sexta-feira, 30 de maio de 2008

Analfabetismo gerencial

Richard Jakubaszko 
Estamos em plena era do conhecimento e quem não entender esse aspecto pode ser excluído do mercado de trabalho antes que consiga dizer sazham!
Outro dia fui num evento promovido pela Bunge Fertilizantes, que comemorava seus 70 anos de atividades. Reuniu convidados e personalidades ilustres num fórum de altíssima qualidade. 
Entre os palestrantes Alvin Tofler, John Naisbitt (que foi ministro de John Kennedy), Rubens Ricúpero, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, além do presidente da Bunge, Mário Barbosa. Tudo feito na maior competência por gente, como se diz, do ramo, nas palestras e na organização do fórum. 
Uma questão que me chamou a atenção foi a palestra do futurólogo Alvin Tofler, autor de mais de uma dúzia de livros, entre eles os best sellers O choque do futuro e A terceira onda, e que fez uma análise interessante a respeito do conhecimento no mundo moderno. 
Tofler desenhou figurativamente o conhecimento como um automóvel que segue por uma estrada a 100 km / hora. Há outros automóveis nessa estrada, evidentemente, alguns trafegam a 60 km / hora e podem até atrapalhar a ultrapassagem daquele que está a 100. Alguns concorrentes andam a 80, outros a 50 km / hora. 
Os carros representam governo, consumidores, funcionários, fornecedores, clientes, acionistas, todos em diferentes velocidades, porém, mais lentos. É claro que não é uma estrada comum, mas a estrada da vida, numa competitiva e maluca corrida contra o tempo em que os “vencedores” serão os que estão na frente, ou melhor, aqueles que alcançam maior velocidade. 
Na análise de Tofler a distribuição do conhecimento é desigual, mas isso todos nós estamos carecas de saber. O que me tocou é sobre como, afinal, isso tem a ver com o nosso dia-a-dia e com a nossa vida pessoal e profissional. 
Saí de lá ruminando as idéias e juntei pensamentos e sentimentos meus em relação a isso. Lembrei-me de uma conversa que tive no cafezinho, dias atrás, com um colega lá na redação da DBO, sobre essa questão do conhecer e desconhecer. As chamadas tecnicalidades, as tecnologias, o conhecimento, avançam numa velocidade alucinante, mas a maioria das pessoas parece não perceber isso. 
O exemplo prático estava num colega que tinha uma dor na perna e queria saber que tipo de médico (especialista) deveria visitar. Houve sugestões de visita a um neurologista, outro sugeriu consulta com ortopedista e um terceiro a um fisicultor. Outro ainda resolveu complicar a vida do colega sugerindo um hematologista. Coitados de todos que, se ignorantes sobre as próprias dores, devem descobrir ou adivinhar qual especialista visitar, pois praticamente não existe mais o clínico geral, o generalista, agora todo mundo é especialista. 
Mas que raios de especialistas são esses que conhecem apenas sobre a sua especialidade? Tenho visto profissionais especialistas de medicina, e de outras áreas do conhecimento, cometerem erros absurdos de diagnóstico e, ao mesmo tempo, não darem importância alguma a outros problemas do paciente ou cliente. 
Ou seja, tratam o problema da especialidade deles, pouco importa se o tratamento ou solução dada pode trazer problemas ou efeitos colaterais, ao doente ou à empresa onde trabalha. Não há uma análise sistêmica do problema, olha-se apenas dentro do limitado campo de visão da especialidade. O resto é problema dos outros. O médico especialista preocupa-se em tratar a febre, que é sintoma, e não a causa da febre. 
Nas empresas preocupa-se com suas aspirações íntimas e pessoais, egoístas, com o balanço do trimestre e não com a vida e continuidade da empresa. 
Avancei nos meus pensamentos e me lembrei de uma premissa que pratico comigo mesmo para definir especialistas. Afinal, como se reconhece um especialista, para podermos dizer que o dito cujo merece essa qualificação? Costumo dizer que um especialista é aquele possuidor de conhecimentos numa determinada área que consegue falar ao menos por 15 a 20 minutos com outros especialistas e sem dizer nenhuma bobagem. E ainda deve contar uma ou mais novidades aos seus iguais. 
Bom, talvez esse daí já seja um hiper-especialista, ou no mínimo um cara muito bem informado. De outro lado os não especialistas, se presentes nesse grupo, ficariam sem entender nada, enquanto que se houvesse algum generalista no grupo sairia com o conhecimento ampliado. Isto me levou à conclusão de que há uma carência absoluta de generalistas e excesso de ‘especialistas’. 
É isso, especialistas, porém com limitações. É bom que se entenda que o volume de conhecimentos técnicos e científicos teve uma evolução gigantesca nos últimos 30 anos. A questão é que a velocidade aumenta de forma espantosa. Uma edição dominical do The New York Times tem mais informação e conhecimentos do que um homem do Século XIX conseguiria acumular em toda a sua vida. Os 100 km / hora aludidos por Tofler já é coisa do passado, hoje se anda a mais de 300 km / hora, como na Fórmula 1. E acontecem trombadas cinematográficas pela vida afora. 

E o que é um generalista? 
É alguém com boa cultura e nível de conhecimentos muito acima da chamada média de mercado. Está muito próximo, em conhecimento de algumas questões, aos chamados especialistas. É óbvio que os chamados generalistas, na grande maioria dos casos, são especialistas em alguma coisa, e muitas vezes em 2 ou 3 áreas cruzadas. Profissionais com esse caldo cultural costumam estar à frente de empresas e projetos, e ganham os melhores salários. 
Por exemplo, um médico que é clínico geral, e especialista numa área afim, e ainda com especialização em informática e altos conhecimentos de um idioma, ou mais. Ou agrônomo generalista, especializado em agroquímicos, e com alta tecnologia em herbicidas, com elevados conhecimentos de marketing, informática e com mais um idioma estrangeiro. Vai longe. 
Ou seja, precisa do conhecimento genérico, e tem de ser ainda generalista em cultura geral, música, literatura, cinema, história, tudo isso sem deixar de ser especialista. 
O especialista pode passar pelo vexame do padre que deu uma carona a uma bela freirinha na estrada. A freirinha entrou no carro, cruzou as pernas e deixou mostrar seu belo par. Sentindo-se incentivado o padre colocou as mãos nas mesmas, ao que a freirinha disse: Padre! Lembre-se do Salmo número tal. O padre tirou as mãos e ficou envergonhado. Logo em seguida a freirinha desceu do carro, chegara a seu destino. O padre se foi e ao chegar à paróquia abriu a Bíblia e leu os salmos: estava lá, Salmo tal, “se persistires alcançarás a glória!”. 
Mas a moral da história é melhor que a piada: se não conheceres (olha aí o especialista!) tudo sobre a sua profissão perderás grandes oportunidades... 
Donde se conclui que se o padre fosse um generalista, além de especialista, tiraria melhor proveito da situação, e não perderia o "negócio." 
O especialista no mundo moderno é uma necessidade, e até mesmo uma vantagem competitiva. Mas ser especialista e ao mesmo tempo generalista leva a vantagens competitivas adicionais. 

E o analfabeto gerencial? 
O que existe muito hoje em dia no mercado é analfabeto gerencial. É o especialista que só se preocupa com sua área de conhecimentos e não tem a curiosidade de ver e conhecer outras áreas do conhecimento humano. Será defenestrado do mercado antes de completar 40 anos de idade. Nessa idade já será taxado como antigo e ultrapassado, e será superado e substituído por jovens também especialistas, que aceitam ganhar menos. 
É a regra do jogo. 
Ocorre aí o fenômeno que muitos jovens já conhecem: não arrumam um bom emprego porque não têm experiência. Quando adquirem a tal experiência, e atingem o status de generalistas, já passaram dos 40 e serão “velhos”. E aí não serão mais contratados, mesmo que sejam especialistas e generalistas, porque o jovem especialista que irá entrevistá-lo, de menos de 40, jamais irá contratar um generalista e especialista ‘melhor’ que ele próprio, e tê-lo como subalterno. 
Lembrei de um comentário do jornalista Demétrio Costa, diretor responsável da DBO, que acha enorme graça nos currículos recebidos diariamente, alguns com moderníssimas apresentações nos seus memoriais descritivos, que revelam as geniais e criativas realizações pregressas de seus autores. Isso leva Demétrio a sentir uma tristeza imensa pelas empresas que perderam o talento de tais profissionais em seu quadro de funcionários. 
A situação se  auto-explica porque há tanta gente talentosa sem emprego, e dá razão a alguns empresários que afirmam haver emprego; o que não há é gente com a qualificação necessária. 
Portanto, meus amigos leitores, dediquem-se às especialidades, mas sejam bons generalistas.  
O texto acima é um capítulo resumido do livro “Meu filho, um dia tudo isso será teu”, que se encontra em finalização.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Somos todos culpados

Richard Jakubaszko 
Tenho lido e ouvido bobagens inqualificáveis nos últimos meses que não podem ser chamadas senão de absurdos. Destaca-se entre os absurdos a tentativa européia de colocar culpa na produção de biocombustíveis pela alta dos alimentos. Já se demonstrou cabalmente que, se há responsabilidade dos biocombustíveis nessa inflação, ela deve ser creditada ao etanol que os americanos estão produzindo do milho e não ao etanol da cana-de-açúcar que produzimos no Brasil. 
A questão, entretanto, se torna menor diante de uma série de outros problemas que correm em paralelo e do qual os governos, os organismos internacionais e mesmo a grande imprensa parecem não se dar conta como a causa real dos problemas. 

Trata-se da superpopulação planetária, hoje em 6,7 bilhões de pessoas, ao mesmo tempo em que ocorre a já conhecida “inclusão social” em vários países e regiões do planeta, transformando em consumidores urbanos parte dessa imensa população que antes era rural e produzia alimentos para seu próprio consumo. Há mais de dois anos venho escrevendo sobre isso. Em 15 de agosto de 2007 publiquei em diversos sites, inclusive neste blog, cujo link está na aba lateral, o artigo “O que será do agronegócio daqui a alguns anos”, onde previa com minha “bola de cristal” o futuro aumento dos preços dos alimentos, commodities em especial, e arriscava dizer que o agronegócio teria tempos risonhos pela frente. 

Em dezembro de 2007 The Economist saiu com matéria de capa e a chamada “The end of cheap food”. A partir daí os absurdos nacionais e internacionais se amplificaram. Do lado internacional o absurdo da acusação aos biocombustíveis, esquecendo o tremendo aumento de demanda por alimentos, principalmente o chinês. 

Para piorar a situação os fundos de investimentos descobriram as commodities, um ambiente quase virgem de especulações no fantástico cassino em que se tornou o mundo contemporâneo, com petróleo inflacionado nessa cesta básica de alternativas especulativas, já que a crise do subprime americano limitou o campo de trabalho dos especuladores. 
Seria até desejável que se apresentasse a crise mundial. Em caso contrário teremos situações inusitadas e nunca imaginadas. 
Agricultores no mundo inteiro prepararam-se para plantar mais, seja aumentando as áreas de plantio seja investindo em tecnologias para melhorar a produtividade. A excessiva demanda de fertilizantes gerou um gargalo na produção e oferta destes e os preços estouraram, por absoluta incapacidade de se atender a todos os consumidores. Levará no mínimo 3 anos para que investimentos em novas fábricas e de aumento de capacidade produtiva amadureçam e permitam atender as novas demandas dos agricultores. Portanto, chegamos ao limite dentro das atuais condições de jogo. Como declarou recentemente o Engenheiro Agrônomo Norman Borlaug, Prêmio Nobel da Paz de 1970, “sem fertilizantes é fim de jogo”. 

E nisso somos todos culpados. Até porque, em média, para produtores de milho, soja e trigo, a relação de troca com os fertilizantes ainda é equilibrada, desde que a lavoura esteja perto dos portos. Se estiver lá no fundão do Brasil empata ou dá prejuízo. 
Assim, chegaremos a uma situação inusitada: carestia planetária, falta de alimentos e incapacidade de se produzir mais, com estoques de segurança alimentar cada vez mais baixos. Atingimos neste início de ano os mais baixos estoques de milho, soja, trigo e arroz dos últimos 20 anos. Mas observem que a população mundial teve um aumento considerável de consumidores nesse período, seja por nascimentos, seja por inclusão social, seja por menor mortandade das pessoas, já que a expectativa média de vida aumenta em todo o planeta. Ou colocamos um freio no aumento populacional ou vamos para uma inflação planetária sem precedentes na história humana. Com os atuais contingentes humanos, em todos os continentes, veremos em breve migrações gigantescas por conta de secas e outras intempéries. E isso não é uma previsão fatalista ou catastrófica, e nem tampouco pessimismo. 

O excesso populacional já nos dá pistas no trânsito de cidades como São Paulo, que sempre foi caótico, mas anda insuportável. “Culpa do presidente Lula que propiciou a melhoria de vida das classes C e D, que melhorou a renda e comprou automóvel”. Esse foi mais um dos absurdos que ouvi de um tucano radical esta semana, como se fosse desejável que aqueles trabalhadores permanecessem na pobreza, sem incomodar os ricos e a classe média alta no trânsito. 
O excesso populacional nos dá outras pistas, como a absoluta incapacidade dos governos – federal, estaduais e municipais – de praticar políticas públicas de inclusão social, seja rede de esgoto, água tratada, asfalto nos subúrbios, escolas públicas, hospitais, transporte público e segurança, por absoluta falta de dinheiro. 
A carga tributária já é quase insuportável. Não há e nem haverá imposto suficiente a ser arrecadado para atender essas demandas, nem mesmo para o Bolsa Família, se a população continuar com o atual crescimento populacional. Com crescimento zero se levaria pelo menos uma geração, ou 25 a 30 anos, para colocar o atual contingente de pobres em condições humanas e decentes de sobrevivência. 
Com tudo isso de problema ainda vai haver inflação mundial, mesmo que a taxa Selic nacional atinja níveis preventivos de 40% ou 50% anuais, para regozijo dos especuladores e dos banqueiros nacionais e internacionais. Critica-se a febre (aumento dos preços e falta de matérias primas) como o principal problema e causa da doença que acomete o planeta, seja no Brasil ou nos países do primeiro mundo, esquecendo que a febre não é a causa da verdadeira doença (o excesso populacional), e sim um sintoma de que alguma coisa vai mal. 

O planeta mostra sinais de esgotamento, pelo aquecimento, pela poluição, pela falta de terras ou indisponibilidade de água para plantar mais alimentos, pela previsível e anunciada incapacidade de se produzir mais combustível fóssil como petróleo, carvão e outros minerais, eis que agora temos os fertilizantes na marca do pênalti. Os produtores de milho e soja dos EUA estão usando esterco suíno para substituir fertilizantes na lavoura. Começam a correr atrás do próprio rabo, pois a barriga do porco é o melhor saco para o milho. Um dos dois vai faltar. Sem milho na barriga do porco não vai haver esterco. E sem esterco não vai ter milho. 

E nós na América Latina? 
A economia da América Latina expandiu-se ao ritmo médio de 5% nos últimos 5 anos, mas a China cresce 10% há quase 30 anos. Os índices de crescimento da Índia são de 8% há uma década e os da Europa Oriental, de 6%. Em comparação com outras partes do mundo em desenvolvimento, a economia da América Latina está ficando para trás. Se considerarmos a redução da pobreza o contraste é gritante. 
Na Ásia a parcela da população vivendo na pobreza caiu de 50% em 1970 para 19% hoje, na América Latina, no mesmo período, a redução foi de 43% para 36%, segundo a ONU, e conforme matéria publicada no Estadão, de onde tirei alguns desses dados. Lamento e peço desculpas, mas não anotei o nome do autor. 
Enquanto os países asiáticos e do Leste Europeu produzem engenheiros e cientistas em massa, a América Latina produz apenas psicólogos, sociólogos, jornalistas, publicitários, professores e cientistas políticos, quase todos mal formados. Por que tudo isso é importante? Porque numa economia baseada no conhecimento, não são as matérias-primas que fazem alguém rico, mas os serviços, o marketing e os cérebros. 

Um bom exemplo: de cada xícara de café plantado na América Latina, que os consumidores compram na Europa, menos de 1% do preço vai para os agricultores. Os 99% restantes vão para os que trabalham com engenharia genética, processamento, marketing das marcas, comércio varejista, atacadistas, traders, produção de insumos e outras atividades baseadas no conhecimento que ajudam a produzir uma xícara de café. 
Não será produzindo commodities que vamos tirar a barriga da miséria. Até porque, o horizonte risonho que se mostrava antes aos agricultores brasileiros agora se mostra escurecido pelo encarecimento dos fertilizantes. Não foi à toa a mais recente matéria da The Economist, de abril último: “The silent tsunami”, e que mostra a crise mundial dos alimentos e de como solucionar o problema, e que na opinião deles apenas o Brasil está com o passo certo. 
Somos todos culpados enquanto não fizermos a lição de casa e se não reduzirmos o crescimento populacional. Os governos e a Igreja não tomarão partido nessa briga quixotesca. Pessoas rendem votos e almas a serem cabalados. 
A sociedade e a imprensa devem debater a fundo esse grave e antipático problema, caso contrário a tese de Thomas Malthus prevalecerá. Poderemos chegar, dentro em breve, ao episódio relatado de um otimista que, desejando mexer com os brios de um pessimista radical, lançou-lhe a pior das previsões, a de que no futuro breve teríamos apenas pílulas confeccionadas com estrume humano e animal para nos alimentar. Após pensar por um breve momento o pessimista vaticinou: “um dos dois vai faltar”.