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terça-feira, 31 de dezembro de 2024

POR QUE O ANO COMEÇA À MEIA NOITE DE 1 DE JANEIRO?

Evaristo de Miranda  


Uma das contribuições mais significativas da civilização cristã e ocidental à humanidade é a contagem do tempo e o atual calendário. Foram séculos até o Ocidente criar e adotar o calendário atual. No início do cristianismo, havia três calendários: judaico, romano e litúrgico. Nenhum satisfatório.

O calendário judaico era essencialmente lunar. Os nomes dos meses são de origem assiro-babilônica, assimilados no exílio na Babilônia, no século IV a.C.. São necessários ajustes complexos para encaixar-se no ano solar e para a Páscoa acontecer sempre na primavera. Os anos são contados desde a “criação do mundo”, 5.784 anos atrás. Um planeta bem rejuvenescido.

O calendário romano ou juliano era solar e herdado dos sacerdotes egípcios. Eles estabeleceram um ano de 365 dias, por volta do ano 2800 a.C. Os anos eram contados a partir da fundação de Roma, o ano 753 a.C. A data de início de cada ano era fixa, no primeiro dia de março. Passou por evoluções. Ainda é utilizado pelos cristãos ortodoxos, como calendário religioso.

Nos primeiros séculos, a referência principal do calendário litúrgico cristão era a Páscoa, data da morte de Jesus. Com as divergências entre o calendário judaico e o romano, havia várias datas para o início do ano e a Páscoa.

No século V, o Papa João I decidiu dar fim às “querelas pascais”. Para ajustar o calendário litúrgico, o lunar judaico e o solar romano, ele designou o monge Dionísio, um erudito, canonista, tradutor, astrônomo e matemático.

No ano 525, ele sugeriu ao Papa a revisão completa da divisão do tempo e sua contagem não mais na morte, mas no nascimento de Cristo. E tomou essa data como início da Era Cristã: 25 de dezembro do ano 753 do calendário romano. Encerrou a Era dos Césares. O conceito do Ano do Senhor, Anno Domini (A.D.) está em vigor até hoje. Agora, A.D. 2025.

A Igreja Católica arbitrou e definiu para início do ano, 1 de janeiro e não 25 de dezembro, por razões religiosas. A vinculação oficial de Jesus ao seu povo e a Deus ocorreu no dia da circuncisão, da apresentação no templo, de sua primeira manifestação pública e quando recebeu seu nome.

Só por esse deslocamento de data, Jesus já teria nascido um ano antes do ano 1 da Era Cristã. Não havia ano zero no cálculo. O ano 1 a.C. foi sucedido pelo ano 1 d.C.. O primeiro século da Era Cristã teve 99 anos. Esse e outros fatores levaram Dionísio a um pequeno erro. Jesus nasceu entre os anos 3 e 6, antes da Era Cristã. O Papa Bento XVI mostrou esse erro na obra “A Infância de Jesus”.

Sob o calendário juliano, com imprecisões e deriva temporal, os equinócios se distanciaram da data real em 10 dias no século XVI. Por determinação do papa Gregório XIII, matemáticos e astrônomos jesuítas das universidades de Salamanca e Coimbra trabalharam nas bases de um novo calendário. Em 24 de fevereiro de 1582, pela bula Inter gravíssimas, o papa lançou o Calendário Gregoriano, adotado em Portugal, Espanha e Estados Pontifícios. Logo nos países protestantes e, hoje, no planeta.

O calendário gregoriano é o padrão internacional de registrar o tempo, reconhecido pela ONU e pela União Postal Universal, tanto pelo peso da tradição ocidental, quanto por sua precisão astronômica. Ele estabeleceu até uma ISO específica para se datar: a ISO 8601.

Existe um discurso Woke, politicamente correto, associado à cultura do cancelamento e da censura, onipresente na Internet, sobre o calendário e a marcação do tempo. Ele busca eliminar as referências a Cristo no calendário. Anacrônicos, esses canceladores e censores ideológicos apontam as datas estabelecidas pela Igreja ao longo de séculos como arbitrárias.

As datas do atual calendário foram arbitradas, e não arbitrárias, com os melhores critérios em seu contexto histórico. Inúmeras questões necessitam de arbítrio. Não há livre arbítrio no calendário. Nem há receita bíblica para calcular o tempo. Ele foi arbitrado várias vezes, com recurso aos melhores cientistas de cada época, por uma das maiores autoridades temporais, a Igreja. O Tempo Ocidental se impôs aos do Oriente e alhures.

O calendário universal é Ocidental. Na vida civil e civilizada, ele substituiu outros calendários (muçulmano, judaico, chinês, juliano...), limitados hoje a usos religiosos e tradicionais. Quem regula voos de aviões, satélites, tratados internacionais, GPS de máquinas agrícolas, pagamento de boletos e o cotidiano de bilhões de pessoas é o calendário cristão e romano, criado e estabelecido progressiva e cientificamente pela Igreja.

 

 

 

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sábado, 12 de outubro de 2024

A criança interior ainda vive 1

Daniel Lino de Miranda 2
 

Eu tenho síndrome de Down. Para mim, bebês são fofos, doces e meigos.

Sempre fazem tudo para chamar a atenção de suas famílias. Mostram interesse pelo mundo gigante onde moramos, cheios de esperança e sonhos lindos. O Dia da Criança nos recorda: o bom de ser como criança é que isso não vem da faixa etária. Vem do acreditar naquilo que nos faz felizes, como boas crianças. Em qualquer idade.

Nosso verdadeiro destino e felicidade estão em nossa origem, em nossa infância. Adélia Prado, em uma poesia, pede a Deus a cura de ser adulta: Meu Deus, me dá cinco anos, me dá a mão, me cura de ser grande... Como ela, todos podem viver esse desejo profundo, explícito no Dia das Crianças: acriançar nossos gestos e palavras, acriançar a vida e voltar à origem.


Todos podem fazer esta oração nesse dia: Deus, cura-me de ser grande!

Eu pergunto: vocês também têm uma criança querendo sair de vocês? Essa criança interior deve continuar na idade adulta. Ela pode ensinar como se divertir, mesmo sendo grandes. Para alguns, a criança retorna quando se tornam avós. Para outros, os filhos são a possibilidade do retorno à infância.


Cada momento conta muito, quando vivido com seus filhos e netos. Essa magia da pureza nunca morrerá.


Na natureza tudo muda e permanece, sempre. As diferenças ajudam a definir as decisões, sobre nós mesmos. Além da criança em nós, outras neste mundo não têm para onde ir. Abandonadas, sem família. Essas crianças precisam de sua ajuda. Então, diga sim para essa ajuda.


Primavera é tempo de piracema. Os adultos, no Dia das Crianças, deviam fazer como os peixes. Eles nadam contra a correnteza dos rios na piracema. Voltam para trás, buscam as águas cristalinas do nascimento, do princípio. A vida adulta lhes ensinou o caminho rumo ao mar, rio abaixo... Foram ficando cegos de tanto ver passar paisagens, portos, pessoas, aventuras e desventuras. Um dia, para viver de verdade, eles sabem: é necessário voltar ao princípio, aos arquétipos. À infância.


A sabedoria na idade adulta - e ainda mais na velhice -, consiste em abrir de novo os olhos, abandonar a cegueira da experiência e retornar às origens, aos horizontes da infância. Ao ponto de partida.


Como Down, eu digo: a criança adormecida dentro de nós pode acordar e nos despertar. E o fará com sua inteligência leve e suave. E não pesada ou racional, como a dos adultos. Às crianças pertence o Reino dos Céus (Mt 19,14). A criança em nós é um chamado de alegria e ascensão. Como disse o profeta Isaías: “... uma criança pequena os guiará” (Is 11).


1 Colaborou na edição Evaristo de Miranda, pai do Daniel. Correio Popular, 12/10/2024 (proposto a publicação).

2 Youtuber, criador do Down News ( https://www.youtube.com/c/DownNews21 ) um canal de notícias especiais sobre as competências das pessoas com Síndrome de Down e seus relacionamentos, familiar, escolar, profissional, social e outros.

 

 

 

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terça-feira, 3 de janeiro de 2023

As velocidades Divinas e cósmicas são inacreditáveis.

Richard Jakubaszko    
Recebi uma mensagem de whatsapp do meu amigo Evaristo Eduardo de Miranda, engenheiro agrônomo da Embrapa Territorial e meu parceiro no livro "CO2 aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?", onde ele fala das velocidades do planeta Terra, do Sol, da Galáxia, e cujos dados divido com os leitores deste blog, por serem muito interessantes, dada a grandiosidade desses números. Depois que vocês lerem a mensagem farei comentários sobre o tema:

Richard,
Começa um ano cheio de promessas... muita coisa pode acontecer.

Sejamos colocatários reconhecidos do Planeta Terra. Ele gira sobre seu eixo a 1.600 km/h e nos oferece dias e noites. Ele gira em volta do Sol a 107.000 km/h, e nos oferece quatro estações. E em volta do centro da Via Láctea, se move a 850.000 km/h. E nossa galáxia inteira se desloca a 2.300.000 km/h.

Não ficaremos parados em 2023.
Imagine Nosso Senhor!

Abs. cósmicos, Evaristo
_eppur si muove_

Caro Evaristo,
dias atrás, conversando com um milenarista e ambientalista, desses que acreditam que o mundo vai esquentar, e de que as mudanças climáticas estão absolutamente fora de controle, além de caóticas, expliquei então que nada no mundo ou no universo está parado, muito menos o clima. Todos os seres vegetais, animais e minerais estão em movimento, aparentemente de forma caótica, mas incompreensível para nós humanos, porque nada sabemos. Diante desse caos, perguntei ao pessimista por que ele achava que o clima deveria ser estático e permanentemente igual?

O sujeito ficou calado, de olhos esbugalhados, quase estático, e me deixou falando sozinho... As velocidades impressionantes que você nos revela, mostram números que estão absolutamente fora de nossa compreensão. Imagina, a Terra gira sobre si mesma a 1.600 km/hora, e acompanha o Sol com 107.000 km/hora... São velocidades divinas ou cósmicas.
Obrigado, e um abraço!

 

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terça-feira, 21 de junho de 2022

O solstício de inverno

Evaristo de Miranda
  


Vivemos os dias mais curtos do ano. Em 21 de junho ocorre o solstício de inverno. "No Hemisfério Sul é a noite mais longa do ano. E o dia mais curto".

O solstício é determinado pelo cosmos, um fenômeno astronômico. Dada a inclinação do eixo rotacional terrestre, o sol nunca nasce, nem se põe, exatamente no mesmo local. Ele está em permanente deslocamento. O sol nasce sempre a Leste, mas cada vez mais em direção ao Norte, durante o outono. Em dado momento, o sol para nesse movimento aparente. Ele estaciona, sol sistere, não se mexe. O sol estaciona no solstício. E marca o início do inverno. No dia seguinte, ele começa a “voltar”, em sentido oposto, direção ao Sul. Esse evento cósmico é observável em todo o planeta.

No dia 21 de junho, o sol está com um deslocamento máximo ao Norte. Da varanda da casa ou da janela do apartamento marque o local onde o sol surge ou desaparece no horizonte. Pode ser na véspera ou mesmo um dia depois do solstício. É a marcação do sol, dos agricultores. Depois compare, em dezembro por exemplo, onde ele andará. Uma diferença enorme, imperceptível no dia a dia. Esse ciclo celeste do caminhar do sol dá para ver “da janela lateral”. Basta contemplar.

No solstício de inverno, a projeção do caminho do sol, no chão, sobre a Terra, “traça” o Trópico de Câncer, a 23 graus e 27 minutos de Latitude Norte. Os raios solares incidem perpendicularmente sobre o Trópico de Câncer. O sol passará a pino sobre Taiwan (onde há um belo monumento ao Trópico de Câncer), China, Índia, Emirados, Egito, Líbia, Argélia, Bahamas, Sul dos EUA e México. No Brasil, ao contrário, ele estará bem baixo na abóbada celeste. Ao meio dia, pessoas, edifícios e postes projetarão "as sombras mais longas do ano", em direção ao Sul. O sol penetrará pelas janelas voltadas à face Norte. Seus raios iluminarão ao máximo o interior das casas.

Para os antigos gregos, a beleza dos céus estava na precisão matemática dos ciclos celestes. Cosmos = beleza, como na palavra cosmética. Na agricultura, as principais colheitas (soja, milho, laranja, arroz, algodão...) já ocorreram. Mais de 270 milhões de toneladas de grãos. É tempo de entressafra. Com a passagem do solstício de inverno, a luz retorna. Inexoravelmente. Os dias durarão cada vez mais. Essa vitória progressiva da luz – comemorada nas festas e fogueiras juninas - convida todos, no campo e na cidade, a se prepararem para o futuro plantio, para serem fecundos, crescerem e darem muitos frutos, como no chamado do início da Criação (Gn 1,28).

* o autor é engenheiro agrônomo, doutor em Ecologia e pesquisador da Embrapa Territorial.

 

 

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quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Finados

Evaristo de Miranda *

Feno de Luz

No Finados celebra-se a memória dos falecidos. Eles chegaram ao fim do seu tempo. É dia solene, consagrado à lembrança de antepassados, ascendentes e de todos os mortos. Neste feriado, amplamente celebrado no mundo, não se trabalha. O país se consagra a meditar, a lembrar. E você?

Alguns não respeitam este feriado. Não lhes diz nada. Não corresponde a evento ou personagem de seu interesse. Profanadores desta data esquecem seus ascendentes, seus antepassados. Perdem a memória e, sem querer, profanam a si mesmos. Tiveram pai, mãe, avós, bisavós... e imaginam-se começando em si mesmos. Os filhos do nada são sementes do caos.

Finar evoca o findar. Os finados foram ceifados no seu tempo. O feno é a erva ceifada. Alimenta os animais em períodos difíceis de inverno ou seca. Na Bíblia, o homem é comparado à erva do campo. Finar e fenar são semelhantes. Feno vem do grego phaíno: brilhar, aparecer. A reluzente lâmina da morte não apagou os finados, apenas os igualizou diante das leis da natureza. A foice simboliza os ciclos de colheita e renovação. Na colheita se corta o caule. Como cordão umbilical, ele liga o fruto à dependência da terra alimentadora. Na colheita, o grão é condenado à morte para servir de alimento, sustentar a vida ou germinar como semente.

Os mortos não se apagam, se durante a vida cortaram com a foice da consciência as ilusões do mundo e de seu próprio egoísmo. Seus exemplos os fazem brilhar na lembrança dos que amaram e os amaram. A claridade de seus exemplos brilha como estrelas. Ajuda os vivos a atravessar períodos desfavoráveis, alimentando-os de sua luz. Mesmo se foi trêmula, como a da vela, com hesitação e beleza. Não viveram apagados. Fizeram um trabalho de luz. Sua memória é facho e feixe de luz. Finados é dia de acender velas e de harmonia. A harmonia é a tensão da luz ao vencer trevas e escuridão.

Finados é dia de visitar cemitérios, limpar e ajeitar os túmulos, acender uma vela na igreja ou em casa, pronunciar uma oração, fazer pelo menos um minuto de silêncio e meditar. Crianças órfãs crescem com a memória viva dos pais falecidos. Adultos, com o passar dos anos, colecionam seus mortos. E na velhice, todos se tornam órfãos. Ritualizar a lembrança dos mortos é terapêutico. Os mortos são a presença de uma ausência e não ausência de uma presença. Os ritos profanos e sagrados dão uma outra perspectiva ao tempo (kairós). Existe um tempo para tudo.
 

* o autor é engenheiro agrônomo e doutor em ecologia, Chefe Geral da Embrapa Territorial – Campinas – SP.

 

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domingo, 10 de outubro de 2021

Cadê o fogo que estava aqui?

Evaristo de Miranda *

De junho a setembro deste ano, a redução 
de incêndios e queimadas foi de 13% no Brasil.
In God, we trust.
All others must bring data.
(Em Deus nós acreditamos.
Todo o resto deve apresentar dados.)
Edwards Deming


Chegou a primavera e, com ela, as chuvas. O relógio do clima tropical é preciso. Passado o equinócio de setembro, aos poucos se encerra o ciclo sazonal de queimadas e incêndios no Brasil. Como em outros temas, as queimadas têm sido objeto de uma preocupação seletiva da mídia. Nesta estação seca, as redações não se incendiaram com denúncias e acusações sobre queimadas e incêndios no Brasil. Nem aqui, nem no exterior. Poucos tocaram no assunto. Comportamento muito diferente do de 2020. A razão seria a redução do fogo no Pantanal e na Amazônia durante a estação seca de 2021. Contra fatos…

De junho a setembro deste ano, a redução de incêndios e queimadas foi de 13% no Brasil. O país registrou 124.995 focos de fogo, valor idêntico ao de 2019 (125.821). Em mais de 30 anos, entre 1988 e 2021, a média foi de 135.000 no período seco. Em 2020, foram 143.000 focos, valor acima da média. Variações interanuais podem ser grandes: já se registrou um mínimo de 57.000 queimadas no ano 2000 e um máximo de 265.000 em 2007.

Os dados são do monitoramento das queimadas por satélite, realizado pela Nasa. Há décadas, a ocorrência de qualquer fogo de alguma magnitude é detectada várias vezes por dia, por diversos satélites, em sua maioria norte-americanos. O sistema atual de referência internacional para monitorar queimadas e incêndios usa os dados do satélite Aqua M-T, da Nasa. A detecção dos pontos de calor ou fogos ativos pelo satélite é disponibilizada, em tempo quase real, num site conhecido como Firms (Fire Information for Resource Management System). E, no Brasil, esses dados são oferecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) no Programa Queimadas.

No Pantanal, a redução foi de 69% em relação a 2020. Situação parecida na Amazônia: uma redução de 26%, contrastando com o aumento de 2020. Quem divulgou os dados sobre a redução das queimadas e incêndios nesses dois biomas? Ou tentou entender as razões? Quem comparou a dinâmica do fogo nos seis biomas brasileiros e alhures? Cadê os interessados?


Como na parlenda Cadê o toucinho que estava aqui?, é a água que apaga o fogo. O peso climático sobre a ocorrência maior ou menor, adiantada ou atrasada, das queimadas é enorme. São flutuações em escala continental. Na América do Sul, a redução dos fogos detectados neste período de 2021 foi até superior à registrada no Brasil: menos 18%. Segundo dados do Inpe, tratados pela Embrapa Territorial, do total registrado na América do Sul (200.194), mais da metade ocorreu no Brasil (62%), seguido por Bolívia, Argentina (ambos com 11%) e Paraguai (9%). São valores relacionados à dimensão territorial dos países. Com números ponderados pela área, o Paraguai é o campeão de queimadas: 44 a cada 1.000 quilômetros quadrados; seguido por Bolívia, com 21; Brasil, com 15; e Argentina, com oito queimadas a cada 1.000 quilômetros quadrados.
 
O Ano da Graça de 2021 passará à história como um exemplo de redução nesse fenômeno indesejado? Alguém explicará as causas dessa variação? Provavelmente, não. O Poder Executivo, acusado pelo aumento das queimadas na Amazônia ou no Pantanal em 2020, será responsabilizado pela redução do fenômeno? Dificilmente. Nem no Dia da Amazônia, em setembro, as catilinárias e as diatribes sobre as ações humanas nesse bioma não saudaram a redução no número das queimadas.

Em agosto passado, artigo na Revista Oeste destacou quanto a distinção entre queimadas e incêndios é necessária para a adoção de políticas públicas e privadas adequadas à redução do uso do fogo no mundo rural. A solução é ampliar o emprego de novas tecnologias agropecuárias para substituir o uso do fogo em diversos sistemas de produção. A queimada é uma tecnologia agrícola. Não se trata de prevenir queimadas, como no caso dos incêndios, mas de substitui-las por tecnologias modernas.

Agricultores não queimam por malvadeza. Essa prática do neolítico foi herdada essencialmente dos índios (coivara). Povoadores europeus a adotaram, aqui e na América Latina. Ela é tradicionalíssima na África, onde também é utilizada como técnica de caça. É sobretudo o produtor não tecnicizado, descapitalizado e marginalizado do mercado quem emprega o fogo — ocasionalmente — para renovar pastagens, combater carrapatos, eliminar resíduos vegetais acumulados, limpar áreas de pousio etc. E eles são minoria: menos de 2%. Do total registrado de queimadas, mais de 15% ocorrem em terras indígenas, áreas urbanas e periurbanas, beira de estradas etc. Fora das fazendas. São 6 milhões de produtores e cerca de 110.000 queimadas rurais no Brasil. Mais de 98% dos produtores não empregam o fogo em seus sistemas de produção. Não se trata de uma prática generalizada. A única prática generalizada é acusar toda a agropecuária brasileira. Há como reduzir o uso do fogo a menos de 1% dos produtores e tentar eliminá-lo por completo. Alternativas técnicas à prática das queimadas existem.
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O apagão midiático parece resultar de uma verdade inconveniente: 
a redução das queimadas não interessa.
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Já com os incêndios é diferente. Esse fogo indesejável ocorre fora de hora e lugar. Destrói patrimônio público e privado. Reduz a biodiversidade. Mata pessoas. Sua prevenção é fundamental. Uma vez iniciados, eles são difíceis de controlar. Muitas fazendas, usinas de cana-de-açúcar e grupos de reflorestamento mantêm brigadas anti-incêndios treinadas e equipadas para atuar, com o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil. Mesmo assim, neste ano, particularmente na região nordeste do Estado de São Paulo, ocorreram incêndios em canaviais provocados criminosamente ou por atos irresponsáveis. Na época da colheita, a palha seca da cana-de-açúcar é altamente comburente e queima como papel.

É paradoxal ver queimarem tantos canaviais como neste ano em São Paulo. Essa cultura foi a responsável pela maior redução do uso do fogo na agricultura observada no país. Nos anos 1990, a Embrapa monitorava as queimadas, com o sistema orbital NOAA-AVHRR, em colaboração com o Inpe. Os dados e mapas ainda estão disponíveis. Até a década de 1990, a colheita manual da cana-de-açúcar era precedida pela queima da palha, para facilitar o trabalho dos cortadores. Essa queima fazia parte até dos compromissos dos usineiros com os cortadores em acordos trabalhistas. Entre junho e novembro de 1994, o sistema NOAA-AVHRR registrou 4.380 queimadas de grande porte em São Paulo, concentradas na região canavieira. Programas e acordos levaram à mecanização da colheita e dispensaram há um tempo o fogo e a mão de obra dos boias-frias. Em 2009, no mesmo período, o sistema de monitoramento por satélite registrou apenas 299 queimadas.
Em 2020, incêndios e queimadas mobilizaram a mídia nacional e internacional, com acusações ao Brasil por parte de organizações não governamentais, do presidente francês, de outros chefes de governos e até com fotos de girafas e cangurus queimados. Neste ano, alguns até tentaram uns sinais de fumaça, mas faltou lenha ou fogo. O apagão midiático parece resultar de uma verdade inconveniente: a redução das queimadas não interessa. Apenas seu aumento. Os desafios colocados pelo uso do fogo na agricultura também não interessam. Levar tecnologias, financiamentos e conhecimentos para os pequenos agricultores reduzirem o uso do fogo também não. Só interessaria o incremento para acusar e culpar A ou B, como no ano passado? Aqui e no exterior? Em 2021, ainda não houve uma reportagem para atribuir o mérito da redução das queimadas a A ou B. Nem aqui, nem no exterior. Cadê o crítico? O gato comeu. C´est la vie.

* o autor é engenheiro agrônomo e doutor em ecologia, Chefe Geral da Embrapa Territorial – Campinas – SP.

Publicado em
https://revistaoeste.com/revista/edicao-81/cade-o-fogo-que-estava-aqui/#comment-119588



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sábado, 13 de fevereiro de 2021

Carnaval: vale a carne?

Evaristo de Miranda *



Todo ano tem carnaval. Nunca no mesmo dia. Porque ele não é festejado na mesma data, como o Natal ou a independência do Brasil? Ele sempre acontece 40 dias antes da Páscoa. A verdadeira festa móvel é a Páscoa. É ela quem arrasta o carnaval na passarela do tempo. Qual regra define a data da Páscoa? Quem a criou? A datação da Páscoa vem de longe.

A Páscoa judaica relembra a saída da escravidão no Egito, a verdadeira terra de leite e mel para onde sempre recorreram os nômades famintos das vizinhas terras desérticas. A Páscoa judaica está associada ao equinócio de primavera no hemisfério norte, o dia 20 de março. Para o judaísmo, o próprio planeta foi criado por Deus no equinócio de primavera. Para muitos povos, o ano começava em março. O calendário romano começava no equinócio de primavera, marca da emergência da vida após meses de outono e inverno.

A Páscoa cristã corresponde à data da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. O tempo litúrgico da Páscoa começa quarenta dias antes, na Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma. *Em 1091, a data da Páscoa foi assim estabelecida pela Igreja Católica: ela é festejada no primeiro domingo, depois da primeira lua cheia, após o equinócio.**

Consequência direta, o início do Carnaval também se estabeleceu: o final de semana antes da Quarta-feira de Cinzas. E ele termina na Terça-feira de Mardi-gras, a Terça-feira gorda, evocando carne e gordura. A data não foi escolhida para afugentar nenhuma festividade pagã, como vaticinam alguns.

Com origem na Antiguidade pré-cristã, o carnaval foi incorporado, delimitado e datado pelo calendário católico. Na Europa, o carnaval era um período de festas profanas, invernais, regidas pelo ano lunar. Elas eram caracterizadas pela liberdade de expressão, fantasias e máscaras, pela subversão temporária de papéis sociais e até naturais.

Em pleno rigor invernal, a festividade do Carnaval era um sobressalto de vida e de grandes refeições. Tempo de destacar a sobrevivência face ao frio, aos riscos da morte por enfermidades etc. As pessoas expressavam a certeza, pela duração cada vez mais longa dos dias, da chegada de tempos melhores (primavera). Sobreviveriam ao inverno. Quanto ao inferno...

Para alguns, a expressão latina "carne vale"! (Adeus, carne!), anuncia a entrada na abstinência quaresmal. Outra etimologia lê "carne levare": afastar a carne, do latim "levare", “tirar, sustar, afastar”. Um último consumo de carne antes da Quaresma. 

** "Se a COVID não autoriza bloco, desfile e aglomerações, nada impede churrascos entre amigos e familiares, com as devidas precauções, para honra e glória de bovinos e pecuaristas!"

* o autor é engenheiro agrônomo, Chefe Geral da Embrapa Territorial

 

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