quinta-feira, 16 de maio de 2013

A cidade gosta do agronegócio

José Luiz Tejon Megido
Mal me quer, bem me quer? A Associação Brasileira de Agribusiness (Abag) e o Núcleo de Agronegócio da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) queriam saber o quanto a população urbana brasileira percebia como importante ou não, e em que dimensão, o agronegócio. Também sobre os agricultores e as atividades envolvendo esse macrossetor, que - integrando todos os seus elos do antes, dentro e pós porteira das fazendas - significam algo em torno de R$ 1 trilhão do produto interno bruto.

Os dados foram apresentados na pesquisa sobre a percepção da população urbana brasileira dos grandes centros populacionais sobre o agronegócio e desvendam consideráveis mudanças na imagem que o urbano faz do novo agro nacional.

Os principais dados apontam para 81,3% da população considerando o agronegócio "muito importante" para a economia nacional. Nos casos em que os respondentes têm ensino superior, a importância máxima atribuída chega a 97,2%. No aspecto relativo à importância dos agricultores para a vida dos brasileiros, 83,8% avaliam essa atividade como muito importante. E o produtor figura ao lado das demais quatro atividades mais importantes, na percepção do cidadão urbano: médico (97,1%), professor (95,8%), bombeiro (94,3%) e policial (83,9%). Na Região Nordeste o agricultor recebe a avaliação máxima de 92,8%. Perguntado sobre "qual país tem o agronegócio mais desenvolvido", o povo coloca o Brasil como campeão mundial - tudo isso no reino das percepções, pois se avançamos muito ainda temos gargalos e deficiências consideráveis para sermos considerados o número um nesse setor, à frente de Estados Unidos, China e Japão, entre outros.

Quanto aos setores considerados os "mais avançados" e "orgulho nacional", o agronegócio, na média do País, ocupa o quinto lugar, atrás dos de mineração, petróleo, automobilístico, construção e eletroeletrônica, porém à frente de bancos, transporte, educação e saúde. Entretanto, no Centro-Oeste o agronegócio figura ao lado de mineração e petróleo, considerado o mais avançado e "orgulho nacional".

As profissões mais associadas ao agronegócio são as de 1) agrônomo, 2) engenheiro ambiental, 3) peão, 4) médico veterinário, 5) administrador e 6) nutricionista. Isso também é revelador sobre o conceito de "cadeia", em que o cidadão e consumidor da cidade guarda uma visão de que o campo é originador de muitos produtos transformados e, obviamente, dos alimentos e bebidas, como core dessa função. Da mesma forma, meio ambiente, consumo de água e "estilo country" de ser são três ângulos presentes e percebidos como aspectos que marcam o agro na preocupação dos cidadãos urbanos, que também apontaram consciência a respeito da ciência, da tecnologia e da pesquisa para poder atuar na nova agropecuária. Como aspecto cultural, culinária, música, feiras e festas são ingredientes considerados pelo urbano como presentes na sua vida, vindos lá do campo.

Se nos últimos 30 anos mudaram extraordinariamente a cidade, o consumidor e o cidadão, da mesma forma o agronegócio não é mais o mesmo. E a cidade grande - os 12 maiores contingentes populacionais do Brasil e, consequentemente, os 12 principais colégios eleitorais (as cidades pesquisadas) - alterou suas percepções sobre um campo antigo, atrasado, dominado por barões, coronéis e reis do gado extensivo para um novo campo com tecnologia, educação e novos profissionais e profissões.

Qual a importância disso?
Muda significativamente o olhar das lideranças do próprio setor sobre si mesmas e sobre o que a cidade pensa. E deveria alterar a atenção e a velocidade da gestão e da governança pública, de políticos e de executivos, responsáveis pelos pontos mais frágeis do agronegócio do País hoje: infraestrutura pós-porteira das fazendas, burocracia, tributação caótica e necessário planejamento, seguro e ambiente propício à organização das cadeias produtivas entre elas mesmas.

Precisa mudar o jogo perde-perde, como assistimos nas relações entre produtores de trigo e moinhos, entre citricultores e processadores, por exemplo. E isso vale para quase tudo: o leite, o cacau, a cevada, o café, o frango, o suíno, o milho, a mandioca, a banana, o pepino, a alface, o feijão, o arroz, até o atualmente famoso tomate, etc.

A cidade percebe o agronegócio como sendo não dependente de subsídios governamentais, ou seja, uma atividade muito mais privada. E ainda coloca esse setor da economia em níveis comparativos ao segmento da construção do ponto de vista da empregabilidade. São suas percepções.

A palavra "agronegócio" não é ainda decodificada pela maioria da população. Ao ser perguntado de forma espontânea, esse termo conta com 40% de "não sei dizer". A Região Sudeste é a que menos sabe espontaneamente sobre o segmento, comparativamente às demais regiões. Entretanto, mais de 55% dos entrevistados declararam ter de algum a muito interesse sobre o setor.

Na população mais jovem, de 16 a 24 anos, a desinformação acerca do agronegócio é mais acentuada do que nas outras faixas etárias, o que exige das lideranças contemporâneas do agro uma atitude moderna da governança de redes sociais. Porque, se ao mesmo tempo é o jovem o mais desinformado, a pesquisa também revela serem as pessoas com computador e acesso à internet exatamente as mais bem informadas sobre a visão da cadeia de valor do agronegócio e do seu entorno.

A cidade mudou, o campo também. Uma nova ordem para essa governança passa a ser necessária. O fato novo: a cidade gosta do agronegócio!
Fonte: www.agrolink.com.br 

COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO:
Estive presente, em abril último, no almoço-reunião promovido pela Abag em um hotel de São Paulo, quando detalharam a pesquisa e seus resultados.

A conclusão de que "A cidade gosta do agronegócio", conforme Tejon explana no texto acima, é algo de que eu sempre compartilhei como visão real, apenas era "desmentido" pelos fatos de que urbanos criticam constantemente o agro, pessoalmente, na mídia e nas redes sociais. Com os resultados da pesquisa cheguei à conclusão, o que antes era apenas uma suspeita, de que os inimigos do agro, efetivamente, são alguns setores da mídia, além de ambientalistas radicais e de segmentos sociais da população, como o MST, além ONGs e, especialmente, de órgãos "técnico-políticos" do Governo Federal, como MDA, MMA, Anvisa, Incra, Ibama, onde abundam radicalismos político-partidários e ideológicos.

Será?

Não tenhamos dúvidas, os inimigos existem, isto é um fato. Não se inventou esse inimigo a troco de nada, a ponto de fazer-se uma campanha com mídia nacional para defender o agro.
Ou então as pesquisas mostram algo errado, um viés monumental, o que não me parece ser a realidade, e os entrevistados, definitivamente, aprenderam a mentir em uníssono quando estão sendo entrevistados, e respondem de forma politicamente correta às questões formuladas a eles.

Alguém tem outra opinião, entre os leitores deste blog?
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6 comentários:

  1. Os movimentos sociais são, então, inimigos do agronegócio, prezado Richard?
    Em que medida não estás a "pegar pesado" com as reivindicações do MST? São injustas? Não sou ambientalista radical (biodesagradável, em seu linguajar...) mas nada do que se pesquisa sobre a relação Agronegócio X Degradação ambiental tem fundamento? Todo produtor rural é consciente sobre como tratar a natureza? Não sou agricultor e nem tenho razões para "odiar" a tal atividade, reconheço sua importância mas ao mesmo tempo creio que dela saem entraves a uma maior independência de nosso país em relação às exportações de Commodities. Nossa relação histórica com o poder que emana dos empresários rurais aponta nessa direção, pois quantas não foram as vezes em que se defendeu a "agricultura acima de tudo", em detrimento ao progresso da industrialização, poe exemplo.

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  2. Caro Geopolêmica, vamos por partes, como dizia Jack, o estripador:
    alguns movimentos sociais são radicalmente contra o agro. 1, os biodesagradáveis urbanos radicais, que esquecem que são eles que poluem os rios e o solo urbano (com o asfalto e o cimento), mas acusam os produtores rurais de serem os grandes poluidores. 2, o MST, que deveria defender a causa social dos grupos que representa, e procurar soluções políticas, mas usa da força para invadir terras e ganhar no grito e na porrada. Cometeram exageros, como na Cutrale (onde derrubaram milhares de pés de laranja) e no RS, onde destruíram dezenas de anos de pesquisa com reflorestamento, sob a desculpa de que não "comemos calipto", e também algumas estações experimentais, depredando tudo, só pq pertenciam a multinacionais. Agora, enquanto não invadem, porque depois disso "ficou feio", preferem acusar os produtores (junto com a Anvisa) de contaminarem os alimentos com agrotóxicos, gerando pânico na população. Isso não é forma de se fazer reivindicação social,pelo menos na minha opinião.
    É claro que existem produtores rurais sem consciência ambiental, mas garanto a vc que é uma minoria inexpressiva (conheço mais de 5 mil propriedades Brasil adentro...), num grupo de mais de 4 milhões de produtores rurais. Mas vc não pode julgar e condenar 4 milhões pq 3 ou 4 não fazem a coisa certa. Seria como dizer que todo padre é pedófilo, entendeu a minha opinião?
    Discordo de sua opinião de que saem do agro entraves a uma maior independência em relação às exportações de commodities. Onde? Quando? De quem?
    Não há poder que emana do agro hoje em dia, isso não existe, não há lideranças no agro. Isso aconteceu com os barões do café até os anos 1970, ou antes, com os coronéis do açúcar no Nordeste, nos ciclos da borracha. Veja que os usineiros de SP, mesmo tendo a mais organizada associação do agro, estão há anos num embate sem fim com o Governo Federal, e estão perdendo.
    Quando se falava e se defendia "a agricultura acima de tudo" era no tempo do café e do açúcar, no tempo dos barões, e não era comida.
    Hoje, o agro brasileiro é um exemplo para o mundo, seja em profissionalismo, competência agronômica e ambiental, mas tem de ouvir críticas de toda ordem, de que são caloteiros (o que não é verdade), que poluem (mentira, os urbanos poluem muito mais) e de que até trabalho escravo os produtores fazem (outra mentira enorme, em São Paulo, Capital, tem muito escravo, isto sim...).
    O problema do planeta, caro Geopolêmica, é gente demais, é consumismo, e produção industrial com obsolescência programada.
    Pesquise mais aqui no blog, tenho muitos artigos a respeito, e continuemos o debate...

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  3. Entendo que suas posições baseiam-se em sua experiência, seus estudos e respeito isso.. Mas fico realmente surpreso com algumas de suas palavras pois de acordo com elas, NÃO HÁ crítica alguma das que se faz à conduta dos empresários rurais que tenha "fundamento", todas seriam "coisa de radicais"., Prezado Richard, li muitos artigos seus aqui publicados. Sou em verdade Geógrafo e professor de Geografia. Sou um homem urbano por excelência, mas há três décadas utilizo-me de material didático que afirma e REAFIRMA que há elogios e também críticas à empresa rural. É a isto que me refiro. Segundo você, nem escravidão existe, (ou no caso, relações de trabalho análogas a isto) no campo, ou se existe, é tão insignificante que "perde" para São Paulo, capital. Em sua opinião, TUDO o que se diz em oposição ao agronegócio é para "prejudicar" ou "desestabilizar" ao campo? Coisa de "revolucionário comunista"? Repito, não sou cientista desta área e com certeza você entende-a milhões de "furos" acima de mim. Quanto ao problema do "gente demais" há claras estatísticas que dão conta de que a população global irá estabilizar-se em até três décadas. Números são o maior problema? Não! O que existe é a inclusão alimentar, melhoria de padrões alimentares em países antes "famintos", aí se incluem a China, a Índia e por que não, o Brasil? Para finalizar este comentário, será que eu, como professor de Geografia sempre "ensinei errado" a meus alunos? Será que o "lado da crítica" deveria ser minimizado até desaparecer por completo?
    Elton Maravalhas (Lages - SC)

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    1. Até que a população planetária se estabilize, previsto para dentro de 3 décadas, chegaremos a níveis absurdos de desestabilização, pelo consumismo, pela obsolescência programada dos produtos pelas indústrias (a cada 2 anos troca-se de automóvel, computador...). Retiramos mais do planeta do que ele é capaz de nos suprir, em minérios, comida, água...
      O excesso de gente, para o planeta, é como o retrato de um campo com formigueiros, devastado. A humanidade vai para o brejo, ou precipício, e o planeta, depois, vai continuar, não tenha dúvidas...
      As críticas ao campo, e ao agro, são irrelevantes, é "descurpa" de urbanos, que não querem reconhecer o próprio erro, do excesso de gente, de automóveis, de poluição, de erros no uso do solo urbano, com tudo asfaltado e cimentado, em que as grandes cidades nem possuem mais lençóis freáticos, avançam sobre os morros e os derrubam, avançam sobre os lagos e os poluem, assim, assim...
      Em São Paulo, Capital, existem hoje cerca de 300 mil latinos, sulamericanos, em trabalho escravo, na verdadeira acepção do termo. No campo, quando se acusa o agro de trabalho escravo, vc vai ver o que é, e encontra pais carvoeiros (que nem é agro...), que trabalham com filhos de 6 ou 7 anos, ou trabalhando na lavoura, e a mídia rotula isso de trabalho escravo. Ou cortadores de cana, que ganham de 3 a 5 mil reais por mês, num trabalho pesado, é verdade, mas ganham muito mais que professores... E o agro é acusado de ter trabalho escravo pq esse trabalhador braçal não tem certos privilégios do trabalhador urbano, como folga de fim de semana, ou 1 banheiro (banheiro na lavoura?) para cada 12 trabalhadores, conforme determina a CLT urbana, ou pq não tem FGTS (já que são temporários). Isso é o que dizem os fiscais, e a mídia repete, e as pessoas acreditam no que querem, conforme suas conveniências.

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  4. Em tempo: Kátia Abreu não é uma liderança do Agro? Ronaldo Caiado já não o foi?
    Eu pessoalmente vejo que o são ou foram. Quem mudou foi o Brasil, felizmente!

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    1. Geopolêmica, o agro tem muitas lideranças autonomeadas, especialmente políticos como Kátia Abreu e Caiado, ou designadas pela mídia como lideranças, e nenhuma delas tem, de fato, qualquer representatividade do setor. Em termos nacionais o agro é acéfalo em termos de lideranças, lamentavelmente. Devo reconhecer, entretanto, que, setorialmente, ou ainda regionalmente, há líderes em formação.

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