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domingo, 27 de fevereiro de 2022

As guerras mentem, por Eduardo Galeano

Richard Jakubaszko  
Vivemos neste momento uma abominável guerra de conquistas de espaços geopolíticos, tanto por parte da Rússia, ao invadir a Ucrânia, como por parte da OTAN - Organização do Tratado do Atlântico Norte, comandada pelos EUA. Já estamos no século XXI e guerras desse tipo já deveriam ter sido compactuadas de que não seriam aceitas pela ONU. Mas não, o jogo político e a farsa continuam, a hipocrisia prevalece, com amplo apoio da mídia internacional. A falta de lideranças reais no mundo contemporâneo acentua esse vazio, prevalecendo as fake news.

Ora, a OTAN foi criada nos anos 1940, ao final da II Grande Guerra, pelos países europeus, mas com a liderança dos EUA, para conter o avanço da então União Soviética, que era liderada pela Rússia comunista e com os países da chamada cortina de ferro, no Leste europeu, como Polônia, Ucrânia, Hungria, Geórgia, Checoslováquia, Croácia, Afeganistão, Iugoslávia, e muitos outros. Em 
1989 o papa polonês João Paulo II, apoiado pelo mundo ocidental, entenda-se os EUA e Europa, negociou o fim da União Soviética e do socialismo na região. A grande maioria dos países citados, a partir de então, optou por ser democracia, com eleições regulares, a começar pela própria Rússia. Esses fatos, com o passar do tempo, justificariam a eliminação da OTAN, mas esta já tinha "nova direção" e começava a conquistar aliados entre os antigos países da União Soviética, o que provocou enormes conflitos entre a Rússia e a OTAN, sendo que a Ucrânia é a última novidade. Contrariedades postas e discutidas, ninguém deu passo para trás e a guerra começou.
 
As imbecilidades estão postas, especialmente a guerra, do ponto de vista humano de Eduardo Galeano, que afirma que as guerras mentem.
 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Feliz Natal II

Richard Jakubaszko  

Em tempos de pandemia, incertezas e indefinições, nada melhor do que um texto primoroso de Galeano, que nos alivia o peso, é como um Feliz Natal:



 .

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O veneno está na mesa

Richard Jakubaszko
Está publicado abaixo, ancorado no Youtube, o documentário "O veneno está na mesa" roteirizado e dirigido pelo cineasta (?) Silvio Tendler, lançado ao final de 2011. Foi dividido em 4 módulos, os quais apresento abaixo, e que o visitante do blog poderá assistir sem sair do blog (média de cerca de 10 minutos para cada bloco).
O documentário, em minha mais honesta opinião, tem falácias e conotações ideológicas, opiniões até mesmo emocionais e ridículas, distorcidas pelo roteirista e diretor. Ao mostrar as entrevistas de alguns dos depoentes a pieguice desanda a maionese.

Abaixo de cada bloco, comento e contesto os depoimentos apresentados por alguns dos entrevistados do documentário. Em todo o documentário os responsáveis parecem chamar os produtores rurais de idiotas, por usarem agrotóxicos ou OGMs e outras tecnologias, como fertilizantes. Não se atrevem a tanto, mas usam o novo palavrório destes modernos tempos de inquisição ambiental. 
Recomendo assistir primeiro cada bloco do documentário, e depois ler os meus comentários, que procurei sintetizar ao máximo possível.

Parte 1


Parte 1/4
O vídeo inicia com uma chamada espalhafatosa no início do documentário “O veneno está na mesa”, e procura respaldo numa estatística deturpada, a de que “desde 2008 o Brasil é o Campeão Mundial no uso de agrotóxicos”. Na sequência, afirma de forma mentirosa que “cada brasileiro consome em média 5,2 litros / quilos de agrotóxicos por ano”.
Ora, pegaram o total de todos os quilos e litros de agrotóxicos fabricados ou importados, inclusive baraticidas, formicidas e raticidas, de uso urbano, somaram tudo e dividiram pelo total da população, afirmando, portanto, de maneira escandalosa, que cada brasileiro consome esses 5,2 kg ou l, sem considerar uso urbano ou ainda que houve nas lavouras perdas por volatização, ou que metade desse volume depositou-se no solo, foi lavado pela chuva ou irrigação, se decompôs pela luz solar (fotodecomposição), enfim, diluiu-se na natureza, inclusive rios e lagos.
A afirmação não considera, ainda, que boa parte desses produtos químicos são lavados pelas donas-de-casa antes de serem consumidos. Evidentemente que é impossível projetar-se em um cálculo simplório como esse o quanto de agrotóxico chega à mesa dos brasileiros. De toda forma, eu arriscaria dizer que, se tanto, menos de 1 quilo ou litro per capita / ano de agrotóxicos chega incorporado aos alimentos até o comércio varejista, em toneladas de alimentos os mais diversos, antes de ser higienizado nas residências ou restaurantes. Mesmo assim, é um exagero estatístico, com mera intenção de alarmar a população.

Na sequência, aparece a figura simpática do escritor, jornalista e humanista uruguaio Eduardo Galeano, que faz a apologia política e ideológica das lutas dos países e povos sul americanos na perda de seus recursos naturais, do roubo feito por países estrangeiros e multinacionais das riquezas de países como o Brasil e outros da América Latina. Após um corte suave, Galeano vai ao assunto proposto pelo documentário, e critica os países progressistas, como o Brasil, que permitem o uso dos agrotóxicos em nome da produtividade. Ora, e o que ele deseja? Que as populações desses países, inclusive o Brasil, passem fome? Que paguem mais caros pelos alimentos que faltariam à população? Há incoerência, na minha modesta opinião, nas afirmações de Galeano, em que ele mistura política e ideologia com abastecimento alimentar.

A seguir aparece uma locução dramática com outra mentira que já desmenti aqui no blog, no artigo “Tudo o que você precisa saber sobre agrotóxicos”, de nov/2011: ( http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2011/11/tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre.html ). Diz a locução: “são vários princípios ativos proibidos e banidos em vários países do mundo, que circulam impunemente no Brasil, porque o lobby é muito forte, e por isso somos o campeão mundial de agrotóxicos, e nenhum outro país usa tanto agrotóxico quanto o Brasil”. Na sequência, dramatiza, como se falasse com uma criança de 10 ou 12 anos, e diz que "a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a ANVISA, fica amarrada com as injunções jurídicas impostas pelas multinacionais".

Dá como exemplo a pretendida (e obtida) proibição de venda no Brasil do inseticida Metamidophós, tema que tratei em outro artigo aqui no blog: “A Anvisa, a quem serve?” ( http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2011/07/anvisa-quem-serve.html  ) e que até hoje a Anvisa não se deu ao trabalho de responder do porque levou mais de 30 anos para tomar essa providência, ou melhor, ao menos 15 anos, pois esse é o tempo de existência da Anvisa, e tampouco se deu ao trabalho de explicar porque ela, Anvisa, autorizou a fabricação e o uso durante todo esse tempo, e depois “mudou de ideia”. Afinal, a Anvisa, juntamente com o Ministério da Agricultura (MAPA), mais o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente, Ibama, integra os 3 órgãos federais responsáveis por analisar, aprovar e autorizar a fabricação e o uso dos agrotóxicos no Brasil. A leitura dos dois artigos em que coloquei o link é fundamental para entender essa patacoada da Anvisa e do documentário em causa.

Na sequência, o documentário ataca o setor rural, ou o “agronegócio”, como se fosse um palavrão, usa a mesma linguagem do Movimento dos Sem Terra, sem nenhuma criatividade, critica o que chama de “a promessa da revolução verde”, que proporcionou comida a custos baratos aos brasileiros, que gera empregos a 1/3 da população ativa, e que permitiu ao Brasil tornar-se o segundo maior exportador de alimentos do mundo, sendo que somos os primeiros exportadores em carne, açúcar, suco de laranja, etc., gerando mais empregos e divisas. Acusam, sem saber do que falam, de que a revolução verde impôs o monocultivo, cultivado em extensas lavouras. É rizível a afirmação. Monocultivo de quê? Só se for de cana, café, laranja, soja, milho, gado, arroz e feijão, e tudo o mais que se come e exporta. Pergunto aos autores do crítico e falacioso documentário se seria possível produzir alimentos em áreas pequenas para o tanto de gente que existe nas populosas cidades brasileiras? Será que os “brilhantes” roteiristas do distorcido documentário em causa teriam alguma fórmula miraculosa de produzir alimentos em pequenas áreas para tanta gente?

Mas a revolução verde teve sucesso, apesar da torcida e "do somos contra" desses urbanos. Isso foi mérito dos agrotóxicos? Não, não foi, mas estes fizeram a sua parte, aliás, uma parte importante nessa vitória, juntamente com o emprego de sementes de alta qualidade, máquinas agrícolas adequadas, tecnologias e do uso de fertilizantes, do eficiente manejo das lavouras, criadas pelas ciências agronômicas no Brasil, adaptadas ao sistema tropical em que vivemos, que é muito diferente do clima temperado acima do Equador.

Os transgênicos são também atacados, logo os OGMS, que reduzem o uso e quantidade de agrotóxicos, pois é uma tecnologia, segundo o documentário, "temerária", e que leva riscos aos seres humanos. Ou seja, o documentário faz a apologia do medo, acusa, desmerece e desqualifica. Afirma  que o uso dos OGMs generalizou-se, como se náo fossem apenas soja, milho e algodão as únicas lavouras que usam OGMs. Para os incautos espectadores, manipulados pelo roteiro e pelo texto infantilizado do documentário, fica a impressão de que todas as lavouras hoje em dia são OGMs, seja feijão, arroz, batata, verduras e frutas. O jargão-palavrão “transgênico” é repetido como se se falasse da invasão dos habitantes dos infernos em nossa calma e pacata vidinha urbana.

Após registrar o medo dos OGMs, o documentário envereda pelo caminho tortuoso de reescrever a história da química, e esquece que nas farmácias brasileiras (e do mundo) existem milhares de remédios, ou “homotóxicos”, todos também regulados pela Anvisa, e que nos fazem muito mais mal do que podem fazer os agrotóxicos, pois são consumidos vergonhosa e livremente pela população em grandes quantidades, exceto pelo controle fiscalizado inadequadamente de antibióticos e psicotrópicos. Sobre a história das guerras não vou comentar, e muito menos defender as acusações, especialmente das ações de uso inapropriado feitas pelo exército americano com produtos químicos, seria o mesmo que criticar os fabricantes de aviões (e culpá-los por isso) pelo uso inadequado deles durante as guerras.

A primeira parte do documentário panfletário continua com o depoimento de alguns produtores queixosos, que admitem que antes produziam 40 ou 50 sacos de milho por hectare, mas hoje produzem mais de 100 sacos na mesma área, agora com boas sementes, gastando muito menos, mas acham ruim porque não podem reproduzir as sementes. Patético, na minha opinião. O que querem? Produzir sem pagar direitos de uso? Reproduzir as sementes sem pagar nada? Só os roteiristas podem acreditar num trabalho beneficente de empresas que investiram tempo e dinheiro em pesquisas.

Aí, antes de encerrar o primeiro ato, aparece a doutora Letícia, gerente de regulamentação da Anvisa, notória e declarada inimiga do uso de agrotóxicos, porque, conforme ela mesmo me afirmou, em alto e bom som, tem um filho alérgico. Não justifica, pois eu também sou um tremendo de um alérgico. Assim, afirma ela que os alimentos mais contaminados são o pimentão, pepino, morango, abacaxi, uva, que seriam os alimentos que causam a maior preocupação. Na opinião dela a população nem deveria consumir esses alimentos. Ou seja, é um agente do Governo Federal, mas agita política e ideologicamente a população, leva pânico às pessoas, ao invés de regular de forma profissional e ética a fabricação e o uso de produtos que estão sob sua razão direta de existência. Afirma a doutora Letícia, no seu linguajar cheio de tecnicalidades, que os alimentos são produzidos com uso de produtos proibidos (o que é uma falácia e uma enorme deturpação) e que se produz alimentos com uso de “produtos sem conformidade”, conforme pesquisa da Anvisa.

É importante registrar que a pesquisa da Anvisa, “replicada” em 2011, pois havia sido divulgada também em 2010, teve seus desastrosos resultados contestados por este blog (Ler artigo “A Anvisa, a quem serve?”, indicado acima), por diversos cientistas e até mesmo pela mídia, como a revista Veja de 4-1-2012, edição 2.250. Mas o documentário faz a apologia do medo e do pânico, pois os especialistas em comunicação aprenderam a “trabalhar” com percentuais sem nenhum referencial. Estes, citados de forma contextualizada, seriam ótimos, mas a forma como o documentário “informa”, ou seja, “descontextualizada”, pode assustar as criancinhas. Ao final, a doce criatura Ana Maria Primavesi, agrônoma, avó preocupada e ecologista, mãe do meu amigo Odo Primavesi, mostra sua preocupação com a produção de batata, que no passado não muito distante já foi a lavoura campeã no uso de agrotóxicos, mas hoje nem aparece na lista dos alimentos “criminosamente” contaminados, segundo a Anvisa.

O campeonato mundial de uso de agrotóxicos, e não apenas estas, mas outras tecnologias, deveria ser motivo de orgulho para todos os brasileiros, mas o diacho da cultura do cachorro vira-lata, que lambe os pés de todos os superiores, acredita que é uma vergonha ser campeão nisso também.

Parte 2


Parte 2/4
A segunda parte do documentário segue fazendo inúmeras denúncias publicadas na imprensa e ainda colhendo depoimentos de produtores da agricultura familiar que se queixam de terem sido contaminados por venenos, sem nunca exercer uma autocrítica do uso incorreto desses venenos, ou mesmo da forma como os utilizaram, invariavelmente sem senhum cuidado e sem uso de equipamentos de proteção, apesar das recomendações expressas nos rótulos. Ao final desta parte o documentário requenta uma denúncia de 2011 feita por uma estudante do Mato Grosso que, orientada por um professor da UFMT (um tal de Pignati), mal intencionado, especula sobre a contaminação do leite materno em mães de Lucas do Rio Verde, inclusive pelo temido e proibido DDT. Já ficou provado que o estudo citado carece de qualquer base científica, foi feito às pressas, usou equipamentos laboratoriais obsoletos, e contém deturpações de análise científica e acadêmica de estarrecer qualquer pessoa de bom senso. Mas o documentário, mais preocupado em aterrorizar, repete a ladainha.
Parte das acusações feita na parte 2/4 do documentário estão devidamente registradas aqui no blog, no post “Jornal Nacional, notícias requentadas II”: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2011/12/jornal-nacional-noticias-requentadas-ii.html


Parte 3


Parte 3/4
O terceiro bloco do documentário é patético! Continua a lenga-lenga de denúncias de contaminações de trabalhadores rurais, depois mostra cenouras, pimentões, tomates, e lista os benefícios de seus usos, mas relaciona agrotóxicos usados, e autorizados, e cita não autorizados (eles queriam dizer proibidos...), ou seja, de novo, dados da pesquisa da Anvisa, já desmentida, desconstruída, e já provada como alarmista, porque há “falta de conformidade”.

Há um patético depoimento de um possível agente da Anvisa, ou sabe-se lá de onde é, pois o depoente não é identificado, apenas sua voz aparece, em que reclama de “pressões jurídicas” das indústrias, feitas em resposta às tentativas de proibições praticadas pela Anvisa. Ora, a Anvisa, primeiro liberou, autorizou a fabricação, venda e uso, juntamente com o Ministério da Agricultura e o Ibama, e depois voltou atrás, aparentemente reanalisou o assunto, e sem explicações tenta proibir o que ela própria autorizou, e ainda assim não desejava ser legalmente contestada?

Parece que desejam ser “autoritários” sem nenhuma contestação... Interessante a ótica da democracia vigente na Anvisa, como dizia Millor Fernandes: “quando eles mandam é democracia, quando os outros mandam é ditadura...”, ou pior, quando são contestados, de forma legal e democraticamente, é porque o “inimigo” exerce pressão, inclusive judicialmente...


Parte 4

Parte 4/4
No quarto bloco o autor e diretor do documentário mente de forma vergonhosa. Primeiro cita que 70% dos alimentos dos pobres são frutas, legumes e hortaliças cultivados pela agricultura familiar. Primeira mentira, porque a base da comida do pobre é arroz e feijão, mais carne ou frango, e alguma coisa de frutas ou saladas, estes menos frequentes se o dia do pagamento do salário foi mais de uma semana antes. Depois, a mentira maior, quando afirma que "todos, ou pelo menos a maioria dos agricultores", são “obrigados a trabalhar com transgênicos, além de inseticidas e outros agrotóxicos, pois sem isso não teria créditos em bancos para financiar o plantio”. A ignorância do autor e diretor do documentário em relação ao que fala e escreve é evidente, pois desconhece que apenas soja, milho e algodão são alimentos transgênicos. Ou seja, frutas, legumes e hortaliças, no Brasil e no mundo, ainda não possuem sementes transgênicas. Lá fora até já houve estudos com tomate, o “longa vida”, mas que não sobreviveu comercialmente, além de pequenas áreas de batata OGM para uso industrial (cola, amidos), colza, sorgo, e encerra-se por aí a lista. O que o autor deseja é o terrorismo, só pretende amedrontar a quem assistir seu documentário com denúncias sem nenhum fundamento, mesmo que falseie, invente, minta de forma descarada, e ainda defende e induz o espectador a ter pena dos agricultores familiares. Será que não há ideologia por trás de tudo isso?

Na sequência desta quarta parte o autor desembesta enlouquecido pela citação de números estatísticos que vai “criticando” com moralismo escoteiro, sem apontar fontes, dados como o de que “a saúde do trabalhador custa 58,1 bilhões aos cofres públicos”, ou ainda de que “1,8% do PIB é gasto com doenças”, e que “a química introduziu o câncer na dieta do brasileiro”!!! Ora, mas já não está provado que três mil anos atrás os egípcios e gregos já tinham câncer? O tresloucado e mentiroso, mas inventivo redator, investe a favor das sementes nativas, e cita que “híbridos foram transformados em transgênicos”! Quase caí da cadeira ao escutar isso, “tadinhos dos agricultores”, o redator nem sabe o que é um híbrido, mistura alhos com bugalhos, questiona e inventa, e afinal, o que é que tem a ver o urubu com as garças, pois nem sabe do que fala...

Depois, o documentarista mentiroso mostra um produtor (Adonai) a quem chama de criativo, por ser produtor de orgânicos e não usar transgênicos, e que tem a coragem de enfrentar as “criminosas” multinacionais. No depoimento do entrevistado, em que ele próprio afirma ser “obrigado” a mostrar ao banco as notas fiscais do que usou de insumos, para comprovar que aplicou o dinheiro do crédito rural na lavoura, e não para comprar um carro, ou para se divertir no boteco, o documentarista “sub-entende” que o banco "obriga" os produtores a usar venenos e transgênicos. Não, o banco, e esse banco é o Banco do Brasil, financiando o Pronaf – Programa Nacional de Agricultura Familiar, não obriga ninguém a nada, apenas pede que o financiado comprove onde aplicou o dinheiro, mas depois de emprestar, e depois de o produtor familiar ter investido o dinheiro altamente subsidiado naquilo que o ajudaria a produzir.

Como o colono Adonai deixou bem claro, caso contrário o Proagro (seguro) não cobre os prejuízos de um possível desastre da lavoura. Com essa lenga-lenga o documentarista queria o quê? Ele não explica que alguns pequenos produtores da agricultura familiar tomam dinheiro emprestado pelo Pronaf, em que o banco é apenas agente repassador, e que alguns desses pequenos agricultores usam o dinheiro para comer (compram no supermercado a comida...), ou pagam dívidas, e depois alegam que plantaram e que não colheram nada, e ainda querem receber o seguro do Proagro, sem ter feito nada. Na verdade, o dinheiro do Proagro seria para ressarcir ao banco da dívida contraída, e sem possibilidade de receber, já que o agricultor não obteve renda. É óbvio ululante que o produtor precisa comprovar que plantou a sua lavoura, e para isso gastou o dinheiro comprando sementes, adubos, máquinas e até agrotóxicos. Mas os documentaristas são contra isso, acham que a burocracia está protegendo as multinacionais, como se não houvesse empresas nacionais nessa área...

O documentarista, ainda na entrevista com Adonai, preconiza o uso de sementes nativas de milho, que produzem 1.000 kg por hectare, ou menos ainda, contra 10.000 mil/ha ou mais dos híbridos no mesmo hectare, e não se pergunta a razão de nenhum agricultor usar mais as sementes nativas... Pois o documentarista parece desejar a volta aos tempos dos tataravós, e mostra isso com o trabalho de tração animal, arando a terra (aração que a Dra Ana Primavesi proibiria...), o que é um exemplo inequívoco de quem não entende de fome de gente. Fôssemos produzir alimentos com esses recursos e morreriam 2 bilhões de pessoas por ano, por absoluta falta de comida.

Na sequência, antes de finalizar, o documentarista traz novamente a figura da Dra. Ana Pimavesi, que coloca em debate e critica os usos inadequados de algumas tecnologias, sem especificar quais, e sugere o trabalho do solo, mantendo-o em equilíbrio, com matéria orgânica, por exemplo. Seria um bom debate agronômico, mas como não se explica nada no documentário, e não é essa a intenção, o que se deseja são denúncias vazias, o depoimento da Dra. Primavesi é cortado abruptamente. O diretor deixa no ar a impressão de que ela só é favorável aos orgânicos, o que não é verdade, pois ela é uma especialista em solos e no uso harmônico dos recursos que a própria natureza permite aos homens, como o plantio direto, por exemplo, onde não se ara a terra. Mas o documentarista acha que esse debate é inapropriado, por isso o corte é feito sem maiores explicações... E segue reapresentando todos os demais depoentes, em frases “humanistas” e “poéticas”, para tentar sintetizar a opinião de que alimento orgânico é o melhor pra todo mundo. Só não explica porque os orgânicos custam tão mais caro... E não revela que os orgânicos mataram algumas dezenas de pessoas na Europa higienizada, agora em 2011, por terem comido broto de feijão orgânico, contaminado com Escherichia Coli.

Já tratei do tema, aqui no blog, através do artigo “Agricultura é poluição”: http://richardjakubaszko.blogspot.com.br/2007/12/agricultura-poluio.html
onde demonstro a impossibilidade de se plantar alimentos para alimentar 7 bilhões de pessoas apenas com orgânicos. Isso não é poesia, é utopia! Plantar lavouras diversificadas de legumes, frutas e hortaliças, em áreas pequenas ou médias, é possível, e até pode dar lucro para alguns produtores. Dá muito trabalho, e só compensa se o preço pago pelo consumidor for muito maior quando comparado aos produtos convencionais que usam modernas tecnologias. Já em grãos é impossível! E sem grãos, como soja e milho, por exemplo, teríamos de ser vegetarianos, pois frango e porco se alimentam exclusivamente de grãos, gado de leite também, e hoje em dia até gado confinado precisa de suplementos com ração à base de grãos. Para criar animais que forneçam carnes à dieta humana, sem grãos não é possível. E, para plantar grãos, necessita-se de áreas mais extensas, onde ecossistemas deixam de existir, como explico no artigo “Agricultura é poluição”, e passa a ser agrossistema. Neste, para colher alguma coisa, rentável ao trabalho dos produtores rurais, só com o uso de tecnologias, especialmente agrotóxicos, o resto é conversa fiada de ambientalista urbano ou de documentarista mal informado e mentiroso, talvez mesmo mal intencionado e cheio de ideologias que interessam apenas a seus verdadeiros patrocinadores.

Finalmente, entre outras coisas, o que mais me deixa contrariado, ou, mais do isso, me irrita de verdade, nas propostas dos ambientalistas, é que desejam e sugerem um mundo despoluído com todo mundo feliz, alimentando-se saudavelmente de orgânicos. Entretanto, nunca debatem que o problema dos alimentos existe porque há excesso de gente no planeta (somos 7 bilhões, e seremos 9 bilhões em 2015), e que todos precisam comer alimentos baratos, condizentes com o que ganham. Eles, os ambientalistas, não explicam, de outro lado, que com as técnicas de produção orgânica, se estaria praticando as perversas recomendações de Thomas Malthus, matemático e religioso que viveu no século XVIII, que apregoava deixar os pobres entregues à propria sorte, pois se matariam em guerras e morreriam também de fome, pois o planeta não teria como prover a eles todas as suas necessidades. Era o que Malthus sugeria aos reis e príncipes daquela época, e que agora os biodesagradáveis desejam sugerir com outro discurso, uma conversa idealizada e poética dos orgânicos.
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sábado, 17 de setembro de 2011

O direito ao delírio, e à utopia.

Richard Jakubaszko
O direito ao delírio, e à utopia, deveria ser sempre garantido a todos. Por Eduardo Galeano: "pois a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes, e nem por falecimento, nem por sorte, se converterá o canalha em um virtuoso cavalheiro".  
Vale a pena assistir, e revisitar, sempre que necessário, para enxergar as utopias e para vislumbrar delírios.



Enviado por Silvia Nishikawa, da Tris Agronegócios, lá de São Gotardo, MG, por saber que sou fã do Galeano, desde há muito tempo.
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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Caí no mundo e não sei como voltar

Eduardo Galeano
O que acontece comigo é que não consigo andar pelo mundo pegando
coisas e trocando-as pelo modelo seguinte só por que alguém adicionou uma nova função ou a diminuiu um pouco…

Não faz muito, com minha mulher, lavávamos as fraldas dos filhos,
pendurávamos na corda junto com outras roupinhas, passávamos, dobrávamos e as preparávamos para que voltassem a serem sujadas.

E eles, nossos nenês, apenas cresceram e tiveram seus próprios filhos
se encarregaram de atirar tudo fora, incluindo as fraldas. Se entregaram, inescrupulosamente, às descartáveis!

Sim, já sei. À nossa geração sempre foi difícil jogar fora. Nem os
defeituosos conseguíamos descartar! E, assim, andamos pelas ruas, guardando o muco no lenço de tecido, de bolso.

Nããão! Eu não digo que isto era melhor. O que digo é que, em algum
momento, me distraí, caí do mundo e, agora, não sei por onde se volta.

O mais provável é que o de agora esteja bem, isto não discuto. O que
acontece é que não consigo trocar os instrumentos musicais uma vez por ano, o celular a cada três meses ou o monitor do computador por todas as novidades.

Guardo os copos descartáveis! Lavo as luvas de látex que eram para
usar uma só vez.

Os talheres de plástico convivem com os de aço inoxidável na gaveta
dos talheres! É que venho de um tempo em que as coisas eram compradas para toda a vida!
 

E mais! Se compravam para a vida dos que vinham depois! A gente herdava relógios de parede, jogos de copas, vasilhas e até bacias de louça.

E acontece que em nosso nem tão longo matrimônio, tivemos mais
cozinhas do que as que haviam em todo o bairro em minha infância, e trocamos de refrigerador três vezes.

Nos estão incomodando! Eu descobri! Fazem de propósito! Tudo se lasca,
se gasta, se oxida, se quebra ou se consome em pouco tempo para que possamos trocar. Nada se arruma. O obsoleto é de fábrica.

Aonde estão os sapateiros fazendo meia-solas dos tênis Nike? Alguém
viu algum colchoeiro encordoando colchões, casa por casa? Quem arruma as facas elétricas? O afiador ou o eletricista? Haverá teflon para os funileiros ou assentos de aviões para os talabarteiros?

Tudo se joga fora, tudo se descarta e, entretanto, produzimos mais e
mais e mais lixo. Outro dia, li que se produziu mais lixo nos últimos 40 anos que em toda a história da humanidade.

Quem tem menos de 30 anos não vai acreditar: quando eu era pequeno,
pela minha casa não passava o caminhão que recolhe o lixo! Eu juro! E tenho menos de ... anos! Todos os descartáveis eram orgânicos e iam parar no galinheiro, aos patos ou aos coelhos (e não estou falando do século XVII). Não existia o plástico, nem o nylon. A borracha só víamos nas rodas dos autos e, as que não estavam rodando, as queimávamos na Festa de São João. Os poucos descartáveis que não eram comidos pelos animais, serviam de adubo ou se queimava...

Desse tempo venho eu. E não que tenha sido melhor.... É que não é
fácil para uma pobre pessoa, que educaram com "guarde que alguma vez pode servir para alguma coisa", mudar para o "compre e jogue fora que já vem um novo modelo".

Troca-se de carro a cada 3 anos, no máximo, por que, caso contrário,
és um pobretão. Ainda que o carro que tenhas esteja em bom estado... E precisamos viver endividados, eternamente, para pagar o novo!!! Mas... por amor de Deus!

Minha cabeça não resiste tanto. Agora, meus parentes e os filhos de
meus amigos não só trocam de celular uma vez por semana, como, além disto, trocam o número, o endereço eletrônico e, até, o endereço real.

E a mim que me prepararam para viver com o mesmo número, a mesma
mulher, e o mesmo nome (e vá que era um nome para trocar). Me educaram para guardar tudo. Tuuuudo! O que servia e o que não servia. Por que, algum dia, as coisas poderiam voltar a servir.

Acreditávamos em tudo. Sim, já sei, tivemos um grande problema: nunca
nos explicaram que coisas poderiam servir e que coisas não. E no afã de guardar (por que éramos de acreditar), guardávamos até o umbigo de nosso primeiro filho, o dente do segundo, os cadernos do jardim de infância e não sei como não guardamos o primeiro cocô.

Como querem que entenda a essa gente que se descarta de seu celular a
poucos meses de o comprar? Será que quando as coisas são conseguidas tão facilmente, não se valorizam e se tornam descartáveis com a mesma facilidade com que foram conseguidas?

Em casa tínhamos um móvel com quatro gavetas. A primeira gaveta era
para as toalhas de mesa e os panos de prato, a segunda para os talheres e a terceira e a quarta para tudo o que não fosse toalha ou talheres. E guardávamos...

Como guardávamos! Tuudo! Guardávamos as tampinhas dos refrescos!
Como, para quê? Fazíamos limpadores de calçadas, para colocar diante da porta para tirar o barro. Dobradas e enganchadas numa corda, se tornavam cortinas para os bares. Ao fim das aulas, lhes tirávamos a cortiça, as martelávamos e as pregávamos em uma tabuinha para fazer instrumentos para a festa de fim de ano da escola.

Tuudo guardávamos! Enquanto o mundo espremia o cérebro para inventar
acendedores descartáveis ao término de seu tempo, inventávamos a recarga para acendedores descartáveis. E as Gillette – até partidas ao meio – se transformavam em apontadores por todo o tempo escolar. E nossas gavetas guardavam as chavezinhas das latas de sardinhas ou de corned-beef, na possibilidade de que alguma lata viesse sem sua chave.

E as pilhas! As pilhas das primeiras Spica passavam do congelador ao
telhado da casa. Por que não sabíamos bem se se devia dar calor ou frio para que durassem um pouco mais. Não nos resignávamos que terminasse sua vida útil, não podíamos acreditar que algo vivesse menos do que um jasmim. As coisas não eram descartáveis. Eram guardáveis.

Os jornais!!! Serviam para tudo: para servir de forro para as botas de
borracha, para por no piso nos dias de chuva e por sobre todas as coisa para enrolar.

Às vezes sabíamos alguma notícia lendo o jornal tirado de um pedaço de
carne! E guardávamos o papel de alumínio dos chocolates e dos cigarros para fazer guias de enfeites de natal, e as páginas dos almanaques para fazer quadros, e os conta-gotas dos remédios para algum medicamento que não o trouxesse, e os fósforos usados por que podíamos acender uma boca de fogão (Volcán era a marca de um fogão que funcionava com gás de querosene) desde outra que estivesse acesa, e as caixas de sapatos se transformavam nos primeiros álbuns de fotos e os baralhos se reutilizavam, mesmo que faltasse alguma carta, com a inscrição a mão em um valete de espada que dizia "esta é um 4 de paus".

As gavetas guardavam pedaços esquerdos de prendedores de roupa e o
ganchinho de metal. Ao tempo esperavam somente pedaços direitos que esperavam a sua outra metade, para voltar outra vez a ser um prendedor completo.

Eu sei o que nos acontecia: nos custava muito declarar a morte de
nossos objetos. Assim como hoje as novas gerações decidem ‘matá-los’ tão-logo aparentem deixar de ser úteis, aqueles tempos eram de não se declarar nada morto: nem a Walt Disney!!!

E quando nos venderam sorvetes em copinhos, cuja tampa se convertia em
base, e nos disseram: ‘Comam o sorvete e depois joguem o copinho fora’, nós dizíamos que sim, mas, imagina que a tirávamos fora!!! As colocávamos a viver na estante dos copos e das taças. As latas de ervilhas e de pêssegos se transformavam em vasos e até telefones. As primeiras garrafas de plástico se transformaram em enfeites de duvidosa beleza. As caixas de ovos se converteram em depósitos de aquarelas, as tampas de garrafões em cinzeiros, as primeiras latas de cerveja em porta-lápis e as cortiças esperaram encontrar-se com uma garrafa.

E me mordo para não fazer um paralelo entre os valores que se
descartam e os que preservávamos. Ah!!! Não vou fazer!!!

Morro por dizer que hoje não só os eletrodomésticos são descartáveis;
também o matrimônio e até a amizade são descartáveis. Mas não cometerei a imprudência de comparar objetos com pessoas.

Me mordo para não falar da identidade que se vai perdendo, da memória
coletiva que se vai descartando, do passado efêmero. Não vou fazer.

Não vou misturar os temas, não vou dizer que ao eterno tornaram caduco
e ao caduco fizeram eterno.

Não vou dizer que aos velhos se declara a morte apenas começam a
falhar em suas funções, que aos cônjuges se trocam por modelos mais novos, que as pessoas a que lhes falta alguma função se discrimina o que se valoriza aos mais bonitos, com brilhos, com brilhantina no cabelo e glamour.

Esta só é uma crônica que fala de fraldas e de celulares. Do
contrário, se misturariam as coisas, teria que pensar seriamente em entregar à ‘bruxa’, como parte do pagamento de uma senhora com menos quilômetros e alguma função nova. Mas, como sou lento para transitar este mundo da reposição e corro o risco de que a ‘bruxa’ me ganhe a mão e seja eu o entregue...

* Jornalista e escritor uruguaio


Comentário de Richard Jakubaszko:
Eduardo Galeano é um jornalista e escritor uruguaio, por vezes genial como na presente crônica, um texto inigualável e saboroso. Evidentemente eu já havia pensado no tema sobre o qual ele discorre no texto acima, apenas não tive a paciência de escrever algo a respeito, por entender que é absolutamente contrário ao que as pessoas pensam e fazem hoje em dia. Muitos dos que têm hoje mais de 40 anos já perceberam que essas coisas mudaram, e como, nos tempos modernos. Quantos de nós já não reclamamos? Apenas não escrevemos com a graça e simplicidade de Galeano.
O que se aplica adequadamente na questão é o absurdo do consumismo moderno (e sobre isso Galeano também já escreveu) e a imperiosa necessidade de reaproveitarmos e reciclarmos para conquistar a sustentabilidade.

NOTA ADICIONAL DO BLOGUEIRO: conforme comentário abaixo, consta que a autoria do texto acima não é de Eduardo Galeano, e sim de Marciano Durán, outro autor uruguaio ( http://www.marcianoduran.com.uy/?p=176 ).
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