sexta-feira, 17 de julho de 2015

O olhar do estrupício II

Richard Jakubaszko
Corria o ano de 2014, época de eleições presidenciais, eu estava andando na passarela suspensa que atravessa serpenteando a praça das Bandeiras, no centro de São Paulo. Embaixo, dezenas de ônibus e muita gente em fila aguardando o busão da sua linha. Em cima, muita gente indo prá lá e adiante, ninguém dava bola aos passantes, aos raros camelôs, e nem aos desamparados sem teto, esparramados como lixo pelos bancos de concreto.

Um deles me chamou a atenção, 5 metros à minha frente, pois falava ao celular. Achei estranho, afinal, como é que um sem teto arruma dinheiro para ter um celular? Ele falava relativamente alto, incisivo, quase autoritário, e gesticulava com o braço livre, mas em gestos coerentes com suas próprias falas. Quando estava me aproximando, ouvi:

- Diga ao Mantega que ele está cometendo um enorme equívoco. Isso, diz prá ele que foi eu que falei...

Dois passos depois, e já estava quase ao lado do sem teto, quando ele deu meia volta para o outro lado, ia e vinha, como se estivesse numa sala. Continuava a falar:

- Com esse tipo de decisão a inflação vai explodir, o Mantega não pode tomar decisões assim, isso é contra o povo...

Olhei melhor e me dei conta de que ele não falava ao celular. Estava com uma fita de vídeo K7, preta, que segurava encostada na orelha, e falava para quem ouvisse:

- Acho que é melhor alguém reportar esse assunto para a presidente Dilma, caso contrário ela nem consegue se reeleger...

Não sei de onde veio aquele sem teto, ou se ele tem como leituras muitos jornais pendurados nas bancas de jornais, mas que foi engraçada e exótica a cena, inegavelmente foi, por conta do inusitado drama da situação do sujeito. Já caiu no mais baixo degrau da sociedade humana, mas continua querendo aparentar que é alguém importante.

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