domingo, 17 de maio de 2015

Parceria estratégica com a China


Marcos Sawaya Jank (*)
A China já é o primeiro parceiro comercial do Brasil, com um comércio total que supera US$ 78 bilhões, ligeiramente superavitário em nosso favor (US$ 3,3 bilhões). O país asiático já responde por quase um quinto das exportações brasileiras.

Do lado brasileiro, o fantástico crescimento de 27% ao ano nas nossas exportações desde 2000 baseou-se essencialmente em duas commodities –soja e minério de ferro–, que representam, juntas, 72% da pauta.

Ocorre que o setor mineral foi afetado negativamente pelo menor crescimento da China e pela mudança no modelo de desenvolvimento, antes pautado por grandes investimentos em infraestrutura.

Já o setor de produtos agropecuários tem sido beneficiado pela nova política de estimulo ao consumo interno e bem-estar das famílias. O problema é que, com exceção da soja e do algodão, produtos em que a China assumiu a necessidade de importar, nos demais segmentos do agronegócio o país adota uma política de estímulo à autossuficiência que se traduz em elevadas barreiras ao comércio. No caso das carnes, por exemplo, o sistema de habilitação de plantas industriais para exportar para a China é lento e opaco.

O sucesso do modelo pautado pelo comércio de commodities é evidente, mas tem limites claros à frente. São poucos produtos de baixo valor adicionado, alta volatilidade, margens apertadas e transporte ineficiente. Certamente há formas mais inteligentes para organizar as cadeias produtivas entre a oferta de Mato Grosso e a demanda na China, seja nos aspectos relacionados a custos e valor adicionado, seja para diversificar suprimentos e reduzir riscos (climáticos e sanitários, por exemplo), seja para obter um melhor balanço de água, energia e carbono.

O primeiro-ministro da China, Li Keqiang, chega ao Brasil na segunda-feira (18) para reuniões da maior importância, menos de um ano após a visita do líder Xi Jinping. Além dos assuntos usuais de comércio, no agronegócio temos neste momento a oportunidade de posicionar as relações bilaterais em um novo patamar, realmente estratégico.

De um lado, a China fatalmente terá de diversificar a origem de seus alimentos e busca freneticamente alternativas para aumentar a produtividade e melhorar a qualidade dos produtos que chegam ao consumidor. No fim de abril, foi aprovada uma nova e rígida Lei de Segurança do Alimento. Do outro, o Brasil precisa desesperadamente de investimentos em infraestrutura e pode agregar disponibilidade, diversidade, qualidade e segurança aos alimentos que chegam ao consumidor chinês.

O pano de fundo são a nova rota de seda (repaginada na iniciativa denominada "One Belt, One Road"), o novo Banco de Investimento e Infraestrutura, a possibilidade de parcerias estruturadas entre os grandes players brasileiros e chineses e a importância que os dois países têm dado à ideia dos Brics, que precisa deixar de ser retórica.

A China sabe olhar os seus interesses seculares como ninguém, de forma obcecada. Nossas sinergias e complementariedades são imensas. É hora de aproveitar o momento e estruturar uma parceria estratégica inteligente e de longo prazo entre os dois países.

* o autor é especialista em questões globais do agronegócio.

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Um comentário:

  1. Marcos,
    só discordo parcialmente da sua afirmação de que commodities não têm alto valor agregado. Têm sim, e muito valor agregado! Por trás de cada grão (soja, café e até das carnes) tem muita tecnologia e valor agregado, que reúne uma cadeia gigantesca de tecnologias de primeiríssimo mundo.

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