sexta-feira, 2 de outubro de 2015

O G-20 e o risco dos desequilíbrios financeiros

As análises e propostas que têm caracterizado todas as cúpulas do G-20, inclusive a recente reunião dos ministros das finanças e presidentes de bancos centrais, em Istambul, têm sido distorcidas pela alegada centralidade das chamadas “contas correntes”. Em suma, o mundo é dividido em países com excedentes comerciais e países com déficits comerciais. Os primeiros, automaticamente, se tornam credores em relação aos últimos.

O G-20 considera estes “desequilíbrios globais” como sendo a origem das grandes crises passadas e recentes. Em seus comunicados finais, com frequência, os desequilíbrios em conta corrente são considerados como sinônimos de desequilíbrios globais.

Naturalmente, não se trata de uma mera questão de terminologia, mas de políticas econômicas e monetárias efetivas. Fazendo isto, antes de tudo, se subestimam os “desequilíbrios financeiros”, cada vez mais perigosos e destrutivos.

Consequentemente, o remédio e o retorno a um estado de equilíbrio seria obtido, simplesmente, pressionando-se os países superavitários para revalorizar as suas moedas e aumentar o seu consumo interno, pondo em movimento políticas que visam “manter competitivas” algumas moedas, principalmente, o dólar estadunidense.
 

A avaliação das contas correntes é uma abordagem que se baseia nas relações comerciais bilaterais, passando por cima do fato relevante do domínio atual de um sistema financeiro globalizado, independente e indócil, assim como evasivo diante de todo e qualquer controle por parte dos Estados nacionais.

Não se considera o papel desempenhado por um determinado país nos mercados internacionais de empréstimos, comércio e intermediação financeira. Na prática, portanto, tentam-se justificar as políticas monetárias de “flexibilização” da Reserva Federal estadunidense e seus efeitos desestabilizadores sobre as moedas e economias dos países no resto do mundo.

A centralidade incorreta atribuída às contas correntes é o resultado de uma ideia distorcida de poupança e financiamento. A poupança é um recurso produzido e não consumido, e deve ser, logicamente, planejada para financiar investimentos produtivos de um determinado país. Infelizmente, muitas vezes, tais financiamentos são orientados para atividades especulativas, em lugar de proporcionar fluxos de caixa e capacidade de acesso à liquidez, inclusive, por meio de empréstimos.

Sob essa ótica, os bancos criam e emitem títulos, independentemente do volume dos seus depósitos.

Esta não é uma distinção trivial, considerando que os grandes bancos e outras instituições financeiras são capazes de criar liquidez e crédito em quantidade e qualidade quase ilimitadas. A melhor evidência disto é a criação contínua de derivativos financeiros, que, na versão “de balcão” (ou OTC, de over-the-counter), são mantidos fora dos balanços.

Apesar disto, alguns deles, com as devidas etiquetas de garantias “triplo A” fornecidas pelas notórias agências classificação de risco, são estranhamente adquiridos por grandes bancos, como garantias para a obtenção de empréstimos do “Fed” do Banco Central Europeu (BCE).

Assim, as dívidas de um país não são baseadas na poupança de outro, mas, em grande medida, por decisões de portfólio dos grandes operadores financeiros internacionais. E aqui, também, entra em questão o risco do crédito como uma questão não necessariamente ligada à situação das contas correntes.

Embora não seja tarefa fácil, a compreensão do problema implica na necessidade de se trabalhar por um acordo no âmbito do G-20 para a introdução de regras claras e rigorosas para os grandes bancos “muito grandes para quebrar”, para o sistema bancário “sombra” e para toda a finança globalizada que inunda o sistema com produtos financeiros de qualidade mais que duvidosa.

Se não se colocar a devida atenção nos desequilíbrios financeiros, alguns países manterão a prerrogativa de gerar “excessos de flexibilidade financeira” – uma maneira extravagante de se descrever a criação de liquidez e empréstimos em áreas de risco. Assim aconteceu no setor imobiliário dos EUA, com as famigeradas hipotecas subprime, cujo estouro foi o detonador da grande crise de 2007-2008. Infelizmente, tais práticas se mantiveram em meio à crise e depois dela, com as maciças injeções de liquidez proporcionadas pela “facilitação quantitativa” do Tesouro estadunidense, inclusive, fora dos próprios EUA. Em realidade, nos últimos anos, os créditos em dólares a não residentes no país cresceram a uma taxa mais elevada do que o crédito interno.

Para aqueles que, como nós, muitas vezes solitariamente, têm destacado os perigos das bolhas financeiras e da finança sem controle, não deixa de ser um alento o fato de que o Banco de Compensações Internacionais (BIS), representado pelo diretor do seu Departamento Econômico e Monetário, Claudio Borio, tenha chegado às mesmas conclusões, pedindo que o G-20 enfrente o risco sistêmico representado pelos desequilíbrios financeiros e a excessiva liquidez global.




Publicado originalmente no site da MSia  http://msiainforma.org/espanol-el-g-20-y-el-riesgo-de-desequilibrios-financieros/

COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO:
O que não dá para entender é a imensa hipocrisia que grassa pela mídia e pelo mundo afora: os EUA imprimem dólares adoidados, sem nenhuma base ou lastro, seja no padrão ouro ou qualquer outro, e ainda desvalorizaram a sua moeda para manter competitividade com o yuan chinês. E o Brasil é que está "quebrado", mesmo sendo o segundo maior credor dos EUA, depois da China, além de credor do FMI. E ainda temos 10 bilhões de dólares de superavit neste ano, até setembro, na nossa balança comercial. Durma-se com esse barulho...

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