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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Fritos ou marinados?


Rogério Arioli da Silva  
Fico sabendo que boa parte do povo brasileiro está cansado do atual cardápio servido de 4 em 4 anos pelos poderes políticos como refeição principal nesses últimos anos. Cansado de dirigir-se ao maitre solicitando mudanças no tempero e na forma do preparo do seu alimento, o brasileiro está literalmente prestes a virar a mesa, mudando radicalmente tradicionais hábitos alimentares. Pelo bem da gastronomia resolvi me aprofundar um pouco mais no assunto, preocupado que estou com problemas digestivos futuros.

Aprendi, por exemplo, que quando se está frito, ou melhor, quando se consome muita fritura, a qualidade de vida tende a deteriorar-se, aumenta a pressão e a predisposição às doenças cardiovasculares, além do acúmulo da indesejável gordura abdominal. Os óleos vegetais, quando fritos, se tornam saturados causando uma série de problemas à saúde das pessoas. Também as populações, quando saturadas, podem causar muitos problemas, alterando a ordem constituída e subvertendo-a por outra que se prometa diferente.

Existem diversas opções à fritura no preparo dos alimentos. Uma delas é o ato de grelhar, que submete o alimento ao fogo cozinhando-o, geralmente sobre uma grelha, sem contato com qualquer tipo de molho. Atualmente, talvez possa se considerar que o grelhado é o politicamente correto em termos nutricionais. Nestes tempos, em que o patrulhamento ideológico se faz presente em todo e qualquer debate de ideias, é importante que não haja discordâncias sobre valores fundamentais.

Outra opção culinária que se apresenta é o ato de marinar-se o alimento. O termo, como ensina o pai dos burros, origina-se do latim “marinus” e significa marinho. Não representa nada de novo, tem sido utilizado na conservação de alimentos nos últimos 5.000 anos. Trata-se, fundamentalmente, de uma composição de ações físicas e químicas aplicadas sobre determinando alimento que objetiva lhe conferir mais sabor. Há várias formas de marinar. A primeira delas é a líquida, onde uma solução salina
é aplicada, acrescida de especiarias e temperos, virando-se constantemente ao sabor das circunstâncias, é claro. A segunda é marinar a seco, utilizando um tempero pronto com ervas e condimentos, especialmente os de tons verdes, esfregando-se em ambos os lados. Que não se esqueça de remover os excessos antes do consumo, pelo bem da digestibilidade.

A marinação, propriamente dita, também pode ser dividida em três grupos, ou seriam grupelhos, sendo que possuem importância menor, e são os preferidos por grupos religiosos protestantes desde a idade média. O primeiro é cozido e deve ser resfriado antes de se aplicar o processo em discussão. O segundo é não cozido e se apresenta com alto teor de acidez, necessitando evitar-se o contato com partes oxidáveis, pelo perigo que pode apresentar. O terceiro, por sua vez, é um processo muito rápido, mostra-se efêmero e insípido, e pode deixar um retrogosto acre pelo seu amargor. Esses grupos normalmente são escolhidos dependendo do resultado que se espera obter e precisam ser muito bem conduzidos para que consigam chegar ao final do processo.


A culinária brasileira é rica e variada e consegue atender ao mais exigente dos paladares, necessita apenas que seja feita de acordo com o que está descrito no cardápio, sem descuidar-se daquilo a que se propõe. Não é recomendável mudanças bruscas no hábito alimentar da população, mesmo que essa já esteja farta de ouvir o anúncio de determinada refeição. Aventuras gastronômicas nem sempre acabam bem e podem provocar desde congestões estomacais até prisão de ventre. E prisão, mesmo sendo de ventre, é algo incomum ao cardápio dos brasileiros, conhecidos pelo caráter benevolente. De todos os distúrbios alimentares, no entanto, o mais popularmente temido é a conhecida diarreia. Nesta, perde-se muito, inclusive parte da flora estomacal tão arduamente construída ao longo do tempo. Ao promover a desidratação e perda de eletrólitos este distúrbio pode, inclusive, levar a óbito, se não for tratado.

Não é tarefa fácil escolher num cardápio variado qual a refeição mais adequada, levando-se em conta o paladar e o cuidado com a parte nutricional. Neste caso, é recomendável não confiar muito nos garçons com suas promessas e sugestões inconsequentes. Esses garçons até podem acertar uma preferência pelo sabor, mas podem cometer erros nutricionais irrecuperáveis. Para não errar, é imperioso que a escolha recaia em alimento que, embora não ofereça tanto sabor, pelo menos não resulte em infindáveis dores abdominais, porque as consequências levam à prisão ou à diarreia.



* o autor é engenheiro agrônomo e produtor rural no MT.
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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Prática proibitiva

Rogério Arioli Silva *
Um dos assuntos mais comentados pelo país nos últimos dias é, sem dúvidas, o preço do tomate. Chargistas e humoristas aproveitaram a indignação dos consumidores para divulgar nos principais meios de comunicação piadas e charges sobre a considerável alta deste importante componente alimentar das mesas brasileiras. Uma das melhores sacadas mostra um rapaz declarando seu amor através do oferecimento de um tomate à namorada, ao invés do tradicional anel. Piadas à parte, o aumento de mais de 150% no preço desta solanácea (botanicamente o tomate chama-se Solanum lycopersicum) é fato incomum, porém previsível.

Acontece que, a maioria dos produtos originários do campo possui como característica a inelasticidade da oferta, ou seja, sua restrita capacidade de, em curto espaço de tempo ser ampliada. Este fato pode desencadear momentos de escassez e de superoferta de produtos dependendo do resultado das safras, este, invariavelmente ligado às condições climáticas ocorridas. Foi o que aconteceu nesta safra. Chuvas demais nos estados do sul e a maior estiagem das últimas décadas nos estados do nordeste. Sobrou para o tomate, estuário da ira dos consumidores indignados.

Além do componente climático, outros fatores influenciaram a inflação tomatiana, segundo o economista do IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) André Braz, foram eles o aumento dos custos da mão de obra e a alta do óleo diesel que impactaram diretamente na cadeia produtiva. Some-se a isto uma diminuição de 17,5 % na área plantada neste ciclo em relação à 2011/2012 e o aumento no aparecimento de doenças bacterianas depreciando a qualidade dos frutos. Acrescente-se ainda excesso de chuvas em algumas regiões produtoras, que dizimou lavouras inteiras. E o comércio atacadista, mais o varejista, que especularam à vontade, em busca do lucro fácil. Os tomateiros mesmo, nem viram lucros, ou não tinham quase nada para vender ou estão plantando a próxima safra, mas os preços já estão caindo.

Embora ninguém goste de pagar mais caro por um produto cada vez que vai às compras, é importante que se tenha em mente o fato de que nem sempre o resultado das colheitas revela o esforço e a tecnologia aplicada pelos produtores. Indústrias são capazes de programarem sua produção sem sobressaltos, pois não estão sujeitas às intempéries nem aos caprichos da natureza. A atividade agrícola é diferente, condicionada que está a chuvas e trovoadas, além de outros estigmas não menos comuns, como pragas e doenças de difícil controle. A produção de soja deste ano aqui na região é mais um exemplo das irregularidades climáticas, pois deve ficar pelo menos 10% abaixo do esperado. Seca no plantio, chuvas na colheita, pragas novas e de difícil controle, aumento nos danos causados por nematoides, são alguns dos fatores que influenciaram negativamente o desempenho da cultura.

Muitas vezes os consumidores urbanos tendem a responsabilizar os produtores rurais pelas altas nos preços dos produtos originários do campo, o que é uma visão equivocada da realidade. Geralmente, quando as quebras de produção acontecem, quem primeiro sofre suas consequências é justamente o produtor que vê sua renda deteriorar-se, pois, invariavelmente não possui nenhum seguro de safras e muito menos de preços. Em geral os setores mais organizados que intermediam as negociações entre produtores e consumidores são os que aproveitam estes momentos de escassez, incrementando seus lucros.

Foi-se o tempo em que se podia mostrar desprezo e indignação jogando tomates naqueles que decepcionavam pela sua postura indecorosa e desonesta. Nestes tempos de tomates caros esta prática ficou inviável. Melhor opção é usar a antiga e consagrada vaia, que pelo menos não custa nada e também provoca vergonha àqueles que ainda a possuem.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT


COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO:
A blogosfera, esta semana, enlouqueceu de vez com os preços do tomate. Como a grande mídia (TVs e jornalões) toma o caminho de culpar o governo pelo fato sazonal-climático, os blogueiros de esquerda simpáticos ao governo tomam a defesa, e aí vemos abaixo, em dois exemplos, como se processa a crítica da grande mídia e a ironia da blogosfera. E la nave vá!

É ridículo e imbecil todo esse circo, até porque os preços do tomate já começaram a baixar. O povo deu o troco, reduziu o consumo... Será que as pessoas não podem ficar 15 ou 30 dias sem comer tomate? Precisa do licopeno? Coma melancia!


Revista Época radicaliza na defesa de juros altos e desemprego
Em sua capa desta semana, a revista semanal das Organizações Globo anuncia que o governo Dilma faz tudo errado no combate à inflação e diz que a presidente e o ministro Guido Mantega pisaram no tomate; autorreferente, a Globo usa declaração da global Ana Maria Braga, que disse usar uma joia ao pendurar um colar de tomates no pescoço, para afirmar que a inflação hoje assusta os brasileiros; nunca é demais lembrar, no entanto, que, nos dois governos FHC, a inflação foi substancialmente maior do que a agora, sem disparar o mesmo alarme; será síndrome de abstinência de juros altos ou de ter amigos no poder?
Brasil 247 - Nunca é demais relembrar os dados de inflação dos últimos governos. Na primeira gestão FHC (1995-1998), a taxa média foi de 9,7% ao ano. Na segunda (1999-2002), de 8,8%. Com Lula, os índices foram mais civilizados, sempre dentro da meta e, agora, com Dilma, a taxa média é de 6,2%. No entanto, nunca o alarma dos veículos de comunicação tradicionais soou tão alto como agora.

Em sua capa desta semana, a revista Época, das Organizações Globo, afirma que a presidente Dilma Rousseff e seu ministro Guido Mantega pisaram no tomate – produto que simboliza a alta de preços recente. Anuncia ainda que o governo federal faz tudo errado no combate à inflação – como se, por exemplo, iniciativas recentes, como a desoneração das contas de luz não tivesse a menor importância.

Autorreferente, a Globo usa uma declaração da apresentadora global Ana Maria Braga, a de que estava usando uma joia, ao pendurar um colar de tomates no pescoço, para indicar que a população brasileira estaria apavorada com a inflação. Detalhe: quem será que pediu para Ana Maria Braga fazer sua piadinha ridícula?

Com a capa desta semana, Época, na verdade, apenas acentua sua cruzada contra o governo Dilma e, a um só tempo, alia interesses políticos da Globo a interesses econômicos seus e de apoiadores. Os dois objetivos principais são derrotar o PT nas próximas eleições e garantir o início de um ciclo de alta de juros. No fundo, trata-se de uma síndrome de abstinência de juros e também um sintoma da falta de amigos no poder.

Outro blog, o Sintonia Fina, repercute também a revista Época:
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Uma harmonização necessária


Rogério Arioli Silva *
Notícias sobre a presença de carne equina em pratos e hambúrgueres distribuídos em vários países da Europa causaram verdadeiro alvoroço em consumidores de todo o mundo, levando inúmeras empresas a suspenderem os fornecedores suspeitos desta prática. Foi justamente na Região da Bolonha, centro norte da Itália, famosa pela sua gastronomia e local de onde, no passado, partiram centenas de imigrantes que aportaram no Brasil que o problema tomou contornos dramáticos. Por ser o berço do famoso molho à bolonhesa a descoberta desta bárbara contravenção culinária naquele local foi motivo suficiente para indignação e revolta.

O consumo da carne equina é tão antigo quanto qualquer outra carne de animais criados pelo homem. Conta a história que Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca, celebrado conquistador espanhol, foi obrigado a alimentar-se de seus cavalos para não perecer de fome quando aportou na América do Norte nos idos de 1528. Embora no passado o consumo da carne equina fosse condenado pela Igreja Católica por identificar-se com as festas pagãs, nos dias de hoje o mesmo é relativamente comum. O fato é que poucos sabem disso, e aí reside o imenso impacto causado pela notícia divulgada com o devido estardalhaço na imprensa internacional.


A realidade é que a carne equina custa muito menos do que as outras e suas características organolépticas são pouco diferentes das carnes bovinas tradicionais, contendo (segundo os entendidos) sabor levemente mais adocicado e maior teor de água na sua composição. Este custo menor já levou inclusive a boa parcela dos japoneses substituírem a dispendiosa carne de atum pela de cavalo em seus tradicionais sashimis. Outra vantagem dos equídeos é que, ao contrário dos bovinos, sua carne não se torna mais dura à medida que envelhecem.


O Brasil é um grande exportador de carne equina superando as 15 mil toneladas ao ano. Grande parte desta carne vai para países europeus como França, Bélgica e Itália, onde é utilizada na fabricação de embutidos como salames, salsichas e mortadelas. A legislação brasileira do Ministério da Agricultura descreve os produtos usados para fabricação de mortadelas e salsichas como: produtos cárneos obtidos de animais de açougue até o limite de 60% de miúdos comestíveis. Portanto, não havendo nenhuma proibição, somos todos consumidores contumazes da carne de cavalos. Nenhum problema então, apenas o fato de ficar-se sabendo, o que talvez tenha contrariado os consumidores europeus.


Muitos gaúchos levantaram-se contra a indiscriminada matança de cavalos no Rio Grande sendo inclusive tema de música do saudoso cantor nativista Leonardo que no seu belo apelo sonoro clamou: “Solte o cavalo no campo pra morrer como nasceu”. Como recompensa a todo trabalho prestado pelos equinos na conquista e desenvolvimento do Sul do Brasil é certamente mais honroso morrer no campo aberto do que no corredor do frigorífico.


Voltando à Europa, o Ministro Alemão Dirk Niebel sugeriu distribuir as lasanhas à bolonhesa contaminadas aos pobres, com o argumento de que 800 milhões de pessoas são vitimadas pela inanição no mundo. Há muito tempo atrás, outro alemão, o chanceler Otto Von Bismark (1815-1898) alertou que assim como as salsichas é melhor que não se saiba como as leis são feitas. Sábia recomendação, pelo bem do paladar e da convivência democrática. De qualquer modo muitas coisas não seriam apreciáveis ao paladar se sua origem fosse divulgada, como foi o caso das lasanhas e de certas ações patrocinadas pelos poderes legislativos.


Enquanto a polêmica continua e espalha-se por quase todo o mundo, o consumo da carne equina não deveria sofrer a discriminação à qual tem sido exposto. Não há mácula para a gastronomia italiana consumir equídeos no molho à bolonhesa. É certo que ao consumidor deve ser conferida a prerrogativa de saber o que está consumindo. Sem esta básica informação fica difícil inclusive de harmonizar o vinho com a refeição. Até porque certamente a carne de cavalo, por ser mais adocicada, exigirá os menos tânicos que suavizarão melhor o paladar.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT

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domingo, 4 de novembro de 2012

República dos bananas

Rogério Arioli *

A Ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira anunciou pomposamente a prorrogação da moratória da soja por mais um ano. Aplaudida pelas instituições patrocinadoras desta iniciativa, entre as quais a ABIOVE, ANEC, BB, Greenpeace, IPAN, WWF e outras mais, a Ministra usou como argumento o novo Código Florestal e as perspectivas de aumento na produção da oleaginosa, fundamentada nas suas altas cotações.

Para quem não acompanhou de perto esta novela chamada “Moratória da Soja”, cabem alguns esclarecimentos: A mesma foi instituída em 24 de Julho de 2006 para acalmar os clientes europeus que cismaram em dizer que era a cultura da soja quem estaria provocando o desmatamento do bioma amazônico. Em decorrência desta atitude, as principais compradoras da soja nacional recusaram-se a adquirir o grão produzido em áreas de abertura recente, mesmo que esta tenha sido feita de maneira legal. Após um amplo trabalho de mapeamento e identificação promovido pelo INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) a área encontrada com soja no Bioma Amazônico foi de apenas dezoito mil hectares. Significou dizer que menos de meio por cento do desmatamento se devia ao plantio da soja, dado este que não foi muito divulgado, pois provocaria uma desmesurável vergonha aos arautos do caos ambientalístico.

Embora algumas ONGs ligadas aos clientes europeus estejam imbuídas no sentido de denegrir a imagem da soja brasileira em boa parte do mundo, vinculando-a com o desmatamento amazônico, depois da farsa divulgada, não houve nenhuma ação no sentido de reparar tal engano, causador de prejuízos significativos a todo o complexo exportador. Ao assumir o discurso da moratória, o governo não apenas sucumbiu à fraude como também jogou na lata de lixo, um documento que, pelo menos por aqui deveria ter algum valor: A Constituição Brasileira. Como ficou a situação daqueles produtores brasileiros que, constitucionalmente, por se encontrarem no bioma amazônico, poderiam explorar os parcos 20% de área que a lei permitia? Pois a resposta é enigmática: ficaram impossibilitados de comercializar seu produto, mesmo tendo respeitado as leis vigentes do seu país. Parece que está instituída novamente a “República de bananas”, só que agora não se refere às frutas e sim às pessoas.

Aqueles que deveriam defender a autonomia brasileira sobre seu território vergam os joelhos e aplaudem o “defloramento constitucional” em nome do falso desflorestamento causado pela soja.  A submissão prospera onde encontra a fragilidade de atitudes e convicções.  Sempre foi assim desde tempos remotos, onde as riquezas brasileiras só tinham valor quando exploradas pelos outros.

Fala-se em desmatamento zero como se, a partir de agora, toda modificação da paisagem natural fosse criminosa. Mas apenas no Brasil, é lógico. E o resto do mundo produz em locais onde antes havia o quê? As lavouras devem ter brotado em locais assemelhados à paisagem lunar onde nada existia anteriormente, pois ninguém, absolutamente ninguém, desmatou nada a qualquer tempo. São todos inocentes. Os criminosos são apenas os brasileiros, e mais ainda aqueles que se localizaram no bioma amazônico. Basta que somente estes sejam crucificados, e todos estaremos absolvidos deste ímpeto criminoso e cruel de destruir o planeta, modificando sua idílica paisagem.

Entretanto é bom que se diga que a imensa maioria de produtores e técnicos atualmente é contra a substituição da paisagem natural, seja ela cerrado ou floresta, para a instalação de lavouras. Na verdade, o Brasil possui milhões de hectares de pastagens degradadas fornecedoras de áreas para a agricultura, sem que haja necessidade de derrubar uma árvore sequer. Mas trata-se do DIREITO de explorar as riquezas brasileiras que está sendo subtraído.

Quando se aceita a ingerência de estrangeiros deslumbrados nos assuntos de interesse nacional abre-se mão da soberania, algo que nenhum país está disposto a fazer, a não ser que seja uma republiquetinha qualquer.

Enquanto por aqui se festeja a renovação da moratória da soja, certamente em algum local requintado, alguém abre uma garrafa de champagne brindando às modernas formas de colonização que rendem, num só tempo, lucros e aplausos. 
* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural

COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO, ADICIONAIS AO ARTIGO DO ARIOLI
Richard Jakubaszko
1 - a Aprosoja foi um dos signatários desta moratória nos primeiros anos, não sei se ainda é signatária dessa empulhação feita pela indústria exportadora. Não gostei da "filosofia" discricionária, já desaprovei e denunciei essa bajulação aqui no blog e também na Agro DBO. Aposto que a diretoria não consultou nas bases.

2 - Quem desmata a Amazônia são os madeireiros (sob os aplausos dos fiscais do Ibama, todos em conluio, devidamente propinados), para atender Europa, EUA e Ásia, e não vejo ninguém reclamando da madeira que compram. São hipócritas os importadores, a mídia e ONGs. A mídia é omissa, vendida ou burra!

3 - Depois dos madeireiros, quem derruba as árvores menores são os carvoeiros, para fornecer carvão às multinacionais do alumínio e outras. Se forem pegos pela polícia são acusados de trabalho escravo (pois os filhos trabalham com os pais, pela ausência de escolas). O mico fica com os ruralistas.

4 - Ninguém queima árvore na Amazônia, árvore é dinheiro vivo se for derrubada. O que se queima é um matagal precoce (chamado de capoeira) ao redor dos tocos, para implantar pastagens (que é sequestradora de CO2, e que nunca foi causadora de "aquecimento"). Os fogaréus duram 5 minutos, por ser mato ralo, apesar de verde e fazer muita fumaça. As opções para eliminar o mato seriam:
a - herbicidas, e daria margem para acusações de agropoluição.
Ou:
b - usar enxada, e não há caboclo macho que faça isso, pois tem de entrar na capoeira, onde tem cobras, aranhas, escorpiões e mosquitos.

5 - Ignoram os acusadores, e a mídia, que, para plantar soja, o solo precisa ser destocado, pois a soja é sucesso (entre outras coisas) por ser 100% mecanizada. E com toco não dá para passar semeadeira-adubadeira de R$ 300 mil em cima. Ignoram os acusadores que, para destocar uma árvore de tamanho médio, com mais de 5 metros de altura, há um tempo de espera de pelo menos 5 a até 10 anos para o toco secar e apodrecer, isto se não houver rebrota, sem o que o toco não sai de lá nem com reza brava, e impede a mecanização.

6 - Toda essa comédia teatral, com empresários circunspectos assinando contratos de moratória, ministros dando entrevistas, e os palhaços somos nós.

7 - Vivemos tempos pré-ditatoriais dos ambientalistas. Se for obtida a concordância de governos dos países membros da ONU para a instalação da pretendida Agência Ambiental Internacional, com poderes de multar e submeter países às suas vontades, como se pretende, aos moldes da Agência Internacional Nuclear, todo mundo pode se preparar para uma ditadura ambiental. Muito pior do que essa que já está aí, que é só politicamente correta.

8 - Parece que ninguém ouviu a confissão de James Lovelock, pai da “hipótese Gaia”, que se retratou de seu alarmismo em abril último. Leia aqui este post, publicado no blog em abril de 2012.

9 - Não são novas as ações e dificuldades impostas pelos EUA e Europa para frear o desenvolvimento brasileiro na produção de alimentos, onde eles não desejavam perder espaço, mas perderam, e vão perder mais ainda.

10 - Nos anos 1980 e até meados dos anos 1990 os países desenvolvidos ditaram normas ao Brasil para que a gente colocasse um fim aos subsídios agrícolas, que existia na forma de crédito mais barato para o custeio do plantio. Eles projetaram nosso crescimento e verificaram que perderiam a liderança ainda no final do século XX, o que os obrigaria a aumentar as bilionárias despesas com os subsídios gigantescos que sempre tiveram. A forma e pressão que usaram, para que cumpríssemos essa determinação, eram as cláusulas dos empréstimos concedidos via FMI, pois vivíamos endividados e com o chapéu na mão. O Brasil acabou com os subsídios agrícolas no início dos anos 1990. Com essa estratégia os países desenvolvidos seguravam o crescimento brasileiro e ainda recebiam os juros.

Já no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, depois de perceberem que continuávamos competitivos, e que ainda crescíamos, apesar da dependência externa dos fertilizantes e de outras tecnologias, apesar da falta de poupança interna, apesar da falta de infraestrutura e de logística, iniciaram o movimento ambientalista, via ONGs e imprensa, para impedir o avanço da produção de alimentos (carnes e grãos), pois o Brasil iria superar, como superou, todos os obstáculos, até mesmo a nossa internacionalmente conhecida incompetência.

 
Assim, a partir de 2005 o Brasil assumiu a liderança nas exportações de carne bovina, e não deixou mais esse posto. Eles perceberam ainda que, a partir do final dos anos 2010, seremos os líderes das exportações em soja, apesar das novas limitações ambientais impostas para o plantio, seja em áreas de cerrado, seja em áreas que já estavam estabelecidas.

 
Que não se permita o avanço dessa atrocidade do novo Código Florestal, como querem os ambientalistas e os ruralistas americanos e europeus, e que se poderia chamar de "confisco de terras produtivas", através de APPs e áreas de reserva, evento sem paralelo na história humana, a não ser em termos político-econômico-ideológico na revolução bolchevique, que confiscou as terras não cobertas por gelo na Rússia de 1917.
Tudo isso o setor rural brasileiro já sabia, não há nenhuma novidade, no front, aliás, se há novidade, é que apenas agora os países desenvolvidos, mais a FAO e OCDE, reconhecem publicamente isso.

Será que eles ainda acreditam que poderão limitar nosso futuro crescimento via questões e pendengas ambientais, em nome da insuspeita sustentabilidade?

A conferir no futuro breve, pois do FMI somos credores nesses novos tempos, não há mais como usar essa arma contra os brasileiros.


O que a gente realmente tem de tomar cuidado é com o fogo amigo dos brasileiros, governo, imprensa e indústrias exportadoras, travestidos de ambientalistas.
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quinta-feira, 22 de março de 2012

Por um punhado de dólares

Rogério Arioli Silva * 
No filme de 1964 (nome original: a Fistful of Dollars) o pistoleiro sem nome estrelado por Clint Eastwood e apelidado de Joe pela população local, percebe a possibilidade de ganhar dinheiro intermediando ações de dois grupos rivais, um deles contrabandista de bebidas e outro de armas. A história é ambientada em San Martin, um pequeno vilarejo na fronteira entre México e Estados Unidos onde a lei inexiste, e sobrevivem os mais fortes. A San Martin brasileira chama-se Jacareacanga no Pará e o Joe da atualidade bem poderia ser o irlandês Ciaran Kelly atual CEO da Celestial Green Ventures empresa dublinense líder mundial do mercado voluntário de créditos de carbono.

Ao deparar-se com uma terra sem lei, no caso o Brasil, este esperto irlandês protagonizou a mesma história do faroeste da década de 60, aproveitando-se da miséria indígena e do contrabando de irresponsabilidades onde se confundem ONGs, FUNAIs e parte da Justiça brasileira que, com o argumento de proteger os indígenas, entrega o patrimônio nacional e, agora, faz de conta que não sabia de nada.
 
Notícias dão conta de que 20 milhões de ha, ou seja, uma área do tamanho da Suíça mais a Áustria juntas, já foram negociadas pela Celestial Green Ventures em 17 projetos que totalizam seis bilhões de t de carbono. Assim, grandes empresas podem continuar emitindo CO2 pelo mundo afora que os silvícolas brasileiros se encarregarão de deixar suas áreas intocadas, armazenando o carbono emitido pelos ricos poluidores. Este processo, batizado como REED (reduções por desmatamento evitado), tem sido discutido desde 2003 na COP -9 e a partir daquela época tem sido aperfeiçoado (?), sem que haja consenso da sua melhor utilização. Fato é que a simples compensação do C02 emitido pelos poluidores através da compra do carbono estocado na floresta tropical não garante que se tenha um clima melhor no futuro, paralisando o famigerado aquecimento global, servindo apenas para proporcionar status de “politicamente correto” às empresas adquirentes deste crédito.

Enquanto a discussão segue, com dezenas de ONGs patrocinando a FUNAI e seus fajutíssimos estudos antropológicos, com o objetivo de aumentar cada vez mais as reservas indígenas brasileiras e participar deste grande negócio, surgem os espertalhões como a Celestial Green negociando direto com os índios e deixando todos os envolvidos com aquela incômoda sensação de crescimento auricular.  Trata-se de um enorme filão, pois estimativas dão conta de que as florestas tropicais possuem 15% da superfície terrestre e contêm 25% de todo o carbono existente na biosfera.
 
Fica clara agora a imagem de alguns líderes europeus circulando pelo mundo com os índios brasileiros a tiracolo, com o argumento da preocupação de preservarem-se os direitos dos povos da floresta.  O que está em curso há muito tempo é a implantação de uma moderna governança florestal através da criação da Comunidade Indígena Internacional para gerir toda esta riqueza com sendo “patrimônio da humanidade”. Aos menos desavisados basta que pesquisem toda a chamada “calha norte brasileira” e suas reservas indígenas já interligadas, prontas para virar uma nova nação independente a ser administrada pelos defensores do meio ambiente (dos outros).

A Raposa-Serra do Sol, desapropriada em área contínua pelo STF, foi apenas mais uma das muitas que estão em gestação, com o apoio de muitos engajados neocapitalistas entre os quais, grande parte da sociedade brasileira utilizada ingenuamente neste processo.

A Ministra do Meio Ambiente, coitada, com cara de quem caiu de um caminhão de mudanças tem medo de que a valorização da biodiversidade tropical brasileira abra as portas para a biopirataria. Já abriu faz um tempinho, Senhora Ministra.  Agora escancara as portas que sobraram para o mercado voluntário dos créditos de carbono onde os índios venderão por uma “merreca” o bilionário patrimônio brasileiro armazenado nas suas florestas tropicais. Melhor pros índios que não agüentam mais as promessas vagas do indigenismo sem resultados. Tomara que, pelo menos, saibam gastar seu punhado de dólares com a melhoria de sua qualidade de vida ao invés de permanecerem como “museus vivos”, situação ainda defendida por alguns antropólogos e indigenistas radicais.

No faroeste antigo Clint, ou se quiserem, Joe, surgia como o mocinho alto e musculoso com o cigarro no canto da boca e, os bandidos por sua vez, apareciam como mexicanos gordinhos, sujos e foras-de-forma. No cenário atual, os mocinhos já se sabe quem são. Os bandidos ainda não foram apresentados, mas bem poderíamos ser todos nós, que ainda insistimos nesta história de soberania nacional, um assunto que já está muito fora de moda nos dias de hoje.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no Mato Grosso.