sábado, 18 de agosto de 2018

Juízes de botequim no Supremo

Fernando Brito *  
A Folha de SP, ouvindo em off integrantes do STF diz que “a tendência do Supremo, segundo quatro ministros consultados pelo Painel, é ignorar o documento de colegiado da ONU que prega a manutenção da candidatura de Lula”.

Os juízes dizem que não há efeito vinculante e que a força da declaração do Comitê de Direitos Humanos junto ao Judiciário é a mesma de uma “ata de reunião de condomínio”.

 
Pouco poderia haver de pior que os mais altos magistrados de um país – e agora, na prática, os governantes do Brasil – pensem e falem assim.

Imaginem Maduro, Trump ou Putin produzindo uma comparação destas. Impensável, não é?

 
Tratados internacionais, após internalizados, tem valor supralegal (acima das leis internas) e não é possível a alguém minimamente letrado em Direito chamá-los de “ata de condomínio”.

 
Não se trata sequer de contestar o entendimento de juristas respeitados, de todas as partes do mundo, que não costumar se manifestar à toa, como fazem os nossos, cada vez mais parecidos com uma roda de bar, onde se fala sobre tudo com a pretensão de donos da verdade.

 
Trata-se da manifestação de soberba dos novos senhores da Nação, reis já sem sequer uma Carta Magna, furiosos como a rainha de copas de Lewis Carol, a berrar o “cortem-lhe a cabeça” (de Lula).

 
Ata de condomínio…

 
Assim é para eles o valor de nossos tratados internacionais, a lex mínima do convívio entre homens e nações de todas as partes, de todas as línguas e de todas as culturas.

Todos, menos nós, apenas súditos de Suas Altezas magistrais, que não temos ou devemos ter outra regra senão a de obedecer a seus desígnios.

 
* o autor é jornalista, editor do Tijolaço.
Publicado originalmente no Tijolaço: http://www.tijolaco.com.br/blog/juizes-de-botequim-no-supremo/


PITACO DO BLOGUEIRO:
Charles de Gaulle tinha razão, "o Brasil não é um país sério".
 .

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Fertilizantes: vai atrasar, vai faltar ou vai ficar mais caro?


Richard Jakubaszko 
Entrevistei David Roquetti Filho, diretor executivo da ANDA - Associação Nacional para Difusão de Adubos, que fala ao Portal DBO. A situação é preocupante, pelo atraso nas entregas de fertilizantes, pelo alto custo dos transportes, e pela insegurança jurídica das empresas de fertilizantes, especialmente com o frete de retorno. Muitos produtores podem ficar este ano sem adubo para a safra de verão.


Dia 25 de agosto próximo o ministro Luiz Fux do STF deve dar a palavra final sobre se a tabela em vigor, sancionada pelo presidente na Temer semana passada, afinal, é inconstitucional ou não.
Vai rolar muito debate ainda.
David Roquetti explica na entrevista os problemas dos impactos da tabela dos fretes.


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Ao fazer plantio direto me chamaram de louco

Richard Jakubaszko 
O agricultor Franke Dijkstra, 77, um holandês nato, desde pequeno residente no Brasil, tornou-se um ícone da agricultura brasileira a partir de meados dos anos 1970, junto com Herbert Bartz e Nonô Pereira, quando inovaram e revolucionaram ao fazer plantio de soja e milho na palha, sistema conhecido hoje como plantio direto.
Nesta entrevista para Agro DBO, conduzida pelo editor-executivo Richard Jakubaszko, Dijkstra revela de forma direta os objetivos e as dificuldades enfrentadas naquela época, além de opinar sobre outras questões do agronegócio. Adepto de esportes náuticos, Dijkstra gosta de velejar, aprecia futebol, e torce pela seleção brasileira, mas não tem um time do coração. Foi diretor da Batavo por 12 anos, de 1994 a 2006 com intensa atividade no cooperativismo. Hoje, aposentado, e com os filhos cuidando das atividades a que deu início, Dijkstra tem como paixão da vida, além da família, a agricultura e, em especial, o plantio direto, assuntos sobre os quais ele se dispõe a falar durante horas sem se cansar. Para ele, não se faz nada bem-feito na vida sem conhecimento e paixão.


Agro DBO – São 43 anos de plantio direto. Como foi esse aprendizado?
Franke Dijkstra – Foi a salvação da minha atividade, senão terminava tudo, era como uma espécie de matar ou morrer, tínhamos de correr o risco, não havia opção. Mas me chamaram de louco. Demorou para acreditarem na palha.

Agro DBO – Por que isso, a erosão era o único problema?
Franke Dijkstra – Claro, a erosão estava tomando conta da nossa terra. Sabíamos que tínhamos de mudar. A erosão evoluiu em função da desestruturação do solo. O solo estava degradado, em 9 anos de plantio na minha fazenda, na época com 70 hectares, em que a gente tinha terras cada vez mais fracas pela erosão.

Agro DBO – Sua área de plantio, depois disso, cresceu?
Franke Dijkstra – Hoje estou aposentado, mas entre as terras que meus filhos tocam, mais o genro, temos perto de 2 mil hectares em Carambeí (PR), e na região, tudo em plantio direto, onde plantamos soja, milho, trigo, por vezes cevada, além de várias forrageiras para alimentar o gado leiteiro que a gente cria.

Agro DBO – No início não tinha máquinas para plantar e semear. Como foi isso?
Franke Dijkstra – Não tínhamos nada, saímos do zero, primeiro criamos e adaptamos máquinas na fazenda, dentro do que a gente precisava, fomos inventando e melhorando. Mas isso foi só no primeiro ano, depois disso, no segundo ano a Semeato se interessou e passou a desenvolver uma semeadeira-plantadeira, e a gente acompanhou tudo. Resultou em uma máquina que tinha os discos ondulados, cortava a palha e colocava as sementes em seguida.

Agro DBO – Como foi essa descoberta da palha para segurar a erosão, o que foi que lhe acendeu essa luz?
Franke Dijkstra – Foi a necessidade imperiosa de conter a erosão, e esse problema os americanos também tinham, ouvimos falar, fomos lá olhar, e encontramos na palha um paliativo e depois demos soluções definitivas.

Agro DBO – E como o Senhor vê o plantio direto hoje no Brasil?
Franke Dijkstra – Está avançando muito rápido. Acredito que a safrinha é que impulsionou esse avanço, foi uma das razões mais fortes, no meu entendimento. Porque não tinha como a gente preparar a primeira terra para fazer safrinha, e com isso se observou que as plantas continuavam a crescer na palha, e até melhor, o que fez a cabeça de muitos agricultores para adotar o plantio direto. O que facilitou também é que o agricultor brasileiro não tinha uma tradição antiga, como os americanos, de 4 ou 5 gerações, que sempre preparavam o solo com arado e grade. É uma loucura mudar um sistema tradicional arraigado. Para eles, contrariar a lógica assusta, eles fazem o preparo do solo antes do inverno, e depois precisam do calor na terra para haver a germinação. Isso faz com que eles tenham uma necessidade maior de mexer na terra do que aqui no Brasil, onde não temos a necessidade de arar e gradear o solo para quebrar o congelamento do solo que ocorre no inverno. Vi isso agora, recentemente na República Tcheca, onde eles desenvolveram equipamentos para mexer na terra de 5 a 10 cm de profundidade para permitir misturar bem a palha e poder aquecer o solo na primavera para plantar e ter a temperatura ideal para a germinação.

Agro DBO – Como está o plantio direto no Brasil, comparado a americanos e europeus?
Franke Dijkstra – Quem tem paixão pelo assunto e quer fazer bem--feito, vai para toda parte para ver, aprender e melhorar o que faz. Vi lá, recentemente, solos com grandes problemas de compactação e eles fazem máquinas com 12 até 36 metros, com terraços permanentes, trabalham sempre nas mesmas linhas, para evitar a compactação. Isso facilitou o uso do GPS.

Agro DBO – Mas nós estamos muito mais avançados do que eles em plantio direto.
Franke Dijkstra – Concordo, mesmo nos EUA, nós estamos muito mais avançados do que eles. Ouvi em palestras por lá, de gente que conhece o sistema, em que eles dizem que “temos de aprender com o Brasil, porque lá eles sabem fazer plantio direto”, em função das rotações de culturas e também de culturas de inverno. No sul dos EUA, o plantio direto vai bem; no Kentucky também, apesar de o inverno deles ser mais rigoroso do que o nosso aqui no sul do Brasil. Estive lá, com o Nonô e o Bartz, faz uns 3 anos, quando os americanos completaram 50 anos de plantio direto. Fomos oferecer para a Universidade de Lexington, um busto do Faulkner, que foi o pioneiro e que nos ensinou o abc do plantio direto. Eles entendem que superamos os mestres, porque o clima aqui nos ajuda muito.

Agro DBO – E o ‘seo’ Nonô já se foi… Já o Bartz é brasileiro, mas tem um sotaque de alemão muito forte, enquanto o senhor é holandês e nem tem sotaque…
Franke Dijkstra – (risos) É verdade… Bartz não planta mais nada, agora são os filhos. Eu mesmo estou aposentado e meus filhos tocam o negócio. Transformamos a propriedade numa holding, os filhos arrendam uma parte, o genro uma outra parte, um mexe com máquinas o outro com gado, e os netos futuramente podem arrendar uma parte, ou não, aquele que quiser sair da sociedade os outros podem comprar, tudo isso para não dividir a propriedade. A história mostra que nos EUA tem produtor que chega a arrendar 50 pequenas propriedades para poder plantar em área de bom tamanho, porque esses pequenos não viabilizam mais a propriedade como negócio de plantio, eles ganham mais com o arrendamento do que com o plantio, tudo isso em função da dificuldade de adotar tecnologias em áreas pequenas. Por exemplo, fica quase impossível uma propriedade com 50 hectares poder comprar uma colheitadeira. Se não tiver tecnologia é como jogar dinheiro fora.

Agro DBO – O que o brasileiro faz de errado hoje no plantio direto?
Franke Dijkstra – Falta entrar no sistema de produção, fazendo rotação de cultura. É muita monocultura ainda. Só se faz sucessão, de soja e milho. Mas tem gente que só planta soja, e aí é pior. Tem compactação de solo por baixo da palha, mas esse não é o maior problema, o pior é não ter palha, o que permite a erosão pela água.

Agro DBO – O preço da terra no Brasil hoje está praticamente igual ao do primeiro mundo.
Franke Dijkstra – É verdade, o preço da terra em Campos Gerais (PR) está igual lá fora no Corn Belt, aqui estão falando em R$ 200 mil por alqueire ( = R$ 80 mil por ha). É algo fora de qualquer bom senso.

Agro DBO – O que falta evoluir no plantio direto?
Franke Dijkstra – A capacidade de evoluir está entre as orelhas… Já temos bastante informação, é lógico que sempre tem como avançar mais, dá para melhorar sempre. A agricultura é uma coisa dinâmica, muda todo ano, nunca é igual. Novas doenças surgem, novos problemas, tem que acompanhar e atualizar ou se fica para trás.

Agro DBO – Qual a sua produtividade média em soja hoje?
Franke Dijkstra – Em média 4.700 kg por ha (78 sc/ha).

Agro DBO – E no milho?
Franke Dijkstra – Estamos com 15.300 kg por ha, na safra de verão.

Agro DBO – No concurso de produtividade do CESB este ano o ganhador atingiu 120 sc/ha, e ano passado de 149 sc/ha. Mas os 10 primeiros lugares tinham produtividades superiores a 100 sc/ha. É possível chegar nisso?
Franke Dijkstra – Agricultura é dinâmica. Todo ano é diferente, e é sempre um aprendizado. Este ano, as nossas melhores áreas, as mais planas, tiveram produtividade inferior às das áreas que sempre apresentam baixa produtividade, que é terra arenosa e fraca. Tem a ver com vento, chuvas em demasia, e isso a agricultura de precisão não explica, a gente tem de interpretar as causas. Acho que tivemos excesso de água, e encharcou as raízes. As plantas sabem se defender quando há pouca chuva, elas vão buscar água, mas não sabem se proteger quando há excesso. Eu prefiro menos chuva.

Agro DBO – No início da soja, anos 1970, o produtor plantava em outubro e ia para a praia, voltava em fevereiro para colher, não havia inimigos invasores. Hoje temos de tudo, nematoides, lagartas, insetos de todos os tipos, doenças. O que estamos fazendo de errado?
Franke Dijkstra – Bom, o nematoide se resolve com rotação de cultura e matéria orgânica, isso acaba com os problemas de solo. Agora, a ferrugem da China está ligada ao clima, tem de monitorar, essa ferramenta é fundamental; a mesma coisa com insetos, monitorar e ser rápido na decisão. Hoje em dia tem de ter conhecimento, usar tecnologia, caso contrário não se faz agricultura.

A sociedade tem de fazer escolhas. No ambiente urbano, o homem pode escolher se morre intoxicado aos 90 anos ou morre de fome aos 40.

Agro DBO – Antigamente se dizia “meu filho, vai estudar, senão você tem de ficar na roça”. Hoje se diz “meu filho, estuda pra arrumar trabalho e renda na roça”. Mudou, não é?
Franke Dijkstra – É verdade. Uma vez um vizinho foi pra praia e deixou o cunhado dele pra cuidar da soja. O cunhado tinha cerveja na geladeira, abusou dela, e esqueceu-se do resto. Um vizinho avisou “as lagartas já estão no vizinho, estão pedindo carona na beira da estrada”, mas ele não deu bola. Perdeu quase tudo. Na época eu tinha um plantio de milho nas bordas, nem pulverizei, tinha rotação de cultura, e as lagartas da soja não se adaptaram ao novo microclima, e não vingou o ataque das lagartas, porque o microclima era outro. Normalmente, quando está seco, o ataque das lagartas é severo. A lagarta avança na pobreza. Quando a planta está sadia ela resiste melhor aos ataques dos inimigos. E planta bem alimentada se defende melhor ainda. Esse equilíbrio é fundamental.

Agro DBO – Tem uma nova linguagem hoje, a agricultura orgânica. Dá para fazer agricultura orgânica em grãos?
Franke Dijkstra – Dá, não é? Só que vai comprometer o solo. O nosso solo não resiste, é muito frágil. O maior pesticida para as nossas lavouras ainda é o arado, que é um predador do solo. Na economia de escala é impossível. Um ataque de lagartas, num ambiente seco, não se faz controle organicamente disso, só se tiver chuva forte, e tem de ter muito inimigo natural.

Agro DBO – Qual a seria a opção?
Franke Dijkstra – A sociedade humana no ambiente urbano tem de fazer escolhas, pode escolher morrer intoxicado aos 90 anos, ou morrer de fome aos 40. Não há opção. Vai faltar comida, ninguém faz milagre. Hoje temos pelo mundo afora falta de área para plantar.

Agro DBO – Portanto, temos de melhorar o que se faz na agricultura. Qual o combustível para isso?
Franke Dijkstra – Ou se faz isso por dinheiro, para ganhar, ou pela paixão pela agricultura. Ainda acho que o melhor insumo é a paixão pela atividade, para fazer a coisa andar tem de gostar. E tem de dividir com os outros, com os vizinhos, os amigos, sozinhos não fazemos nada. O Nonô já se foi, mas ele sempre dizia um ditado holandês: “ninguém é insubstituível. E os cemitérios estão cheios de insubstituíveis”.


Entrevista publicada originalmente na revista Agro DBO, edição nº 102, agosto 2018. Proibida a reprodução sem a autorização expressa dos editores.
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quarta-feira, 15 de agosto de 2018

A Veja e seu “ardiloso” Lula

Fernando Brito *
A imprensa brasileira é impressionantemente mesquinha, mas a moribunda revista Veja chegou a um nível de “panfletagem política” que chega a dar vergonha.

O ex-presidente Lula foi objeto de um processo mambembe, desmembrado de outro onde todos foram absolvidos, conduzido pela polícia para interrogatório sem sequer ser intimado antes, condenado pela “propriedade” de um apartamento sobre o qual não se achou um papel que indicasse ter recebido ou sequer as suas chaves, imóvel que teria sido obtidos por atos de corrupção que não se consegue dizer em que contratos se deram, por um juiz que nem mesmo disfarça seu ódio político. Depois, em marcha batida, passando à frente de outros processos, três desembargadores ampliam a condenação, sob a carícia do presidente da Corte, que dizia ser a sentença “perfeita” mesmo antes de ser a ela oposto recurso. Pede-se um habeas corpus no Supremo e ele é derrotado por um único voto, justamente de uma que diz ser contra a prisão, mas que vota a favor pelo “princípio da colegialidade” e acompanha uma maioria que só se faz com o seu próprio voto!

Pois não é que depois de tudo isso, a Veja dá capa – aliás, capa “furrequinha”, seja porque não querem publicar a foto do Lula, seja porque já demitiram o capista – ao que seriam as “artimanhas de Lula” para poder ser candidato – o que afinal, pode, até que se julgue o contrário. E descreve os que chama de “ardis” preparadas pelo ex-presidente, reduzido ao silêncio e a poucos contatos em sua cela em Curitiba.

E quais seriam os “ardis ardilosos do ardiloso”?

O primeiro – e mais grave – ser candidato, o que, até que a Justiça o proíba, é direito de qualquer cidadão, ainda mais se tratando de um cidadão que lidera todas as pesquisas de opinião.

Em seguida, ter retirado um recurso do qual todos sabem estava se servindo o Sr. Edson Fachin para dar-lhe uma “pernada” e declará-lo inelegível.

Mas isso não é tudo: Veja o “acusa” de estar usando todo o prazo legal para apresentação do pedido de registro de sua candidatura. Ora, se o prazo está na lei, é “ardil” usá-lo? Você pode ser acusado por deixar para entregar sua declaração de Imposto de Renda no dia 30 de abril, último dia do prazo legal?

Os próximos ardis também são de prazo: prazo de impugnação, prazo de defesa, prazo de julgamento, prazo de recurso…

O “ardil” passa a ser “aproveitar-se” do que está na lei, antes e muito antes de que todo este imbróglio começasse.

Lula, logo ele, é acusado de “politizar o processo”, processo que é político desde o seu nascedouro.

A Veja fala que Lula usa um “almanaque jurídico” para manter seu nome “vivo no imaginário do eleitor”.

Mais um, é claro, exemplar do “jornalismo Chico Xavier” do qual falei ontem aqui, que trata os fatos – e as leis – como irrelevantes, pois tudo ocorre em função das intenções dos personagens.

O mote para matéria jornalística de verdade está na matéria – porque é que, depois de três anos de pauleira na mídia, duas condenações e uma prisão de quatro meses, o nome de Lula permanece “vivo no imaginário do eleitor”.

Mas isso, claro, não vem ao caso, a não ser para dizer que, durante oito anos, Lula dedicou-se à artimanha de ser querido pelo povão.

* o autor é jornalista, editor do blog Tijolaço.
Publicado originalmente em http://www.tijolaco.com.br/blog/a-veja-e-seu-ardiloso-lula/


terça-feira, 14 de agosto de 2018

Menino africano de 11 anos cria sistema que afugenta leões do curral

Richard Jakubaszko 
É uma ideia simples e genial, como todas as grandes ideias. O garoto Richard Turere, do Quênia, na comunidade Maasai, tinha a tarefa de cuidar do gado da família, mas os leões da região abatiam uma ou duas reses por semana, sempre à noite. Muitas vezes também atacavam membros da família de Richard. Ele criou então um sistema que faz os leões não se aproximarem, como pode ser visto em uma palestra proferida pelo garoto no TED, no vídeo abaixo, legendado em português:
O vídeo me foi enviado pelo amigo Odo Primavesi, lá de São Carlos (SP)

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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As figuras referenciais no reino da hipocrisia

Luís Nassif *
Uma análise histórica das crises nacionais revelaria o seguinte

1. Fases de turbulência e de perda de referenciais. Morre o velho sem o que o novo tenha sido criado, gerando a grande crise.

2. Em períodos de estabilidade, o processo de criação de reputações é lento. Na transição, especialmente quando surgem novas formas de comunicação – como o rádio, nos anos 20, e as redes sociais, agora – a construção de reputações muda de padrão. Surgem novos personagens, dando um bypass nos caminhos tradicionais, esboroando a hierarquia anterior e abrindo espaço para novas celebridades.

3. Sem referenciais, há uma disputa selvagem pelo novo protagonismo. É a chamada síndrome da teoria do caos. Se o caos é completo, sem nenhuma espécie de pré-requisitos, se não é mais pré-condição a erudição, os diplomas, a hierarquia, a biografia, porque não eu, Zebedeu? A meritocracia entre juízes, procuradores, delegados em geral, Ministros do Supremo não se dá mais no terreno especializado das respectivas corporações, mas na qualidade de aparecer na mídia.

4. Esse processo se torna mais agudo devido à crise de confiança na racionalidade que supostamente imperava no mundo que acabou. Hoje em dia, um meme de rede social vale mais do que a verborragia – muitas vezes vazia – dos velhos personagens.

5. Em algum momento, novos valores se consolidarão, como os positivistas gaúchos nos anos 30, o MDB dos anos 80. Haverá uma reorganização inicial no mercado de ideias, uma reconstrução penosa de valores, que, pouco a pouco, irão entrando pelas instituições, criando um novo normal até a crise seguinte.

Na transição, mais do que em qualquer outro, as figuras referenciais se tornam imprescindíveis. Cada instituição precisa do seu estadista, da sua figura referencial que impeça o esboroamento dos valores constituídos ao longo de décadas.

A figura referencial precisa ter historia coerente, clareza sobre o chamado interesse público ou nacional; desprendimento para não se contaminar pelo oportunismo, grandeza para sobrepor os princípios ao lero-lero do dia a dia e coragem para investir contra a voz da besta.

O Brasil anda tão carente dessas figuras que ontem Elio Gáspari tentou transformar Rosa Weber, a frágil Rosa Weber, em um monumento de solidez. Por falar pouco e ter tido a suprema coragem de derrubar a sentença de um juiz de 1a instância, nos cafundós do país, pretendendo impedir que os serviços públicos atendam venezuelanos no país.

Eça de Queiroz consagrou personagens que falavam pouco - e nada diziam. Gaspari acredita piamente silêncio dos acacianos.

Como jabuti não sobe em árvore é de se indagar qual o condicionamento pavloviano que se pretende impingir na frágil Rosa. Porque nesses tempos de perda de rumo, de alarido infernal, o exercício predileto de alguns colunistas e veículos é o direcionar votos de Ministros. É o que explica Merval Pereira, a voz mais oficiosa dos Marinhos, requerer o cancelamento da inscrição do PT nas próximas eleições.

E não são apenas os tribunais que seguem o clamor das ruas e os ventos medievais.

O MPF tem uma luta épica histórica contra a lei da anistia. O combate à tortura deveria ser cláusula pétrea em sua hierarquia de valores. No entanto, há procuradores na rede enaltecendo Brilhante Ustra, o mais notório dos torturadores. E nada acontece, sequer a censura moral de seus colegas, muito menos sanções dos conselhos de classe.

Entrou-se definitivamente no reino da hipocrisia, que marca a última etapa da transição.

No Supremo, bravos Ministros votam em defesa da Constituição, desde que haja garantia de maioria para os votos em favor do golpe.

Esse mesmo jogo de cena se dá nos inquéritos da Procuradoria Geral da República.

O caso da conta de Aécio Neves em Liechtenstein está na PGR desde 2010. Mesmo com a lista da Odebrecht, com a delação detalhada de como recebia as propinas de Furnas, o então PGR Rodrigo Janot recomendou o arquivamento da denúncia, enquanto investida destemidamente contra Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann.

Apenas após o grampo da JBS, Janot solicitou acesso à conta, através da cooperação internacional.

Semana passada, a Policia Federal apresentou seu inquérito sobre Aécio, sem levantar uma prova sequer. Em função disso, o Ministro Gilmar Mendes arquivou o inquérito.

Em seguida, a PGR cumpriu burocraticamente sua missão de questionar o arquivamento, argumentando que a PF não tinha provas porque ainda não consultara a conta. E a decisão de Gilmar proibia de consultar. Não explicou porque a conta jamais foi entregue à PF antes da decisão e Gilmar. E porque a Globo é mencionada em inquéritos da Espanha, Suíça e Estados Unidos sobre os escândalos da FIFA, e continua imune à ação do MPF.

Muitas vezes, vozes sensatas se indagam a razão desses personagens não zelarem por sua biografia. É que eles não têm o menor sentimento de história, de país, da própria instituição. É como se pudessem entrar na próxima etapa vitoriosos e, portanto, com a sua biografia zerada, da mesma maneira que os Ministros que julgaram Olga Benário ou os coronéis que conduziam os IPMs da pré-ditadura.

Esse jogo de cena é mantido pela Associação Nacional pela Hipocrisia, um órgão supra-institucional que se garante pela máxima “sou, mas quem não é?”.

Chegará o momento em que a bolha será furada. E aí, será possível que, 25 anos depois, se ouça alguma autocrítica, sincera como foi a da Globo sobre o apoio à ditadura.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN.
Publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/noticia/as-figuras-referenciais-no-reino-da-hipocrisia-por-luis-nassif
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