Alan Bojanic *
Conflitos políticos e civis, instabilidades econômicas e sociais, essa é a realidade enfrentada em alguns países, principalmente na África. Esse cenário tem feito com que milhões de pessoas tenham que deixar suas casas em busca de sobrevivência. A expressiva imigração vista na atualidade não era registrada desde a Segunda Guerra Mundial.
Diante desse quadro, a FAO decidiu debater o tema da imigração em sua data mais importante que é o Dia Mundial da Alimentação (DMA), celebrado em 16 de outubro, data que marca também a criação da FAO em 1945. A Organização estabeleceu o tema: Mudar o futuro da imigração, investir em segurança alimentar e desenvolvimento rural.
Em 2015 foram registrados 244 milhões de imigrantes internacionais, 40% a mais que no ano 2000. Um terço dos imigrantes tem entre 15 e 34 anos, sendo que quase a metade são mulheres. A maioria dos imigrantes é de países do Oriente Médio, do norte da África, da Ásia Central, da América Latina e do leste europeu. Mais de 65 milhões de pessoas em todo mundo foram deslocadas à força devido a conflitos e perseguições, sendo mais de 21 milhões de refugiados, três milhões asilados e mais de 40 milhões de pessoas se deslocaram internamente dentro do próprio país.
Outro fator que tem contribuído para o aumento do processo migratório são as consequências geradas pela fome, pobreza, fenômenos meteorológicos e geológicos. Somente em 2015, mais de 19 milhões de pessoas tiveram que deixar seus lares devido a desastres naturais. Entre 2008 e 2015, uma média de 26 milhões de pessoas por ano perderam suas casas em decorrência de catástrofes climáticas ou geológicas em várias partes do mundo.
Quando se analisa a região da América Latina a situação não é diferente. Dados mais recentes apontam que cerca de 30 milhões de latino-americanos e caribenhos moram em países diferentes do local de nascimento, o que representa 4% da população total da região. Argentina, Costa Rica e República Dominicana são os países que apresentam os maiores volumes de imigrantes regionais.
Em todos os casos a alimentação e a agricultura seguem sendo fundamentais para o bem-estar das pessoas e estão vinculadas as causas pelas quais muitas pessoas emigram para outras partes, principalmente os moradores de áreas rurais.
Mais de 75% dos pobres do mundo e da população exposta à insegurança alimentar vivem em áreas rurais, a maioria depende da agricultura e de meios de vida baseados em recursos naturais que muitas vezes não oferecem os elementos necessários para manter essas pessoas no campo.
Investir em desenvolvimento rural sustentável, adaptação às mudanças climáticas e meios de subsistência resilientes em áreas rurais, é uma parte importante da resposta mundial ao atual desafio migratório.
Caminho para uma imigração segura, ordenada e regularÉ necessário criar condições que permitam que essas pessoas permaneçam em suas casas. Investir em desenvolvimento rural pode ser um importante caminho no processo de equilibrar as imigrações. Além disso, garantir o desenvolvimento rural significa maior segurança alimentar, meios de vida mais resilientes, melhor acesso à proteção social, redução de conflitos sobre os recursos naturais e soluções para a degradação do meio ambiente.
Como ação concreta a FAO tem dialogado com os governos, outras agências das Nações Unidas, o setor privado, a sociedade civil, com o objetivo de gerar evidências sobre os padrões migratórios, além de fortalecer a capacidade dos países em abordar a migração mediante políticas de desenvolvimento rural.
O tema do DMA também tem uma importante ligação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS), aprovados em 2015 pelos países que integram a ONU. O desafio consiste em abordar os fatores estruturais dos grandes movimentos populacionais para tornar a migração segura, ordenada e regular. Sendo assim, a migração pode contribuir para o crescimento econômico e melhorar a segurança alimentar e os meios de subsistência rurais, favorecendo o progresso dos países para alcançar os ODS.
O caso brasileiro: um olhar no caminho inverso do êxodo ruralAs décadas de 1960 e 1980 registraram a maior saída do campo para a cidade. Já nos anos 2000 as migrações caíram consideravelmente. Dados do censo demográfico de 2010 do IBGE revelaram que a taxa de migração campo-cidade por ano era de 1,31% no início dos anos 2000 e caiu para 0,65% em 2010.
Diversos fatores motivaram essa queda, entre eles, a aprovação de políticas sociais e de investimentos voltados para os pequenos agricultores, os novos recursos tecnológicos, o surgimento de máquinas e suplementos de altos valor e potência e melhorias nas condições de comercialização.
A agricultura brasileira tem-se destacado entre os setores econômicos do país, claro que há desafios a serem superados como é o caso da infraestrutura, o escoamento das safras e mecanismos de armazenagem. No entanto, conseguir manter os agricultores em suas propriedades é essencial para a continuidade dos bons resultados nacionais.
* o autor é representante da FAO no Brasil
.