domingo, 7 de dezembro de 2014

O novo capitalismo que se inicia

Daniel Strutenskey Macedo

Atualmente, as pessoas ligam a palavra capital ao dinheiro. Ter capital é ter dinheiro. Quando se trata de religião, temos pecados capitais, aqueles graves, para os quais não há atenuantes. Capita é cabeça, este parece ser o significado mais antigo da palavra e o entendimento é o de que é a cabeça que manda, o corpo obedece. A capital de um país ou de um estado é a sede do seu governo, a cabeça do território todo, de onde emanam as ordens, o comando sobre o corpo da nação. Capitalismo tem, portanto, a ver com cabeça, comando. Quem não tem cabeça é subordinado, comandado pelos instintos, e quem é comandado não decide, tem liberdade limitada. Cabeça tem a ver com liberdade.

O poder tribal se assenta sobre dois pilares: o poder familiar, que é representado pelo número e pela força de seus membros e que o torna capaz de opor aos interesses de outras famílias e vencê-las, e o poder de liderança e associação com famílias menores, o que amplia sua capacidade de luta e defesa de seus interesses.

O poder da aristocracia, o poder real, foi possível graças à união de chefes tribais e o estabelecimento de uma hierarquia de comando e de privilégios. A associação dos chefes tribais propiciou uma ajuda externa, fora da família, para afastar as pretensões de outros parentes no comando tribal. O rei, como chefe supremo de todas as tribos, forma um exército próprio e autônomo e se torna a cabeça suprema que governa todas as tribos. A consequência é o enfraquecimento do poder das famílias e o aumento do poder do rei, o acumulo de bens na capital do reinado. Os reis acumulam tantos bens que podem contratar exércitos mercenários estrangeiros para atacar tribos descontentes e manter a ordem estabelecida. A fartura de bens concentrados pelos reis possibilita negócios externos, bens de outras regiões, outros reinos. O passo seguinte é a aproximação de reinos e a formação de famílias aristocratas que defendem privilégios associados. Aos agricultores, industriais, comerciantes, artesãos e artistas restará uma única opção: pagar impostos, aceitar o governo e a proteção dos aristocratas.

As cidades crescem, a densidade populacional aumenta muito, o controle das polícias do rei se torna difícil. O comércio se intensifica, riquezas escapam através das fronteiras. Para manter o controle, os reis se associam aos homens que controlam grandes negócios, os quais exigem privilégios. Nasce o parlamento. Agora, o rei governa com leis submetidas à aprovação de uma assembleia composta por aristocratas e detentores de grandes negócios, os barões. O que os barões têm? Recursos: terras, instalações, mão de obra, metais preciosos. Em suma, os barões passam a decidir, discutem formas de poder, votam leis e, mais numerosos que os aristocratas, inventam outra forma de poder e governo: manda quem acumula mais capital. É o capitalismo. As cabeças da nação não são apenas escolhidas entre os familiares reais, mas entre os que detêm poder de fato: recursos. O capitalismo inventa a república.

Os barões capitalistas se associam entre si, aos governos, dentro dos países e fora. Multiplicam-se as corporações multinacionais. Agora, é preciso formar parlamentos mundiais que ordenem os negócios, as relações internacionais, as moedas e o câmbio. A população continua crescendo e forma-se o mercado de consumo de massa. A grande empresa que não crescer e atender a demanda do mercado perderá escala e preço e precisará ser vendida, incorporada por outra (Pão de Açúcar, Bom Bril, Cica Unibanco etc., já eram). O crescimento exige a captação de investimentos externos: poupadores individuais, fundos de pensão, fundos comerciais. Criam-se novas castas de agentes de mercado: os investidores. O processo inclui leis, controles, burocracias e tecnologias e outras altas castas de poder: a dos técnicos, executivos, gestores, administradores, controladores, juízes, soldados, policiais. São tantos poderes interdependentes, que ninguém, nenhum grupo manda sem o respaldo de muitas castas. O capitalista já não decide como antes, depende de conjunções de fatores, sobre os quais há pouca e às vezes nenhuma influência. A dificuldade de gestão e controle pode levar a medidas extremas e provocar guerras, como aconteceu no Iraque e na Síria. Só que as guerras de agora não conquistam territórios, mas destroem o mercado de massa e junto com ele as empresas. O capital já não tem nada a ganhar com a guerra, só perde. A massa, desiludida, toma o poder de modo tribal, com extrema violência. Há um retrocesso civilizatório (Síria e Iraque).

As guerras foram soluções para um mundo ainda rural. Hoje, o capital depende do mercado de massa, precisa servi-lo e dele usufruir. Os consumidores reclamarão mais renda e mais direitos, mais e mais. Os desejos não conhecem limites. Entramos numa nova fase da civilização. O capitalismo somente será possível se voltado para atender os desejos da massa, compartilhado, decidido através de conselhos e consultas à população. As grandes empresas não conseguirão ser controladas por famílias, mas por fundos. Os fundos, os conselhos dos grandes fundos, serão as cabeças da nova ordem. O poder pessoal, da família, ficará restrito aos pequenos negócios e terão que rezar pela cartilha das grandes corporações.

Qual o nome que daremos a este novo capitalismo? Capitalismo dos Conselhos?
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