sexta-feira, 27 de março de 2015

Timoty Cook a Mídia e a Politica

Daniel Strutenskey Macedo


O livro do norte americano Timothy Cook é uma luz moderna sobre a influência da mídia nos rumos políticos. Faz tempo que as pessoas duvidam do que é publicado, pois quando possuem referências próprias o publicado se revela superficial, enganoso e por vezes falso e mentiroso (caso da mídia nos regimes republicanos e democráticos). As pessoas também reconhecem que sem liberdade de divulgação e opinião a sociedade se torna refém dos que controlam a divulgação autorizada (caso da mídia nas ditaduras militares).


É claro que entre os dois extremos nós temos vários tons de cinza. Todavia, não somos capazes de reconhecê-los para separar o joio do trigo que nos é transmitido pela mídia. É impossível. Não temos como fazer isto. Só podemos expressar nossas opiniões pessoais, contra ou a favor do conteúdo formado.

Temos consciência de que a comunicação depende de recursos humanos, técnicos e financeiros para ser realizada. Posso enviar minha opinião via e-mail, mas ela será apenas uma gota d’água no oceano de opiniões. Para formar uma opinião pública, para que milhões de pessoas recebam informações e opiniões que influenciem seu modo de ver determinados assuntos, é preciso muita munição, é tarefa para as grandes emissoras de opiniões e notícias. É disto que o senhor Timothy Cook trata. Estamos reféns de grandes grupos divulgadores e formadores de opinião. Ele analisa a história da mídia nos EUA e conclui que precisamos mudar isto, mas também não sabe como. É da nossa natureza desejar que os outros nos reconheçam e aceitem nosso modo de ver as coisas, as grandes e as pequenas. A mídia é o equipamento moderno de massas que permite que a gente consiga isto, que sejamos reconhecidos e aceitos por muitas pessoas. As nações são formadas em função de como as pessoas de uma região se reconheçam, se aceitam e se aglutinam. Não é sem razão que as nações são, nos seus berços, sejam formadas em torno de crenças, de religiões. São os exércitos e as lutas que definem os vencedores, mas são as opiniões que formam os grupos que sustentarão os exércitos. É fácil de ver isto na história da Iugoslávia, agora na Ucrânia e na Síria.


O que Timoty aponta, foca, circunscreve e pontua é o fato da mídia não ser um partido político, não ter instrumentos de governo, mas de servir a grupos restritos e poderosos (econômica e intelectualmente) para formar a opinião pública conforme lhe interessa. A população é, portanto, manobrada. É como dizia a canção dos anos sessenta: “Êêê, vida de gado. Povo Marcado. Povo Feliz”.


Segue um resumo do Timoty feito pelo Kramer.
COOK, Timothy E. Governing with the News: The News Media as a Political Instituition. Chicago: The University of Chicago Press, 1998. (ISBN 0226115003; paperback: US$ 18,00)
HERBST, Susan. Reading Public Opinion: How Political Actors View the Democratic Process. Chicago: The University of Chicago Press, 1998. (ISBN 0226327477; paperback: US$ 16,00)
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Espetacularização da política; substituição de líderes carismáticos por políticos telegênicos; glorificação dosound-bite (aquela frase ou gesto de efeito talhado para preencher 15 segundos “no ar”) em detrimento do debate ideológico e pragmático; arrebatamento por publicitários, consultores de imagem e “marketeiros” de funções antes desempenhadas pelos partidos ou cabos eleitorais; entronização dos focus groups e de outras modalidades de pesquisa de opinião como insumos prioritários na formulação de discursos de campanha ou na “correção dos rumos” de políticas públicas – essas e outras inovações alteraram significativamente a forma e o conteúdo da atividade da política na atualidade, bem como o seu relacionamento com os meios de comunicação e a opinião pública. Tal é o horizonte em que se movimentam as duas obras aqui resenhadas e que integram a série “Studies in Communication, Media and Public Opinion” da editora da Universidade de Chicago.

Há dez anos, Thimothy Cook já publicava um trabalho inovador e marcante sobre os membros do Congresso americano e a mídia, intitulado Making Laws and Making News – a Media Strategies in the U.S. House of Representatives (1989). Agora, ele amplia seu foco de análise para avançar a tese de que os meios de comunicação são, de fato, uma instituição política tão fundamental quanto os três poderes constitucionais. Na medida em que a democracia é um sistema sob o qual os mandatários têm não apenas o direito, mas principalmente o dever de comunicar, explicar e justificar suas atitudes, escolhas, decisões e ações (e isso antes, durante e após as eleições), a simbiose entre profissionais e veículos de comunicação, de um lado, e homens públicos – sejam eles parlamentares, funcionários do Executivo ou magistrados – de outro, propõe e repõe constantemente os critérios de relevância e interesse que “emolduram” as informações consumidas pelo cidadão acerca da estrutura, do funcionamento e dos impasses da vida pública nacional.


Em sua investigação, que se serve de abundantes fontes secundárias registradas nas notas ao fim do volume (a ausência de uma bibliografia em ordem alfabética de autor não deixa de ser um pequeno incômodo), Cook desafia o tabu sagrado da “objetividade”, tão decisivo na constituição da autoimagem profissional dos jornalistas como agentes neutros e despolitizados a serviço da informação isenta, algo ainda pouco problematizado na grande maioria dos estudos acadêmicos nessa área.


A leitura de Governing with the News estimula-nos a questionar a poderosa articulação de interesses entre as fontes, os repórteres e as empresas de comunicação. As autoridades em posições de comando e poder dedicam-se a selecionar, enfatizar ou desenfatizar dados e opiniões no sentido de conferir credibilidade aos seus próprios pontos de vista, definições da realidade e rationales de atuação. Já os profissionais de cobertura política precisam cultivar um bom relacionamento com esses informantes estratégicos para progredir em uma carreira intelectualmente exigente, fisicamente estafante e fortemente competitiva. Quanto aos veículos, eles dependem dessa já referida simbiose para sobreviver e prosperar no mercado de índices de audiência ou circulação. Explorando o avesso do duplo requisito de “importância” e “interesse” que os manuais de jornalismo preconizam para a notícia, Cook desvenda uma “divisão de trabalho” em que as autoridades definem o que é importante, e os jornalistas, o que é interessante.


A preocupação cívica que orienta o inquérito de Cook é a seguinte: como instituição política que liga as demais entre si e estas, em seu conjunto, com os cidadãos comuns, a mídia detém cada vez mais poder sobre os rumos da governança democrática, muito embora não seja feita para governar, nem, muito menos, disponha de qualquer mandato de representação popular. Portanto, como pode a sociedade submeter o processo de produção e veiculação do noticiário político ao crivo democrático da transparência e da responsabilidade? Essa indagação serve de fio condutor aos oito bem urdidos capítulos do livro de Cook. À introdução, voltada para o delineamento da perspectiva teórica geral, segue-se uma rica e interessante reconstituição histórica da trajetória da mídia noticiosa americana desde os seus primórdios (capítulos II e III). O estudo avança com a (exitosa) tentativa de integrar, no marco do “neo-institucionalismo”, abordagem calcada na maximização racional de utilidades com um approach culturalista que salienta as normas, os costumes, os significados compartilhados (explícita e, sobretudo, implicitamente pelos atores), característicos da mídia como instituição. A clarificação de seu caráter especificamente político, à luz da interação jornalistas/fontes, é o objeto do capítulo V, ao passo que o VI focaliza as estratégias de comunicação como instrumento de governo, com destaque para o comunicador-em-chefe do sistema, o presidente dos Estados Unidos. Na sequência, são discutidos os limites e oportunidades com que os atores políticos em geral se defrontam ao tentar colocar a mídia a serviço de seus interesses, cultura profissional e formatos organizacionais do noticiário político.


Na conclusão (capítulo VIII), o autor reitera o dilema da mídia como detentora de poder político sem a correspondente parcela oficial de responsabilidade pública, propondo mecanismos capazes de superá-lo, ainda que parcialmente.

O foco da obra de Susan Herbst são as implicações do processo de “construção” da opinião pública para a teoria e a prática democráticas. Os “atores políticos”, referidos em seu subtítulo são aqueles que avaliam e moldam a opinião pública: jornalistas, pesquisadores, assessores legislativos e ativistas políticos. E - “surpresa”! – a autora constata que aquilo que normalmente entendemos como opinião pública pouco tem a ver com o público. De fato, a percepção que esses operadores têm da “voz rouca das ruas”, para usar uma expressão cara ao sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, é quase sempre refratada (e distorcida) pelo prisma estridente e parcial dos grupos de interesse e dos formadores de opinião encastelados na mídia.


Combinando perspectivas fornecidas pela Ciência Política, a Sociologia e a Psicologia, Herbst conduziu 44 entrevistas em profundidade e submeteu um extenso questionário a 528 outros informantes. A riqueza e a importância do material coletado traduzem-se no potencial das “teorias leigas”, quase sempre implícitas na prática profissional desses atores, para questionar, clarificar, aprofundar e reorientar as tendências dominantes no corpus acadêmico dessa área de estudo, tão tradicional e prestigiosa nas Ciências Sociais americanas, um campo construído sob a égide de Alexis de Tocqueville, Arthur Bentley, David Truman e Herbert Blumer, sem esquecer sua vertente “jornalística” capitaneada por Walter Lippmann.


Recuperando outra nobre e fecunda tradição da Ciência Política de seu país, a dos estudos políticos de comunidade – onde pontificam nomes como Floyd Hunter, Robert Dahl e o casal Robert e Helen Lynd –, Susan Herbst ambienta sua pesquisa em Springfield, capital do estado de Illinois. O progresso de sua investigação confirmou-lhe a suspeita de que a cidade, por um conjunto de razões históricas, geográficas e socioeconômicas, é um microcosmo dos Estados Unidos e um sinalizador de tendências emergentes da opinião pública nacional, preenchendo assim sua ambição original de articular macroteorização com estudo de campo em nível micro.


O capítulo I explora o variegado universo de questões envolvidas na definição de “opinião pública” e, para fundamentar a relevância do estudo de “teorias leigas”, louva-se da autoridade de estudiosos como o antropólogo Clifford Geertz. Os capítulos II a IV descrevem os resultados das entrevistas e questionários. Finalmente, no capítulo V, a autora costura suas conclusões à luz do argumento de que a “teoria leiga” dos operadores políticos pode e deve revigorar a discussão acadêmico-científica sobre a dinâmica da comunicação política e da opinião pública.


Três minuciosos apêndices metodológicos completam a obra, elucidando a concepção do projeto e reproduzindo os roteiros de entrevista bem como os questionários utilizados em campo.


Trata-se de duas contribuições extremamente bem-vindas no momento em que o debate intelectual brasileiro inicia um esforço sério de compreensão mais sistemática e menos anedótica do papel político da mídia no processo de formação da opinião pública. Vale aqui mencionar o estudo do jornalista e escritor Elcias Lustosa, O teatro político (1998), como fruto auspicioso dessa promissora safra de reflexão made in Brazil. Por sinal, já não era sem tempo: nessas duas e meia longas décadas de transição/consolidação democrática, a linguagem do marketing e das pesquisas desempenhou um papel central na estruturação do nosso cotidiano político e até já virou produto de exportação para América Latina e África.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COOK, T. 1989. Making Laws and Making News – Media Strategies in the U.S. House of Representatives. Washington, D.C.: Brookings Intituition.
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