segunda-feira, 27 de julho de 2015

Monoculturas, alimentos e pessoas, muitas pessoa

Emerson Gonçalves *

Nos últimos dias li várias referências em redes sociais à monocultura da soja no Brasil, especialmente, é claro, no Brasil Central, nas novas fronteiras agrícolas. Algumas vieram de pessoas com real preocupação com o país, a economia, a natureza, a vida das pessoas. Outras, porém, foram apenas repetições de um discurso atrasado e desvinculado da realidade.

O termo monocultura em sua acepção clássica, e que é a forma como é usado hoje pela maioria, de forma distorcida e com fortíssimo viés político, não tem aplicação na agricultura moderna, especialmente na que se faz no Brasil.

Monoculturas...
Peguemos uma estrada que corte os grandes sertões brasileiros e veremos, entre outubro e abril, soja. Soja a perder de vista, por dezenas, por centenas de quilômetros. Mas, uma observação mais atenta mostrará milharais, tão imensos quanto as lavouras de soja. Também aparecerão, conforme a região, as lavouras de algodão. Em outros meses poderemos ver vastos campos com um capim verde, bonito, de grande e rápido crescimento, o milheto. Ou os milharais da chamada safrinha, uma segunda safra na mesma área, na mesma estação.
Muitas pessoas se referem a tudo isso como monocultura.

Vamos sair dos sertões e adentrar uma grande cidade, uma metrópole, uma megalópole (a China projeta criar uma para abrigar 135 milhões de pessoas... pessoas?). Cruzando qualquer um desses monstros criados pelo crescimento da população, pelo progresso (?), pelo desenvolvimento (?), vamos enxergar em sucessão, até rápida, grandes áreas tomadas por Extras, Walmarts, Carrefours, shoppings...
Eu digo que isso é uma monocultura – monocultura comercial.

O que vemos, entretanto, tem o nome de escala.
Em 1986 ou começo de 87, fiz parte de um grupo de gerentes e diretores da companhia em que trabalhava, uma multinacional americana onde aprendi muito, realmente aprendi, que assistiu à palestra de um dos diretores da Matriz. Ele disse algo que estarreceu a todos nós: até o ano 2000, das 12 maiores companhias do setor, todas elas gigantes, todas imensas, monstruosamente grandes, somente quatro ou cinco estariam vivas. As outras, assim como muitas mais de “menor” porte (mas ainda assim enormes), teriam sido compradas ou absorvidas em fusões pelas 4 ou 5 companhias sobreviventes.
Disse mais: que até o ano 2000 o foco principal da empresa era... a China. O Brasil viria depois.
Dito...
E feito.

Esse processo de concentração deu-se em todas as áreas. A razão para isso está na necessidade de ganhos de escala cada vez maiores. Por exigência do mercado.
Laboratórios farmacêuticos, por exemplo. Chegou um momento em que o custo de R&D (pesquisa e desenvolvimento) necessário para lançar um medicamento chegou a tal valor que somente empresas gigantes conseguem absorve-los sem quebrar. Porque as exigências legais, começando pelas que são impostas pela FDA e que são copiadas ou ampliadas por suas congêneres ao redor do mundo, ficaram muito grandes. Ótimo para nós, consumidores, que recebemos novos medicamentos com índices de segurança nunca antes atingidos. O que a maioria ignora é que para cada lançamento realizado, dezenas de outros ficaram para trás, foram abandonados. Mas seus custos repercutem e impactam severamente todo novo produto que chega ao mercado. Então, não adianta xingarmos a empresa X ou Y porque seu novo e maravilhoso produto custa os olhos da cara. Isso ocorre porque as contas feitas pelos outros produtos que não deram certo e por ele mesmo, o que chegou ao mercado, precisam ser pagas.
Não existe almoço grátis.

Ué, e a soja com isso, essa “monocultura” imensa?
Soja, cana, milho, algodão, café, leite, carne, frangos...
Pessoas e empresas produzem para o mercado.
O mercado somos nós.
Ah, sim, não se iludam: o “mercado” não é um alien. Nada disso, o mercado somos nós.
Sete bilhões e trezentos e tantos milhões de almas, se já não chegamos aos quatrocentos milhões.
Imaginem se o povo da cidade de São Paulo, por exemplo, tivesse que ser abastecido apenas por pequenos armazéns, como era antigamente?
Teríamos necessidade de dezenas de milhares dessas pequenas unidades de distribuição de alimentos e produtos básicos diversos.

Haveria necessidade de uma frota gigantesca de caminhões, 24 horas por dia nas ruas, entregando 50 quilos de arroz aqui, 40 de açúcar ali, 30 de feijão acolá... Fora outras necessidades e operações.
Imaginem o custo dessas operações...
Imaginem, também, obrigatoriamente, o custo ambiental dessas operações...
Nem dá. Seriam impraticáveis, simplesmente.

Em meados da década de 70, um estudo americano mostrou que, somente nos Estados Unidos, o número de ligações existentes precisaria de 70 milhões – setenta milhões – de operadoras. Operadoras eram moças e senhoras que ficavam horas em entrepostos telefônicos. Você tirava o seu aparelho do gancho, ela atendia e você pedia para ela fazer a ligação. Mais tarde, com a evolução, as ligações locais passaram a ser feitas de aparelho para aparelho, mas para outras cidades só se falava através das operadoras. Você ligava e pedia um interurbano. Marília/São Paulo, por exemplo, podia demorar de uma a três horas. Legal, ?

Agora, vejam que curioso: em 1º de julho de 1975, a população americana era de 215,97 milhões de habitantes. Arredondemos para 216 milhões. Sem o advento das operações automáticas (pré-computadores) na telefonia, 32,4% da população americana trabalharia completando ligações. Ou, haveria um americano trabalhando para fazer as ligações para os outros dois.
O advento do PBX e depois do PABX foi um grande avanço para a humanidade.
Vocês acham que há diferença entre essa história da telefonia e a história da distribuição de alimentos e outros produtos para as pessoas?

Há muito tempo somos seres dependentes de enormes escalas de produção de tudo. De alimentos a produtos de tecnologia de ponta, como o S6 ou o Iphone 6. Meu “velho” Galaxy S4 tem mais capacidade de memória e operações que todo o sistema computadorizado que levou a Apollo XI à Lua. Para chegar a isso houve necessidade de milhões de cérebros dedicados a pesquisar e desenvolver essas maravilhosas traquitanas. Em grande escala. E comendo e bebendo e vivendo bem para gerar tanta coisa.

Para que a rapaziada faça algo que chamam de “arte” pichando muros e paredes, há necessidade de gente produzindo o que eles comem.
Porque pichadores, músicos, pintores, escritores, assim como engenheiros, médicos, advogados, metalúrgicos, escriturários, professores, enfim, toda a vasta gama de pessoas que vivem e trabalham nos centros urbanos de qualquer tamanho, não produzem alimentos.
Porque não sabem.
Porque não têm meios.
Porque não têm espaço.
Porque não têm tempo.
Porque não têm a vontade e a capacidade e...
Porque não têm a necessidade.
Porque existem pessoas que produzem os alimentos que essas outras pessoas precisam.
Ou querem.
Precisar e querer... São coisas distintas.
O querer só se realiza em sociedades livres.

Bom, e a “monocultura” da soja?
A produção de soja só se torna efetiva e com custos razoáveis se praticada em larga escala. Quanto maior a escala, menor o custo, menor o preço de tudo para o consumidor final.
Troque soja por milho, algodão, cana, boi, vaca, frango, alface, cenoura... Dá na mesma.

Então, não há a menor correção em chamar de monocultura aos vastos cultivos de grãos que vemos nos cerrados. Ou de arroz, nas planícies inundáveis do Rio Grande do Sul. Ou de café, nos cerrados altos de Minas Gerais.
É triste, eu não gosto, mas não há como produzir carne de boi, frango ou porco sem as criações intensivas, confinadas.

Nada pode ser produzido hoje sem escala.
Exceto coisas e serviços para nichos de mercado. Nichos de mercado... São, praticamente, sinônimos de mercados com alto poder aquisitivo. São mercados pequenos, jamais de massa.
A produção em grande escala é o preço que se paga para atender à demanda dos bilhões de humanos igualmente “confinados” em aglomerados urbanos.
Por fim, mas não por último e não menos importante:
Amanhã, 28 DE JULHO, será o DIA DO AGRICULTOR.

Como vemos muito nos States, onde há mais respeito por essas coisas...
No farms, no food.

* o autor é produtor de leite em Santa Rita do Passa Quatro (SP), publicitário, empresário de vídeos, e encontra tempo para ser blogueiro ativo sobre marketing futebolístico.
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