segunda-feira, 1 de junho de 2020

Parceria Brasil-China para a segurança alimentar


Marcos S. Jank *
Pei Guo **
Silvia H. G. de Miranda ***
Nos anos 1970 o Brasil e a China, as maiores economias da América Latina e da Ásia, iniciaram reformas que colocaram os dois países entre os quatro maiores produtores e exportadores mundiais de produtos agropecuários e alimentos.

Em 1978 Deng Xiaoping iniciou reformas que levaram mais de 200 milhões de chineses a deixar a zona rural para trabalharem nas novas manufaturas do país, formando a maior classe média emergente do planeta. Isso permitiu que a agricultura chinesa se modernizasse, incorporando tecnologia, insumos modernos e escala de produção. Ao mesmo tempo, sabiamente o país decidiu se especializar em atividades intensivas em mão de obra, como aquicultura (pescados) e hortifrutigranjeiros, hoje os setores mais dinâmicos da pauta de exportações agrícolas da China. Mais tarde, o impacto da chamada indústria 4.0 sobre as cadeias agroalimentares chinesas ficou evidente, levando digitalização, drones, estufas flexíveis, inteligência artificial, robótica e comércio eletrônico para o campo.

Nesse mesmo período o Brasil descobriu a fórmula para vencer as dificuldades da produção agrícola em regiões tropicais dominadas por solos pobres e pragas abundantes. A solução veio da combinação de tecnologias inovadoras e agricultores capacitados que migraram para os cerrados do Centro-Norte do País, ganhando produtividade e combinando economias de escala (grandes propriedades) e de escopo (duas safras por ano, integração lavoura-pecuária). O Brasil especializou-se em atividades intensivas em terra e capital, a exemplo do complexo integrado de produção de grãos e carnes e da produção eficiente de açúcar, etanol e bioeletricidade de cana-de-açúcar.

As profundas transformações do Brasil e da China se casaram em 2000, quando a demanda explosiva por proteína animal (carnes, pescados e lácteos) da classe média emergente chinesa se encontrou com a imensa oferta de soja do cerrado brasileiro. A soja, uma planta originária da China, é a principal fonte de proteína da alimentação animal.

De 2000 a 2020 as importações chinesas saltaram de 2% para 35% da pauta exportadora do agronegócio brasileiro, tornando a China, de longe, a principal cliente global do Brasil. O agronegócio responde por metade das exportações totais do Brasil para a China.

No sentido inverso, o Brasil tornou-se o principal fornecedor de produtos agropecuários para a China, respondendo por 20% das importações do país asiático e ocupando o primeiro lugar nas importações chinesas de soja, celulose, açúcar, algodão e carnes bovina e avícola.

O comércio do agronegócio decolou entre os dois países, mas muito ainda pode ser feito para ampliá-lo nos dois sentidos, aumentando volumes e diversificando e diferenciando os produtos comercializados. Mas o comércio não é tudo. Há imensas oportunidades para maior cooperação entre os dois países em áreas como investimentos, infraestrutura, sustentabilidade, ciência e inovação.

A China poderia beneficiar-se dos conhecimentos sobre tecnologia tropical brasileira na agropecuária e em bioenergia, principalmente em etanol combustível. O Brasil poderia conectar-se à revolução digital, de drones e do comércio eletrônico da China. O Brasil carece de capital e investimentos na agricultura e de melhorias na infraestrutura de apoio ao setor. Os dois países enfrentam grandes desafios no tema da sustentabilidade: o Brasil, nas questões ligadas a desmatamento ilegal, biodiversidade e uso da terra; a China, em temas como falta de água, degradação de solos, poluição do ar e mau uso de pesticidas.

O tema da sanidade e segurança do alimento tornou-se central neste momento de pandemia global. As cadeias da proteína animal dos dois países poderiam estar mais integradas, com a construção de uma sólida parceria estratégica de longo prazo no setor.

Os temas acima listados fazem parte do livro Parceria Brasil-China para a Agricultura e a Segurança Alimentar (China-Brazil Partnership on Agriculture and Food Security), que será lançado na próxima semana pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz (Esalq-USP) e pela China Agricultural University (CAU), sob a nossa coordenação.

São 12 capítulos em inglês que trazem análises e perspectivas chinesas e brasileiras de 24 especialistas ligados às duas universidades. O livro analisa a evolução da agricultura e das políticas agrícolas nos dois países, os casos de maior sucesso internacional e uma ampla discussão sobre temas-chave da relação bilateral, como comércio, infraestrutura, investimentos, inovação e sustentabilidade.

O lançamento será feito por meio de um debate virtual organizado pela Esalq no dia 3 de junho às 10 horas, em seguida será posta à disposição a versão eletrônica do livro para download gratuito. Trata-se provavelmente da mais completa obra já produzida sobre as relações Brasil-China no agronegócio.


* Marcos Sawaya Jank é professor de agronegócio global do Insper e titular da Cátedra Luiz de Queiroz da Esalq-USP.
** Pei Guo é professor titular e ex-reitor da Faculdade de Economia e Administração da China Agricultural University (CAU).
*** Silvia H. G. de Miranda é professora associada e vice-diretora do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da Esalq-USP.



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domingo, 31 de maio de 2020

Todos os Zeros conduzem ao Um


Fernando Brito *
 

O presidente que se elegeu em nome da “Família Brasileira” está – que ironia! – desesperado com a ameaça de que venha a cair por causa da família, a família dele.

Logo após fechadas as urnas, a imagem do clã Bolsonaro começou a trincar, com as “rachadinhas” de Flávio, o Zero Um.

Agora, o Zero Dois, Carlos, e o Zero Três, Eduardo, estão encrencados com a Justiça; o primeiro, com a rede criminosa de Fake News – da qual sempre foi o general – e o segundo pelas manifestações golpistas que, como a de “um cabo e um soldado”, que deixaram de ser consideradas, óbvio, excentricidades imaturas.

Em condições normais, claro, seria absurdo inculpar alguém pelos atos dos filhos.

No caso de Jair Bolsonaro, porém, os filhos são a mais expressa tradução do que significa o pai e é por isso, mais do que por amor paternal, que ele reage com tanta agressividade e descontrole aos processos nos quais seus rebentos estão envolvidos.

No Estadão, explicita-se o que se já se percebera aqui:

Comandante do “gabinete do ódio”, Carlos não foi alvo da operação da Polícia Federal ocorrida na quarta-feira por determinação do relator do inquérito das fake news, ministro Alexandre de Moraes. A ofensiva, considerada “abusiva” pelo Palácio do Planalto, resultou na apreensão de documentos, computadores e celulares em endereços de 17 pessoas suspeitas de integrar uma rede de ataques a ministros do STF e na convocação de depoimento de oito deputados bolsonaristas.
A expectativa de integrantes do STF é a de que, se em um primeiro momento Moraes optou por focar nos tentáculos operacionais do “gabinete do ódio”, o filho do presidente da República deve ser atingido já na etapa final do inquérito, com o aprofundamento das investigações.
Ontem, o ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, enviou ao procurador-geral da República, Augusto Aras, um pedido de investigação sobre Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) por “incitação à subversão da ordem política ou social previsto na Lei de Segurança Nacional”, por sua pregação golpista, o que vai exigir mais uma “saia justa” ao desgastado Augusto Aras, posto nu na praça com o aceno presidencial de uma cadeira no STF por sua sabujice.

Vai se fechando um evidente cerco sobre o presidente e isto logo chegará também ao Congresso, que não é, com certeza, adepto de abraços de afogados.

Todos já perceberam que os filhos são os mais frágeis portões do Palácio.

* o autor é jornalista e editor do blog O Tijolaço.
Publicado em http://www.tijolaco.net/blog/todos-os-zeros-conduzem-ao-um/


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sábado, 30 de maio de 2020

Melhores fotos do ano

Richard Jakubaszko  
Fotos falam por si, vemos e percebemos o que significam, são belas, criativas, dramáticas, violentas, filosóficas, humorísticas, naturais, tristes, sensíveis, traduzem alguns de nossos sentimentos, humanos e divinos.
 















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sexta-feira, 29 de maio de 2020

Cerveja ruim e ano ruim

Richard Jakubaszko  
Só podia dar nisso, bem que eu estava desconfiado, só não liguei uma coisa com a outra, eita ano, é do estrupício...
Concordo com o Eduardo Daher, que mandou este meme ao blog.




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quarta-feira, 27 de maio de 2020

Mergulho na recessão brasileira

Richard Jakubaszko  
Abaixo análise ponderada da MacroSector, liderada por Fábio Silveira, sobre o mergulho previsto para o Brasil na recessão econômica.







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domingo, 24 de maio de 2020

Morre o professor Alfredo Scheid Lopes, aos 82 anos


Richard Jakubaszko  

A Universidade Federal de Lavras (UFLA) comunicou hoje e lamentou o falecimento do professor emérito Alfredo Scheid Lopes, mais conhecido como Alfredão, em razão de sua altura, de 1,94 metros. O falecimento ocorreu no sábado (23/5) e o sepultamento ocorreu neste domingo (24/5), às 10h, em cerimônia reservada apenas a familiares próximos. O professor, que atuou no Departamento de Ciência do Solo (DCS), foi vítima de um câncer, diagnosticado já em estado avançado.

Alfredão ingressou no quadro de servidores da UFLA em 1962 e aposentou-se em 1990. Realizou o estudo pioneiro em solos do Cerrado brasileiro, nos anos de 1970, que permitiu o aumento da produção agrícola e é considerado uma das maiores conquistas agrícolas do século 20, conforme o também engenheiro agrônomo Norman Bourlag, Prêmio Nobel da Paz. A constatação do professor Alfredo de que era possível e necessário o estabelecimento de estratégias de manejo da fertilidade dos solos no bioma “Cerrado”, para torná-los produtivos, veio durante o mestrado em Ciências do Solo, na Universidade da Carolina do Norte (EUA).

Para chegar a essa conclusão, o jovem professor havia percorrido uma área de mais de 600 mil quilômetros quadrados de solos sob vegetação de cerrado, avaliando 518 amostras, em um estudo completo que ficou conhecido pelo pioneirismo na verificação do grau de “infertilidade” dos solos dessa região. O estudo teve continuidade e aprofundamento durante o doutorado, de 1975 a 1977, na mesma universidade americana, com o resultado publicado em periódicos nacionais e internacionais de referência na época.

Logo após a formatura, em 1962, tornou-se docente, fazendo sua carreira em Fertilidade e Manejo de Solos, área na qual desenvolveu mais de uma centena de trabalhos e é referência, tendo recebido dezenas de prêmios e títulos em todo o mundo. Um deles concedido pela UFLA: o de professor emérito da Universidade desde 1993.

Entre as histórias mais marcantes vividas pelo professor, está a da federalização da ESAL, efetivada em 1963. Na época, a Escola sofreu a ameaça de ser fechada por emissários do Governo Federal. Após uma série de reuniões com docentes, servidores e autoridades lavrenses, a comitiva mudou de ideia e decidiu pelo não fechamento da Escola, defendendo medidas para transformá-la em instituição federal.

De acordo com Alfredão, esse processo não foi fácil e afetou o funcionamento da Escola. “Quando os trâmites tiveram início, éramos 19 professores e 35 funcionários para atender 120 alunos. Durante dois anos nós tivemos que trabalhar sem receber salário algum para que ela não fosse fechada. O que fizemos foi realmente por muito amor à ESAL”, contou o professor.

Mesmo aposentado, continuou ativo e realizando trabalhos importantes na área. Em 2016, foi convidado pela renomada revista Advances in Agronomy para fazer uma releitura de sua tese de mestrado, desenvolvida há 40 anos, quando estudou na Universidade da Carolina do Norte (EUA). Em 2017, traduziu dois livros da área e lançou a quarta edição do Guia de Fertilidade do Solo – a primeira versão data de 1992, ainda em sistema DOS.

Toda a sua produção científica está disponível no site ( www.alfredao.com.br ), no qual também apresenta seus hobbies, como música e artesanato, conquistas no esporte (foi campeão olímpico de salto) e histórias curiosas que se divertia ao contar. É o caso do dia em que enfrentou o jogador Pelé, em 1957, pelo Fabril Esporte Clube de Lavras: “Era a primeira vez que o Pelé jogava pelo Santos em Minas Gerais. Perdemos de 7 a 2, com quatro gols do Pelé. Meus amigos me perguntam se eu ainda estou procurando o jogador. Mas pelo menos consegui fazer os dois gols do meu time”, revelou Alfredão.

Mesmo sem vínculo formal com a instituição, Alfredão era sempre encontrado na UFLA, no DCS, traduzia artigos, esclarecia dúvidas e motivava os alunos. Sobre sua missão na Universidade, era categórico: “Quando me aposentei há 24 anos, senti que ainda tinha condições de produzir e ser útil nas coisas em que acredito, como a formação dos acadêmicos. Às vezes, em uma conversa com o aluno, esclareço uma dúvida e consigo motivá-lo a seguir em frente. A UFLA é para mim um grande amor à primeira vista, que só se perpetuou”.

Nas festividades pelos 111 anos da UFLA, Alfredão contribuiu na série de vídeos "Memórias UFLA". Assista: https://youtu.be/GSnnKl8jHrU

Série completa: http://www.eventos.ufla.br/aniversario/111anos/programacao/2-uncategorised/8

O professor Alfredo Scheid Lopes nasceu em Mindurí, MG, em 19/12/1937, último dos oito filhos de Antonio de Araújo Lopes e Alexandrina Scheid Lopes. Engenheiro Agrônomo pela ESAL (Escola Superior de Agricultura de Lavras) em 1961; Mestrado e PhD pela Universidade Estadual da Carolina do Norte, Estados Unidos, em 1975 e 1977, respectivamente.

Foi professor de Fertilidade e Manejo de Solos dos Trópicos na ESAL (hoje Universidade Federal de Lavras - UFLA) desde 1962. Autor de 86 trabalhos científicos publicados no Brasil e no exterior, 56 trabalhos publicados em congressos, 9 livros, sendo 3 como coautor e 6 livros como primeiro autor - com destaque para o primeiro livro eletrônico em Ciência do Solo no Brasil (Guia de Fertilidade do Solo - Versão 3.0), duas traduções de livros, 27 capítulos de livros no Brasil e no exterior, 52 boletins técnicos, além da edição de 6 livros de outros autores. Suas duas últimas publicações mais relevantes são o Guia de Fertilidade do Solo, versão 4.0, atualizada e ampliada, agora on-line.

O professor Alfredo Scheid Lopes foi colaborador assíduo da revista Agro DBO, publicação mensal de agricultura da DBO Editores Associados, desde suas primeiras edições, a partir de 2003.

Mais informações em www.alfredao.com.br






sexta-feira, 22 de maio de 2020

Aprovação de Bolsonaro derrete com a pandemia, agora tá 58% ruim/péssima

Richard Jakubaszko   
Pesquisa de opinião realizada pela XP Ipespe mostra o índice de desaprovação da população com Bolsonaro. Na condução da crise há 58% de ruim e péssimo, e vai piorar porque o pico da pandemia ainda está a caminho.

Pesquisa XP com a população

A rodada de maio da pesquisa XP Ipespe, concluída nesta terça-feira, mostra uma tendência de aumento na reprovação ao presidente Jair Bolsonaro e de redução na sua aprovação. O grupo que considera o governo bom ou ótimo oscilou de 27% na rodada concluída em 30 de abril para 25% agora, enquanto os que avaliam a gestão como ruim ou péssima foram de 49% para 50%. No levantamento anterior, de 24 de abril, os números eram 31% e 42%, respectivamente. Na mesma linha, também se deteriora a expectativa para o restante do governo, que agora é 48% negativa e 27% positiva, ante 46% e 30% em abril.

Movimento semelhante acontece na área econômica, em que o grupo que avalia que a economia está no caminho errado saltou de 52% para 57%, enquanto os que veem a economia no caminho certo passaram de 32% para 28%. Ainda, 34% afirmaram que alguém em seu domicílio já recebeu o beneficio emergencial de R$ 600 e outros 14% afirmaram que ainda vão receber o dinheiro.

Foram realizadas 1.000 entrevistas de abrangência nacional, nos dias 16, 17 e 18 de maio. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais.

Os entrevistados foram questionados também sobre impactos da crise causada pelo coronavírus. Para 68%, o pior ainda está por vir, enquanto 22% avaliam que o pior já passou.

A pesquisa mostra que se mantém alto o apoio ao isolamento social como medida de enfrentamento à pandemia. Para 76%, ele é a melhor forma de se prevenir e tentar evitar o aumento da contaminação pelo coronavírus, enquanto 7% discordam. Outros 14% avaliam que ele está sendo exagerado.

Em relação à duração do isolamento, 57% defendem que ele deve continuar até que o risco de contágio seja pequeno.

O levantamento também registra uma redução na avaliação positiva da ação dos governadores para o enfrentamento à crise. São 46% os que apontam que a atuação é boa ou ótima, contra 53% na última pesquisa. Os que acreditam que a atuação é ruim ou péssima saíram de 16% para 23%.

A atuação de Bolsonaro na crise é vista como boa ou ótima por 21% e como ruim ou péssima por 58%.

NOTA DO BLOGUEIRO:
Com a autorização do STF hoje para divulgar o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril último, considerando as dezenas de barbaridades afirmadas por Bolsonaro e diversos ministros, a cobra vai fumar. O próprio Bolsonaro diz na reunião que iria interferir da Polícia Federal, vomita impropérios, tosco como sempre, e tem ministro que pediu a prisão dos membros do STF, Guedes pedindo a venda do Banco do Brasil, Damares afirmando as barbaridades de sempre. 
Tiraram a lona que encobria o suposto circo, e se revela um manicômio a céu aberto.

Quem os brasileiros colocaram na presidência? Um psicopata, tendo como vice um militar de pijama que já deu mostras de ser um anti-democrata no mesmo nível do titular.
Que Deus tenha piedade do nosso Brasil.



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