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sábado, 15 de junho de 2019

Juristas desmontam Merval: sua defesa de Moro é acusação a ele

Fernando Brito *  
Dos juristas Lenio Streck e Gilberto Morbach, hoje cedo, no Conjur, a provar como eram frágeis as tentativas de aparentar “normalidade” nos diálogos entre Sérgio Moro e Deltan Dallagnol sobre os processos da Lava Jato.

Eram frágeis, fragilíssimas. Depois das novas revelações, nem isso são. Simplesmente não existem mais. Leia o admirável desmonte que eles fazem da tentativa do inefável Merval Pereira em defender o ex-juiz de Curitiba.

Na sexta-feira (14/6), em sua coluna no jornal O Globo, Merval Pereira escreveu Juiz das garantias. Em síntese, Merval diz que (i) não há, no Brasil, a figura institucional do juiz de instrução, e que, (ii) nos países onde há, o juiz que participa da investigação não é o mesmo que julga o processo e profere sentença. Dessas premissas, Merval deriva que (iii) não há nada de errado nos diálogos, divulgados pelo Intercept Brasil, entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol — na medida em que não há juizado de instrução, não haveria problema na hipótese de o juiz do processo, ele próprio, “controlar as investigações”.

De premissas corretas, Merval Pereira consegue derivar uma conclusão absolutamente equivocada que contradiz as próprias premissas. Merval contra Merval. Sua lógica é a seguinte: se (i) temos um sistema acusatório e, portanto, (ii) não temos um juiz responsável pela fase de instrução, o significado daí (arbitrariamente) deduzido pelo articulista é o de que o próprio juiz Sergio Moro poderia muito bem ter exercido esse papel.

É exatamente o contrário. Os diálogos entre Moro e Dallagnol configuram uma violação tão óbvia quanto grave, tão grave quanto óbvia, a tudo aquilo que o próprio Merval Pereira reconhece como verdadeiro. Merval contra Moro.

Dos princípios mais básicos que sustentam um sistema acusatório, Merval extrai exatamente uma contradição grosseira a esses próprios princípios. Não é porque esse tipo de lógica estruturante não prevê a participação de um magistrado específico responsável pela fase de investigações que se segue que o juiz, nos nossos moldes institucionais, possa fazê-lo.

Se não há a figura do juiz de instrução em sistemas acusatórios é exatamente porque, em países de organização não-inquisitorial, juízes não participam da instrução. Ponto.

O sistema penal acusatório, afinal, “estabelece a intransponível separação de funções na persecução criminal”. Isso quer dizer, por óbvio, que “um órgão acusa, outro defende e outro julga. Não admite que o órgão que julgue seja o mesmo que investigue e acuse”. As palavras não são nossas, mas da procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Em qualquer democracia moderna já é — felizmente — platitude dizer que juízes devem ser imparciais. Imaginamos que Merval Pereira concordaria – e pensamos que concorda — com a ideia de que qualquer noção elementar de império da lei pressupõe a isenção daquele que julga. Se isso é verdade, como pode ser então legítimo que um juiz, de jurisdição inserida em um contexto acusatório, atue em conjunto — e fora dos autos — com procuradores, especialmente num país que diz institucionalmente que “não é razoável exigir-se isenção dos procuradores da República”?

E esse é o risco de tornarmos nossos mais básicos princípios meras platitudes: aquilo que temos de mais fundamental é tomado como óbvio, garantido, e acaba perdendo o sentido. Quando as condições de possibilidade de uma democracia liberal tornam-se abstrações e/ou ficções, é possível que se diga qualquer coisa em nome delas.

Vemos isso nos eufemismos e meias-verdades que Merval Pereira escolhe para justificar o injustificável, para conferir um caráter de normalidade ao absurdo.

Merval Pereira diz que “[e]m todas as conversas reveladas pelo hackeamentodo celular do procurador Deltan Dallagnol não há um só momento em que se flagre uma combinação entre ele e Moro para prejudicar o ex-presidente Lula ou outro investigado qualquer”.

Diz também que “as conversas entre os dois” — cujos papeis, ainda segundo Merval, sempre foram “bem definidos” — “são sobre o combate à corrupção, e como ela está arraigada na sociedade brasileira”; que “os dois só têm conversas a respeito de procedimentos, e o que parece uma participação indevida do juiz Moro, na verdade é a discussão de decisões sobre as investigações, ou a comunicação de uma testemunha que havia revelado um crime”.

Primeiro, Merval Pereira assume, já de saída, que o vazamento é fruto da ação de hackers. Há algum elemento que sustente a afirmação? O Intercept jamais disse, sequer deu a entender, qualquer coisa nesse sentido. Não parece correto, especialmente em se tratando de um jornalista reconhecido, trazer uma alegação carente de uma única prova que a sustente. Não está à altura das exigências que esse mesmo reconhecimento impõe.

Além disso, fundamentalmente, Merval esquece que Moro não pode ter “estratégia de investigação nenhuma”. Que “quem investiga ou quem decide o que vai fazer ‘e tal’ é o Ministério Público e a Polícia”. Merval esquece que “o juiz é reativo”, e deve “cultivar virtudes passivas”. Quem diz isso não somos nós; são palavras de Sergio Moro, em palestra de março de 2016. Moro contra Moro, Merval contra Moro.

Talvez seja essa uma das razões da defesa. Merval e Moro, afinal, têm algo em comum: o estranho paradoxo de estarem errados a partir dos próprios pressupostos que assumem como corretos. Merval contra Merval, Moro contra Moro.

Ambos, em suas contradições, adotam o discurso do combate à corrupção. Só que esse discurso vem calcado na tese de que os fins justificam os meios — posição criticada com veemência em editorial até pela Revista Veja, que, habitual defensora da operação, fala em “claras transgressões à lei”. E o cerne da questão é que, articulando-se nessa perspectiva instrumental, dialética e perigosamente, os tais “avanços da Lava Jato” trouxeram consigo um conjunto de ilegalidades que corrompem, nos mesmos termos da corrupção contra a qual ela dizia lutar.

Merval Pereira é indulgente com um universo que dizia não tolerar: o do desrespeito às regras e às instituições. O então juiz Sergio Moro reivindicou para si o privilégio que ninguém tem em uma democracia digna do nome: o de estar acima da lei. O discurso do primeiro legitima a frágil ponte que o segundo tenta construir entre a inobservância dos meios e os fins; entre o propósito certo e a ação errada.

Os dois têm, então, cada um à sua maneira, vários acertos. Não temos juízes de instrução. Nosso sistema é acusatório. Os papeis de Sérgio Moro e Deltan Dallagnol sempre foram bem definidos. Juízes devem ser reativos; devem preservar virtudes passivas, e não podem ter nenhuma estratégia de investigação. Quem investiga, afinal, é a Polícia e o Ministério Público.

É exatamente em razão de seus acertos que Merval Pereira e Sérgio Moro erram em todo o resto. As instituições caem quando não respeitam a si próprias, e o jornalismo é traído ao consentir o absurdo, atribuindo àquilo que comenta as virtudes que não tem.

Querendo ajudar, Merval vai exatamente contra Moro.

* o autor é jornalista, editor do blog Tijolaço.

Publicado no Tijolaço


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sábado, 18 de novembro de 2017

Sai o MBL Nanderthal; entra a direita britânica

Luis Nassif
Duas pesquisas recentes ajudam a demolir alguns mitos midiáticos.

A primeira, da Big Data Ideia, mostrando que a maioria do povo brasileiro –provavelmente no universo das redes sociais – não compactua com o retrocesso moralista.

A segunda, mais óbvia, constatando o baixo impacto das declarações de Fernando Henrique Cardoso junto ao eleitorado.

Comprova-se o óbvio
O radicalismo dos últimos anos, com o aparecimento de dinossauros, brontossauros, pterodátilos, vampiros e harpias, foi uma construção midiática.

O que havia era uma sociedade que respeitava determinadas regras sociais, que mantinham sob controle os vultos das profundezas. As redes sociais romperam com as regras, passando a dar voz a esses grupos. E o movimento se ampliou com o incômodo da classe média com os novos emergentes.

Os primeiros a perceber essa onda foram Jô Soares, e suas meninas, e Arnaldo Jabor e suas verrinas, passando a vociferar um ranço de classe, ainda distante do ódio dos momentos seguintes.

Vociferar, aliás, talvez não seja o termo correto, perto do que ocorreu com a revista Veja, quando Roberto Civita traz dos Estados Unidos a fórmula Rupert Murdok de jornalismo de guerra.

Inaugurava-se um novo estilo, truculento até a medula, introduzido na Veja por um jornalista de confiança de Civita, Tales Alvarenga. Depois se amplia, quando colunistas de variedades, como Diogo Mainardi, recebem autorização para tratar adversários políticos com linguajar de boteco. Inaugura-se a era do jornalismo de esgoto.

Por culpa de uma direção de redação medíocre, o estilo se esparramou por todos os espaços da revista, em um exercício de suicídio editorial inédito que transformou a principal revista do país em um pasquim malcheiroso.

A Editora Record percebeu o novo veio que se abria e passou a editar os neo-direitistas impulsionados pela mídia.

Foi uma onda, como a onda da auto-ajuda, das biografias, dos livros de aventura, com elementos de marketing, como o chapéu Panamá, que cumpria o papel simbólico dos camisas verdes dos novos tempos.

Quando abriram vagas para o novo estilo, pulularam candidatos de todos os níveis, de cronistas diáfanos e colunistas de tecnologia, de economistas palestrantes a procuradores palestrantes. Surgem o sub-Jabor, depois o sub-sub-Jabor, depois o sub-sub-sub-Jabor, apenas entre os cronistas musicais.

A onda turbinada
Essa onda não teria passado disso, mais uma onda, não fosse o impacto da campanha de ódio deflagrado pela mídia, na cobertura do “mensalão” e da Lava Jato e sua adesão incondicional ao estilo esgoto.

Agora, a onda está prestes a passar no território da mídia, substituída pela onda “direita britânica”, conservadora na economia, liberal nos costumes e sóbria no linguajar, espécie de fineza à Miami. Tipo Luis Roberto Barroso. Um estilo que despreza povo, mas abomina o grotesco.

E toca uma corrida insana, com os gladiadores trocando os machados, as peixeiras, por adagas florentinas, o linguajar de zona do cais por um data vênia, por conceitos jurídicos, aprendendo a comer com talheres. Tudo porque montaram um banquete dos mendigos. E o dono da casa entrou em pânico quando bateu à porta um tal de Bolsonaro.

A onda neocon, o MBL e congêneres, serviu apenas de escada para vários desses colunistas ganharem espaço nas publicações, veículos se posicionarem no mercado, e os golpistas povoarem a campanha do impeachment.

Agora, os articulistas mais talentosos, que utilizaram a malta de escada, estão tratando de jogá-la ao mar. Os demais não conseguirão se reciclar para perfis mais sofisticados: afundarão no esgoto.

Os sobreviventes que ascenderem, como novos ricos do sistema, não querem nem que lembrem que um dia beijaram na boca, prometeram juras de amor eterno, andaram de mãos dadas trocando olhares apaixonados, se deixaram fotografar com harpias arfantes, com tipos com ideias secas e rostos suarentos.

É um jogo complexo no qual as mentes mais lentas, que não conseguem prever o rumo dos ventos, acabam pegando o barco atrasado.

É o caso de um candidato retardatário a neocon, jornalista econômico experiente, que dias atrás publicou post no Estadão atacando colegas que criticaram o MBL, e a esquerda que “domina todas as redações”. E ficou com o paintball na mão.

Em engano igual embarcou João Dória Jr., que cai mais na conversa de vendedor de bíblias que as beatas dos filmes de faroeste.

A nova onda
A atuação do MBL e dos demais parceiros da direita tosca foi e é meramente midiática.

Aprenderam a “causar”. Meia dúzia deles faz um carnaval em uma exposição ou agride uma escritora conhecida. Ou então publicam artigos preconceituosos para “causar”. Imediatamente é repercutido pelos veículos de mídia e pela militância de esquerda. Ao reagir em massa contra os factoides, paradoxalmente os adversários ajudam a lhes conferir relevância.

Na outra ponta, Blogueiros que ganharam notabilidade pela capacidade de ofensa, e pela capacidade de ofensa ascenderam profissionalmente, agora que a Arca de Noé começa a afundar, tentam se qualificar, investindo contra a direita bárbara, troglodita e, data vênia, comportando-se com formalismo e dignidade de um guarda-livros do século 19.

A própria Veja tenta a todo custo recuperar um mínimo de dignidade, investindo em matérias legítimas – como a bela reportagem sobre a morte do reitor da UFSC -, e de defesa da diversidade, mas sempre ficando presa ao passado, com os ectoplasmas das bestas se interpondo no seu caminho.

A grande questão é que a tentativa de se voltar ao jogo político tradicional não tem futuro. Quando inaugurou a campanha de ódio, a mídia queimou as caravelas. Não consegue mais atuar como mediadora. Não tem candidatos, nem ideias. E não conseguirá celebrar o centro democrático porque a radicalização rasgou o território comum à esquerda e à direita modeadas.

Os dois partidos que garantiram a governabilidade pós-redemocratização – PT e PSDB – foram envolvidos em uma luta fratricida. E 2018 vem a galope, com apenas uma tática explícita: inviabilizar a candidatura Lula e impedir o candidato Bolsonaro.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN. Publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/noticia/sai-o-mbl-nanderthal-entra-a-direita-britanica-por-luis-nassif
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sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Em defesa da agricultura: vamos comer o quê?

Por J.R. Guzzo *
Agro DBO 89 junho/17
O fato, provado por fotografias, é que poucos países conseguem tirar tanto da terra e interferir tão pouco na natureza ao redor dela quanto o Brasil.
1 set 2017

 
A regra é antiga: se você quer fazer uma pessoa feliz com as próprias opiniões, nunca apresente a ela dois lados para uma questão. Apresente um lado só — ou, melhor ainda, não apresente nenhum. Nada é mais cômodo do que viver convencido de que certas coisas não podem ser discutidas, pois são a verdade em estado definitivo. É o que está acontecendo hoje com a questão ambiental pelo mundo afora — especialmente no Brasil, que teve o destino de ser sorteado com 8,5 milhões de quilômetros quadrados de território com exuberância ambiental. Ficou decidido pela opinião pública internacional e nacional que o Brasil destrói cada vez mais as suas florestas — por culpa direta da agricultura e da pecuária, é claro. Terra que gera riqueza, renda e imposto é o inferno. Terra que não produz nada é o paraíso. Fim de conversa. Os fatos mostram o contrário, mas e daí? Quanto menos fatos alguém tem a seu favor, mais fortes ficam as suas opiniões.

As coisas estão deste jeito há anos — há apenas uma ideia em circulação, e essa ideia está errada. O resultado direto é a falsificação de alto a baixo de todo o debate sobre desmatamento e cultivo do solo no país. Ninguém poderia imaginar, pelo que se vê e lê todos os dias, que a área de matas preservadas no Brasil é mais do que o dobro da média mundial. Nenhum país do mundo tem tantas florestas quanto o Brasil — mais que a Rússia, que tem o dobro do seu tamanho, e mais que Canadá e Estados Unidos juntos. Só o Parque Estadual da Serra do Mar, em São Paulo, é duas vezes maior que a maior floresta primária da Europa, na Polônia. Mais que tudo isso, a agricultura brasileira ocupa apenas 10%, se tanto, de todo o território nacional — e produz mais, hoje, do que produziu nos últimos 500 anos. Não cresce porque destrói a mata. Cresce por causa da tecnologia, da irrigação, do maquinário de ponta. Cresce pela competência de quem trabalha nela.

Como a agricultura poderia estar ameaçando as florestas se a área que cultiva cobre só 10% do país — ou tanto quanto as terras reservadas para os assentamentos da reforma agrária? Mais: os produtores conservam dentro de suas propriedades, sem nenhum subsídio do governo, áreas de vegetação nativa que equivalem a 20% da superfície total do Brasil. Não faz nenhum sentido. Não se trata, aqui, de dados da “bancada ruralista” — foram levantados, computados e atualizados pela Embrapa (Ver nota, no rodapé), com base no Cadastro Ambiental Rural, durante o governo de Dilma Rousseff. São mapas que resultam de fotos feitas por satélite. Pegam áreas de mata a partir de 1.000 metros quadrados; são cada vez mais precisos. São também obrigatórios — os donos não podem vender suas terras se não estiverem com o mapeamento e o cadastro ambiental em ordem. Do resto do território, cerca de 20% ficam com a pecuária, e o que sobra não pode ser tocado. Além das áreas de assentamentos, são parques e florestas sob controle do poder público, terras indígenas, áreas privadas onde é proibido desmatar etc. Resumo da ópera: mais de dois terços de toda a terra existente no Brasil são “áreas de preservação”.

O fato, provado por fotografias, é que poucos países conseguem tirar tanto da terra e interferir tão pouco na natureza ao redor dela quanto o Brasil. Utilizando apenas um décimo do território, a agricultura brasileira de hoje é provavelmente o maior sucesso jamais registrado na história econômica do país. A última safra de grãos chegou a cerca de 240 milhões de toneladas — oito vezes mais que os 30 milhões colhidos 45 anos atrás. Cada safra dá para alimentar cinco vezes a população brasileira; nossa agricultura produz, em um ano só, o suficiente para 1 bilhão de pessoas. É o que se chama “segurança alimentar”, que não existe no Japão, na China ou na Inglaterra, por exemplo — para não falar da África e outros fins de mundo onde há fome permanente, e para os quais as sociedades civilizadas recomendam dar esmolas.

O Brasil, que até 1970 era um fazendão primitivo que só conseguia produzir café, é hoje o maior exportador mundial de soja, açúcar, suco de laranja, carne, frango — além do próprio café. É o segundo maior em milho e está nas cinco primeiras posições em diversos outros produtos. O cálculo do índice de inflação teve de ser mudado para refletir a queda no custo da alimentação no orçamento familiar, resultado direto do aumento na produção. A produtividade da soja brasileira é equivalente à dos Estados Unidos; são as campeãs mundiais. Mais de 60% dos cereais brasileiros, graças a máquinas modernas e a tecnologias de tratamento do solo, são cultivados atualmente pelo sistema de “plantio direto”, que reduz o uso de fertilizantes químicos, permite uma vasta economia no consumo de óleo diesel e resulta no contrário do que nos acusam dia e noite — diminui a emissão de carbono que causa tantas neuroses no Primeiro Mundo. Tudo isso parece uma solução, mas no Brasil é um problema. Os países ricos defendem ferozmente seus agricultores. Mas acham, com o apoio das nossas classes artísticas, intelectuais, ambientais etc., que aqui eles são bandidos.

A consequência é que o brasileiro aprendeu a apanhar de graça. Veja-se o caso recente do presidente Michel Temer — submeteu-se à humilhação de ouvir um pito dado em público por uma primeira-ministra da Noruega, pela destruição das florestas no Brasil, e não foi capaz de citar os fatos mencionados acima para defender o país que preside. Não citou porque não sabia, como não sabem a primeira-ministra e a imensa maioria dos próprios brasileiros. Ninguém, aí, está interessado em informação. Em matéria de Amazônia, “sustentabilidade” e o mundo verde em geral, prefere-se acreditar em Gisele Bündchen ou alguma artista de novela que não saberia dizer a diferença entre o Rio Xingu e a Serra da Mantiqueira. É automático. “Estrangeiro bateu no Brasil, nesse negócio de ecologia? Só pode ter razão. Desculpe, buana.”

Nada explica melhor esse estado de desordem mental do que a organização “Farms Here, Forests There”, atualmente um dos mais ativos e poderosos lobbies na defesa dos interesses da agricultura americana e do universo de negócios ligado a ela. Não tiveram nem sequer a preocupação de adotar um nome menos agressivo — e também não parecem preocupados em dar alguma coerência à sua missão de defender “fazendas aqui, florestas lá”. Sustentam com dinheiro e influência política os Greenpeaces deste mundo, inclusive no Brasil. Seu objetivo é claro. A agricultura e a pecuária devem ser atividades privativas dos países ricos — ou então dos mais miseráveis, que jamais lhes farão concorrência e devem ser estimulados a manter uma agricultura “familiar” ou de subsistência, com dois pés de mandioca e uma bananeira, como querem os bispos da CNBB e os inimigos do “agronegócio”. Fundões como o Brasil não têm direito a criar progresso na terra. Devem limitar-se a ter florestas, não disputar mercados e não perturbar a tranquilidade moral das nações civilizadas, ecológicas e sustentáveis. E os brasileiros — vão comer o quê? Talvez estejam nos aconselhando, como Maria Antonieta na lenda dos brioches: “Comam açaí”.

* J.R. Guzzo é colunista de VEJA

http://veja.abril.com.br/revista-veja/em-defesa-da-agricultura-vamos-comer-o-que/

Nota do blogueiro: dados completos publicados na revista Agro DBO nº 89, junho 2017, em artigo do pesquisador Evaristo de Miranda, da Embrapa Monitoramento por Satélite (Campinas-SP),  título "Agro cuida do meio ambiente".
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segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Luis Nassif: o doleiro que fez pagamentos a Rosângela Moro

Richard Jakubaszko  
Mais uma vez, a república justiceira de Curitiba está sob suspeita. O jornalista Luis Nassif, editor do Jornal GGN, editou um vídeo no Youtube onde analisa uma nota publicada na revista Veja desta semana, em que um dos advogados da Odebrecht, acusado na Lava Jato (mas refugiado na Espanha), informa ter pago dinheiro ao principal amigo do juiz Sérgio Moro. Não apenas isso, a Receita Federal apurou pagamento feito à esposa do juiz Moro, a também advogada Rosângela Moro; tudo isso, conforme o advogado e doleiro, para aliviar o peso de sentenças a serem proferidas pela Justiça Federal da república de Curitiba.

Nassif fez a divulgação no vídeo abaixo porque seu blog, o Jornal GGN está fora do ar, supostamente por ter sido alvo de ataques de hackers.
Se as denúncias tiverem fundamento, e forem comprovadas, algo precisa ser feito, eis que o Brasil, nessa guerra institucional entre os três poderes, mais a imprensa, ultrapassou o limite do suportável. Com a Justiça no centro das acusações, vamos confiar em quem? Na internet?.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A confissão da parcialidade, nas capas das revistas

Fernando Brito *

A melhor sacada de sábado passado é, sem dúvida, do veterano e competente jornalista Mario Marona, que olha, pensa e vê o que a mídia diz, mesmo quando não assume que diz.

As capas da Veja e da Istoé que começaram a circular no último sábado, têm um raro momento em que mostram a verdade.

E a verdade, observa Marona, é que “a imprensa brasileira nunca foi tão verdadeira ao confessar que, aqui, trata-se de um confronto entre o juiz, que deveria ser imparcial, e o acusado, que deveria ter direito a um julgamento honesto”.

Está claro agora porque Moro adiou por uma semana o depoimento de Lula. Neste intervalo, providenciou uma procissão de “convertidos”, que nunca acusaram Lula nos seus inúmeros depoimentos e, agora, foram colocados contra parede: ou diziam o que se queria para tornar o depoimento de Lula o clímax roteirizado do filme que produzem ou iriam seguir mofando na cadeia.

Temos um juiz que dirige o processo para um final que está desenhado desde o seu início.

A “investigação” e o julgamento “justo” não passam de uma pantomima.

“Em qualquer lugar civilizado do mundo”, observa Marona, o juiz avalia o resultado de “um duelo entre promotoria e defesa”.

Não em Curitiba.

As duas revistas confessam, em suas capas que quem duela com Lula é o próprio juiz.

E, portanto, trata-se de uma luta onde não há quem, de fato, seja o juiz, não parte.

Uma democracia jamais pode aceitar isso. E como não existe processo fora da realidade, este processo, sempre suspeito, revela sua mácula, sua nódoa irremovível.

A Justiça brasileira, ou ao menos o que resta de senso jurídico no lamaçal que ela se tornou, deveria sanear este processo em que Sérgio Moro, por deter o controle de todos os casos e em que os promotores têm o direito de negociar às escuras todas as “delações”, formando o quadro que desejam, desde o início, com suas convicções.

E sanear deveria ser retirar Moro do caso, por óbvia suspeição.

Claro que não o fará e, com isso, assumir, como instituição, a parcialidade que nele não se esconde.

E, com isso, tornará verdadeira a frase com que Marona fecha seu raciocínio: “Veja e Isto É revelam que já foi cravado o último prego no caixão em que está sendo enterrada a justiça brasileira.”

Faltou apenas dizer que as suas garras levam junto com ela qualquer possibilidade de sermos um país onde o Direito seja a fórmula de composição dos conflitos humanos.

Com todos os seus “data vênia”, o Judiciário sacramenta a selvageria e o vale-tudo como a forma de vivermos neste país.

* o autor é jornalista, editor do blog Tijolaço.

Publicado originalmente em:  http://www.tijolaco.com.br/blog/confissao-da-parcialidade-nas-capas-das-revistas/
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terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Grupo Abril consegue negociar dívida bancária

Richard Jakubaszko

Saiu no Comunique-se:
http://portal.comunique-se.com.br/grupo-abril-consegue-negociar-divida-bancaria/ 


Grupo Abril consegue negociar dívida bancária
Na quinta-feira que antecedeu o Natal, o Grupo Abril enviou comunicado à imprensa destacando que acertou sua renegociação de dívida bancária. De acordo com a empresa presidida por Walter Longo, a conclusão do acordo visa permitir “maior equilíbrio financeiro para os próximos anos e a continuidade do crescimento dos negócios em mídia e marketplace“.

“Para a Abril, encerrar 2016 com esse acordo, dentro do cenário macroeconômico tão negativo, é motivo para celebração. A empresa segue firme em sua missão em defesa da livre iniciativa, das instituições democráticas, da difusão de cultura, educação e entretenimento”, afirma trecho da nota divulgada pela empresa de comunicação
.”
 

Explica-se, com esse "comunicado à imprensa", a extemporânea e "exclusiva" matéria de capa da revista Veja da semana, né não? Lá estava “a bela, recatada e do lar”...

Não foi com essa crise que a Abril passou a faturar muito mais, a não ser com o governo federal, que fez chover bastante na horta dos Civitas, a ponto de sair da crise financeira com o tal acordo da dívida bancária. Também não foi com o fechamento de algumas revistas altamente deficitárias que a Abril se recuperou. E também não foi com a demissão de alguns jornalistas que o orçamento da Abril se equilibrou.

O jornalismo brasileiro vai de mal a pior, na defesa incondicional da “democracia dos amigos” e ainda na defesa da livre iniciativa, ora com perseguições políticas, ora com assassinatos de reputação, ora com um colunismo social tão recatado que chega a causar vergonha em quem é jornalista, como eu, há mais de meio século...

 
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sábado, 29 de novembro de 2014

Barrigadas bolivarianas de Veja e do Constantino

Richard Jakubaszko
Certas notícias publicadas na mídia e na blogosfera brasileira são hilárias, especialmente nos chamados blogueiros da extrema direita, da qual o livre atirador Rodrigo Constantino (O trovão da razão), é um dos mais useiros e vezeiros porta-vozes dos coxinhas. Em meados de novembro deste ano da graça de 2014 o tal do Constantino, que nem jornalista é, publicou em seu blog, ancorado no site da Veja, um desaforado e imbecil de um "post denúncia" sobre crianças brasileiras sendo levadas para a Venezuela para serem treinadas na "ideologia bolivariana". A coluna tinha como fonte um procurador federal de Goiás, de nome Ailton Benedito de Souza, que instaurou sindicância, revoltado com essa situação.

Confiram a coluna de Rodrigo Constantino: http://naofo.de/255e

No final de novembro 2014 a Folha de São Paulo botou os pingos nos “ii” do Constantino, era mais um “boimate” da Veja, e de seu mais novo e festejado colunista, que segue a mesma linha do editor chefe de Veja, Eurípedes Alcântara, o que “criou” o primeiro e único boimate, imbatível até hoje, lá no ano 1983, quando revelou nas páginas de Veja o "cruzamento genético de um boi com tomate", acreditando ser ciência da biotecnologia uma brincadeira de um jornal inglês que festejava o 1º de abril, o conhecido “dia dos bobos”.
 

A Folha de São Paulo registrou a pisada no tomate do procurador goiano, Ailton Benedito de Souza, em matéria sob título “Meu Brasil Venezuelano”: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/197606-meu-brasil-venezualano.shtml

Em resumo, o primeiro boimate não ensinou lições aos colunistas da Veja. Constantino, na marcha em que vai, deve até ganhar promoções na "prestigiada" e decadente revista dos Civita. Se Eurípedes chegou a editor chefe da Veja, tendo cometido a maior barrigada do jornalismo na história nacional, contada em prosa e verso nas faculdades de jornalismo, imaginem o Constantivo, mais jovem, mas já famoso por seu estilo personalista e democrático. Vai longe esse rapaz, tem muito futuro. O procurador também, pois Goiás tem fama de ser "celeiro" de procuradores ínclitos e combativos, por exemplo, o
amigo do "empresário" Cachoeira, o ex-senador Demóstenes Torres, qualificado por Veja como um dos mosqueteiros da corrupção mais ativos da república, a brasileira, não a bolivariana...

O blog O Cafezinho registrou a façanha do “furo” jornalístico de mais um boimate da Veja, e toda a blogosfera suja repercutiu,
com indisfarçável alegria, para mostrar a indignação bolivariana do Constantino: http://www.ocafezinho.com/2014/11/28/mais-um-boimate-da-veja/
Eita gente marvada, essa turma dos blog sujos...


NOTA DO BLOGUEIRO:
1 - Sobre Rodrigo Constantino dos Santos, a Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Rodrigo_Constantino ) registra: (Rio de Janeiro, 4 de julho de 1976), 38 anos, é um economista e colunista brasileiro. Foi articulista da revista "Voto" e escreve regularmente para os jornais "Valor Econômico" e "O Globo". A partir de agosto de 2013, passou a escrever também para a revista semanal "Veja". Presidente do Instituto Liberal e um dos fundadores do Instituto Millenium, foi considerado em 2012 pela revista Época, como um dos "novos trombones da direita" brasileira. Em outubro de 2013, numa resenha para o livro Esquerda Caviar, a revista Veja alcunhou-o de "o trovão da razão". Meses depois, o apelido despertou uma série de reações bem-humoradas no Twitter.

2 - Boimate, a divina barrigada de Veja, em 1983. A revista demorou 3 meses para desculpar-se com seus leitores.
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