terça-feira, 22 de setembro de 2015

A lição de Cingapura

Marcos Sawaya Jank *
Cingapura completou 50 anos em agosto. Na semana passada, o partido que está no poder desde 1960 foi reeleito com 70% dos votos, conquistando 83 dos 89 assentos do Parlamento. A eleição representa mais um voto de confiança ao legado de Lee Kuan Yew, o grande líder do país, que faleceu aos 92 anos em março passado.

Situada no estratégico Estreito de Malaca, uma curta faixa de mar por onde passa 25% do comércio mundial, essa terra de desterrados - migrantes, comerciantes, piratas, invasores - tinha tudo para dar errado e acabar sendo incorporada pelos seus vizinhos.

Mas a despeito da sua multiplicidade de raças, línguas, religiões e culturas, o país acabou formando uma identidade nacional única.

Na sua fundação, em 1965, a renda per capita de Cingapura era inferior a US$ 500, muito parecida com a do Brasil à época. Hoje a do Brasil está em US$ 9,3 mil e a de Cingapura passa dos US$ 55 mil. Não há milagre, mas sim a adoção de receitas simples e originais.

Em primeiro lugar, Cingapura é uma economia aberta à competição, ao comércio, aos investimentos, às empresas multinacionais, aos expatriados. Tornou-se assim um dos principais "hubs" globais de comércio, finanças e turismo.

O porto e o aeroporto, grandes e modernos, estão entre as principais portas de entrada na Ásia. Soma-se a isso a educação pública de alta qualidade e um incrível sistema habitacional criado pelo poder publico, que atende 80% da população, e que foi bem mal copiado por Paulo Maluf em São Paulo.

Na questão da mobilidade urbana, a cidade oferece uma invejável rede de transporte público e, por isso, taxa o uso do carro com uma licença cara vendida em leilões. Maior a procura por licenciamento, maior o custo da licença para usar o carro. Com isso, o nível dos congestionamentos é controlado pelo mercado, tornando-se insignificante perto do que tenho visto em metrópoles do mesmo tamanho.

Segundo, Cingapura colocou a disciplina e o respeito às leis como condição básica para o bem-estar da coletividade. A "fine city" é conhecida por aplicar pesadas multas em quem cospe, joga lixo ou bitucas de cigarro no chão. Homicídio, uso de drogas, roubo, assaltos e vandalismo são pesadamente punidos, inclusive com castigos físicos ou expulsão do país.

Mas as pessoas não se sentem acuadas, já que a lei é clara e conhecida por todos. Ao contrário, é impressionante como um país tão jovem, que nasceu tão pobre e com tanta diversidade étnica e cultural conseguiu virar uma cidade-estado limpa, moderna, civilizada, que detém um dos mais baixos índices de criminalidade do planeta. Liberdade e segurança só existem quando as regras do jogo são respeitadas.

Soma-se a isso o árduo combate à corrupção em todas as suas formas. Basta dizer que ministros e altos funcionários do governo são escolhidos por critérios meritocráticos e estão entre os mais bem pagos do planeta.


Tratam-se de lições básicas e simples, mas ainda tão pouco aplicadas no mundo.

Quando vejo o desrespeito diário às regras básicas de convivência, a complexidade absurda das nossas leis e a falência do sistema político do Brasil, lembro-me da frase de Steve Jobs: "foco e simplicidade são os meus mantras. O simples pode ser bem mais difícil de fazer do que o complexo".

* o autor é especialista em questões globais do agronegócio
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