos político-econômico-ideológico na revolução bolchevique, que confiscou as terras não cobertas por gelo na Rússia de 1917.
Tudo isso o setor rural brasileiro já sabia, não há nenhuma novidade, no front, aliás, se há novidade, é que apenas agora os países desenvolvidos, mais a FAO e OCDE, reconhecem publicamente isso.

Será que eles ainda acreditam que poderão limitar nosso futuro crescimento via questões e pendengas ambientais, em nome da insuspeita sustentabilidade?

A conferir no futuro breve, pois do FMI somos credores nesses novos tempos, não há mais como usar essa arma contra os brasileiros.


O que a gente realmente tem de tomar cuidado é com o fogo amigo dos brasileiros, governo, imprensa e indústrias exportadoras, travestidos de ambientalistas.
.

8 comentários:

  1. Vale lembrar e esclarecer que até recentemente toda soja na Amazônia foi plantada em terras fracas e ácidas de vegetação leve desmatada a correntão, procedimento viável nas áreas de árvores finas, inclusive em mata de transição chamada de cerrado de pau reto. Recentemente o plantio vem se estendendo por pastagens formadas em terras mais férteis, originalmente de floresta pesada aberta a machado ou motosserra 30/40 anos atrás. Esse prazo é requerido para a decomposição de tocos e troncos, permitindo então a limpeza econômica para lavouras mecanizadas. A cultura de soja nunca foi iniciada em floresta pesada por motivos econômicos.
    Fernando Penteado Cardoso
    Eng.agr.sênior, USP-ESALQ 1936

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  2. Caro amigo Richard,
    parabéns pelo seu posicionamento na defesa da agricultura Brasileira, concordo com você em todos os sentidos com relação a maquiagem que muitos fazem tentando sempre colocar o agronegócio como mal e os ambientalistas como heróis do planeta.
    Atenciosamente,
    rafael corsino

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  3. Caro amigo Richard,
    parabéns pelo seu posicionamento na defesa da agricultura Brasileira, concordo com você em todos os sentidos com relação a maquiagem que
    muitos fazem tentando sempre colocar o agronegócio como mal e os ambientalistas como heróis do planeta.
    Atenciosamente,
    Rafael Corsino
    Matrice Consultoria
    61 3963.3262 / 61 8432.6463

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  4. Caro Richard
    A matéria de seu blog deve ser analisada com base no artigo resumido, abaixo destacado.
    ONGs, Governos, etc., etc., foram pressionados pelas entidades sensíveis aos efeitos da mencionada concorrência, inclusive a dos produtores.
    Verde, carbono, floresta, Amazônia, aquecimento global, biodiversidade, etc., etc., são bandeiras patrulheiras do exército dos interessados no produto, no caso a soja, a época 2006.
    Talvez hoje, com falta de soja e preços nas alturas, a pressão seja diferente.
    Grande abraço,
    Cardoso

    Competitividade nos mercados de soja do mundo em mudança
    1.Donald W. Larson, Professor
    2.Professor Norman Rask
    Agricultural Economics & Resource Management > Agribusiness
    Economia agrícola e gestão de recursos > agronegócio 9 de março de 2006

    Resumo
    Competitividade nos mercados mundiais é a base sobre a qual são construídas as negociações do GATT e da nova ordem econômica. Neste artigo, a mudança de competitividade nos mercados de soja do mundo é avaliada em relação à política do governo e dos recursos naturais. O custo desembarcado de soja em Rotterdam e Japão favorece a Argentina e Brasil sobre os EUA. Para soja e produtos de soja combinados, os EUA constantemente perdeu quota de mercado de exportação de cerca de 95% na década de 1970 para 45% em 1990. A participação brasileira tem crescido de 30% e a parte Argentina a 16% neste mesmo período. Uma mudança fundamental de exportação de soja para exportação de produtos de soja mais ocorreu em grande parte por causa de condições favorecendo as exportações do produto da Argentina e do Brasil.

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  5. Jordão e Elza Maria5 de novembro de 2012 19:03

    MEU CARO E DOUTO AMIGO, QUE DEUS TE CONSERVE E QUE SUAS IDÉIAS POSSAM COLOCAR ALGUM CONHECIMENTO NAS GERAÇÕES DE HOJE. É O QUE PEÇO À DEUS TODO O DIA. TENHO COM ELE UM CRÉDITO, POI FUI EDUCADO PELOS MARISTAS DO ARQUIDIOCESANO EM S.PAULO. COMO MINHA RELIGIÃO É DE "fazer muito esforço para ser um bom cristão, SEM RÓTULOS", ESSE TEM SIDO O MEU ESFORÇO NA PRÁTICA DO DIA A DIA. Isto posto, acredito que DEUS é o meu grande amigo. Aos 80 anos, a serem comemorados em julho próximo, confesso que seus escritos, no seu blog, que tenho tido a honra e o grande prazer de lê-los, comoo cooperativista e fã do Lula e da Dilma, advogado e ex-cafeicultor, ex-dono de corretora de valores em S.Paulo/SP, quando fui eleito diretor da Bovespa e depois, cansado disso tudo, fugi para a roça e plantei café, Hoje oriento os netos, alguns formandos em agronomia e outros em Direito, minha profissão quando larguei a cafeicultura e fui estudar Direito, formamdo-me com 68 anos de idade (OAB/SP 210,356). Tudo isso para afirmar a você que me identifico com todas as suas idéias e muitas vezes tenho a sensação que prego no deserto... Quando leio os seus escritos, vejo-me falando aos meus e agradeço a Deus que nos habita, por você existir. Tenho-o como um mestre e lhe desejo muitos e muitos trabalhos seus, principalmente para os jovens de hoje, tão carentes de sabedoria, que nos teus escritos, abunda, e espero que algo fique nas cabecinhas deles. Do amigo que muito lhe admira e estima.
    JOSÉ CARLOS JORDÃO (tenho a íntegra de seus blogs no meu computador...). Minha mulher, muito inteligente e culta, participa de tudo que faço... Elza Maria foi um presente de Deus para mim. Temos 05 filhos e treze netos. Meus cumprimentos à sua esposa.
    Jordão e Elza Maria

    RESPOSTA DO BLOGUEIRO:
    Jordão e Elza, emocionado, pergunto: o que posso dizer a vocês, além de muito obrigado? Ah! Sim! Saúde, muita saúde! E paz e amor com seus filhos e netos!

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  6. Glória Celeste Reichman5 de novembro de 2012 23:51

    Não consigo ver mal algum no fato de a Abiove e outros estabelecerem a moratória. Garante a exportação de soja e seus subprodutos. Sem isso provavelmente não se venderia para boa parte da Europa. Os preços iriam baixar...
    Glória Celeste Reichman (agrônoma), Cuiabá

    COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO:
    Glória, em primeiro lugar, o aspecto político e ideológico, que admite que a soja desmata, o que não é verdade, conforme comentei. Segundo, que muitos sojicultores, 20 ou 30 anos atrás, que desbravaram e plantaram legalmente, porque o Governo Federal assim incentivava, hoje são punidos e não têm sua soja comprada. Vão vender pra quem? Respondo: para as mesmas empresas que vão vender no mercado nacional, mas que compram com deságio.
    Terceiro, é uma "exigência" de comprador, com o único fim de desmerecer o produto a ser adquirido, para baratear preços. Em outras palavras, uma "tarifa não alfandegária" e que, além de tudo, só encarece a vida do produtor. Ele tem que provar que não desmatou, que não pratica trabalho escravo... Ora, daqui a pouco vão pedir para o produtor provar que não matou, que não estuprou, que não roubou, é assim que se faz...

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  7. Richard
    bom artigo e analise. Alem dos problemas citados, Republica de bananas e' aquela que planta soja geneticamente modificada sem prestar atencao em todos os problemas ambientais e outros ja' amplamente documentados em relacao 'a influencia nefasta no meio ambiente e saude dos que a consomem. No mais, e' plantar o natural e consumir de forma sabia, os produtos fermentados sao saudaveis e com tradicao milenar. Ja' outros, como o leite de soja etc podem causar distorcoes hormonais e devem ser evitados. E' interessante tambem notar que basta observar a natureza, varios experimentos mostram que varios animais naturalmente fojem da soja geneticamente modificada ver http://rense.com/general92/avoid.htm
    Gerson Machado

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  8. Richard:
    Conversei com o Ricardo Arioli sobre a Moratória e ele me garantiu que a Aprosoja nunca foi signatária do acordo.
    abs
    Rogério

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