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quinta-feira, 19 de março de 2020

Sexo na mesa da cozinha

Richard Jakubaszko   
Acabei de ler o livro que tem o título em destaque neste post. Escrito por um professor da Universidade da Califórnia, Norman C. Ellstrand, catedrático em fisiologia das plantas, o autor esbanja ironia (e humor para americanos) para nos explicar que todos os vegetais "fazem sexo" com fins reprodutivos.

Não ficou claro pra mim a quais leitores Ellstrand pretendia atingir ao escrever a obra. A especialistas em fisiologia das plantas, com quase toda a certeza não. Mas a leigos a leitura de "Sexo na mesa da cozinha" pode se transformar quase em pesadelo, especialmente porque é um livro técnico e específico que foca em problemas únicos como as particularidades de reprodutibilidade de algumas culturas como beterraba branca, banana, abacate, tomate, canola, abóbora e milho, sempre com diversas citações bibliográficas. Entre uma e outra observação, o autor sempre demonstra as "dificuldades sexuais" dessas plantas para se reproduzirem, mesmo quando o método usado pela natureza para espalhar o pólen enviado pelos vegetais machos, considerando que a planta fêmea receptora esteja a 1 km ou mais de distância. Não chamaria a isso de sexo.

Em alguns capítulos, mas especialmente nos de milho e canola, Ellstrand comenta sobre os melhoramentos genéticos de plantas OGMs, sem deixar clara a sua posição, se é a favor ou contra, ou até mesmo de cautela, pois mantém confortável equidistância acadêmica, e aí é uma no cravo e outra na ferradura. O autor relata algumas opiniões de pânicos milenaristas apocalípticos divulgados por biólogos e ambientalistas, por exemplo, de que parentes silvestres dessas plantas ficariam com resistência aos mesmos herbicidas utilizados nas plantações comerciais. Confesso que nunca entendi essa crítica dos ambientalistas em relação aos OGMs, será que eles recomendariam o uso de glifosato para controle de milhos silvestres? Só se for, principalmente no caso específico do milho, que tem polinização cruzada com outras plantas, da possibilidade de um milho OGM transferir suas características para outras plantas silvestres, que não o milho. Mas que importância teria isso, seja agronômica ou econômica? Se alguém tem uma opinião bem clara e definida sobre isso, por favor comente e me esclareça, pois sou um mero jornalista especializado em agricultura que tive minha curiosidade pela leitura do livro diante do inusitado título.

O título do livro é inovador, criativo até, e pode chamar a atenção de estudantes de agronomia e biologia, apesar de não refletir a realidade do mundo vegetal. A certeza que fica é que Ellstrand segue à risca o aforismo de um amigo, citado por ele, que diz "Salve o mundo enquanto se diverte". Foi o que Ellstrand fez ao escrever esse intrigante e instigante livro, e nos finais de alguns capítulos exibe orgulhoso seus talentos culinários fornecendo exclusivas e domésticas receitas de saladas, panquecas, fritadas e outros pratos à base de legumes, frutas e vegetais.

O livro, com 299 pg, foi publicado no Brasil pela Editora Unesp, e pode ser adquirido pelos interessados através do e-mail atendimento.editora@unesp.br

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sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Podcast sobre transgênicos

Richard Jakubaszko
Realizamos uma experiência no Portal DBO, de produzir um podcast sobre transgênicos. Com a participação dos jornalistas Marina Salles, Sérgio Oliveira, editor do Portal DBO, e deste blogueiro, tivemos uma troca de ideias sobre o que é uma planta OGM (Organismo Geneticamente Modificado) e as polêmicas que a envolvem.

Foi uma conversa absolutamente espontânea e natural, baseada exclusivamente na experiência e na visão de cada um dos envolvidos, mas com um nível suficiente de profundidade para elevar o entendimento das pessoas comuns sobre o tema.

Vejam o resultado dessa experiência piloto na gravação a seguir:
https://soundcloud.com/leandro-maciel-de-souza/radio-podcast
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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Vivendo na era da transparência radical

Maurício Antônio Lopes *
A transformação digital emerge como uma força poderosa e provedora de plataformas inovadoras, como as redes sociais, que cada vez mais amealham popularidade em todas as camadas da população. A revolução da informação cria expectativas e demandas e impulsiona melhorias na sociedade. Ao mesmo tempo, acirra a crítica às estruturas de controle social estabelecidas. As redes sociais estão permitindo que muitos participem e influenciem diretamente o debate público sobre temas de interesse da sociedade, na velocidade da web. Governos e organizações civis operando por métodos tradicionais são pressionados a sofisticar suas relações com a sociedade para se ajustarem a esta época de transparência radical.

Em outra frente, crescem as apreensões da sociedade contemporânea com as mudanças climáticas, com a persistência da pobreza e da fome, com a ampliação do terrorismo e das guerras, dentre outros perigos e desafios. As incertezas do nosso tempo nos movem a lançar um olhar tendenciosamente crítico para o futuro. Por isso as catástrofes e o negativismo acabam por exercer enorme atração e impacto sobre as pessoas. É comum verificar que aqueles que buscam emergir do pessimismo, ao destacar os inúmeros exemplos de progressos e avanços que alcançamos em todos os campos da atividade humana, correm o risco de serem ridicularizados e caracterizados como ingênuos e simplistas.

Em seu artigo recente “Escapando do Culto ao Pessimismo”, o futurista americano Frank Spencer afirma serem muitos os que acreditam que a ênfase no negativo os coloca em uma posição de superioridade intelectual. Ele sugere que se dê uma olhada nas numerosas reportagens e análises hoje disseminadas pelas mais variadas mídias para se verificar como o culto ao pessimismo é implacável no “bater os tambores do apocalipse”. Segundo ele nós “estamos nos afogando em um mar de cenários pessimistas”, tais como catástrofes climáticas, extinção em massa, robôs assassinos, terrorismo digital, e muito mais.

O fato é que, na confluência da transparência radical com o culto ao pessimismo, surge toda sorte de notícias e informações distorcidas, talhadas para agitar emoções de indignação e medo. Winston Churchill disse, há mais de meio século, que “uma mentira dá uma volta inteira ao mundo antes mesmo que a verdade tenha a oportunidade de se vestir”. Nada mais atual em tempos de internet e de informação em tempo real. O escritor Umberto Eco, falecido recentemente, afirmou que, antes das redes sociais, os ‘’idiotas da aldeia’’ tinham direito à palavra “em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”. O drama da internet é que ela pode transformar qualquer tolo da aldeia em portador de uma suposta verdade planetária.

É no embate com a ciência que o pessimismo colhe seus melhores resultados nesta era de transparência radical. Proliferam pelo mundo os opositores da ciência desprovidos do rigor do conhecimento, mas muito bem treinados no uso das mídias de tempo real, da desinformação e até da demonização da ciência para deturpar discussões sobre riscos, impactos e benefícios do desenvolvimento científico e tecnológico. O embate entre essas duas frentes acaba frequentemente em desfavor da ciência. O discurso agressivo e catastrófico, aludindo a perigos e riscos, mesmo que infundados e sem base científica, quase sempre sensibiliza mais o grande público que argumentos fundados em dados experimentais e conhecimentos sólidos, usualmente complexos, e nem sempre facilmente assimilados pela maioria.

Outro fenômeno preocupante dos nossos dias busca disseminar desinformação e negativismo e, pior, intimidar instituições científicas. A mídia tem mostrado que ONGs e militantes radicais, ultrapassando o limite da legalidade, têm se dedicado à destruição criminosa de campos experimentais e laboratórios de teste de organizações de pesquisa, notadamente os vinculados ao desenvolvimento de organismos geneticamente modificados (OGM) ou transgênicos.

Aqui vale a máxima segundo a qual “a verdade tarda, mas não falta”. A Academia Nacional de Ciências dos EUA, numa revisão abrangente de estudos realizados nos últimos 30 anos, mostra que plantas transgênicas são indistinguíveis das convencionais e que não há nenhuma prova de que tenham impacto negativo sobre a saúde das pessoas ou sobre o meio ambiente. Mais de uma centena de laureados com o Prêmio Nobel assinaram uma carta validando essas conclusões e denunciando ONGs antitransgênicos por confundir a compreensão sobre os riscos, benefícios e impactos dos OGMs e por apoiar a destruição criminosa de cultivos experimentais.

Este caso exemplifica bem a importância de se construir processos e mecanismos que possam deter oposição, pessimismo e negativismo baseados apenas em emoções, subjetividade e dogmas. A ciência poderá contribuir, buscando formas criativas de melhor explicar o que faz para a sociedade. Nessa era de transparência radical, comunicação aprimorada será essencial para ampliar o reconhecimento do trabalho e das contribuições das instituições científicas para a construção de trajetórias virtuosas da sociedade em direção ao futuro.

* o autor é engenheiro agrônomo e presidente da Embrapa

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Na Agro DBO: A natureza venceu.

Richard Jakubaszko 
Circulando a edição de dezembro-15/janeiro-16 da Agro DBO, onde o leitor encontrará muitas novidades sobre tecnologias agrícolas. A matéria de capa da edição é "A natureza venceu", onde relatamos os problemas existentes hoje nas lavouras, com pragas, doenças e ervas daninhas resistentes a agroquímicos e que também começam a desenvolver resistências aos OGMs. As soluções tecnológicas passam pelo inevitável uso da natureza para combater os problemas criados pelo desequilíbrio no agrossistema, sob risco de a agricultura brasileira ficar inviável tanto econômica como agronomicamente falando.
No vídeo abaixo, Tostão fala dos destaques da edição:


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terça-feira, 14 de abril de 2015

Sobre cientistas e retrógrados


Décio Luiz Gazzoni *
Thomas Malthus, economista britânico, viveu nos séculos XVIII e XIX. Criou o Malthusianismo, teoria que afirma que as populações humanas crescem em progressão geométrica e os meios de subsistência em progressão aritmética.

Malthus representou o paradigma de uma visão que ignora ou subestima os benefícios da industrialização e do progresso tecnológico, tendo vivido justamente quando as inovações tecnológicas passaram a ser colocadas à disposição da sociedade em escala logarítmica. A Malthus pode ser concedido o benefício de que seria um remanescente de uma era que se extinguia, não dispondo de informações anteriores e visão de futuro que lhe permitissem vislumbrar que outro mundo era possível.

Jean-Baptiste de Lamarck, cientista francês falecido em 1829, atribuiu a evolução das espécies a fatores exclusivamente ambientais, à necessidade de sobrevivência em ambientes adversos e ao aprendizado do indivíduo. Conforme sua teoria, uma característica adquirida durante a vida de um indivíduo, seria transmitida para as gerações seguintes.

Charles Darwin, naturalista britânico, viveu no século XIX. Concebeu a Teoria da Evolução das Espécies, publicada em seu livro de 1859, centrada na seleção natural, ou seja, características previamente presentes na espécie tornavam-se dominantes em determinados ambientes, por pressão natural. Entretanto, sua teoria, denominada Darwinismo era intuitiva e lastreada em observações, carecendo de fundamentação experimental sólida.

O abade checo Gregor Mendel (1822-1884) elaborou os fundamentos científicos da teoria que suportaram, em definitivo, a evolução das espécies por seleção natural, proposta pelo Darwinismo. Ele intuiu que as características de um ser vivo estão presentes em seu código genético, herdado dos ascendentes e transmitido aos descendentes, e em forma de alelos. Testou sua tese nos experimentos com ervilhas, que resultaram na Primeira e na Segunda Lei de Mendel, hoje sólidos fundamentos da Genética.

A pseudo ciência ideológica
Trofim Lysenko (1898-1976) é o responsável pelo Lysenkismo, uma releitura soviética do Lamarckismo que ocorreu no pós guerra, quando a Ciência já havia depositado a teoria de Lamarck no museu pela sua total dissociação dos fatos naturais que pretendia descrever. O Lysenkismo nada tinha de científico, tratava-se apenas de opor-se à teoria dominante na Ciência fora da URSS, que havia aceitado como verdade científica as leis da genética, gerando uma plêiade de novos negócios baseados nelas. A essência do Lysenkismo era discurso ideológico, não havia fatos científicos que a suportassem, uma narrativa imposta aos cidadãos da ex-URSS.

Em uma conferência realizada em 1948, Lysenko denunciou Mendel como "reacionário e decadente" e declarou que cientistas ou outros cidadãos que acreditassem na genética eram "inimigos do povo soviético." Anunciou que a sua tese havia sido aprovada pelo Comitê Central do Partido Comunista e que, a partir daquele momento, os cientistas que compartilhavam as teorias de Mendel dispunham de duas alternativas: ou escreviam cartas públicas confessando os seus erros e reconhecendo a sabedoria do Partido Comunista, ou seriam sumariamente demitidos. Alguns dissidentes foram enviados para campos de trabalho forçado. De outros, não mais se ouviu falar.

A Ciência verdadeira
Ao longo do século XX, diversos cientistas buscaram os fundamentos do código genético intuído por Mendel, que não tinha conhecimento da natureza física dos genes. O trabalho de James Watson e Francis Crick, publicado em 1953, mostrou que a base física da informação genética eram os ácidos nucleicos, especificamente o DNA, embora alguns vírus possuam genomas de RNA.

A elucidação da estrutura do DNA não trouxe, de imediato, o conhecimento de como as milhares de proteínas de um organismo estariam "codificadas" nas sequências de nucleotídeos do DNA. Esta descoberta, essencial para a moderna Biologia Molecular, ocorreu no início dos anos 1960, com os estudos de Marshall Nirenberg, que viria a receber o Prêmio Nobel de Medicina em 1968, assim como Watson e Crick o receberam em 1962. A manipulação controlada do DNA (engenharia genética) pode alterar a hereditariedade e as características dos organismos, de maneira semelhante aos fenômenos naturais de troca de material genético entre organismos vivos.

A Ciência e a agricultura
Foi esta sequência de teorias científicas, e o trabalho de milhares de cientistas - premiados com Nobel ou anônimos - que desmentiu o Malthusianismo. Recentemente, os cientistas sociais demonstraram que fome é um problema de renda, de acesso ao alimento, não de produção. A oferta de alimentos cresce de forma associada à demanda, embora sempre haja um “delay” devido aos mecanismos de transmissão dos sinais do aumento da demanda até os agricultores, responsáveis pelo aumento da oferta.

O aumento da produção tem sido função da produtividade agrícola que, nos últimos 50 anos, responde por cerca de 80% do aumento da oferta, contra 20% devidos à expansão da área. Maior produtividade, redução de custos e estabilidade da produção é função direta das inovações tecnológicas. Em Biologia, a maior inovação científica dos últimos anos é a engenharia genética, e sua consequência prática, as modernas variedades denominadas transgênicas. O que poucos se deram conta é que a engenharia genética nada mais é que um atalho do processo natural de fecundação cruzada, de troca de genes entre plantas. O mérito da espécie humana foi, simplesmente, reduzir a poucos anos o que a Natureza levaria, talvez, um século para atingir. Mas ambos chegariam lá.

O retrocesso
O ludismo foi um movimento contrário à mecanização do trabalho no advento da Revolução Industrial. O termo ludita, ou "quebradores de máquinas", identifica toda pessoa que se opõe à industrialização ou à inovações tecnológicas, geralmente vinculado ao movimento operário anarco primitivista, uma crítica anarquista das origens e do progresso da civilização. Os luditas chamaram muita atenção pelos seus atos, invadindo fábricas e destruindo máquinas que, segundo eles, por serem mais eficientes que os homens, colocavam em risco seus empregos. Ludismo é um conceito político, usado para designar todos aqueles que se opõem ao desenvolvimento tecnológico ou industrial. Atire a primeira pedra quem, hoje, não se beneficia largamente do legado da Revolução Industrial.

No dia 5 de março de 2015, a CTNBio analisaria o processo de licenciamento da variedade de eucalipto transgênico H421 da FuturaGene, empresa brasileira que desenvolve uma variedade transgênica de eucalipto há mais de 14 anos. Os experimentos demonstram que esse eucalipto produz 20% mais madeira que o convencional e diminui a idade de corte em 2 anos. Maior produtividade significa aumento de competitividade e ganhos socioambientais, ou seja, maior produção de madeira com menor demanda de área e insumos, e emitindo menos carbono, permitindo que mais área seja destinada à produção de alimentos ou à conservação, e contribuir com a renda de pequenos produtores. Aliás, produzir eucalipto significa que estamos utilizando química verde, menos poluente, substituindo petróleo tanto para produzir bens sociais tangíveis, quanto energia.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) arrombou a porta da sala já superlotada, invadiu a reunião da CTNBio e, violando todos os princípios democráticos e do Estado de Direito, impediu a realização da reunião de avaliação do H421. Não apresentou fatos, verdades, números, apenas o velho e batido discurso vazio e as vetustas palavras de ordem, de viés meramente ideológico, tal qual “..nunca mais haverá reunião da CTNBio”. Uma facção feminina do MST invadiu e depredou os laboratórios e estufas da FuturaGene, destruindo o trabalho de mais de uma década de cientistas e colaboradores, comprometendo o avanço da Ciência e a melhoria da produção agrícola. Desconheço o enquadramento ou punição dos participantes de ambos os atos, que violaram diversos artigos da legislação brasileira.

O fundamento legal
Se há uma crítica a ser feita à legislação brasileira de biossegurança é o fato de ser uma das mais exigentes e severas do mundo, mais realista que o rei. Se peca é por excesso de zelo. A Lei 11.105 de 2005 garante à sociedade o direito de se pronunciar democraticamente, ou seja, de acordo com padrões civilizados e em conformidade com a Lei.

No Brasil – como em todo o mundo - os OGM são submetidos a testes toxicológicos, alergênicos, nutricionais e ambientais que passam pela análise da CTNBio, cuja legitimidade é baseada na excelência de seus membros. O trabalho desenvolvido por esses cientistas envolve profundo detalhamento e rigorosa observância de princípios científicos consagrados. Até onde meu conhecimento alcança, há muito mais riscos toxicológicos e alergênicos em alimentos naturais, tradicionais, que em OGMs, justamente pelo fato de que aqueles não são submetidos à mesma legislação. Se o fossem, muito do que chega à nossa mesa, seria proibido por razões toxicológicas!

O avanço científico dos últimos dois séculos, em particular do último quarto do século XX e desta década e meia do século XXI, permitiu enviar o malthusianismo para o museu. No momento, é possível afirmar que temos condição de produzir alimentos em taxas superiores ao crescimento da população. Aliás, atualmente, a maior demanda de alimentos não se deve ao aumento físico da população, mas por incremento da renda disponível para as famílias comprarem alimentos. Este fato ficou muito patente com o acelerado crescimento econômico mundial da década passada, que levou o desemprego a taxas ínfimas e catapultou a renda a níveis elevados. A Ásia é o melhor exemplo deste fenômeno, em escala mundial, embora países da América Latina também tenham experimentado forte inserção social derivada do espetacular crescimento econômico mundial. O próximo continente a beneficiar-se deste fenômeno será a África.

Crime e castigo
Entrementes, enquanto Malthus ou Lamarck podem ser perdoados por seu pioneirismo, por não disporem de conhecimento suficiente, e por terem vivido em momentos de transição, o mesmo não pode ser dito de Lysenko ou do MST. Malthus e Lamarck desenvolveram teorias e tentaram, comprovar suas intuições, seguindo metodologia científica, embora tivessem falhado em seu intento. Já Lysenko e o MST nada tem de científico. É um discurso ideológico retrógrado, cujo preço a sociedade como um todo vai pagar.

O preço que está sendo pago pelos países membros da ex-URSS, pela imposição do discurso ideológico de Lyzenko, é que, atualmente, a Rússia e os países da antiga URSS dependem de tecnologia genética de países cuja Ciência seguiu Mendel, como a Europa, o Canadá, os Estados Unidos ou o Japão. São bilhões de dólares anuais transferidos dos países da ex-URSS para os países detentores de tecnologias avançadas, como variedades mais produtivas e mais resistentes a estresses, baseadas na genética mendeliana.

No Brasil, também pagaremos o preço das ações de quem se diz trabalhador sem-terra, mas age contra o progresso da Ciência e o desenvolvimento do país. O interessante é que terra não falta neste país: o que falta, e cada vez com intensidade maior, é gente efetivamente disposta a trabalhar a terra. Aliás, um dos grandes problemas atuais dos pequenos e médios produtores rurais é a sucessão: Os proprietários da terra ficaram idosos, não possuem mais condições de gerir e trabalhar na propriedade, seus filhos não tem interesse em seguir na terra, que acaba sendo vendida. Cada vez sobra mais terra, então por que não esquecer por um momento o discurso vazio e dar um uso à terra, em benefício da sociedade?

Se alguém enxergou um contrassenso entre as ações do MST e a realidade científica e social do Brasil (que não é diferente do resto do mundo), deve seguir o fio da meada para tentar entender quais as verdadeiras motivações de destruir inovações científicas, o que, para mim, ainda é um enigma maior que Lamarck ou Lysenko, já devidamente explicados.

* o autor é engenheiro agrônomo, pesquisador da Embrapa Soja e membro do Conselho Editorial da Agro DBO.

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quinta-feira, 26 de março de 2015

Políticos em TPM, o povo na histeria.

Richard Jakubaszko
Esquerda e direita no Brasil andam com os ânimos exacerbados, conforme comprovam as passeatas em profusão em defesa da Petrobras e do Governo de Dilma Rousseff de um lado, e de outro os que pedem impeachment e o fim da corrupção. Fica claro que os políticos andam com os espíritos exaltados e em plena TPM. É ação e reação. Os coxinhas praticando seus panelaços me fazem rir (e não posso rir neste momento, pois ando com problemas na arcada dentária, e só dói quando rio...).

Mal sabem eles os significados dos panelaços das hermanas, esposas e mães que batiam panelas em frente à Casa Rosada quando pediam trabalho e emprego para poder comprar comida, enquanto que a classe média alta de São Paulo bate panelas nos terraços e sacadas de seus prédios de luxo em bairros como o do Jardins e de Higienópolis, em São Paulo, onde, com certeza, não falta comida. Santa Ignorância! Depois, os hermanos nos chamam de macaquitos, e há quem reclame...

Como réplica, as esquerdas radicais são infladas, é ação e reação, e o MST invadiu um centro de pesquisas (em 5 de março último) de melhoramento genético da empresa Suzano FuturaGene, em Itapetininga (SP), e destruíram milhares de mudas de eucalipto que faziam parte de pesquisas que vinham sendo realizadas há 14 anos. Trabalho científico perdido, culpa de um ato político simbólico e violento, mais do que isso, imbecil. Ato desproposital, puro vandalismo, e que agrediu a quem nada tem a ver com a polêmica política, o que demonstra que os políticos e as lideranças de seus movimentos perderam o controle da situação.

O vídeo abaixo mostra a histeria coletiva de 500 mulheres do MST em ataque, depredando, nos colocando em atraso tecnológico, sob desculpas esfarrapadas de que seria prejudicial o uso do eucalipto transgênico, que iria acabar com a água e "contaminar" as nossas abelhas...

A visão obscurantista contra os transgênicos por parte do MST repete ataques semelhantes contra centros de pesquisa de biotecnologia, tanto privados como de empresas públicas, em passado recente. O ato em si comprova uma visão de mundo fundamentalista, sociopata, desprovida de qualquer bom senso, com absoluto desprezo pela opinião da maioria esmagadora das pessoas civilizadas e da própria ciência. O MST, mais uma vez, fez má política, e mereceria represálias policiais.

A desastrada ação fez parte da Jornada Nacional de Luta das Mulheres Camponesas. Elas exigiam a retirada de qualquer pedido de liberação comercial do eucalipto transgênico protocolada na CTNBio. Ou seja, é uma ação política, com alta infiltração de elementos histéricos, tentando influenciar uma decisão científica.

O MST acha que está fazendo política com esses atos? Ora, mais uma vez, não me façam rir. Ponham a mão na consciência: com esses ataques o MST põe o movimento na berlinda, atrai antipatias da sociedade urbana. Há maneiras muito mais eficientes de se reivindicar e trabalhar pela Reforma Agrária. Escrevi aqui no blog, dias atrás, sobre a Agricultura Familiar, vejam lá: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2015/03/agricultura-familiar.html 

Os coxinhas, por sua vez, nas passeatas e, sobretudo, na blogosfera, com os seus ataques raivosos, pedem intervenção militar. Enlouqueceram? É um desatino isso! Será que, por acaso, acreditam que vão mudar a centenária aptidão dos brasileiros para a corrupção e o tradicional jeitinho da esperteza tupiniquim de se apropriar dos direitos de outros? Também não me façam rir... É vital que esses ignorantes tenham consciência de que numa ditadura é possível conversar com generais, e de que devemos temer não os generais, mas os cabos e sargentos nas esquinas, são eles que descem o cacete naqueles que ousarem levantar a voz em defesa do que acham certo.

A mediocridade política, das esquerdas e direitas, onde impera a vaidade mal disfarçada dos políticos, onde a luta é só pela conquista do poder, mesmo desrespeitando a Constituição, avança a passos largos, sob descontrole geral, e indica para o caminho da bestialidade. A mídia, em vez de debater, no lugar de informar com neutralidade, toma partido, insufla, e estimula o ódio. Definitivamente, os políticos estão em TPM, e o povo na histeria.

Espero que parem, enquanto há tempo! Pelo bem do Brasil!
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domingo, 2 de junho de 2013

Monsanto vai abandonar o mercado europeu com os seus OGMs

Richard Jakubaszko
Recebo e-mail de Gerson Machado, de algum ponto do planeta, que pode ser de Minas Gerais, ou Londres, onde tem negócios; pois ele está feliz, e informa que a Monsanto vai abandonar o mercado europeu (exceto Espanha e Portugal) com seus OGMs, devido aos altíssimos custos de se enquadrar na burocracia europeia para regulamentar as sementes OGMs, e também porque existem muitas restrições legais. 

Ambientalista convicto, e adepto ferrenho do "princípio da precaução" no uso dos transgênicos (até quando, Gerson? Faz 20 anos que os OGMs estão sendo cultivados; ainda não nasceu ninguém com duas cabeças ou quatro pés...), Gerson parece acreditar que os OGMs, a partir de agora, com essa decisão da Monsanto, vão para o brejo.

Vitória de Pirro, Gerson. Para a Monsanto apenas mais um lance no tabuleiro de xadrez. Já a Europa perde, sim, e muito, mas os EUA, Brasil e Argentina ganham.
Mais informações neste link:

terça-feira, 9 de abril de 2013

Safra difícil

Richard Jakubaszko
Foi um festival de emoções a safra de verão que vai chegando ao fim, tendo em vista que imprevisíveis batalhas foram travadas nas lavouras de soja e milho Brasil adentro. Nas próximas semanas devemos ter um balanço que registre com maior precisão os lucros e perdas desta que foi a safra das incertezas, pois os preços permaneceram bons, tanto para soja como milho, mas o clima e ainda as doenças e pragas mostraram um mau humor contínuo e permanente, desafiando o otimismo dos produtores. As perdas de lucratividade com certeza virão para muitos produtores, conforme registra a matéria “Soja aguada”, da jornalista Marianna Peres, que ouviu especialistas e produtores de várias regiões.

Na capa uma belíssima imagem de soja aguardando colheita ilustra em forma de poesia visual o desespero dos sojicultores, em foto do agrônomo José Tadashi Yorinori.

A reportagem do jornalista Ariosto Mesquita mostra a evolução dos acontecimentos em relação às invasões das lagartas no milho e outras lavouras. O episódio, crítico em algumas regiões, indica as gigantescas dificuldades do jornalismo em busca da verdade. Como já se filosofou em outros tempos, “quando há uma guerra, a primeira vítima é a verdade”. Guardadas as proporções, há uma guerra de interpretações sobre as causas do fato, e não é outro o objetivo da entrevista com o entomologista Fernando Valicente, da Embrapa Milho e Sorgo, senão o de contrapor a visão da ciência versus a emoção dos produtores. Ele informa, entre outras coisas, que "o problema das lagartas vai continuar".

Já na matéria do jornalista José Maria Tomazela o seguro de renda agrícola é dissecado mostrando o que pensam os agricultores, em franca oposição ao desiderato das seguradoras, e comprova a indiferença dos brasileiros por quase todas as formas de seguro.

Assim, mais do que a safra das incertezas, ou ainda, de safra difícil, a safra de verão poderia ser rotulada de safra das emoções, pois já agora no final de março aconteceu o que já se previa: a falta de logística e de condições de transporte da safra encareceu os custos dos fretes, entupiu estradas e os portos, especialmente os de Paranaguá (PR) e Santos (SP), e mostrou que a malandragem brasileira de estocar a safra na carroceria dos caminhões atingiu os limites do possível. Registramos o tema em diversas notas, e ainda através do colunista Décio Gazzoni, que escreveu sobre a bigorna logística.

O fato auspicioso que ressaltamos é a comemoração dos 40 anos de existência da “Nossa Embrapa”, em registro orgulhoso de Evaristo de Miranda, pesquisador prata da casa e integrante do Conselho Editorial da Agro DBO.

No vídeo abaixo meu depoimento sobre a edição 43 da Agro DBO, de abril 2013. A edição virtual da edição pode ser lida no site www.agrodbo.com.br 

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quarta-feira, 6 de março de 2013

O ataque das lagartas

Richard Jakubaszko
Saiu a Agro DBO nº 42, março 2013, com informações e notícias sobre a agricultura brasileira que o leitor não encontrará em nenhum lugar. A Agro DBO consolida-se como a revista de referência para quem deseja saber o que de fato acontece e quais são as tendências da agricultura brasileira. Veja abaixo uma "amostra grátis" do conteúdo:

A matéria de capa, autoria do jornalista Ariosto Mesquita, traz informações sobre a intensa invasão das lagartas nos milharais de 1ª safra de diversas regiões brasileiras no Centro Oeste e Sudeste, com uma característica inesperada: são lavouras de milho GM. Ninguém ainda chegou a uma conclusão definitiva, pois ainda é muito cedo, mas na reportagem, disponível no site da revista ( www.agrodbo.com.br ) para leitura virtual, os interessados poderão acompanhar as entrevistas com produtores e especialistas da área, e saber como é que os produtores estão se defendendo.

Outro destaque da edição é o imbróglio da disputa judicial entre a Monsanto e os produtores de soja do MT, que segue mais apimentado do que vatapá, com fatos novos acontecendo quase que diariamente, e que registramos na Agro DBO em diversas seções, e, em especial, no texto do colunista Daniel Glat, agrônomo e produtor rural, especialista da área sementeira. A novela promete boa audiência com novos e palpitantes capítulos no futuro, porque envolve agora não apenas uma disputa judicial, ou através da mídia, via comunicados, mas até mesmo os políticos, eis que a FPA - Frente Parlamentar de Agricultura vai entrar no debate.

Como destaque ainda da edição, a entrevista com Paulo Herrmann, da Rede de Fomento, que profetiza uma nova revolução na agricultura brasileira através da Integração Lavoura-Pecuária-Silvicultura. Outra entrevista, no Perfil, mostra quem é e o que faz o produtor rural Romeu Ciochetta, exemplo de agricultor profissional e consciente, pioneiro, e um dos desbravadores do Cerrado brasileiro. Meu problema, ao entrevistar os dois especialistas acima, um alemão e outro italiano, foi saber, no calor das conversas, que ambos são gremistas...


Na Agro DBO deste mês, dois artigos técnicos chamam a atenção: Hélio Casale mostra os efeitos positivos do uso da braquiária nas linhas do cafezal, com fotos dignas de serem assinadas por um profissional. E Luís Cesar Pio, diretor da Herbitécnica, lá de Catanduva, atendeu meus apelos para fazer um debate público e escreveu sobre a viabilidade do uso da Agricultura de Precisão com aplicações a taxas diferenciadas de agroquímicos. Como tem gente boa na área que acredita que isso seja possível, Pio mostra as variáveis dessa polêmica.

Pode ler sem medo a Agro DBO, e anunciar também. Sempre dá resultado, pois o leitor é profissional da agricultura.

Abaixo vídeo com depoimento do José Augusto Bezerra (o Tostão) sobre a edição.
 
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sábado, 19 de janeiro de 2013

OGMs: palestra do ambientalista que reconheceu erros.

Richard Jakubaszko
Descobri no Youtube, por sugestão do Degas, o Edgar Pera, editor de Arte lá da DBO, o vídeo com a palestra do Mark Lynas, admitindo que estava errado sobre os OGMs.
É uma pancada e tanto nos ativistas, e que julgue quem assistir ao vídeo abaixo.
O vídeo (legendado em portugês) tem 32 minutos, Lynas é objetivo e claro na colocação dos argumentos e nas opções, ou seja: ou se continua a usar o tal princípio da precaução exacerbada, recomendado pelas ONGs e seus ativistas, ou teremos a fome e desnutrição. 
Para outros detalhes veja post que publiquei aqui no blog, dia 12 de janeiro último: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2013/01/eu-estava-errado-sobre-ogms-diz.html

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sábado, 12 de janeiro de 2013

"Eu estava errado sobre OGMs", diz ambientalista.

Richard Jakubaszko
"Eu estava errado sobre OGM", diz ambientalista em conferência na Inglaterra.

Talvez nada seja mais revelador sobre o intelecto e caráter de uma pessoa do que alterar as ideias. Afinal, mudar sua ideias e convicções sobre algo sugere que você deu a ele tempo e que talvez, apenas talvez, seus primeiros pensamentos estavam incorretos. Costumo dizer que não tenho vergonha de mudar de ideia, porque penso.

Mark Lynas pensou muito sobre OGMs, de milho especialmente. E ele mudou sua cabeça.

Lynas, autor de três livros, incluindo “Seis graus: nosso futuro num planeta mais quente” é geralmente reconhecido como um dos fundadores do movimento anti-OGM em meados da década de 1990 e uma voz crítica da tecnologia OGM. Ele agora declara que estava errado.

Na semana passada, na Conferência de Agricultura de Oxford, no Reino Unido, Lynas fez observações que começaram com um pedido de desculpas surpreendente. "Para o registro, aqui e antecipadamente, peço desculpas por ter passado vários anos criticando os transgênicos. Lamento também que iniciei o movimento anti-OGM em meados de 1990, e que dessa forma ajudei a demonizar uma opção tecnológica importante, que pode ser usada para beneficiar o meio ambiente," disse Lynas.

"Como um ambientalista e alguém que acredita que todos neste mundo têm o direito a uma dieta saudável e nutritiva de sua livre escolha, eu não poderia ter escolhido um caminho mais contraproducente. Agora lamento completamente."

"Então, eu acho que você vai estar se perguntando – o que aconteceu entre 1995 e agora e que me fez não só mudar minha cabeça, mas vir aqui e admitir isso? Bem, a resposta é bastante simples: descobri a ciência, e neste processo eu espero que tenha me tornado um ambientalista melhor."

Foi uma admissão surpreendente de quem é pelo menos parcialmente responsável por muitos países proibirem ou retardarem a pesquisa e a produção de OGMs, como aconteceu no Brasil. Evidentemente que a reação contra Lynas tem sido previsível. Seu site pessoal caiu em audiência com as críticas de todos os ativistas, na maior parte ambientalistas.

Certamente ninguém com as credenciais de Lynas, com o comprometimento com uma causa tão importante como o ativismo ambiental, faria tal inversão na própria ideologia sem uma avaliação cuidadosa. Na verdade, diz Lynas, "mudei ao estudar os fatos sobre OGMs e aceitar a ciência".

Ele enfatizou: "Então fiz algumas leituras, e descobri que uma de minhas crenças sobre OGMs acabou por ser pouco mais do que um verde mito urbano”.

Em alguns sites Lynas declarou que é mais provável que alguém venha a morrer por ter sido atingido por um asteroide, do que ao consumir um alimento transgênico.

Sobre esse tema dos OGMs, mais a polêmica rejeição de alguns puristas contra os agroquímicos, já escrevi diversos artigos, publicados na Agro DBO e na imprensa de uma forma geral, e aqui mesmo no blog. Destaco, entre eles, o "Agricultura é poluição" (DEZ/2007), que pode ser lido neste link: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2007/12/agricultura-poluio.html

Ou, ainda, o "Tudo o que você precisa saber sobre os agrotóxicos" (NOV/2011), que pode ser lido em: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2011/11/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre.html

Este blogueiro entende que muitos outros preconceitos deverão cair, ou serão levados ao esquecimento, com o passar do tempo, entre eles os mitos do aquecimento e das mudanças climáticas. As críticas ao uso dos agrotóxicos é outro mito que deve desaparecer, pois a expectativa média de vida das pessoas aumenta cada vez mais.
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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O freguês sempre tem razão

Marketing da terra
O freguês sempre tem razão
Richard Jakubaszko
O aforismo praticado pelos padeiros lusitanos jamais foi contestado pelos especialistas da mercadologia, comprovando-se como verdade insofismável. Entretanto, no mundo contemporâneo, tanto a mídia de massas, especialmente TVs e jornais, e adeptos de interesses comerciais tentam desmontar e distorcer a realidade. A tentativa de desconstrução dessa verdade encontrou respaldo nas afirmações dos ambientalistas de que o consumidor comum rejeitaria adquirir produtos que contribuíssem para a poluição ambiental ou que trouxessem perigo à sua saúde. Essas “ameaças” categóricas, causaram receios entre produtores rurais, o que é natural.
Três exemplos recentes comprovam que o consumidor não obedece a essa ótica ambientalista, ou não lê jornais e nem assiste TVs, ou ainda, o que é mais provável, definitivamente, não está nem aí para tais questões ambientais. Se não, vejamos:

1º – As sacolas plásticas de supermercados.
Conforme divulgado exaustivamente na mídia, os supermercadistas paulistas realizaram acordo político com o Governo do Estado de São Paulo para acabar com o fornecimento das mesmas aos clientes. A mídia ambientalista aplaudiu a iniciativa. Implantada a ideia houve uma reação crítica da sociedade, e as donas de casa protestaram de forma veemente (sem sequer apelar para a realização de passeatas) com a ausência das sacolinhas, mais ainda por terem de comprar outras sacolas, também de plástico (mas chamadas de biodegradáveis...).
Revelou-se, no episódio, que a “meritória” intenção dos supermercadistas nada tinha de interesse na questão ambiental, mas apenas de reduzir custos e aumentar lucros. A proibição foi revogada em junho último, e ninguém reclama mais.

2º – A paridade do etanol versus gasolina.
Há um consenso antigo de que o etanol deve custar no máximo de 65% do preço da gasolina para tornar-se vantajoso do ponto de vista econômico, mesmo tendo a vantagem de ser muito menos poluente. O etanol transmite mais potência ao veículo, mas consome mais por km percorrido, ou melhor, é mais esbanjador do que a gasolina. Desde 2011 assistimos no Brasil a uma guerra comercial do etanol versus gasolina que seria cômica, não fosse trágica. Os usineiros afirmam que o Governo sustenta preço artificial baixo da gasolina. Já o Governo acusa os usineiros de não investirem nos canaviais, o que ocasionou queda de produção, e de provocarem a anormalidade de fornecimento, para ter aumento dos preços do etanol. Na última entressafra os preços do etanol estiveram em 80% da paridade com a gasolina. Mesmo com a possibilidade de proporcionar visível benefício ambiental às cidades onde vive, o consumidor não quis saber de conversa, aderiu ao uso da gasolina, mesmo que essa não transmita tanta potência aos seus HPs. No jogo de empurra, o Governo Federal reduziu de 25% para 20% a adição de etanol à gasolina. Sobrou etanol no mercado, os preços caíram, mas os investimentos continuam baixos, e aguarda-se a próxima entressafra, quando a guerra deve continuar. O consumidor não está nem aí para a questão ambiental.

3º – Embalagens dos OGMs com avisos
 Os ambientalistas brigaram muito para tornar obrigatório o uso do triângulo amarelo com um ameaçador “T” em seu interior, nas embalagens de alimentos. Através de legislação tornou-se isso obrigatório no Brasil. Na visão idealizada dos ambientalistas o consumidor recusaria esses produtos, e os agricultores deixariam de comprar sementes GMs, liquidando com as empresas fornecedoras. A Europa, em recados através da mídia acrítica, exige do Brasil o fornecimento de alimentos não OGMs, mas jamais se dispôs a pagar um centavo a mais, comprovando a hipocrisia do discurso.

Pois vem da Europa outro exemplo da palavra final do consumidor.
Para observar consumidores em uma situação real, pesquisadores da Universidade de Otago * (Nova Zelândia), montaram barracas de frutas em ruas de 6 diferentes países: Bélgica, França, Alemanha, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido. As tendas vendiam morangos, uvas e cerejas que apresentavam 3 rótulos diferentes: “orgânico, certificado Biogrow” (produto que fortalece a planta), e “baixo resíduo, produzido em área potencial para conservação” e “100% livre de defensivos, geneticamente modificado".

Se os clientes perguntavam sobre as frutas GM, os fornecedores explicavam que continha genes que faziam a planta produzir seu próprio inseticida natural. Na verdade, todas as frutas tinham a mesma origem. Nas barracas de frutas, os frutos GM foram os mais escolhidos.

Com pequena redução na condição de preços, o fruto GM foi a escolha mais popular ou a segunda mais popular em 3 dos 5 países europeus nas bancas de fruta, apesar de ser a opção menos popular em pesquisas de mercado convencionais nesses mesmos países.
Depois de fazer as suas compras nas bancas, os clientes foram questionados sobre suas decisões. O preço foi um fator comum. Muitos clientes que compraram “orgânico” ou “baixo resíduo” disseram tê-lo feito por força do hábito, e alguns diziam que as frutas orgânicas pareciam melhor e mais saborosas. Mesmo tendo provado todas as frutas, alguns consumidores não acreditaram que todos os frutos eram os mesmos, com a mesma origem.

Os resultados sugerem que pesquisas feitas anteriormente podem ter exagerado o grau de sentimento negativo em relação aos produtos GM. Os investigadores concluem que “a expectativa social” leva as pessoas a fazer escolhas diferentes em uma situação de pesquisa das que fariam em uma situação de consumo real.
Em outras palavras, o consumidor pode escolher um produto mais barato, mesmo sendo GM, se acreditar que ninguém está olhando.
Entretanto, em situação de resposta a um questionário, há o desejo de optar por algo socialmente aceitável.
Os pesquisadores apontam que seu raciocínio foi inferido a partir dos comentários coletados.
No entanto, acreditam que as descobertas mostram que os GMs serão mais aceitos pelos consumidores se forem mais baratos e suas vantagens (por exemplo, ausência de resíduos de pesticidas) forem claramente identificadas ou explicadas.
Conclusão: a vontade do consumidor é soberana, pode até ser perversa, mas o freguês sempre tem razão. Revogam-se todas as boas e más intenções em contrário.
*  Fonte: European Commission – Science for Environment Policy

Publicado originalmente na revista Agro DBO / nº 36, agosto 2012 - Licença permitida de reprodução, desde que citada a fonte: www.agrodbo.com.br
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