segunda-feira, 2 de novembro de 2015

A multiplicidade da Ásia


Marcos Sawaya Jank *
Esse é o título do quinto capítulo do excelente livro "Ordem Mundial", que Henry Kissinger, uma das cabeças mais lúcidas e brilhantes do nosso tempo, publicou em 2014, aos 91 anos de idade.

Ao contrário dos continentes europeu e americano, onde os grandes impérios convergiram para uma certa similaridade étnica, linguística, social, cultural e religiosa, a palavra que melhor sintetiza a Ásia é "multiplicidade".

Para começar, Ásia é apenas um conceito geográfico que reúne cerca de 50 Estados soberanos situados a leste do planeta, na chamada porção oriental. Só que esses Estados abrigam civilizações milenares que, ao contrário do Ocidente, seguiram rumos históricos e geopolíticos bem distintos. Países muito ricos posicionam-se ao lado de outros extremamente pobres, variando de nações continentais a arquipélagos e cidades-nação. Ditaduras convivem com democracias. Pelo menos quatro grandes religiões dividem o espaço asiático: budismo, hinduísmo, islamismo e cristianismo.

Nos últimos quatro séculos, europeus e americanos ocuparam o Oriente redesenhando fronteiras e forçando a sua "missão civilizatória" sobre culturas muito mais antigas e solidificadas que a sua.

A emancipação da região ao longo do século 20 não foi nada tranquila, após uma dezena de guerras que desembocaram nos países de hoje – a guerra civil chinesa, as guerras da Coreia e do Vietnã, as guerrilhas do Sudeste Asiático, as disputas entre Índia e Paquistão e o genocídio de Khmer Vermelho, no Camboja. Espaços e fronteiras continuam sendo disputados, a exemplo dos conflitos nos mares do Nordeste e do Sul da China.

O trauma das épocas colonial e pós-colonial obrigou os países asiáticos a aceitar as suas respectivas soberanias e a se comprometer com a não interferência nos assuntos domésticos. Isso obviamente sem deixar de buscar o interesse nacional, sempre com muita energia e convicção.

Hoje essas culturas retomam o seu poder e a vitalidade do passado, após terem assimilado os melhores valores do Ocidente. No esplêndido livro "Civilização: Ocidente x Oriente", o historiador inglês Niall Ferguson, que aliás acaba de publicar o primeiro volume da biografia de Kissinger, descreve as seis instituições propulsoras do poder que o Oriente aprendeu com o Ocidente e que explicam a sua reemergência: o método científico, os direitos de propriedade, a medicina moderna, a sociedade de consumo, a ética protestante do trabalho e a competição capitalista, mesmo dentro de países teoricamente comunistas.

Kissinger afirma que na Ásia a diplomacia se faz de forma lenta e gradual, respeitando a soberania e a diversidade. A Ásia nunca embarcou nas posições tutelares e universalistas que marcaram a diplomacia da Europa e dos Estados Unidos. Porém, apesar do respeito à soberania e à diversidade, o sistema organizacional asiático não foi pautado pela busca da igualdade, mas sim por mecanismos de hierarquia e controle claramente colocados.

No Brasil, sabemos muito pouco e certamente temos muito a aprender com a experiência asiática, em termos de sociedade, organização e pensamento. Um pouco mais de observação, com menos fala e mais ouvidos, nos fariam bem neste momento.

* o autor é especialista em questões globais do agronegócio; vive em Cingapura.

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