segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

O espertíssimo pastor de ovelhas

Richard Jakubaszko
Um pastor de ovelhas estava cuidando de seu rebanho, quando surgiu pelo inóspito caminho uma Pajero 4×4 toda equipada.
Parou na frente do velhinho e desceu um cara de não mais que 30 anos, terno preto, camisa branca Hugo Boss, gravata italiana, sapatos moderníssimos bicolores, que disse:

– Senhor, se eu adivinhar quantas ovelhas o senhor tem, o senhor me dá uma?
– Sim, respondeu o velhinho meio desconfiado.

Então o cara volta pra Pajero, pega um notebook, se conecta, via celular, à internet, baixa uma base de dados, entra no site da NASA, identifica a área do rebanho por satélite, calcula a média histórica do tamanho de uma ovelha daquela raça, baixa uma tabela do Excel com execução de macros personalizadas, e depois de três horas, diz ao velho:


– O senhor tem 1.324 ovelhas, e quatro podem estar grávidas.

O velhinho admitiu que sim, estava certo, e como havia prometido, poderia levar a ovelha.
O cara pegou um bicho que estava mais próximo e carregou na sua Pajero.

Quando estava saindo, o velho perguntou:


– Desculpe, mas se eu adivinhar sua profissão, o senhor me devolve a ovelha?
Duvidando que acertasse, o cara concorda.

– O senhor é político do PMDB, diz o velhinho…
– Incrível! Como adivinhou?

– Quatro razões:
– Primeiro, pela frescura;
– Segundo, se meteu onde não devia;
– Terceiro, usou recursos, conhecimento e serviços de outros profissionais, para resolver um problema em benefício próprio.
– E quarto, nota-se que não entende merda nenhuma do que está falando: devolve já o meu cachorro.


O presente causo lúdico e instrutivo foi enviado ao blog pelo mineiro Gerson Machado, que diverte-se (e trabalha) lá em Londres.
. 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Quanto vale um notável?


Rogério Cerqueira Leite *
 

Foi Serra que, recém convidado para integrar o atual governo, anunciou: “será um governo de notáveis”. Obviamente ele também um notável, o maior notável entreguista do Brasil.

E agora o Ministro Chefe da Casa Civil confessa publicamente que ofereceu ao PP de Maluf o Ministério de Saúde por todos os votos do partido e que teria o partido que indicar um notável. E assim foi. Indicou o partido um notável medíocre.

O notável trambiqueiro Chefe da Casa Civil não teve vergonha de mostrar como foi formado o Ministério de notáveis.

Uma espécie de leilão. Quem dá mais por este Ministério? Quantos votos? A fidelidade se compra. O valor de um Ministério é avaliado pelo seu orçamento. Cada bilhão vale meio voto. Assim sendo, o Ministério da Saúde com mais de 100 bilhões de orçamento foi vendido por 50 votos seguros. Não é bacaninha?

A confissão do notável trambiqueiro também revela a notabilidade de alguns de seus colegas notáveis.

Assim, Jucá seria um notável alcoviteiro, Geddel, um notável chantagista, e o mais recente membro dessa verdadeira academia de notáveis, Moreira Franco, notável chicaneiro.

Aliás essa questão de notabilidade é contagiosa, pois vejam só a incorruptível Corte Suprema do País está para incorporar um notável plagiador.

Publicado originalmente em http://rogeriocerqueiraleite.com.br/quanto-vale-um-notavel/

* o autor é físico, professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) 

.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Carga total

Richard Jakubaszko
Com material jornalístico e técnico-agronômico de alta qualidade está circulando a Agro DBO nº 85, de fevereiro 2017, e a chamada de capa que dá o título deste post.
O editor José Augusto Bezerra (Tostão) mostra no vídeo abaixo os destaques da edição, sobre a safra de verão.




.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Queda de braço na cafeicultura: venceu a indústria, vai ter importação de café


Richard Jakubaszko
Recebi no início desta noite o comunicado abaixo, da assessoria de imprensa do Ministério da Agricultura, sobre a aprovação da Camex para importação temporária de café conilon, contrariando a opinião quase generalizada dos cafeicultores:


Comitê vinculado à Camex aprova por unanimidade importação de cota do café conilon
Medida vale por quatro meses para um volume de 1 milhão de sacas.
Brasília (15/02/2017) - O Comitê Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), vinculado à Câmara de Comércio Exterior (Camex), aprovou nesta terça-feira (15) a isenção do imposto de importação de café robusta (conilon), que tinha alíquota de 10%, para cota de até 1 milhão de sacas de 60 kg de café conilon. A medida tem prazo de quatro meses, de fevereiro a maio. A cota mensal será de até 250 mil toneladas.

O Gecex aprovou também a elevação da alíquota de 10% para 35% de toda a importação de café verde (arábica e conilon) no montante que exceder a cota determinada.

O próximo passo é a publicação da Análise de Risco de Praga (ARP) no Diário Oficial da União, que já está concluída para o Vietnã. O país é o segundo maior produtor de conilon, depois do Brasil.


A desoneração do café foi encaminhada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, na semana passada, à Camex. O Brasil é o maior exportador mundial de café nas variedades arábica e robusta (conilon). A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apurou estoques de café conilon no Espírito Santo, Rondônia e Sul da Bahia, entre 1,5 milhão a 1,7 milhão de sacas, insuficientes para atender a necessidade da indústria.


Um dos alertas sobre a necessidade de garantir a oferta do produto foi feito pelo diretor do Sindicato Nacional da Indústria do Café Solúvel, Agnaldo de Lima, ao afirmar que “se o Brasil não cumprir as cotas de exportação, compradores internacionais buscarão outros fornecedores de solúvel de outros países”.

.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

A dobradinha de Sergio Moro e Temer para “acabar com a Lava Jato”

Miguel do Rosário *
  O título é irônico porque eu acho muito biruta essa gritaria toda sobre “acabar com a Lava Jato”.

A Lava Jato personalizou-se. Virou um indivíduo, com opiniões políticas, com mau humor. Frequentemente, ela se porta como uma donzela desamparada, sequestrada pelos vilões do Senado e do governo.

“Ah, querem acabar com a Lava Jato!”

Até mesmo os parlamentares de esquerda se comovem, esquecendo que a donzela, num momento anterior, era o próprio dragão servindo de guarda costas para o impeachment e, logo em seguida, para a demolição do Estado. Então se juntam ao coro dos macacos de auditório, também querendo tirar uma casquinha da aprovação da Lava Jato junto a este setor da sociedade que Hannah Arendt chamava, muito apropriadamente, de “ralé”, e que a gente tem chamado aqui, mais modernamente, de zumbis midiáticos.

“Temer quer acabar com a Lava Jato!”, gritam os parlamentares do PT, achando-se muito perspicazes.

A militância de esquerda, que também é muito esperta, diz que o golpe foi dado para “acabar com a Lava Jato”.

A militância de direita, que vive uma fase bem malandra, sorri e se cala: ela jamais escondeu o seu desejo mais ardente, o de que a Lava Jato prenda Lula. O resto, não lhe interessa.

A tara para prender o Lula não significa apenas tirá-lo das eleições de 2018. Há um objetivo maior, mais velho que o mundo, de enterrar o sonho de liberdade e democracia que Lula representa.

Foi assim com Oliver Cromwell, o “rei do povo”, que as elites britânicas odiavam tanto que mandaram desenterrar seu corpo, decapitá-lo e jogá-los aos abutres, de maneira a humilhar para sempre todos aqueles que ousaram acreditar nele.

Em seu depoimento a Sergio Moro, Eduardo Cunha acusou o presidente Michel Temer. Moro acorreu, furiosamente, em socorro do presidente. Escreveu um texto de mais de 100 páginas, onde não disfarça sua indignação com a tentativa de Cunha de fazer “insinuações” contra o presidente.

É comovente.

Sergio Moro também quer “acabar com a Lava Jato”?

Ora, é natural. Ele está cansado. Quer prender Lula de uma vez e ir morar nos Estados Unidos com sua esposa. Quem pode lhe condenar por isso? O Brasil está um caos! O próprio Moro admitiu, em palestra na Columbia (bancada por empresário brasileiro), que a Lava Jato produziu instabilidade, mas que, no futuro, ela ajudará o país a ficar mais competitivo. Ele não explicou como a destruição de indústrias e a medievalização dos processos penais podem tornar um país mais “competitivo”.

O procurador Carlos Lima, um dos coordenadores da Lava Jato no MPF de Curitiba, disse que ficou aliviado com a opinião de Alexandre de Moraes, de defender a prisão em segunda instância, uma das mil e uma bizarrices jurídicas que o STF aprovou, para agradar a… Lava Jato.

A afirmação de Lima foi um aval da Lava Jato à nomeação de Alexandre de Moraes. Tudo bem, podem indicar Alexandre de Moraes para o STF.

O Conselho Nacional dos Procuradores Gerais (CNPG), uma das inúmeras maçonarias golpistas do MPF, divulgou nota, dois dias atrás, em que também apoia a indicação de Moraes para o STF.

A Associação de Magistrados do Brasil, que vem operando intensamente em prol do golpe, também soltou notinha de apoio a Moraes no STF.

Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (CONAMP), outra maçonaria, também quer Moraes como revisor da Lava Jato no Supremo.

Ou seja, todos aqueles que sustentaram a Lava Jato, incluindo aí procuradores da própria operação, apoiam Moraes no STF, mesmo sabendo que o ministro é um filiado ao PSDB, um escudeiro fiel do presidente Temer que vai para lá com a missão de… “acabar com a Lava Jato”?

Que confusão!

Isso prova uma teoria minha, que me parece um tanto óbvia: na verdade, quem quer “acabar com a Lava Jato” é a própria Lava Jato. Para subsidiar o golpe, ela teve que reunir um material enorme em suas mãos, quase tudo de forma truculenta, ilegal, espionando até mesmo advogados dos réus, torturando executivos, quebrando grandes empresas estratégicas. Com esse material, ela pôde fazer o que quiser, prender, indiciar, ameaçar, quem ela achasse fosse conveniente para a agenda política do momento.

Por exemplo, é muito bom para o golpe que o governador Pezão esteja na lona, cassado, com pé na cadeia. Há uns anos, jamais passaria pela cabeça de Pezão privatizar a Cedae. Hoje, o que ele pode fazer? Se ele quisesse agradar a maioria da população e dos servidores, e fincasse o pé contra o crime de vender a estatal de água e esgoto do estado do Rio, uma das melhores e mais eficientes do país, a Lava Jato, com apoio da Globo, claro, trataria de tirá-lo do páreo, levando-o a passar uma temporada em Bangu III.

A missão de Alexandre de Moraes no STF não é evidentemente “acabar com a Lava Jato”. Ele nunca seria tão ingrato à operação que levou Michel Temer, Jucá, Moreira Franco e Sarney, o PSDB, de volta ao núcleo duro do poder.

Moraes quer apenas dar-lhe o retoque final, que é tirar dos procuradores de Curitiba o constrangimento de indiciarem ou pedirem medidas mais violentas contra o PSDB.

Alguém poderia se perguntar: não é justamente isso que significa “acabar com a Lava Jato”?

A donzela sorri maliciosa, já um pouco cansada de seu papel de frágil, e talvez irritada com a quantidade de idiotas que ficam repetindo esse clichê sobre “acabar com a Lava Jato”.

Ela sabe muito bem o que está acontecendo. É uma dobradinha. Alexandre de Moraes “controla” a Lava Jato no Supremo, e Sergio Moro “controla” em Curitiba. Centra-se fogo no PT, prende-se Lula e ponto final.

O jogo carreta uma série de tensões e riscos. Há muitos cordeiros gordos do próprio golpe que podem ser sacrificados, como foi Eduardo Cunha, como pode vir a ser Renan, e que poderiam botar a boca no trombone. É um risco calculado, porque alguns deles podem trazer ruídos à narrativa. Não se pode correr o risco de acordar as pessoas e fazê-las tomar consciência de que se tornaram combustível da Matrix: milhões de pessoas presas em casulos, como no filme, sonhando com o “fim da corrupção”, enquanto o sistema usa a sua energia humana para transformar o país num cenário devastado, sem vida, sem esperança, sem alegria. Não! Isso não pode acontecer! As pessoas precisam continuar presas à Matrix.

Em caso de necessidade extrema, a Lava Jato pode até prender um Aécio. Ou soltar mais umas bombas contra Serra. Mas isso seria tão constrangedor! Felizmente, as últimas movimentações, em especial a nomeação de Moraes para o STF, já deixaram claro que o país caminha para um grande “acordão”.

A docilidade quase servil de Moro diante do ex-presidente FHC, por ocasião de seu depoimento em defesa de Lula, mostra que o PSDB, de maneira geral, não corre mais grandes riscos na Lava Jato.

Ufa!

A mesma Lava Jato que se finge de donzela é, na verdade, uma moça muito esperta, que aprendeu a manipular um governo que, ela sabe e se orgulha disso, foi posto lá por ela mesma, por suas maquinações calculadas. Um vazamento aqui, outro ali, uma prisão aqui, uma manchete lá, tudo de acordo com uma agenda política muito bem pensada. A esquerda bota 200 mil pessoas na Paulista contra o golpe? A Lava Jato faz então uma prisão espetacular no dia seguinte bem cedinho, de preferência contra o PT, para que a imprensa seja “obrigada” a ignorar a manifestação e dar manchetes às últimas diatribes heroicas de Sergio Moro…

É muito útil deixar o governo apavorado. É a única maneira, sejamos francos!, de mantê-lo “na linha”, ou seja, promovendo o saque do patrimônio público e o desmonte do Estado a uma velocidade recorde. Trata-se de um governo, afinal, puramente instrumental, que não tem interesse em se reeleger. Nizan Guanaes, publicitário paulista, resumiu o pensamento da elite golpista, durante encontro do presidente com empresários: “presidente, a popularidade é uma prisão! Aproveite que é impopular e faça as reformas certas”.

É uma maneira de pensar interessante. Para que se importar com a opinião da população? A população não votou na candidata contra a qual Temer conspirou? Então, não confie na população, presidente! O povo que se dane! Confie apenas em nós, grandes empresários. Nós votamos no PSDB e sabemos o que é bom para o Brasil. Se os números do desemprego, do PIB, da educação, do desenvolvimento tecnológico, da infraestrutura, não confirmam a nossa competência, isso não é problema nosso!

Enquanto isso, a Lava Jato olha-se no espelho, dá um sorriso de monalisa, e se prepara para fazer outra viagem à Nova York. Ela sabe que ninguém vai “acabar” com ela, porque ela já tomou conta de todo o judiciário. O juiz fluminense que condenou o almirante Oto, pioneiro da energia nuclear brasileira, a mais de 40 anos de prisão, não foi Sergio Moro. Foi outro, um clone de Moro, um sujeito que antes, dizem, era até um juiz legal, democrático, mas que experimentou a mesma transformação alquímica que observamos em quase todos os ministros do Supremo. Não há juiz ou procurador, no Brasil do golpe, com coragem para enfrentar a avassaladora onda fascista que se instalou.

Num dos eventos contra o golpe, na Fundição Progresso, Rio, o diretor de teatro, Amir Haddad, comparou essa onda a um vírus poderoso, que vai contaminando as pessoas. De um dia para o outro, o sujeito começa se portar de maneira completamente diferente. Torna-se um violento, um reacionário, um instrumento da mídia. Um juiz humanista passa a distribuir condenações criminais de 40 anos, mesmo que o réu, como é o caso do almirante Oto, seja um octogenário.

O país vive um período profundamente convulsionado e autoritário, onde o poder de fato foi transferido para o judiciário e para a Globo. Isso causa uma instabilidade muito grande, porque – no que tange ao judiciário – instaura uma anarquia enorme, como vimos na tentativa de juízes de impedirem a posse de Moreira Franco. A morte trágica de Teori (oportuníssima, é importante sempre destacar) e a indicação de Moraes para o Supremo sinalizam uma reação do governo para trazer ordem à ditadura. Tudo bem o Brasil virar uma ditadura de juízes, mas então que seja uma ditadura com ordem e hierarquia!

Quem manda é o STF, que por sua vez obedece à Globo, que é um braço do imperialismo americano no Brasil.

Quando tudo isso ficar claro, então voltaremos ao equilíbrio, à ordem (embora sem progresso).

O maior desafio, naturalmente, será manter o povo no cabresto, através da repressão, do medo, da manipulação das notícias e dos processos judiciais.

A presença constante do exército nas ruas, o recrudescimento da repressão policial às manifestações populares, a postura “blasé” do governo capixaba diante do caos no estado, as capas das revistas semanais, que continuam mirando no PT, as condenações exageradas, de mais de 40 anos de prisão, contra Cabral e Eike, obviamente para lhes forçar a delatar Lula, Dilma, o PT etc., tudo isso prova que o golpe vai muito bem, obrigado.

* blogueiro, editor do blog “O Cafezinho”.

Publicado originalmente em http://www.ocafezinho.com/2017/02/11/dobradinha-de-sergio-moro-e-temer-para-acabar-com-lava-jato/

.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Pelé, a genialidade quase unânime

Richard Jakubaszko
Pelé não foi unanimidade (pelo menos a alguns hermanos), mas Cristo também não foi... Nada a ver entre um e outro, fora esse detalhe, fruto das desavenças de opinião entre humanos. De toda forma, ao assistir o vídeo abaixo, com algumas dezenas de dribles, e outro tanto de gols improváveis, os leitores mais jovens podem imaginar quem foi ele, e porque foi considerado o atleta do século:

.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Jornalismo engajado

Richard Jakubaszko

Nesta semana (sexta, 10/2/17) FHC foi ser testemunha da defesa num dos muitos casos do Ministério Público contra Lula. A acusação é de que Lula se "apropriou de bens públicos" e levou para a casa dele presentes que ganhou durante os seus dois períodos presidenciais. Pior, a Polícia Federal "descobriu" objetos "valiosíssimos" em um cofre gigantesco no Banco do Brasil. Presentes que tinham valor incalculável...

Pois o cidadão Fausto Macedo, que se diz jornalista, e é merecedor inegavelmente do troféu "Conexões Tigre", atribuídos a ele pelo jornalista Paulo Henrique Amorim, repercutiu no jornal Estadão o "fato" do depoimento de FHC. O dito depoimento testemunhal de FHC, como peça da defesa, admitiu que foi "obrigado por lei" a levar com ele todos os documentos e "lembrancinhas sem nenhum valor" recebidos de chefes de estados estrangeiros durante seus 8 anos de "reinado", mas que o valor de aposentadoria que recebe como ex-presidente não cobriria os gastos necessários para a manutenção desse tesouro, e por isso pediu doações, "não, da OAS não recebi nada, foram doações do Safra, Itaú, Bradesco, Camargo Correa, Odebrecht, tá tudo lá registrado e só ir conferir".

Bom, isentou Lula e Paulo Okamoto, acusados pelos procuradores de se apropriarem de bens públicos de valores alibabescos... Mas a convicção deles poderá sofrer abalos. Veremos, pelo andar da carruagem, ou melhor, do processo da acusação...

Na seção "interrogatório" com FHC, o juiz federal de 1ª instância Sérgio Moro, demonstrou sua conhecida inteligência, aplaudida nacionalmente, através de uma única perguntinha ao seu inegável ídolo FHC: "haveria nessas doações ao Instituto FHC alguma que fosse anônima, por fora, ou não contabilizada?".  
FHC respondeu que "Por fora, zero". Caramba! Moro queria que FHC respondesse o quê? Talvez FHC pudesse ter dito: "Bem, tem só uns 10% ou 20% de doações anônimas, não dá pra identificar, o pessoal gosta muito de mim, sabe como é, né?

Pois este foi o título da matéria do jornalista do estadão, atestando o ilibado, impoluto e incólume FHC. O estadão e Macedo (o do conexões Tigre) fizeram um jornalismo engajado. Não tendo como admitir que "FHC inocenta Lula diante da acusação infundada dos procuradores", o pseudo coleguinha dá um "atestado de boa conduta" para FHC...

É assim, o jornalista não apenas mente, ou deturpa, distorcendo sem querer, mas querendo; se não dá para xingar e acusar o Lula numa manchete, defenda-se o FHC, dá no mesmo, isso é só um aspecto simbólico do que a gente percebe diariamente nos jornalões mentirosos brasileiros.
Depois não sabem porque perdem leitores e anúncios.

Gravei a chamada online em arquivo jpeg, abaixo, para mostrar para minha neta, quando ela crescer, e para que não venha a cair na hipocrisia daqueles que estão a serviço de outros hicritas mais poderosos que não têm coragem de dar a cara pra mostrar.

Nas fotos mais abaixo, reproduzo matérias antigas da Época e Folha de São Paulo, que identificam como FHC passou o chapéu entre ricos empresários, mas não foi acusado de corrupção ou de apropriação de bens públicos valiosíssimos...
 
 
   

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Ser mineiro

Frei Betto *

Como todo mineiro é um pouco filósofo, há um mistério sobre o qual medito há anos: o que é ser mineiro?

De reflexões e inflexões que extraí sobre a mineirice - muitas delas colhidas de metafísicas inscrições em rótulos de cachaça e quinquilharias de beira de estrada - eis as conclusões a que cheguei:

Mineiro a gente não entende - interpreta.

Ser mineiro é dormir no chão para não cair da cama; usar sapatos de borracha para não dar esmola a cego; tomar café ralo e esconder dinheiro grosso; pedir emprestado para disfarçar a fartura.

É desconfiar até dos próprios pensamentos e não dar adeus para evitar abrir a mão.

Mineiro não é contra nem a favor; antes, pelo contrário. Aliás, mineiro não fala, proseia. Toca em desgraça, doença e morte e vive como quem se julga eterno. Chega na estação antes de colocarem os trilhos, para não perder o trem. E, na hora em embarque, grita para a mulher, que carrega a sua mala: "Corre com os trens que a coisa já chegou!"

Mineiro, quando viaja, leva de tudo, até água para beber. E um coração carregado de saudades.

Relógio de mineiro é enfeite. Pontual para chegar, o mineiro nunca tem hora para sair. A diferença entre o suíço e o mineiro é que o primeiro chega na hora. O mineiro chega antes.

O bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé de vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, só acredita em fumaça quando vê fogo, não estica conversas com estranhos, só arrisca quando tem certeza, e não troca um pássaro na mão por dois voando.

Ser mineiro é sorrir sem mostrar os dentes, ter a esperteza das serpentes e fingir a simplicidade das pombas, fazer de conta que acredita nas autoridades e conspirar contra o governo.

Mineiro foge da luz do sol por suspeitar da própria sombra, vive entre montanhas e sonha com o mar, viaja mundo para comer, do outro lado do planeta, um tutu de feijão com couve picada.

Mineiro sai de Minas sem que Minas saia dele. Fica uma saudade forte, funda, farta e fértil.

Enquanto outros não conseguem, mineiro num dá conta. Nem paquera, espia. Não arruma briga, caça confusão. E mineira não se perfuma, fica cheirosa.

Ser mineiro é venerar o passado como relíquia e falar do futuro como utopia, curtir saudade na cachaça e paixão em serenatas, dormir com um olho fechado e outro aberto, suscitar intrigas com tranqüilidade de espírito, acender vela à santa e, por via das dúvidas, não conjurar o diabo.

Mineiro fala de política como se só ele entendesse do assunto, faz oposição sem granjear inimigos, gera filhos para virar compadre de político.

Ser mineiro é fazer a pergunta já sabendo a resposta, ter orgulho de ser humilde, bancar a raposa e ainda insistir em tomar conta do galinheiro.

Mineiro fica em cima do muro, não por imparcialidade, mas para poder ver melhor os dois lados.

Cabeça-dura, o mineiro tem o coração mole. Acredita mais no fascínio da simpatia que no poder das idéias. Fala manso para quebrar as resistências do adversário.

Mineiro é isso, sô! Come as sílabas para não morrer pela boca. Faz economia de palavras para não gastar saliva. Fala manso para quebrar as resistências do interlocutor.

Sonega letras para economizar palavras. De vossa mercê, passa pra vossemecê, vossência, vosmecê, você, ocê, cê e, num demora muito, usará só o acento circunflexo!

Mineiro fala um dialeto que só outro mineiro entende, como aquele sujeito que, à beira do fogão de lenha, ensinava o outro a fazer café. Fervida a água, o aprendiz indagou: "Pó pô pó?" E o outro respondeu: "Pó pô, pô".

Mineiro não fica louco; piora. Por isso, em Minas não se diz que alguém endoidou, mas sim que "se manifestou..."

Ser mineiro é comer goiabada de Ponte Nova, doce de leite de Viçosa, queijo do Serro, requeijão de Teófilo Otoni e lingüiça de Formiga, tudo regado a pinga de Salinas.

É cozinhar em fogão de lenha com panela de pedra sabão.

Mineiro não tem idéias, só lembranças; não raciocina, associa; pão-duro, tem o coração mole; pensa que esposa é parente, filho, empregado e carrega sobrenome como título de nobreza.

Ser mineiro é acreditar mais no fascínio da simpatia que no poder das idéias. É navegar em montanhas e saber criar bois, filhos e versos.

Mineiro vai ao teatro, não para ver, mas para ser visto, freqüenta igreja para fingir piedade, ri antes de contar a piada e chora com a desgraça alheia. Adora sala de visitas trancada, na esperança de retorno do rei.

Avarento, não lê o jornal de uma só vez para não gastar as letras, e ainda guarda para o dia seguinte para poder ter notícias. Aliás, mineiro não lê, passa os olhos. Não fala ao telefone, dá recado.

Praia de mineiro é barzinho e, sua sala de visitas, balcão de armazém e cerca de curral. Ali a língua rola solta na conversa mole, como se o tempo fosse eterno. Certo mesmo é que o momento é terno.

Ser mineiro é ajoelhar na igreja para ver melhor as pernas da viúva, frequentar batizado para pedir votos, ir a casamentos para exibir roupa nova.

Mineiro que não reza não se preza. Acende a Deus a vela comprada do diabo. Religioso, na sua crendice há lugar para todos: O Cujo e a mula-sem-cabeça; assombrações e fantasmas; duendes e extra-terrestres.

Mineiro vai a enterro para conferir quem continua vivo. Nunca sabe o que dizer aos parentes do falecido, mas fica horas na fila de cumprimentos para marcar presença. Leva lenço no bolso para o caso de ter de enxugar as lágrimas da família.

Não manda flores porque desconfia que a flora embolsa a grana e não cumpre o trato.

Mineiro só elogia quando o outro virou defunto. E fala mal de vivo convencido de que está fazendo o bem.

Ser mineiro é esbanjar tolerância para mendigar afeto, proferir definições sem se definir, contar casos sem falar de si próprio, fazer perguntas já sabendo as respostas.

Mineiro é capaz de falar horas seguidas sem dizer nada. E cumprimenta com mão mole para escapar do aperto.

Mineiro é feito pedra preciosa: visto sem atenção não revela o valor que tem, pois esconde o jogo para ganhar a partida e acredita que a fruta do vizinho é sempre mais gostosa.

Mineiro age com a esperteza das serpentes mas se veste com a simplicidade das pombas, e encobre as contradições com o manto fictício da cordialidade. Mas conta fora tudo que se passa em casa.

Ser mineiro é fazer cara feia e rir com o coração, andar com guarda-chuva para disfarçar a bengala, fingir que não sabe o que bem conhece, fumar cigarro de palha para espantar mosquitos, mascar fumo para amaciar a dentadura.

Mineiro sabe quantas pernas tem a cobra, escova os dentes do alho, teme rasteira de pé de mesa e, por via das dúvidas, põe água e alpiste para o cuco.

Mineiro é pão-duro, não abre a mão nem pra dar bom dia. Desconfiado, retira o dinheiro do banco, conta e torna a depositar. Vive pobre para morrer rico e pede emprestado para disfarçar a fartura.

Mineiro rico compra carro do ano e manda pôr meia sola em sapato usado. Viaja ao exterior e não dá esmola a pobre. Fica sócio de clube para ter status. E faz filho para virar compadre de político.

Pacífico, mineiro dá um boi para não entrar na briga e a boiada para continuar de fora. Mas, se pisam no calo do mineiro, ele conjura, te esconjura, jurado e juramentado no sangue de Tiradentes.

Mineiro é como angu, só fica no ponto quando se mexe com ele.

Em Minas, o juiz é de fora, o mar é de Espanha, os montes são claros, a flor é viçosa, a ponte é nova, o ouro é preto, é belo o horizonte, o pouso é alegre, as dores são de indaiá e os poços de caldas.

"Minas Gerais é muitas", como disse Guimarães Rosa. É fogão de lenha e comida preparada em panela de pedra sabão; turmalina e esmeralda; tropa de burro e rios indolentes chorando a caminho do mar; sino de igreja e tropeiros mourejando gado sob a tarde incendiada pelo hálito da noite.

Minas é Mantiqueira e serrado, Aleijadinho e Amílcar de Castro, Drummond e Milton Nascimento, pão de queijo e broa de fubá.

Minas é uma mulher de ancas firmes e seios fartos, sensual nas curvas, dócil no trato, barroca no estilo e envolta em brocados, ostentando camafeus.

Minas é saborosamente mágica.

Ave, Minas! Batizada Gerais, és uma terra muito singular.

* o autor é escritor, mineiro, autor de “Comer como um frade – divinas receitas para quem sabe por que temos um céu na boca” (José Olympio), entre outros livros.

http://www.freibetto.org/index.php/artigos/14-artigos/28-ser-mineiro

O texto acima me foi enviado, evidentemente, por um mineiro: Gerson Machado.
.