quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Lembranças de Dezembro - 2


Guilherme Cardoso
O ano era 1960. Belo Horizonte era uma Capital, com jeitão de cidade do interior. Como ainda é hoje, com seus 118 anos de existência.

Naquela época, pouco mais de 50 anos atrás, por incrível que pareça, a maioria da população ainda tinha medo de assombração, mula-sem-cabeça, almas do outro mundo. A violência que temos hoje, com assaltos a qualquer hora, à mão armada, na rua, no comércio e nas casas residenciais, praticamente não existia. Ladrão só roubava galinha.

O Brasil já dançava o rock, cantava os Beatles e os Rolling Stones, as mulheres começam a desfrutar a liberdade, jogam os soutiens fora, vestem minissaia e a calça comprida faroeste (jeans). Ainda existia o romantismo, nos versos, nas músicas, nos relacionamentos. Logo depois tudo acabou.

Era dezembro, não me lembro do dia, quem conta é meu irmão Ignácio. Morávamos na Pompeia, bondes, ele trabalhava como garçom até o restaurante fechar. Lá pelas onze da noite, saia correndo para não perder o último ônibus para o bairro. Uma noite perdeu.

E nesta noite, teve que pegar o bonde Santa Efigênia, que tinha o ponto final na Rua Santa Luzia, esquina de rua Niquelina. Uns cinco quilômetros antes de nossa casa na Pompeia. Era também o último bonde, o da meia-noite.

O bonde da meia-noite era o bonde dos atrasados, dos pinguços, dos boêmios, que esqueciam da hora de ir para casa. Normalmente ia com umas dez pessoas. Nesta noite, o bonde estava lotado, quase não havia lugar.

Ignácio estranhou, quem sabe era gente vinda de alguma festa, naquela hora. Sentou apertado, no último banco do bonde, que seguiu viagem. Ao chegar no ponto final, o bonde estava vazio, ele era o último passageiro. Não viu ninguém descer no trajeto, o bonde não parou em ponto algum, ele desconfiado, sem nada entender, perguntou ao motorneiro: ─ cadê o pessoal que pegou o bonde lá no centro?
O motorneiro, condutor do bonde, respondeu perguntando, se o Ignácio tinha bebido muito, que só ele veio no bonde, ninguém mais subiu ou desceu.

Apavorado com aquilo, não bebeu, nem dormiu dentro do bonde, agradeceu o motorneiro, desceu e subiu a rua Niquelina feito doido, nem olhar para trás ele teve coragem. Chegou em casa cabelo em pé, olhos arregalados, branco que nem leite, nunca mais andou naquele bonde, ainda mais à meia-noite.

Almas do outro mundo. Coisas de um tempo que não volta mais.

Publicado no http://guilhermecardoso.com.br/lembrancas-de-dezembro-2?lang=pt

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