sexta-feira, 22 de abril de 2016

O verdadeiro motivo dos inimigos de Dilma Rousseff para querer impeachment


por David Miranda 
The Guardian
A história da crise política do Brasil e a percepção rápida na mudança da opinião global começam com seus meios de comunicação nacionais. A transmissão televisiva dominante do país e o jornalismo impresso são de propriedades de um pequeno punhado de algumas das famílias mais ricas do Brasil e que são solidamente conservadoras. Durante décadas, os meios de comunicação têm sido utilizados para estimular os ricos brasileiros, garantir que a riqueza grave desigualdades (e a desigualdade política que disso resulta), e permanecem firmemente no mesmo lugar.

Efetivamente, a maioria dos meios de comunicação – que aparece como respeitável para forasteiros – apoiou o golpe militar de 1964, que marcou o início de duas décadas de ditadura de direita e enriqueceu os oligarcas da nação. Este evento histórico chave ainda lança uma sombra sobre a identidade e a política do país. Essas corporações – lideradas pelos múltiplos braços de mídia da organização Globo – anunciavam o golpe como um nobre ato contra um governo corrupto e liberal, eleito democraticamente. Soa familiar?

Por mais de um ano, esses mesmos meios de comunicação divulgaram uma narrativa de autosserviço: uma cidadania com raiva, conduzida pela fúria sobre a corrupção do governo, contra e exigindo a derrubada da primeira mulher presidente do Brasil, Dilma Rousseff e seu partido (PT). O mundo viu infinitas imagens de multidões de manifestantes nas ruas, o que é sempre uma visão inspiradora.

Mas o que mais não se viu fora do Brasil foi que a mídia plutocrática do país passou meses a incitar esses protestos (fingindo meramente "cobrir"). Os manifestantes não eram remotamente estratos representativos da população brasileira. Eles eram, em vez disso, desproporcionalmente brancos e ricos: as mesmas pessoas que se opuseram ao PT e aos seus programas de combate à pobreza por duas décadas.

Lentamente, o mundo exterior começou a superar a caricatura agradável, bidimensional, fabricada pela sua imprensa nacional e para reconhecer que serão habilitados depois que Dilma Rousseff for removida. Tornou-se claro que a corrupção não é a causa do esforço para expulsar duas vezes o eleito Presidente do Brasil; pelo contrário, a corrupção é apenas o pretexto.

O partido de esquerda moderada de Dilma Rousseff ganhou a Presidência em 2002, quando seu antecessor Luiz Inácio Lula da Silva, conquistou uma vitória retumbante. Devido a sua popularidade e carisma, e reforçado por um crescimento econômico em expansão no Brasil sob a sua presidência, o PT ganhou quatro eleições presidenciais sucessivas – incluindo a vitória de Dilma em 2010 e então, só há 18 meses, a reeleição com 54 milhões de votos.

A elite do país, e seus órgãos de mídia, falharam repetidamente nos seus esforços para derrotar o partido nas urnas. Mas plutocratas não são conhecidos por aceitarem gentilmente a derrota, nem para jogar pelas regras estabelecidas. Aquilo que eles foram incapazes de alcançar, e de forma democrática, agora estão tentando alcançar antidemocraticamente: por ter uma mistura bizarra de políticos – de evangélicos extremistas, de apoiadores da extrema-direita de um retorno ao regime militar, de agentes não ideológicos de bastidores – para simplesmente removê-la do gabinete presidencial.

Com efeito, aqueles que lideram a campanha para a destituição e que estão na fila para assumir – notadamente o Presidente da Câmara Eduardo Cunha – estão muito mais implicados em escândalos de corrupção pessoal do que ela está. Eduardo Cunha foi flagrado no ano passado com milhões de dólares em subornos em contas bancárias secretas na Suíça, após ter negado falsamente ao Congresso que tivesse quaisquer contas bancárias estrangeiras. Cunha também aparece nos Panamá papers, um trabalho para esconder seus milhões ilícitos para evitar a detecção e a responsabilidade de impostos.

É impossível marchar convincentemente por trás de um banner de "anticorrupção" e "democracia" quando trabalham simultaneamente para instalar no país mais contaminado por corrupção, e que amplamente não gosta de figuras políticas. Palavras não podem descrever a surrealidades de assistir a votação para autorizar e enviar a cassação de Dilma ao Senado, durante o qual um membro muito corrupto do Congresso, levantou-se para abordar Cunha, proclamando com uma cara séria que votava para remover Dilma devido a sua raiva sobre corrupção.

Como o The Guardian relatou: "Sim!”, votou Paulo Maluf, que está na lista vermelha da Interpol por corrupção. “Sim”, votou Nilton Capixaba, que é acusado de lavagem de dinheiro. “Pelo amor de Deus, ‘sim’!”, declarou Silas Camara, que está sob investigação por forjar documentos e apropriação indevida de fundos públicos.

Mas estes políticos têm exagerado a mão. Nem mesmo no Brasil mestres do universo podem convencer o mundo que a cassação de Dilma é realmente sobre combate à corrupção – seu esquema seria capacitar os políticos cujos próprios escândalos seriam um fim de carreira em qualquer democracia saudável.

Um artigo do New York Times na semana passada informou que "60% dos 594 membros do Congresso do Brasil" (513 na Câmara e 81 no Senado) – as votações para acusar Dilma – "enfrentam acusações graves como suborno, fraude eleitoral, desmatamento ilegal, rapto e homicídio". Por outro lado, disse o artigo, Dilma "é algo de uma raridade entre grandes figuras políticas do Brasil: ela não foi acusada e nem é suspeita de roubar para si mesma".

O espetáculo televisivo estridente do último domingo na câmara dos deputados recebeu atenção mundial por causa de algumas observações repulsivas (e reveladoras) feitas por defensores da cassação. Dentre eles, o proeminente deputado direitista Jair Bolsonaro – estimulado para concorrer à Presidência e que, mostra uma pesquisa recente, é o principal candidato do Brasil mais rico – disse que estava lançando seu voto em homenagem a um coronel que abusou de direitos humanos na ditadura militar do Brasil, e que foi pessoalmente o responsável pela tortura física de Dilma quando ela esteve presa. O filho de Jair, Eduardo, também deputado, orgulhosamente votou em honra dos "homens militares de 64" – aqueles que lideraram o golpe de estado de 1964.

Em última análise, a elite do Brasil político e as empresas de mídia estão brincando com a mecânica da democracia.

Até agora, os brasileiros tiveram sua atenção exclusivamente direcionada para Dilma, que é bastante impopular devido à grave recessão do país. Ninguém sabe como os brasileiros, especialmente os pobres e a classe trabalhadora, vão reagir quando virem deposta sua Presidente recém-empossada: a nulidade pró-negócios, corrupção-manchada de um vice-presidente que, as enquetes mostram, de quem a maioria dos brasileiros quer impeachment.

Mais volátil de todos, muitos, incluindo o Ministério Público e os investigadores da Polícia Federal, que conduziram as perfuratrizes da corrupção, temem que o plano real por trás de cassação de Dilma é para acabar com a investigação em curso, protegendo assim a corrupção, e não punindo. Existe um risco real que uma vez que ela seja cassada, a mídia do Brasil já não será tão focada na corrupção, dissipará o interesse público, e a facção recém-catapultada em Brasília será capaz de explorar suas maiorias no Congresso para inviabilizar o inquérito e proteger-se.

Enfim, a elite do Brasil político e as empresas de mídia estão a brincar com a mecânica da democracia. Isso é um jogo perigoso, imprevisível para jogar em qualquer lugar, mais particularmente numa democracia muito jovem, com uma história recente de instabilidade política e tirania, e onde milhões estão furiosos sobre sua privação económica.

Publicado originalmente no The Guardian, em 21/abril/2016: http://www.theguardian.com/commentisfree/2016/apr/21/dilma-rousseff-enemies-impeached-brazil

Tradução livre do blogueiro.

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5 comentários:

  1. Richard,
    Com tanta polemica e problemas de todos os lados esta' claro que nenhum partido no BR e' santo... Seja la' quem proponha solucoes para o pais deve considerar que para realocar prioridades um novo contrato social deve existir de forma que o pais tenha autonomia para investir e crescer em contraste com uma falsa soberania controlada por banqueiros e uma elite miope (ver exemplo de tal movimentacao no Canada links abaixo e varios movimentos de moedas independentes pelo mundo afora). Tambem miope seria tanto a visao de que podemos fazer reformas sociais duradouras sem novas formas de criar riqueza (empreendedorismo, exportacao, inovacao em alta tecnologia, educacao, saude verdadeira -e nao a manutencao de doencas- reducao de burocracia e impostos de forma inteligente causando menos peso e mais retorno para todos ver Imposto Unico Prof Marcos Cintra online). Tambem miope e' a visao dos que acham que a saida e' a chamada austeridade, a remocao de sistemas de apoio social e desenvolvimento sustentado. O Prof Steve Keen da Universidade de Kingston em Londres tem varias entrevistas online mostrando que o modelo de austeridade nao funciona e mais centenas e centenas de apresentacoes e tutoriais mostrando como sistemas economicos realmente funcionam o que pode ser usado para ajudar na formacao de politicas solidas e criacao de mais prosperidade independentemente do partido ou do presidente desde que nao sejam, junto com o povo, fantoche e escravos dos banqueiros...
    SDS
    Gerson
    ===
    --https://www.youtube.com/user/ProfSteveKeen/videos
    ===
    --https://www.youtube.com/watch?v=aFzke1cCwUg
    DÍVIDA PÚBLICA BRASILEIRA - A soberania na corda bamba - Documentário de Carlos Pronzato
    ===
    --https://www.youtube.com/watch?v=Sutc8vsWygw
    Canadian Bank Reformers - Hon. Paul T Hellyer - Full Speech
    ===
    Canadian Bank Reformers: Home
    --www.canadianbankreformers.ca/
    ===

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  2. Richard!

    Direto e reto. Ótimo artigo, copiado e distribuído.
    Abraço

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  3. Artigo mediocre, que exprime os sentimentos de derrota daqueles que querem implantar em nosso país um regime falido mundialmente. Qualquer pessoa relacionada ao Agronegócio em nosso país, com certeza repudia idéias como a do jovem e tendencioso jornalista. E como sempre (esta gente utiliza sempre os mesmos argumentos) a culpa é das elites brancas e dominantes e que o impeachment (no caso Dilma) é golpe. Enfim, todos tem o direito de se manifestar, mas daí a usar este argumento chulo para defender este governo corruPTo é demais.

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  4. Comentaristas: enfatizo que não publico comentários anônimos, seja a favor ou contra o texto publicado. Recebi alguns comentários, como sempre, porém anônimos. Tenho aberto exceções para publicar comentários anônimos, porém eles não contêm opinião, são neutros, e invariavelmente acrescentam conteúdo ao texto publicado.
    Por favor, identifique-se quando enviar sua opinião, seja a favor ou contra, o anonimato cheira sempre a covardia. O blog é um espaço para debate, é público, e respeita opiniões contrárias, desde que identificados e que não contenham ofensas.

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  5. Ola Richard
    Trabalhei no Mapa com essa turma em Brasilia. Havia a mesma imprensa com o Lula e com a Dilma. Os resultados são diametralmente opostos. O Lula, era um Sindicalista de negociação. Formou um grupo de políticos e técnicos. Saiu e fez sua sucessora. Esta adotou um modelo que exigia veneração de quem não respeita opinião sejam de tecnicos ou que não fazem parte de seu grupinho. Vendia medo dos que iam para suas reuniões. Ficou sursa as boas orientações. O Brasil sabe bem como ela foi reeleita. A mídia era a mesma. Mas, o povo enchegou a falta de empregos, o reinício de inflação sem controle. A corrupção aparece com a Lava Jato. O panelação é ouvido depois das ruas se movimentarem pelas redes sociais. O povo, sem sindicalistas, sem MST, sem UNE, sem movimentos sociais, despertou. Um Governo que perde por 377 à 137 tem o que para gerenciar? O texto que li, não achei conveniente entrar numa ótica que é a mesma daqueles que só enchergam e leem o que querem enchergar e ler. Mas, os fatos, os números, como diziam os antigos, falam por si só. Eu lamento por ter votado nesse projeto da Dilma
    Derli .

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