terça-feira, 20 de agosto de 2019

Os brucutus no poder

Fernando Brito

O Globo publicou domingo( aqui ) uma “coletânea” dos desaforos, agressões e xingamentos presidenciais. É obra alentada, mas não importa o grau da baixaria, nada mais surpreende no ex-capitão, exceto o fato de temo-lo na Presidência da República.

Grosseiro, primário, preconceituoso, simplista, incompetente, autoritário, nepotista, desumano, insensível, sabujo, seriam necessárias páginas para listar defeitos e deformações da figura presidencial. O fato é que estas “qualidades” sempre foram as dele e, portanto, seu poder não se construiu sozinho.

Discute-se muito como pode Jair Bolsonaro arrebanhar tamanho núcleo de fanáticos e , a partir dele, desfechar seu bem-sucedido assalto ao poder.

Fala-se, com razão, nas decepções com o petismo, nos anos de crise econômica, nas manipulações judiciais abjetas conduzidas contra Lula.

Sim, isso explica a existência dos “minions”, dos fanáticos incondicionais, da seita bruta e burra disposta a tudo pelo “Mito”.

Mas isto é pouco e penso que, com a sensibilidade aguda dos artistas, o chargista Renato Aroeira nos dá resposta mais completa no desenho que publica hoje e que reproduzo acima.

O fenômeno Bolsonaro, em muito, se explica quando se percebem seus companheiros de troglodismo estúpido na política, como Wison Witzel e João Doria.

Representam, cada um a seu modo – ou à sua falta de modos – os três grupos que exponenciaram sua vileza e passaram a conduzira a vida brasileira.
 
Bolsonaro é uma fusão do militarismo tosco, do policialismo, dos recalques e rancores de parte de uma classe média baixa, que precisa atribuir a alguém a sua incapacidade de ascensão e escolhe os inimigos os que lhe dita o “senso comum”: os pobres, os negros, os nordestinos, os políticos, os governantes, todos eles reunidos sob os anátemas de “bandidos”, indolentes ou corruptos. Quando não os enquadram assim, vão todos para uma categoria vaga de anticristãos: os comunistas, os gays, os drogados…


É gente que trata como heresia qualquer dissensão sobre as suas verdades absolutas e prontas, que ejetam em frases conclusivas com as quais se protegem de qualquer indagação ou tentativa de argumentação: raciocinar é o mesmo que conceder às dúvidas um pecado a ser permanentemente exorcizado.

Doria é o retrato da pobreza cultural que se grassa entre a elite rica no Brasil. Onde o cardigã substitui a inteligência, o ganhar dinheiro preenche qualquer necessidade de saber, onde Miami tomou o lugar dos museus de Paris mas, ao contrário das oligarquias que prevaleceram nos dois primeiros terços do século passado, não há mais qualquer simpatia pela construção de uma cultura brasileira através da literatura, das ciências sociais, das artes. Basta-lhes a construção de “celebridades”.

Como estofo, basta-lhe o brilho dos salões e tudo rescende a transitoriedade: seus negócios são rápidos, engordado por “tacadas”, aplicações, investimentos que, ao contrário dos velhos capitães de indústria, não guardam mais relação entre dono e propriedade: são executivos, já não vivem de produzir nem mesmo como donos.

Por último, Witzel encarna o troglodismo estatal: o dos juízes, dos procuradores, o das “autoridades” que transformaram – e ainda estão transformando – o Estado brasileiro numa máquina de repressão, onde as razões absolutas de “combate ao crime” justifica e coleta apoio às maiores brutalidades contra os pobres.

São os ferozes condutores das matilhas policiais e usam da ferocidade para esconder a ignorância, a incapacidade de serem, como deveriam, ser condutores da civilização, do progresso, da felicidade social. Uma dezena de negros mortos numa viela passa a ser mais importante, como ato de governo, que mil crianças em boas escolas, que mil pacientes bem atendidos na rede pública, que mil famílias terem uma casa digna, pois a missão essencial do estado e o sorvedouro de seus recursos é, e deve ser, a miragem da segurança pública, como se a selva pudesse ser um lugar seguro.

Os três se apresentam como candidatos a 2022, para que o Brasil continue “avançando” para a pré-história.

Na nossa capacidade de reunir humanidade e lucidez é que reside a chance de terem sido um acidente e não uma fatalidade.

* o autor é jornalista e editor do blog Tijolaço
Publicado em http://www.tijolaco.net/blog/os-brucutus-no-poder/

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domingo, 18 de agosto de 2019

A política como ela é...

Richard Jakubaszko   
Retrato do Brasil, a política tem sido o pano de fundo e causa da crítica situação econômica e social que nós brasileiros enfrentamos. Olhem só a deputada estadual Janaína Paschoal defendendo o Bolsonaro, e a entortada que ela leva, merecida, né não?
 

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sábado, 17 de agosto de 2019

O naufrágio avisado

Fernando Brito *
O Estado brasileiro quebrou, confessa-o o próprio presidente da República.

Está na capa dos maiores sites de notícia, mas não sei se sobreviverão como manchetes até amanhã.

Afinal de contas, o que importa o Estado, este Leviatã maldito que querem nos fazer crer que destrói a prosperidade do país?

 
Que importa que ele seja quem dê escolha à imensa maioria das crianças?

Que importa que seja ele quem forme a imensa maioria dos professores, dos mestres, dos doutores deste país?

Ou que seja quem atenda, examine, cuide, opere e cure a imensa maioria da população.

Ou que pague o mercado, o remédio, o aluguel da multidão de aposentados deste país.

 
Não, ele é um bicho maligno, uma sanguessuga, que fica “no cangote” do empreendedor, do empresário, do madeireiro, do latifundiário, do empreiteiro, exigindo que eles recolham obrigações sociais, que deem banheiro para seus trabalhadores, que não lhes botem a dormir sobre tábuas, nem a beber água suja…

 
Este estado maldito, que faz pagar previdência da empregada, não bastasse o favor que se faz ao deixá-la comer a comida fria, na cozinha…

Importa apenas que não quebre para pagar os credores de suas dívidas. Uma bobagem de R$ 300 bilhões ao ano…

Aí, sim.

Calote, não; morte, sim, fome, sim, abandono também…


Nossos falsos nacionalistas, de camisetas verde-amarelas nos ensolarados domingos praianos jamais entenderiam Castro Alves e seu “antes te houvera roto na batalha que servirdes a um povo de mortalha”.


Vamos nos aproximando, exauridos, de uma imensa crise, como um navio que receberá pela popa o mar revolto e terrível. Não temos velas, não temos lastro, fazemos água por todos os porões.

Mas isto é uma bobagem: afogar-se-ão os das galés, não os das primeiras classes, dos conveses superiores.

Os dos porões não chegam ser bem gente como nós. 


* o autor é jornalista, editor do blog Tijolaço.
Publicado em http://www.tijolaco.net/blog/o-naufragio-avisado/


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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

CNPQ vai fechar?

Richard Jakubaszko  
Atenção universitários com bolsas de mestrado e doutorado: circulam notícias de que o CNPQ vai encerrar atividades, e os subsídios deixarão de ser pagos. O fato é que dos 1.200 funcionários do CNPQ quase mil já foram despedidos, inviabilizando as atividades da agência para dar suporte às bolsas.

A se confirmarem essas notícias desencontradas vamos ter uma explosão de passeatas e manifestações de protestos, no Brasil inteiro. O pau vai comer, e vão baixar o cacete... Será que é isso o que deseja o governo eleito de Bolsonaro?

Não vai ser mais piadinha de cocô dia sim, dia não.
 


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quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Anteparos e componentes

Carlos Eduardo Florence *   
Por serem, sem nenhuma dúvida, duas fúlgrias alegóricas, recém-entronizadas em metas zodiacais, que se disfarçavam de midendos-sem-preconceitos nas noites de lua cheia enquanto se punham a bailar sob os inconscientes dos mais afoitos e, em sintonias graciosas, encantavam as crianças tranquilas escalando as alegrias penduradas confortavelmente nos balões mais baixos.

Festa de Santo Encastro trazia estas reverências e meditações, enquanto as duas fanfarras, a da Escola Normal e do Tiro de Guerra, atravessavam impunes, mas ritmadas, a rua estreita de Timborití Espaldado antes de encontrarem, na Praça da Matriz, as autoridades, descambando, desde o prefeito empertigado até a diretora do grupo, e ainda pré-formando o torvelinho dos vereadores engravatados e suas mulheres de vestidos novos, bundas proeminentes e saltos desconfortáveis, além da miudalha popular ovacionando as interjeições mais subjetivas. Nunca faltavam o cônego Escalias, o juiz Carvamélio e um punhado de alcoviteiros dominicais. Inclusive, naquele ano, lembramo-nos muito bem agora, na ora sacra do supositório da elucubração maior, enquanto as estrelas se compunham para iniciar suas jornadas, as putas, os aloprados e os pedintes mais habituais subiram sobre as ilusões remotas na esperança de se engalfinharem sobre as sobras de algumas migalhas de presunções cuspidas, pelos mais bafejados pelo destino, para que pudessem bordar as suas angústias, carências e enxugarem as solidões. A cerimônia se repetia por obra e graça do padroeiro da vila, venerado Santo Encastro.

As fúlgrias abriram um farnel de parábolas sobre as meditações para recolherem os pedaços maiores das crianças sorrindo que despencavam dos balões exaustos intentados de assumirem seus destinos desconhecidos. Dos cantos mais ermos levantou-se uma revoada clara de lamúrias, envoltas em racionalismos ultrajados, seguidas pelas salvas de palmas dos escoteiros e das bandeirantes. Os portais da Matriz se entreolhavam na esperança de serem escancarados para os santos exaustos poderem escapar de suas cruzes, abandonarem as pontas das flechadas sangrando em seus rins e costelas sobre os bancos desconfortáveis e assim lavarem suas lágrimas nas águas do batistério. Por oportuno, as sete velas capitais dos pecados que iluminavam as mentiras canônicas optaram por se protegerem dos riscos sórdidos dos bem-aventurados e se empertigaram altivas em colcheias ao raiar do imponderável.

Os que se iluminaram embevecidos pelo adultério de Melênia e sofreguidão do parto hermafrodita dispostos ao fundo da insuficiência cardíaca, mas em oposição ao inconsciente freudiano, sem desconsiderar a circunstâncias momentâneas, de hermenêutica transitória em evolução ainda, dos voos indefinidos dos beija-flores, encontraram certa proteção por parte das metamorfoses dos pensamentos jacobinos e, assim, foram estimulados a entonarem pequeninos hinos ecumênicos em louvor à intemperança, ao credito parcelado e ao contraditório. Todos foram absolvidos antes do ocaso, que meditava sobre as divagações de uma centopeia petulante, o que lhes possibilitou encontrarem faceiros seus ideais. Um sorvete de melancolia a vinagrete, esclarecido, diga-se de antemão, opinou com segurança que a menopausa das mariposas poderia trazer, com certeza, certos conflitos entre as orações a Ogolum Zalê, pois contradiziam abertamente com as ejaculações precoces dos deuses do absurdo frente às inconstâncias e as restrições dos fiéis das ressurreições em escalas dodecafônicas.

As fúlgrias se despiram dos midendos-sem-preconceitos, com que se disfarçavam no esplendor da praça principal lotada, em júbilo, durante as cerimônias e aguardaram os entrésios, seus amantes preferidos para engravidarem no verão equatorial, serem entronizados em louvor ao nada, como era esperado pela população radiante. Houve um ruído profundo exalado do silêncio cabisbaixo por não conseguir furar a fila e decidir escolher, afobado, entre as parcimônias ou os alfarrábios disponíveis, no circunspecto carrinho de pipoca, antes do fim chegar sob bênçãos bizantinas. Deram-se estas angústias e dúvidas, sem motivos notáveis e, na incerteza e estresse, as sandálias, humildes, mas extravagantes e retardatárias se sentiram desprestigiadas.

Em sendo um domingo eufórico, talvez até não suficientemente convencido pelo seu esgotamento nervoso preferido, o poente despediu-se meticulosamente envolvido em cores de ré maior, todavia obedecendo, delicadamente, o azul ensandecido. Coisas da entropia existencial no dia do Senhor.

* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.
Publicado em http://carloseduardoflorence.blogspot.com/2019/08/anteparos-e-componentes-por-seremsem.html


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terça-feira, 13 de agosto de 2019

A íntegra da carta de juristas e ex-ministros de 8 países em favor de Lula

É indispensável que os juízes do Supremo Tribunal Federal exerçam na plenitude as suas funções e sejam os garantidores do respeito à Constituição

Lula não foi julgado, foi vítima de uma perseguição política.

Nós, advogados, juristas, ex-ministros da Justiça e ex-membros de Cortes Superiores de Justiça de vários países, queremos chamar à reflexão os juízes do Supremo Tribunal Federal e, mais amplamente, a opinião pública do Brasil para os graves vícios dos processos movidos contra Lula.

As recentes revelações do jornalista Glenn Greenwald e da equipe do site de notícias The Intercept, em parceria com os jornais Folha de São Paulo e El País, a revista Veja e outros veículos, estarreceram todos os profissionais do Direito. Ficamos chocados ao ver como as regras fundamentais do devido processo legal brasileiro foram violadas sem qualquer pudor. Num país onde a Justiça é a mesma para todos, um juiz não pode ser simultaneamente juiz e parte num processo.

Sérgio Moro não só conduziu o processo de forma parcial, como comandou a acusação desde o início. Manipulou os mecanismos da delação premiada, orientou o trabalho do Ministério Público, exigiu a substituição de uma procuradora com a qual não estava satisfeito e dirigiu a estratégia de comunicação da acusação.

Além disso, colocou sob escuta telefônica os advogados de Lula e decidiu não cumprir a decisão de um desembargador que ordenou a liberação de Lula, violando assim a lei de forma grosseira.

Hoje, está claro que Lula não teve direito a um julgamento imparcial. Ressalte-se que, segundo o próprio Sérgio Moro, ele foi condenado por “fatos indeterminados”. Um empresário cujo depoimento deu origem a uma das condenações do ex-presidente chegou a admitir que foi forçado a construir uma narrativa que incriminasse Lula, sob pressão dos procuradores. Na verdade, Lula não foi julgado, foi e está sendo vítima de uma perseguição política.

Por causa dessas práticas ilegais e imorais, a Justiça brasileira vive atualmente uma grave crise de credibilidade dentro da comunidade jurídica internacional.

É indispensável que os juízes do Supremo Tribunal Federal exerçam na plenitude as suas funções e sejam os garantidores do respeito à Constituição. Ao mesmo tempo, esperamos que as autoridades brasileiras tomem todas as providências necessárias para identificar os responsáveis por estes gravíssimos desvios de procedimento.

A luta contra a corrupção é hoje um assunto essencial para todos os cidadãos do mundo, assim como a defesa da democracia. No entanto, no caso de Lula, não só a Justiça foi instrumentalizada para fins políticos como o Estado de Direito foi claramente desrespeitado, a fim de eliminar o ex-presidente da disputa política.

Não há Estado de Direito sem respeito ao devido processo legal. E não há respeito ao devido processo legal quando um juiz não é imparcial, mas atua como chefe da acusação. Para que o Judiciário brasileiro restaure sua credibilidade, o Supremo Tribunal Federal tem o dever de libertar Lula e anular essas condenações.

Bruce Ackerman, professor Sterling de direito e ciência política, Universidade Yale
John Ackerman, professor de direito e ciência política, Universidade Nacional Autônoma do México
Susan Rose-Ackerman, professora emérita Henry R. Luce de jurisprudência, Escola de direito da Universidade Yale
Alfredo Beltrán, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia
William Bourdon, advogado inscrito na ordem de Paris
Pablo Cáceres, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça da Colômbia
Alberto Costa, Advogado, ex-ministro da Justiça de Portugal
Herta Daubler-Gmelin, advogada, ex-ministra da Justiça da Alemanha
Luigi Ferrajoli, professor emérito de direito, Universidade Roma Três
Baltasar Garzón, advogado inscrito na ordem de Madri
António Marinho e Pinto, advogado, antigo bastonário (presidente) da ordem dos advogados portugueses
Christophe Marchand, advogado inscrito na ordem de Bruxelas
Jean-Pierre Mignard, advogado inscrito na ordem de Paris
Eduardo Montealegre, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia
Philippe Texier, ex-juiz, Conselheiro honorário da Corte de Cassassão da França, ex-presidente do Conselho econômico e social das Nações Unidas
Diego Valadés, ex-juiz da Corte Suprema de Justiça do México, ex-procurador-Geral da República
Gustavo Zafra, ex-juiz ad hoc da Corte Interamericana de Direitos Humanos

Reproduzido do site GGN: https://jornalggn.com.br/justica/a-integra-da-carta-de-juristas-e-ex-ministros-de-8-paises-em-favor-de-lula/

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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

– Pai, a gente é de direita ou de esquerda?

Eugênia Augusta Gonzaga *
Nesse dia dos pais, em uma linda manifestação homenageando o seu pai, e também a milhões de pais brasileiros altruístas, honestos e trabalhadores – entre os quais tantos/as de nós incluímos nossos pais, o nosso querido jornalista Luís Nassif disse, na TV GGN, que “a família brasileira não é a família Bolsonaro”.

Enquanto eu ouvia a fala de Luís, fiquei pensando sobre o que seria a tal família brasileira, pois, no final das contas, foi ela que votou em Bolsonaro para presidente da República. Obviamente, pensei na minha família, da qual tantos membros também votaram nesse homem.

Consequentemente, pensei em meu pai, que se foi há quase vinte anos, e nunca me senti tão órfã. Meu pai me apoiava sempre, mesmo em temas que ele desconhecia, pelo simples fato de que sabia quem eu era e confiava em mim.

Nesse episódio, em que Bolsonaro me dispensou sumariamente da presidência da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, dos meus 07 (sete) irmãos/ãs consanguíneos/as, apenas uma irmã veio em meu apoio. Entre os demais, foi silêncio absoluto. Tenho certeza de que meu pai, se estivesse vivo e lúcido, me apoiaria incondicionalmente no enfrentamento a qualquer presidente da República, mas principalmente em relação a um cara tosco e apoiador de tortura como Jair Bolsonaro.

Bolsonaro, quando me exonerou, disse que o fez porque agora “o presidente é de direita”. Nem posso me considerar vítima de perseguição porque sempre fui uma autêntica “ignorante política”. No alto dos meus oito anos de idade, tentando entender um pouco o momento histórico vigente nos anos 70, perguntei: – pai, a gente é de direita ou de esquerda? Ele me disse que éramos de direita, “porque direita é o certo”. Foi essa formação política que ele me deu e sua resposta foi tão decepcionante para mim como quando eu perguntei qual era a sua bebida preferida e ele disse que era água, água da mina.

Na verdade, meu pai não era de direita e nem de esquerda – categoria que o apavorava, aliás. Ele era apenas um homem que cultivava princípios e que, mesmo detestando o Lula e o PT, jamais apoiaria um cara que idolatra a barbárie. Certa vez, aconteceu um crime terrível em nos0sa pequena cidade, Guaranésia (MG). O crime foi praticado por um jovem de 14 anos. As ‘pessoas de bem’ queriam linchar, prender na cadeia comum, etc. Meu pai, sem formação escolar e muito menos jurídica, colocou-se contra todos e disse: – é um menino! Tem que haver uma entidade para “chegar junto” e dar formação a ele. Ele nem sabia o que era o Estatuto da Criança e do Adolescente mas para ele os princípios do respeito à condição de pessoa em desenvolvimento e da integral proteção eram óbvios.

Portanto, fico pensando em que momento a sociedade brasileira degringolou tanto a ponto de um homem como meu pai ter filhos e netos que elegeram um Bolsonaro para a presidência da República. Tem algo de muito doente acontecendo. Alguns dizem que isso é resultado da falta de medidas de justiça de transição. Outros dizem que a culpa é da mídia tradicional.

Acho que o que falta mesmo é gente com mais amor aos princípios e valores humanos, algo que vai muito além da ideologia, como tinham nossos pais e que muitos filhos e filhas não assimilaram, deixaram perder pelo caminho...

* Procuradora Regional da República e ex-presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Segundo seu filho Vinícius: Procuradora Regional Federal dos Corpos Desaparecidos, demitida por Bolsonaro.

Publicado em Jornal GGN:
https://jornalggn.com.br/direitos-humanos/pai-a-gente-e-de-direita-ou-de-esquerda-por-eugenia-gonzaga/


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