segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Quem vai pagar a sustentabilidade?

Richard Jakubaszko 
A rastreabilidade é um benefício moderno prometido por empresas a seus clientes, mas ninguém quer pagar pelos seus custos.



Fast food com rastreabilidade?
Vivemos em uma época de sobrecarga de informações, com uma avalanche de notícias desabando sobre nós, todos os dias. Sofremos uma luta íntima para decidir quais informações devemos aceitar e seguir, ou julgar quais dessas novas notícias devem ser desconsideradas.
 

São questões contemporâneas inerentes a praticamente todas as profissões e atividades humanas, desde agricultores, engenheiros agrônomos, até mesmo jornalistas, médicos, comerciantes ou veterinários. Se considerarmos a internet em língua portuguesa, o volume de informações equivale a várias enciclopédias, diariamente servidas aos consumidores de notícias, em ritmo implacável, intermitente e perversa. Sabemos que é impossível acompanhar tudo, quanto mais avaliar a credibilidade do que se lê.

Assim, obter informações ou opiniões confiáveis é um desafio, pois estamos todos à procura de inovações para melhorar a eficiência de nosso trabalho. Engano do leitor se imaginar que não é impactado pelas notícias da mídia. Essas informações vão chegar a quase todos através de conversas na fila do banco, no balcão da cooperativa, em reuniões caseiras, ou pelas visitas na fazenda. Tenhamos a certeza, entretanto, que vão chegar distorcidas, pois quem conta um ponto esquece um tanto e aumenta outro tanto.

Parece ser esse o caso da sustentabilidade. Saibamos que as distorções podem ser planejadas maquiavelicamente para vender algo aos crédulos, e bater a carteira dos distraídos. A questão começa por “vender um conceito”, e, à medida que essa ideia vai sendo “vendida”, convencendo as pessoas de sua credibilidade e verossimilhança, mais gente e interesses são agregados, reforçando o conceito original e facilitando a vida dos convivas.

Em novembro último aconteceu o 11º Congresso de Marketing Rural, em São Paulo, onde diversos palestrantes convidados pela ABMR&A – Associação Brasileira de Marketing Rural e Agribusiness proferiram palestras e deram seus recados corporativos, especialmente no que diz respeito a marketing, aos desejos dos consumidores, e à tal da sustentabilidade. O conceito do evento foi “Agronegócio brasileiro: do campo à mesa. Pensando o futuro hoje”.

Daniel Boer, brasileiro, que é diretor de Proteínas América Latina no McDonald's, nos EUA, foi um dos palestrantes, com o tema “O Agronegócio preparado para atender um consumidor mais exigente”. Boer mostrou a grandeza dos números do McDonald’s no mundo, com presença de mais de 700 lojas em 35 países. Depois, revelou que os consumidores andam exigentes, a ponto de colocar empresas em situações difíceis se estas não atenderem suas idiossincrasias, e destacou que, na questão de carnes, os consumidores dos hambúrgueres de suas lojas não aceitam carnes de aves ou bois que tenham consumido antibióticos e hormônios, ou que tenham recebido maus tratos. Solução: para satisfazer seus clientes o McDonald’s vai exigir rastreabilidade de seus fornecedores de carnes e vegetais. E não irá pagar nada a mais aos fornecedores, que terão de arcar com os custos que a rastreabilidade acarreta.

A questão, dita pelo diretor do McDonalds, lembra o início do plantio da soja transgênica no Brasil, quando importadores europeus exigiam soja convencional, mas não se dispunham a pagar um prêmio aos fornecedores, mesmo cientes de que a soja convencional apresentava custo de produção mais elevado, quando comparado à soja GM. Com o plantio avassalador da soja GM, os importadores europeus caíram na realidade, e hoje em dia já oferecem um prêmio pela soja convencional.

Qualquer empresa pode fazer o marketing que desejar e pode prometer aos seus clientes tudo o que considerar possível. Entretanto, os benefícios prometidos, se representarem custos aos fornecedores, por questão de bom senso, devem ser assumidos por quem promete, e não por quem nada tem a ver com a pendenga. O que o McDonalds faz é dar presentes aos seus clientes, com chapéu alheio.

O tal do marketing da sustentabilidade chegou ao fast food e quem vai pagar a conta será o produtor rural? Boa essa, conta outra.

Publicado na revista Agro DBO 62, de Dez/14-Jan/15. Permitida a reprodução desde que citada a fonte.

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5 comentários:

  1. RONALDO TRECENTI - Brasília8 de dezembro de 2014 16:40

    Caro amigo,
    Vai outra pergunta nessa mesma linha: quem vai pagar aos produtores rurais pelos serviços ambientais gerados pela adoção das tecnologias da agricultura de baixa emissão de carbono?
    Abs,
    RONALDO TRECENTI
    Engenheiro Agrônomo - Esp. Programa ABC

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  2. Já compartilhei no meu Face. Parabéns pelo artigo
    Fernando Lopa
    Presidente
    Associação Brasileira de Hereford e Braford
    www.abhb.com.br
    “55 anos a serviço da pecuária brasileira”

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  3. Luiz Fernando Ferraz Siqueira10 de dezembro de 2014 09:57

    Caro Richard, perfeito, mas vou mais longe, minha leitura é de que os “3 poderes”, vendem a mãe e entregam.
    Estamos vendidos.
    Aqui no MS ainda temos nos defender de MPF-MT-FUNAI etc...
    Não sei onde vamos parar, mas a meu ver num futuro próximo, partiremos para falta de alimentos, e aí ?
    Não acredito em mais nada daqui.
    Uma pena.
    Luiz Fernando Ferraz Siqueira
    Diretor Agrícola
    Usina São Fernando
    Dourados, MS

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  4. Richard veja o documentario gratis Earthlings (links abaixo) para ter uma nocao de algumas das origens das demandas dos consumidores. Consumidores que estao em sua maioria inconscientes de varios outros problemas com a industria de alimentos hoje (ver segundo link e varios outros artigos online). Quanto a transgenicos terem maior rendimento, esta e' uma falacia desmentida em 5 continentes e desmentida ate' mesmo pelo departamento de agricultura dos EUA (normalmente orgaos do governo sofrem grande influencia das grandes empresas mas nao podem simplesmente mentir sobre todas as estatisticas contrarias nos ultimos 15 anos). A pergunta que voce deve fazer e' quem vai pagar pela nao sustentabilidade. Quanto a compradores mais exigentes, estou certo que nao faltarao fornecedores. Como ja' disse antes nesse blog com varias referencias, GM e' tecnologia obsoleta (economicamente, ambientalmente e com relacao a saude) e somente ignorantes (ou pior) continuam com essas ideias.
    SDS
    Gerson
    ===
    http://earthlings.com/?page_id=32
    ===
    http://naturalsociety.com/4-worst-fast-food-ingredients-dont-tell/
    The 4 Worst Fast Food ‘Ingredients’ They Don’t Tell You About
    From breast implant chemicals to laxatives
    ===
    http://www.reuters.com/article/2014/02/24/usda-gmo-report-idUSL1N0LT16M20140224
    USDA's Economic Research Service (ERS) said that over the first 15 years of commercial use, GMO seeds have not been shown to definitively increase yield potentials, and "in fact, the yields of herbicide-tolerant or insect-resistant seeds may be occasionally lower than the yields of conventional varieties".
    Several researchers have found "no significant differences" between the net returns to farmers who use GMO herbicide tolerant seeds and those who use non-GMO seeds, the report states.
    ===
    http://www.independent.co.uk/environment/green-living/exposed-the-great-gm-crops-myth-812179.html
    Exposed: the great GM crops myth
    ===
    http://www.gmwatch.org/component/content/article/31-need-gm/12344-high-yield
    Non-GM successes: High yield
    ===
    http://www.gmeducation.org/faqs/p149408-gm-crops-do-not-increase-yield-potential.html
    GM Crops Do Not Increase Yield Potential
    ===
    http://www.i-sis.org.uk/GMcropsfailed.php
    GM Crops Failed
    ===

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  5. Gerson,
    o meu artigo não é sobre GM, e tampouco em defesa deles, mas sobre a hipocrisia do fast food exigir rastreabilidade. Entendo que é ação marqueteira do varejo, como McDonalds, e que foi iniciada pelo Carrefour no início dos anos 2000 na Europa. O problema em foco é quem paga por isso, pois querem transferir esse custo aos produtores rurais, o que considero absolutamente injusto, além de ilegal.

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