sábado, 30 de maio de 2015

Fifa e CBF: se gritar pega ladrão...

Richard Jakubaszko

Desde que estourou o escândalo das investigações do FBI e da Justica dos EUA, com as prisões de dirigentes da Fifa, e também do ex-presidente da CBF, José Maria Marin, acusados de corrupção e de receber propinas, percebi que eram jogadas políticas transversais, e levariam a um desenlace de proporções gigantescas, com reflexos aqui no Brasil. E tudo o que estamos vendo é só o começo do que vem aí pela frente.

Em minha modestíssima opinião, é estranhíssima (e indevida, até mesmo ilegal) a ingerência americana em organismos internacionais como a Fifa, cuja sede é na Suíça, eis que, absolutamente nada se passou em território americano, nem mesmo houve sonegação ao fisco do Tio Sam. A não ser que já tenham alguma prova da fonte da corrupção, ou seja, do corruptor, que seria, quem sabe, a Nike, gigante americana fornecedora de material esportivo, patrocinadora de muitos times de futebol e de seleções. Mas a Nike nem foi mencionada diretamente nessa história toda, e as alegações americanas para essa atuação dos xerifes do mundo, é de que a sede da Concacaf fica nos EUA (Miami), além de muito dinheiro dessa corrupção ter sido movimentado em bancos americanos. Para os EUA vale as leis deles, aplicadas ao mundo conforme a conveniência deles.

Portanto, os americanos, mais uma vez atacam de xerifes do mundo, atropelam fatos (a corrupção no futebol) fora de sua jurisdição, sem nem gostar de futebol, talvez por desejar enfraquecer a posição da Rússia, que será a sede da próxima Copa do Mundo de Futebol, em 2018, mas é também um membro do chamado grupo dos Brics, que os EUA andam bombardeando. Como se sabe, em política não há coincidências, e não foi mera coincidência a prisão dos dirigentes da Fifa, às vésperas da eleição de Blatter, reconduzido ao cargo pela 5ª vez consecutiva.

Depois das prisões teve o anúncio de que serão "investigados" os processos da decisão da Fifa em levar o próximo campeonato mundial de futebol para a Rússia. Tudo muitíssimo estranho.
Os EUA não aceitaram perder o direito de sediar a Copa do Mundo de 2022 para o Catar, depois de uma eleição atropelada por denúncias de suborno, corrupção e compra de votos.


Na CBF anda rolando um terremoto, quem sabe um tsunami, entre seus atuais dirigentes, pois os ex-dirigentes João Havelange, Ricardo Teixeira e José Maria Marin, deixaram rastros, e se alguém gritar "pega ladrão!" não sobra um, meu irmão, conforme a canção nos informa... Faço votos de que, afinal, isso sirva para fazer uma faxina nos corruptos da CBF.

O atual presidente da CBF, Marco Polo Del Nero, voltou rapidinho da Suíça para o Brasil, mas brasileiros como J. Háwilla, e outros, já estavam mergulhados até  o pescoço nessa sujeirada toda, inclusive com admissão de culpa e devolução parcial de vultosas parcelas de dinheiro da corrupção recebida, e que envolve muita gente poderosa no Brasil, a começar pela Rede Globo e do seu executivo Marcelo Campos Pinto, diretor da área responsável pelas negociações de compra dos direitos das transmissões exclusivas da emissora, seja da Copas do Mundo ou do Campeonato Brasileiro, e da Fórmula 1.

Consta que a empresa Sport Promotion, do empresário José Francisco Coelho Leal, o Kiko (ex-parceiro de Luciano do Valle na Luqui Participações) tem envolvimento. Assim como Kiko, intermediário em associação com a Traffic, de J.Háwilla – nos direitos de transmissão da Copa do Brasil (citada pelo FBI como fonte de propinas), teriam, portanto, ligação direta com a Rede Globo. Vai ser difícil afirmar que "a gente não sabia de nada disso"...

O fato é que os EUA estão determinados a julgar os dirigentes da Fifa e das entidades filiadas, pois a procuradora americana, Loretta Lynch, afirmou que a operação e as prisões na Suíça foi "só o começo". Pretendem agora que a Suíça extradite os dirigentes, 7 dirigentes e 5 integrantes do Comitê da Fifa, para serem julgados em território americano, o que vai gerar uma discussão jurídica e política sem fim, pois a turma presa não é "café pequeno", e vai recorrer. Portanto, o precedente jurídico é interessante.

Os rumos que podem tomar a investigação do FBI contra dirigentes corruptos do futebol mundial, da América Latina e do Brasil, ainda vão trazer surpresas pra muita gente, além de muita discussão política.

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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Embutidos

Ciro Antonio Rosolem *.
Você sabe o que é custo de compliance? Belo nome! Deve ser assim uma coisa como um carrão, caro, vistoso, potente. Ou um novo modelo de colhedeira. Talvez um primo do GPS. Só que é um pouco pior: trata-se dos custos incorridos para cumprir a legislação, seja tributária, trabalhista, ambiental, ou seja, custo “embutido”. Nem sempre levado em conta pelos produtores rurais.

Mas estão lá! A Scott Consultoria estima que pode variar de R$ 150,00 a pouco mais de R$ 500,00 por hectare em produção. Não é pouco. Por exemplo, o custo médio de produção de um hectare de soja para a próxima safra está estimado de R$ 2.700,00 a R$ 3.000,00 pelo Instituto Matogrossense de Economia Agrícola. Ou seja, o custo de compliance representa mais de 5% do custo da soja. Só para lembrar, o custo de consultoria não costuma passar de 3%. Pagamos mais pelos custos embutidos que pelo conhecimento.

Muito bem. Estamos terminando uma safra que foi, no mínimo, emocionante. Os custos de implantação foram em dólares do ano passado, o valor de venda no dólar atual. Os custos estavam muito apertados. Apertados mesmo. Salvos pelo gongo da desvalorização cambial e das produtividades generosas (viva São Pedro!). Mas, e a próxima safra? Com dólar novo, espera-se uma rentabilidade muito baixa. Talvez não suficiente para pagar o arrendamento! Na verdade, a perspectiva não é boa para as duas próximas safras. Como fazer? O preço, por se tratar de commodities, não dá pra mudar. Como cortar custos? Usar menos tecnologia? Isso leva a menor produtividade, e maior custo por unidade produzida, maior prejuízo. Diminuir a área? E como pagar as dívidas que ficaram para trás?

Vejo dois caminhos principais que não são e não devem ser excludentes. É chegada a hora da verdade. Um deles depende só do agricultor. Sabe aquele talhão que sempre produz pouco? Aquele mais arenoso? Está na hora de acabar a brincadeira de produzir em solo sem aptidão para culturas anuais. É melhor não produzir em áreas que resultam em prejuízo. Sempre há uma Reserva Legal ou APP a compensar. Agora é a hora! É hora de jogar na retranca. Empate é bom!

O outro caminho depende de nossos governantes. É passado o tempo de diminuir os custos de compliance. É fundamental adequar a legislação trabalhista à realidade das fazendas. É preciso reestudar a política tarifária. É fundamental que se comece a pagar o agricultor pelos serviços ambientais, de modo a assegurar a implantação da legislação ambiental sem onerar inocentes. É hora de se tomar providências para diminuir drasticamente estes custos “embutidos”, que corroem, como cupim, o interior das finanças do agricultor.

* O autor é Vice-Presidente de Estudos do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS) e Professor Titular da Faculdade de Ciências Agrícolas da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (FCA/Unesp Botucatu (SP).
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quinta-feira, 28 de maio de 2015

O cão robot do Google

Richard Jakubaszko
O Google promete e mostra o cão robot do futuro. Será útil em operações de resgate de vítimas, especialmente em terremotos, ou em locais com perigo de explosão.

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Natureza em delírio

Richard Jakubaszko
Que a natureza é belíssima e fantástica a gente já sabe. Entretanto, em algumas situações, parece que algo de errado aconteceu. Seria assim que a "evolução das espécies" se nos apresenta? Ou algo externo interferiu? Ou o Criador está fazendo novas e talentosas experiências, e abusando da criatividade?
Ou é uma forma de bom humor Divino? Ou seria, apenas e nada mais do que uma manifestação da extraordinária capacidade de adaptação da natureza?
Pelas fotos abaixo, qual a sua conclusão? A natureza tem ética?
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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Vivendo entre os espinhos

Richard Jakubaszko
Não sei qual é o passarinho, mas parece nós, humanos, "vivendo entre espinhos", né não?
Foto enviada pelo amigo Hélio Casale, um cafeicultor preocupado com a importação (adiada...) de café do Peru, e com os preço do café, que são os espinhos dele. Os meus são outros... E o seu, navegante da internet?

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domingo, 24 de maio de 2015

A prova da falta de provas

Janio de Freitas *

As entrevistas dos integrantes da força-tarefa da Lava Jato, para comunicar a denúncia formal contra quatro ex-deputados, confirmam a impressão de que as delações premiadas movimentam muitas acusações e suspeitas, mas não suprem a carência de investigações para produzir provas. E, sem provas, as delações agitam e impressionam, no entanto não superam a sua precariedade para enfrentar as exigências de um julgamento correto.

Não que as acusações aos quatro sejam infundadas. Podem ser em tudo verdadeiras. É mesmo o que sugerem os currículos de Pedro Corrêa e Luiz Argôlo, e ainda as afirmações recentes sobre o ex-petista André Vargas e Aline Corrêa, filha de Pedro. Chega a parecer que foram escolhidos, para inaugurar a galeria dos denunciados, por não provocarem questionamentos às acusações expostas.

O que não diminuiu os pedidos, dos repórteres aos entrevistados, de esclarecimentos e mais pormenores sobre pontos envolvendo as esperadas provas. As respostas não puderam sair da vaguidão. Os procuradores não tergiversavam, foram bastante fracos. Mas as respostas eram "isso [as provas] vai ser apurado durante a ação", "ainda não temos", "estamos buscando", coisas assim.

A pretendida indicação objetiva de prova foi mais insatisfatória. "Deu mais de mil telefonemas" para tal ou qual entidade pode ser um indício, mas, no caso, nada prova. Pior ainda: "Ele tinha entrada na Caixa". Ainda que somadas, constatações assim podem fazer convicção, mas é improvável que façam condenação.

Para uma operação que há um ano e dois meses já punha suspeitos na cadeia, o coletado contra os quatro denunciados e, ao que parece, dos mais fáceis acusáveis é, pelo que foi exposto, muito pouco. A impressão de disparidade entre as delações premiadas prioritárias e as investigações policiais necessárias permanece. Agora, ela sim, com prova.

PERDAS E GANHOS
Tanto o governo Dilma como os que voltam a discutir o "fator previdenciário" não levam em conta a essência desse mecanismo: a injustiça. Ele pune os obrigados a se tornarem trabalhadores mais cedo na vida: exige-lhes, para receber aposentadoria integral, mais anos de contribuição previdenciária do que aos iniciados mais tarde no trabalho. Muitos anos mais, sobretudo, do que o exigido aos que têm meios para estender os estudos em universidade, ou mais ainda.
 

São "benefícios" diferenciados para quem fez o mesmo para recebê-los. E como são os despossuídos a iniciarem mais cedo a vida de trabalho e contribuição previdenciária, a diferenciação de tratamento que os prejudica é uma discriminação social e econômica explícita.

Ficou provada a constância com que os aposentados ainda na meia idade, com aposentadoria integral de homens aos 35 anos de contribuição e as mulheres 30, continuavam trabalhando. E, a depender dos patrões, a contribuir para a Previdência por terem carteira assinada. Isso porque, além do mais, a aposentadoria de trabalhador pela CLT é uma indecente porcaria.

Era a justa aposentadoria proporcional e indiscriminatória, em conformidade com o tempo de contribuição. Fora desta regra, antes do "fator previdenciário" e também com ele, só os funcionários públicos. Os civis, com o privilégio da aposentadoria integral idêntica aos vencimentos. E a mamata das mamatas dada ao militar, de receber como aposentado o soldo próprio do posto superior àquele em que se aposentou.


BEM CLARO
Fernando Henrique em Nova York: "Esses malfeitos vêm de outro governo, isso deve ficar bem claro. Vêm do governo Lula. Começou aí".

Se é para "ficar bem claro", vêm de outro governo, sim. Como disse Pedro Barusco em sua delação premiada e na Câmara, "começou em 1997" na Petrobras do governo Fernando Henrique. Ou o que é dito em delação premiada vale só contra adversários de Fernando Henrique?


* o autor é jornalista
Publicado na FSPaulo: http://www1.folha.uol.com.br/paywall/login-colunista.shtml?http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2015/05/1630009-prova-da-falta-de-prova.shtml

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sábado, 23 de maio de 2015

Lula: "Para quem comeu calango, não é uma 'crisisinha' dessa que vai me perturbar".

Richard Jakubaszko
E Lula ainda fez o desafio: "FHC, conte para o seu neto como foi a sua reeleição."
Será que o FHC vai fazer isso? Ou vai continuar falando mal do Brasil, lá fora, qundo viaja, e aqui no Brasil quando aparece nas TVs nos jornais?
Lula lamentou o pessimismo existente hoje, propalado pela mídia e pela oposição, comentando que "não há país que consiga progredir nesse estado de ânimo. O que eles querem, disse Lula, é o pior. Para eles, quanto pior, melhor".
Para quem tem dúvidas, assista o vídeo e comente aqui no blog sua opinião.

Mas, atenção: NÃO PUBLICO COMENTÁRIOS ANÔNIMOS. E TAMBÉM NÃO PUBLICO COMENTÁRIOS COM BAIXARIAS OU ACUSAÇÕES RAIVOSAS.


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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Carro movido a ar: veja o vídeo!

Richard Jakubaszko
É uma solução tecnológica revolucionária. Não vai interferir nas questões do aquecimento ou das mudanças climáticas. Mas daria às grandes metrópoles do planeta um ar respirável. Resta saber se as pessoas irão abrir mão de possuir carros de luxo, altamente potentes e velozes para ter um veículo de locomoção prático, porém pequeno, apertado, de baixa velocidade.
O vídeo, que me foi enviado pelo ambientalista Gerson Machado, é muito claro naquilo que o automóvel movido a ar pode fazer.

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quinta-feira, 21 de maio de 2015

Como morrem os fascistas


Mauro Santayana *
(Carta Maior) - Um neonazista, veemente antissemita e anticomunista, vivendo em um país da Europa Oriental, vice-líder de uma organização de brutamontes que invadem, uniformizados, bairros de periferia, para desfilar e espancar velhos, crianças e mulheres ciganas - povo profundamente discriminado por essas bandas - descobre, repentinamente, que é judeu, e que sua avó foi prisioneira no campo de extermínio de Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial, onde perdeu boa parte da família.


Ele deixa, então, sua velha vida, abandona aquele que era o seu partido e a sua antiga organização paramilitar, e passa a fazer palestras em escolas de segundo grau, alertando para os perigos da discriminação.


O que é isso? Um conto do escritor alemão Günter Grass, morto há poucas semanas? Um roteiro de Rainer Werner Fassbinder, o diretor de “Berlin, Alexanderplatz”?


Nada disso. Por incrível que pareça - até agora, pelo menos - trata-se de uma história real, a do político húngaro Csanad Szegedi.

Fundador da “Guarda Húngara”, inspirada nas milícias nazistas como as SA e as SS, e até pouco tempo atrás membro do partido de extrema-direita Jobbik, Szegedi foi eleito deputado para o Parlamento Europeu, pregando o ódio aos judeus e aos ciganos, que considerava, como muitos fascistas húngaros consideram, culpados pelos problemas do país.


Com apenas dez milhões de habitantes, a Hungria foi, a exemplo de outras nações que mais tarde pertenceriam à área de influência da URSS, um dos aliados que apoiaram Hitler em uma grande coalizão contra os russos, e enviou, junto com os alemães, um milhão de judeus e ciganos nascidos em seu território, para a morte nos campos de extermínio nazistas, nos últimos anos da Segunda Guerra Mundial.

Szegedi, hoje, converteu-se ao judaísmo, vai à Sinagoga e estuda o Talmude, embora ainda não tenha - segundo o jornal israelense Haaretz - abandonado o hábito de comer salsicha e carne de porco, que adquiriu ao ser educado como evangélico por seus pais.


Não dá para saber, portanto, qual seria sua reação a propósito dos palestinos, como minoria no Oriente Médio, ou ao ter seu casaco puxado por um pequeno mendigo cigano nas ruas de Budapeste.

O importante, em sua história, é como o destino se encarrega, às vezes em irônica vingança, de combater o fascismo - mesmo quando ele reside, eventualmente, dentro de nós - dando ao indivíduo que o carrega um pouco de seu próprio veneno, fazendo com que sinta, em sua pele e carne, o que sentem as vítimas de seu ódio e violência, racismo, sadismo e discriminação.

Na impossibilidade de transformar todos os nazistas, os anticomunistas e os neofascistas, em recém autodescobertos “judeus novos” e netos de prisioneiros de campos de extermínio, o melhor remédio para matar um fascista, sem eliminar, necessariamente, a pessoa que ele habita, é ministrando-lhe a dose certa de dados e de informação.

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura, mesmo que a contrainformação promovida pelo fascismo midiático que tem tomado conta da maioria das redes de comunicação contemporâneas, nas mãos de bilionários como Murdoch, Berlusconi, e Ted Turner - como se pode ver pelo serviço em espanhol da CNN - esteja erguendo muros mais altos e aparentemente mais inexpugnáveis que os inacessíveis paredões de Olimpus Mons, que se erguem no planalto marciano de Tharsis, no maior vulcão extinto do Sistema Solar.

Mais pode a chuva, que cai, durante anos, gota a gota, do que os tsunamis conservadores que tudo arrasam, e, depois que passam, revelam aos povos porque os homens devem se afastar, horrorizados, do fascismo, quando ele aponta, como cabeça de serpente, nos meandros da história, mostrando a terrível essência e a verdadeira natureza do mal.

* o autor é jornalista
Publicado no site http://www.maurosantayana.com/2015/05/como-morrem-os-fascistas.html

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quarta-feira, 20 de maio de 2015

História de crimes e mentiras

Janio de Freitas *
Os 70 anos da vitória dos Aliados na 2ª Guerra coincidem com os 40 anos da derrota dos EUA no Vietnã

Estes dias de maio, há 70 anos, celebravam o fim da Segunda Guerra Mundial com uma euforia a que não faltava indisfarçável sentimento de vingança rancorosa contra a Alemanha e seu povo. Ao passar das semanas e meses, as expressões da alegria se esgotaram e cresceu a ira contra os alemães, com as sucessivas revelações das desumanidades nazistas. Abriam-se para o mundo capítulos terríveis da história dos vencidos, mas se vedavam outros na história dos vencedores, para que permanecessem ignorados pelo mundo.

Não muito depois daqueles dias, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill diria, em discussões sobre um tribunal para os crimes dos chefes nazistas, uma frase franca: "Passamos pelo risco de lá estarmos nós". Churchill escreveu muito sobre a Segunda Guerra, e, com diferentes formas, exprimiu muitas vezes aquela percepção. Foi um dos pontos em que não precisou mentir, como a sucessão dos anos e das revelações mostraria contra muitos outros trechos.

Americanos e britânicos cometeram muitos crimes de guerra, que a historiografia descreve mas não qualifica. Cidades alemãs arrasadas e populações trucidadas por bombardeios aéreos quase sem intervalo, divididos entre a aviação americana durante o dia e os britânicos à noite. O próprio Churchill é duríssimo ao citar a destruição de Dresden e Colônia em sua longa "História da Segunda Guerra Mundial" (oito volumes na edição inicial).

Como responsável pela avaliação, na Alemanha vencida, dos reais efeitos da tática de bombardeios maciços, John Kenneth Galbraith conta em suas memórias as decepcionantes conclusões da investigação. A população civil, e não a indústria foi a mais arruinada pelos bombardeios. Destes, Churchill pôde falar, mas não de um outro.

A cidade inglesa de Coventry foi destruída por gigantesco bombardeio alemão. O primeiro-ministro Churchill estava informado de que haveria o ataque. Não mandou evacuar a cidade, nem outra medida para proteger a população, convencido de que fazê-lo indicaria aos alemães a decifração do seu código. A decisão quase inacreditável só veio a ser conhecida 36 anos depois. Graças a um livro de apenas 200 páginas, mas tão perturbador, da história contada da Segunda Guerra e de muitos dos seus chefes, que um acordo tácito o encobriu tanto quanto possível.

Menino ao tempo da guerra, e desde então apegado ao tema, nos anos 70 e por desfastio passei os olhos em um exemplar -- na seção de livros, claro -- da oficialesca "Time". Era a de 9.12.74. E me surpreendi com a resenha de um certo "The Ultra Secret": o inglês F.W.Winterbotham, ex-piloto e depois integrado ao "serviço de inteligência" da força aérea, aos 76 anos vê-se como último a saber toda a história de um lado secreto da guerra. Decide contá-lo, por instância familiar, para que não se perca. Importar livro com aquele título, na ditadura, daria em aborrecimento. O sociólogo Luciano Martins o trouxe.

Depois de tanta leitura sobre a guerra, tudo iria recomeçar: Winterbotham conta como foi quebrado o código secreto do comando alemão, inclusive o de Hitler, e como uma equipe de cientistas e técnicos, por ele gerenciada nos arredores de Londres, conduziu a finais favoráveis tantos momentos decisivos da guerra. Há pouco, o autor central da quebra do código, Alan Turing, tornou-se assunto frequente na imprensa por ter um arremedo da sua vida contado em filme, mais por sua oprimida homossexualidade que por ser um dos inventores fundamentais do computador.

Todos os grandes êxitos contra os alemães partiram da decifração das ordens, localizações e planos trocados entre os comandos e as forças nazistas. Até a invasão da Normandia foi salva pelo conhecimento prévio das ações inimigas. Mas, nunca perdoados pelos americanos, os ingleses lhes deram as informações sem jamais lhes passarem o sistema de decifração, certos de que fariam alguma asneira. Ainda assim, fizeram: informados, abateram o avião que levava o almirante Yamamoto. Não só sinalizaram a decifração do código, como mataram o principal favorável japonês a um acordo para acabar a guerra.

Os 70 anos da vitória dos Aliados na Segunda Guerra coincidem com os 40 anos da derrota dos Estados Unidos no Vietnã. Esta guerra ainda não tem o seu Winterbotham. Mas desde o primeiro momento tem história tão mentirosa quanto a Segunda Guerra Mundial. E com muito mais crimes de guerra que não tiveram o seu Tribunal de Nuremberg.

Mal começavam as hostilidades, depois ficou provado, aviões dos Estados Unidos despejaram produtos tóxicos que mataram 76 pessoas. O "agente laranja", desfolhante venenoso lançado nas florestas e plantações, ainda faz vítimas. A principal arma de bombardeio foi o napalm, bomba cuja explosão libera uma gelatina em chamas que gruda no corpo e nos objetos. A guerra química é a mais forte proibição da Convenção de Genebra. Os norte-americanos a praticaram em larga escala durante 11 anos.

Foram bonitas as celebrações da vitória feita por mentiras de competência militar. Não se tem notícia das celebrações da vitória vietnamita sobre as mentiras derrotadas.

* o autor é jornalista.
Publicado na Folha de São Paulo

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terça-feira, 19 de maio de 2015

A disputa do pré-sal

Mauro Santayana *
(Hoje em Dia) - Os jornais voltam a anunciar que se discute, dentro e fora do governo, o fim da atuação da Petrobras como operadora exclusiva do pré-sal, com fatia mínima de 30%.

Alegam, entre outras coisas, seus adversários que seria inviável para a Petrobras continuar a explorar o petróleo do pré-sal com a baixa cotação atual do barril no mercado global, quando a produção oriunda dessa área cresceu 70% em março e está em 700 mil barris por dia.

Ora, se a Petrobras, que acaba de ganhar (pela terceira vez) o maior prêmio da indústria internacional de exploração de petróleo em águas marinhas, o OTC Distinguished Achievement Award for Companies, Organizations and Institutions, nos EUA, justamente pelo desenvolvimento de tecnologia própria para a extração do óleo do pré-sal em condições extremas de profundidade e pressão, estaria tendo prejuízo na exploração desse óleo, porque as empresas estrangeiras, a quem se quer entregar o negócio, conseguiriam ter lucro como operadoras, se não dispõem da mesma tecnologia?

Se a Petrobras explora petróleo até nos Estados Unidos, em campos como Cascade, Chinook e Hadrian South, onde acaba de descobrir reservas de 700 milhões de barris, em águas territoriais norte-americanas do Golfo do México, porque tem competência para fazer isso, qual é a lógica de abandonar a operação do pré-sal em seu próprio país, onde pode gerar mais empregos e renda com a contratação de serviços e produtos locais, e o petróleo é de melhor qualidade?

A falta de sustentação dessa tese não consegue ocultar seus principais objetivos. Se quer aproveitar uma “crise” da qual a empresa sairá em poucos meses (as ações com direito a voto já se valorizaram 60% desde janeiro; o balanço foi apresentado com enormes provisões para perdas por desvios de R$ 6 bilhões, que delatores “premiados”, cuja palavra foi considerada sagrada em outros casos, já negaram que tenham ocorrido; a produção e as vendas estão em franco crescimento) para fazer com que o país recue no regime de partilha de produção, de conteúdo nacional mínimo, e na presença de uma empresa nacional na operação de todos os poços, para promover a entrega da maior reserva de petróleo descoberta neste século para empresas ocidentais, como a Exxon, por exemplo, que acaba de perder, justamente para a Petrobras, o título de maior produtora de petróleo do mundo de capital aberto.

Como ocorreu na década de 1990, se cria um clima de terror para promover a entrega de uma das últimas empresas sob controle nacional ao estrangeiro.

Enquanto isso não for possível, procura-se diminuir sua dimensão e importância, impedindo sua operação na exploração de reservas que são suas, por direito, situadas em uma área que ela descobriu, sozinha, graças ao desenvolvimento de tecnologia própria e inédita e à capacidade de realização da nossa gente.

* o autor é jornalista
Publicado no site: http://www.maurosantayana.com/2015/05/a-disputa-do-pre-sal.html
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segunda-feira, 18 de maio de 2015

O pulo do gato da soja

Richard Jakubaszko
Circulando a Agro DBO de maio, recheada de novidades.
No editorial, escrevi:

O Brasil caminha aos trancos e barrancos.
Parece estar sob “nova direção”, desde que se iniciou o segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, eis que o principal partido da base governamental assumiu de fato o poder, diante de uma presidente reeleita por mínima maioria, mas, agora, fragilizado por denúncias nas manchetes, capítulos intermináveis de uma novela repetitiva a que já assistimos em outros momentos históricos da nação, parece capitular ante a coalizão.

Neste clima, o Congresso Federal vota leis e propostas, temas polêmicos são aprovados apressadamente, à revelia de um necessário debate aprofundado.
Exemplos disso são a PEC 215, que transfere do executivo para o legislativo a gestão e responsabilidade pela demarcação de terras indígenas e de quilombolas.

Da mesma forma a lei que terceiriza a contratação de trabalhadores, urbanos ou rurais, sem trazer soluções legais para as diferenças nas formas de trabalho de um e de outro. Ou ainda a votação da chamada Lei dos Caminhoneiros, e pior, o emplacamento de tratores e máquinas agrícolas. A sucessão de vazios legais trará, inevitavelmente, maior insegurança jurídica ao agro.

O governo promete, para 19 deste mês, um Plano Safra com validade para 4 ou 5 anos, a juros compatíveis, e com dinheiro suficiente de crédito agrícola. A conferir, pois.

Agro DBO traz na reportagem de capa, da jornalista Marianna Peres, “A soja abre caminho”, duas questões fundamentais para o agro. De um lado, a discussão técnica mostra o alto nível dos sojicultores do Brasil Central, que exigem melhor padrão técnico das cultivares de soja, eis que os preços deste insumo, incluídos os royalties da biotecnologia, alcançam níveis elevados em descompasso com a qualidade insatisfatória nos índices de germinação. De outro lado, o movimento associativo desses sojicultores, através da Aprosoja, indica que a evolução das espécies, enunciada por Darwin no século XIX, continua a ocorrer ad eternum, pois há um notável crescimento político no debate em questão, e demonstra que há muito espaço para os produtores rurais brasileiros evoluírem e se profissionalizarem, como já fizeram americanos e europeus; assim, é lícito projetar para o agro brasileiro uma competitividade imbatível diante dos concorrentes do hemisfério norte, caso esse espírito associativo prevaleça. Desde a primeira edição da Agro DBO, 12 anos atrás, o associativismo no agro tem sido nossa bandeira para impulsionar os agricultores brasileiros para a modernidade, e o debate técnico e político sobre a qualidade das sementes é exemplo disso.

Que venham outras campanhas!

Agro DBO traz outros temas importantes, como o café de Minas Gerais e sua evolução tecnológica e qualitativa, em reportagem do jornalista Rogério F. Furtado, ou o amadurecimento do uso das terras do Pantanal, em matéria do jornalista Ariosto Mesquita, e a entrevista com o engenheiro agrônomo Orlando Carlos Martins, então presidente do CESB, que profetiza para o Brasil médias de 100 sc/ha de soja para dentro em breve.

Para manifestar sua opinião, envie e-mail para redacao@agrodbo.com.br


Abaixo vídeo no Portal DBO onde José Augusto Bezerra, o Tostão, faz comentários sobre os destaques da edição de maio da Agro DBO:
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