segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Desafios de um crescimento medíocre


Rogério Arioli Silva *










A publicação da queda na expectativa de crescimento do PIB brasileiro em jornais estrangeiros como o El País (espanhol) e o Le Figaro (francês), e ainda na revista inglesa The Economist, desencadeou uma série de explicações por parte do Governo Dilma do motivo pelo qual a economia brasileira não consegue deslanchar. Mesmo com iniciativas positivas como as reduções da taxa Selic, a abertura de linhas de crédito com juros subsidiados e a desoneração tributária a economia patina, assim como os veículos que trafegam na precariedade das estradas de algumas regiões produtoras de grãos do Centro-Oeste.

Muito já se discutiu sobre o “custo Brasil”, esta chaga que se espalhou de maneira endêmica nos locais onde, justamente, o país possui excelentes vantagens comparativas: o campo. Dentro das porteiras das fazendas a competitividade brasileira é invejável graças ao trinômio da excelência: clima tropical, tecnologia adaptada ao tropicalismo e produtores com gene empreendedor. A simples análise do último trimestre do ano demonstra esses fatos, com o crescimento da agropecuária atingindo 2,5% contra 0,6% do PIB nacional. Alavancadas pelo excepcional aumento nas exportações do café, milho e algodão os números da agropecuária mostram o caminho para robustecer a mediocridade do crescimento da economia brasileira.

Mesmo com o estrangulamento dos portos, mesmo com o modal rodoviário oneroso para longas distâncias, mesmo com a precariedade das estradas, mesmo com os maiores juros do planeta, a agropecuária sobrevive e cresce, ganhando espaço no comércio internacional. Isso tudo a despeito de todas as barreiras impostas tanto no aspecto social, ambiental e sanitário, que procuram impedir a competitividade nacional através de inúmeros contenciosos e descabidas exigências.

O Ministro Mantega tenta justificar o pífio crescimento brasileiro atrelando-o à crise econômica que atinge a Europa e os Estados Unidos, posicionamento que não deixa de ser coerente e verdadeiro. Entretanto, é inegável o fato de que as medidas anunciadas pelo governo no sentido de melhorar a logística e infraestrutura parecem não sair nunca do discurso. É preciso agilidade. É preciso priorizar certas decisões mesmo que as mesmas contrariem interesses menores.  Anunciam-se planos de investimentos que atacam, de fato, os gargalos logísticos brasileiros, mas os mesmos restam atolados no lamaçal burocrático que o país criou contra si mesmo.

A agropecuária tem demonstrado, de forma inquestionável, sua capacidade de crescer acima do PIB brasileiro como ocorreu na última década (média de 3,67% contra 3,59%/ao ano, segundo o IBGE). Este fato, por si só é um indicativo de que à medida que a logística melhorar o crescimento agropecuário crescerá ainda mais, incrementando os números de toda a economia.

Os esforços dos governos na ampliação do crédito permitindo que as classes C e D sejam inseridas no mercado consumidor é uma grande conquista, mas não será capaz de gerar um crescimento duradouro pelo fato de que, ao destinar todos os seus recursos ao consumo as pessoas negligenciam sua poupança.  Os brasileiros já são tradicionalmente pouco afeitos à poupança, preferindo antecipar o consumo ao invés de guardar o dinheiro e depois consumir. Isto não seria um problema muito sério se os juros do crediário por aqui não fossem estratosféricos, o que consome boa parte dos recursos daqueles que optam por tomar crédito. Esta conjugação de fatores acaba tornando o crescimento econômico cíclico e não regular, como seria necessário ao país.

Além disso, os investimentos em infraestrutura na casa dos 2% do PIB não são capazes nem de compensar as depreciações destas obras, quanto mais de receberem o acréscimo dos volumes de produtos oriundos do aumento da produtividade agropecuária. Neste aspecto, foi positivo o abandono do ranço estatizante do atual governo em direção à privatização ou à parceria do investimento privado. Já foi amplamente comprovado que o estado brasileiro não possui os recursos suficientes para fazer frente às demandas de infraestrutura e logística. 

A resposta para o crescimento robusto e sustentável da economia brasileira passa pelas mãos da agropecuária e, quanto mais tempo esta verdade for negligenciada, maiores serão os desafios a serem enfrentados no futuro.
 
* Engº Agrº e Produtor Rural no MT


COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO: 
Na verdade não é um comentário meu, mas uma nota publicada na Carta Maior:
Da Carta Maior
"A revista Economist sabe, e se não sabe deveria saber o que está acontecendo no mundo; a revista Economist, suponho, enxerga o que se passa na Europa; sobretudo, não é cega a ponto de não ver o que salta aos olhos em sua própria casa". (Leia nesta pág.a reportagem de Marcelo Justo sobre a Economist,direto de Londres). 
" A economia inglesa despenca de cabo a rabo atrelada ao que há de mais regressivo no receituário ortodoxo, numa escalada pró-cíclica de fazer medo ao abismo. Então que motivações ela teria para criticar o Brasil com a audácia de pedir a cabeça do ministro da economia de um governo que se notabiliza por não incorrer nas trapalhadas que estão levando o mundo à breca?"
"O coro contra o Mantega não me convence. Nem nas suas alegações, nem nos seus protagonistas, nem na sua batuta".
"Não acredito nessa geração espontânea nas páginas da Economist,por mais que isso combine com o seu conservadorismo. Não acredito que a motivação seja econômica e não acredito que o alvo seja o Mantega".
 .

Um comentário:

  1. José Carlos de Arruda Corazza15 de dezembro de 2012 18:15

    Rogério e Richard:
    As economias dos países do G-20 ganharam força no 3º trimestre, conforme a OCDE.

    O crescimento do grupo das 20 maiores economias do mundo, conhecido como G-20, ganhou força no terceiro trimestre deste ano, mas houve uma grande disparidade de desempenho entre os países, mostram dados preliminares divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), nesta quinta-feira. No Brasil, houve aceleração do crescimento.

    Segundo a OCDE, o Produto Interno Bruto (PIB) do G-20 cresceu 0,6% no terceiro trimestre, mostrando uma ligeira aceleração em relação à alta de 0,5% verificada no segundo trimestre do ano. Entretanto, diz a OCDE, houve "padrões divergentes" entre seus membros, com crescimento maior no Brasil, nos Estados Unidos, na China e França, e desaceleração na Alemanha, África do Sul, Turquia, Austrália, no Canadá, na Indonésia e no México. O PIB brasileiro subiu 0,6% no terceiro trimestre, após expandir 0,2% no trimestre anterior.

    No Japão, a economia teve contração no terceiro trimestre, após ficar estagnada nos três meses anteriores. Já na Itália, o ritmo de queda do PIB diminuiu. Dados anteriores, publicados pela OCDE na última segunda-feira (10) sugerem que a divergência vai continuar nos próximos meses, com sinais de aceleração nos EUA e na China, desaceleração no Canadá e na Rússia, e mais contração na zona do euro e no Japão. A China teve o melhor desempenho no terceiro trimestre, com expansão de 2,2% ante o trimestre anterior. Entre os países desenvolvidos do G-20, o Reino Unido registrou o melhor desempenho, com aumento do PIB de 1,0%.

    Por outro lado, as economias do Japão e da Itália recuaram 0,9% e 0,2%, respectivamente, ante o segundo trimestre. Na comparação anual, a economia italiana apresentou, de longe, a pior performance entre os países do G-20 no terceiro trimestre, com uma retração de 2,4%. O Reino Unido foi o único outro país a registrar contração ante um ano antes, de 0,1%.
    As informações são da Dow Jones.

    Portanto, o pibinho brasileiro foi ótimo...
    José Carlos

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