segunda-feira, 29 de junho de 2015

O olhar do estrupício I

Richard Jakubaszko
Como faço todo santo dia, nublado ou com muito sol, depois do horário do almoço vou pitar meu cigarrinho de palha na calçada frontal à casa da DBO Editores.


A casa integra o enorme quarteirão do parque da Água Branca, hoje um espaço verde para caminhadas de moradores da região. Nos prédios e casas espalhados pelo parque há escritórios da Secretaria da Agricultura, e agora também da Secretaria do Meio Ambiente, e uma quantidade expressiva de sedes de associações de criadores de gado e cavalos, gente da agricultura orgânica, pessoal que volta e meia realiza festas e feirinhas, cheias de barracas com guloseimas, mas também existe um espaço maior, que eu ainda não sei exatamente onde é, onde gente da terceira idade frequenta três vezes por semana, no período da tarde, para participar de um baileco à moda antiga.


Deve ser animado o tal do arrasta-pé da turma, a julgar pelo entusiasmo que a maioria demonstra ao chegar às proximidades do convescote. Fico olhando a turma passar, enquanto vou pitando meu palheiro. Nas terças e quintas-feiras tem baile, no domingo também, e gente da terceira idade que passa feliz, todos arrumadinhos, lépidos e faceiros, vindos de todas as direções.



Esta semana meus ouvidos capturaram um diálogo supimpa, digno de se registrar numa crônica como esta. Não havia como não ouvir. Pois um casalzinho vinha andando ligeirinho, e conversavam, mas a senhorinha, uma mulher de seus sessenta e muitos anos, não sei precisar, parecia contrariada com algo, enquanto ele, baixinho como ela, tinha sotaque nordestino carregado. Olhei para o outro lado, mas não foi possível deixar de ouvir o diálogo:



Ele: - na próxima eu levo você...

Ela: - mas não sei se eu vou querer, não tô gostando muito...

Ele: - a gente gosta, sim...

Ela: - mas você não funciona mais...



Foram andando, lado a lado, mas calados, o argumento dela deve ter sido um petardo devastador. Pararam na esquina, ao lado de um poste, uns 40 metros de onde eu me encontrava observando a tragicomédia. Bem, tragédia para ele, e comédia pra mim. Lembre-se: no dos outros não é pimenta...


Ela ameaçou ir em direção ao parque, e ele foi atrás, deram dois ou três passos cada um, mas ela voltou-se e dizia algo, colocando a mão no ar, como quem diz “pode parar, você não vai, não”. Conversaram mais uns minutos. Na sequência, ela pegou o baixinho pela mão, e atravessaram a rua em sentido contrário ao baileco.

Não sei se voltaram, nem para onde foram, ou como se resolveram, mas foram quatro frases curtas, reveladoras do cotidiano, um retrato da vida, estrupício que meus ouvidos não tinham como perceber e capturou-se um instante fugaz da vida de pessoas simples e anônimas.

Há muitas dessas histórias, a que os amigos estimulam que eu revele aqui na blogosfera.

Volto em breve, com novos estrupícios...
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