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segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Carrefour queria boicotar o Brasil e acabou em xeque, está boicotado aqui. Mas precisa mais boicote nosso.

Richard Jakubaszko

Acordo já está aprovado. Agora é só chororô. 
A grande mídia revelou esta semana a decisão de boicote do grupo francês Carrefour que anunciou na França que irá parar de comprar carne do Mercosul, inclusive do Brasil, por conta de supostos “descumprimentos sanitários”, o que provocou um enorme repúdio das autoridades brasileiras, a começar pelo ministro da Agricultura Carlos Fávaro, ao mesmo tempo apoiando um contra-boicote da indústria brasileira de carnes vermelhas (inclusive de frangos), à filial brasileira da rede Carrefour. Vai ser interessante acompanhar essa treta.

Pela primeira vez o agro brasileiro se mostra com coragem para contestar as “frescuras ambientais” da França e da Comunidade Europeia, que discutem com enorme hipocrisia a aprovação e regulamentação do acordo Mercosul-Mercado Europeu, que está encrencado há cerca de 30 anos, sempre atrapalhado pelos interesses, de um lado, dos ambientalistas, e, de outro, pelas indústrias europeias e pelos produtores rurais franceses. Houve a aprovação em 2019, mas ainda falta a regulamentação. O acordo vai ser regulamentado e deve sair ainda este ano, mas sem os aplausos daqueles que sempre foram contra.


A ação do Carrefour, em verdade, é uma ação política de apoio ao governo francês, e, ao mesmo tempo, uma jogada de marketing para com seus clientes na Europa e fornecedores do agro francês. No início dos anos 2000 o Carrefour prometeu em campanhas publicitárias a “rastreabilidade” de todos os produtos vendidos pela rede. Houve um sucesso enorme entre os clientes, mas o Carrefour foi obrigado a terceirizar os processos de rastreio, devido à dimensão que a promessa mercadológica alcançou, e que eles nunca conseguiriam cumprir sozinhos. Outras redes de supermercados europeias abraçaram a ideia e foram juntas na ação de marketing, conforme revelo em meu livro “CO2 aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?” Veja aqui: https://richardjakubaszko.blogspot.com/2022/05/saiu-3-edicao-do-livro-co2-aquecimento.html

No livro, demonstro como seriam as ações “diplomáticas” e “políticas” da Europa contra o agronegócio brasileiro, na verdade o foco principal do interesse no acordo: protecionismo puro, através de normas alfandegárias que inviabilizem um concorrente como o Brasil na produção de alimentos.

Em agosto de 2019 publiquei aqui no blog, uma carta aberta ao presidente da França, Emmanuel Macron, sobre as tretas francesas e europeias a respeito das queimadas na Amazônia. Pedi a ele para que intercedesse no Parlamento Europeu para exigir a proibição de importação de madeira ilegal do Brasil, pois isso resolveria 90% dos problemas de abate de árvores, e, consequentemente, das queimadas. Leia aqui: https://richardjakubaszko.blogspot.com/2019/08/carta-aberta-ao-presidente-da-franca-sr.html

No contra-boicote brasileiro, em minha opinião, outras áreas do agronegócio precisam aderir, sejam produtores de frutas, hortaliças e legumes, além de laticínios, pois a indústria de alimentos brasileira não irá tomar nenhuma iniciativa. Vejam que a Danone e o Grupo Tereos (Açúcar Guarani), investimentos franceses no Brasil, já aderiram ao boicote do Carrefour.

Como pano de fundo temos a questão ambiental, o aquecimento e as mudanças climáticas, a maior mentira do Século XXI, e atrás disso os europeus, especialmente os franceses, manipulam de forma dissimulada toda a questão. O Brasil (principalmente o agronegócio) necessita debater a fundo as intenções dos grupos de interesse do IPCC, em cujas mentiras os franceses agora se apoiam para tomar decisões.


Assim, tenhamos comprometimento, e sem medo de ser feliz.

 

 

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terça-feira, 17 de maio de 2022

O Agronegócio brasileiro no mundo

Richard Jakubaszko  
Recebi do amigo Eduardo Daher, diretor-executivo da ABAG - Associação Brasileira do Agronegócio, o gráfico abaixo, cuja leitura demonstra a importância do Brasil na produção de alimentos no mundo. É importante ressaltar que a fome continua sendo um dos 4 Cavaleiros do Apocalipse.

Os quatro cavaleiros do apocalipse são, respectivamente, peste, guerra, fome e morte, que, para os cristãos, irão acontecer antes do fim de todas as coisas, na visão do apóstolo João.  




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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

EIMA Digital Preview, um universo virtual

Richard Jakubaszko  
Já visitei a EIMA - Exposição Internacional de Máquinas Agrícolas (Bolonha, Itália - periodicidade bienal, sempre em anos pares) em 4 oportunidades, desde 2010. É uma gigantesca feira presencial montada em cerca de 36 galpões fechados e climatizados, onde há de tudo em exposição, para exibir tecnologias para a produção agropecuária e florestal, além de jardinagem.

Este ano a EIMA presencial foi adiada de novembro 2020 para fevereiro 2021, por conta da Covid19. Então os italianos prepararam para novembro de 2020 a EIMA Digital.

A EDP, primeira exposição digital dedicada à maquinaria agrícola, abre hoje, quarta-feira, 11 de novembro, pelas 9h00 do horário italiano. Baseada em uma plataforma tridimensional, desenvolvida a partir das necessidades específicas do setor agro-mecânico, a vitrine online oferece aos visitantes uma experiência imersiva que permite que eles se movimentem no universo virtual do evento como se estivessem dentro de um espaço físico.

Mais de 1.100 empresas participantes; 120 webinars, conferências online, percepções temáticas; mais de 60 jornalistas italianos e estrangeiros credenciados; milhares de profissionais já cadastrados na plataforma. E mais: 37 delegações estrangeiras representando os diversos atores agrícolas do planeta e um programa completo de encontros business-to-business por videoconferência, que envolverá as indústrias expositoras por 10 dias (de 9 a 19 de novembro). Estes são os números da EIMA Digital Preview (EDP), a primeira exposição virtual dedicada às tecnologias para a agricultura, que abre hoje de manhã às 9h00 e que foi apresentada à imprensa ontem a tarde em Bolonha.

Concebido como uma ponte para a vitrine física internacional EIMA, prevista para fevereiro de 2021, o evento digital é realizado online de 11 a 15 de novembro (prevê-se um prazo mais longo para reuniões de negócios), organizado pela FederUnacoma, a associação italiana de fabricantes de máquinas agrícolas. O evento pode ser acompanhado de todo o mundo sem limites de fuso horário. Na verdade, será possível visitar os estandes virtuais das indústrias expositoras 24 horas por dia, enquanto os webinars e as conferências podem ser acompanhados ao vivo e sob demanda, graças a um arquivo de vídeo disponível em tempo real. No entanto, o verdadeiro destaque da EDP é a arquitetura tridimensional. “Muitas exposições online são baseadas em programas e modelos que já estão na rede: sites, internet, bases de dados, arquivos. EIMA Digital Preview é uma plataforma inteiramente e exclusivamente desenhada para a feira de máquinas agrícolas”, explicou Simona Rapastella, Gerente Geral da FederUnacoma.

“Um bairro virtual em 3D - acrescentou Rapastella - onde os visitantes podem realizar ações específicas movendo-se nos espaços tridimensionais dos estandes de forma intuitiva e cativante”. A EDP assenta numa plataforma envolvente que transporta os visitantes para um universo real - o da mecanização agrícola - constituído por 15 planetas que albergam os estandes digitais das empresas (14 categorias de produtos, mais uma dedicada aos restantes atores da cadeia agro-mecânica), a área viva (chamada Agora), e uma seção dedicada aos escritórios administrativos da FederUnacoma. “A EDP e a EIMA International - conclui a gerente geral da FederUnacoma - têm especificidades distintas, pelo que se complementam: a versão digital vai oferecer soluções tecnológicas cada vez mais flexíveis, disponíveis a qualquer época do ano para reuniões, iniciativas de comunicação e negócios atividades, enquanto o espaço físico do centro de exposições de Bolonha continuará a oferecer uma experiência sensorial que permanece única e insubstituível ”.

Para acessar a EIMA Digital Preview: www.eima.it/en/visitatori/user-form.php

 

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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O que o agronegócio deve esperar de Joe Biden?

Marcos Sawaya Jank *

Impacto do governo Biden no comércio agrícola, China, Amazônia e políticas climáticas.

Joe Biden venceu as eleições dos EUA e esse é o tema do 1º artigo da nova coluna AGRO GLOBAL do site de VEJA. Vamos analisar o impacto do novo governo sobre agronegócio, comércio, clima e Amazônia, mostrando porque Biden é a melhor escolha para o agro brasileiro.

A primeira grande mudança da gestão Biden nas relações internacionais será o resgate da liderança que os Estados Unidos sempre exerceram na coordenação multilateral do mundo, que se inicia já na independência dos EUA com a ação diplomática de Benjamin Franklin e os demais Founding Fathers contra o colonialismo europeu.

Para entender o papel histórico dos EUA no mundo, vale ler um livro magnífico que acaba de ser lançado: America in the World: A History of U.S. Diplomacy and Foreign Policy, de Robert Zoellick, que foi representante de comércio dos EUA (USTR) de 2001 a 2005 e depois Presidente do Banco Mundial. O livro analisa o papel que Franklin, Hamilton, Jefferson, Adams, Lincoln, os Roosevelts, Woodrow Wilson, Cordell Hull, Kennedy, Reagan, Bush e outros “líderes pragmáticos” tiveram na construção da diplomacia e da política externa dos EUA. A obra merece ser lida nesse momento crucial e conflitivo da democracia americana.

No final da 2ª guerra, o mundo pedia maior coordenação multilateral em temas como garantia da paz, comércio, finanças, desenvolvimento e outros. Os Estados Unidos assumiram posição central na criação de diversas organizações internacionais para promover paz, direitos humanos e solução de conflitos (ONU), finanças e desenvolvimento (FMI e Banco Mundial), comércio (o acordo do GATT, que depois virou a OMC - Organização Mundial de Comércio), saúde pública (OMS - Organização Mundial de Saúde) e muitas outras.

O momento turbulento e polarizado que vivemos hoje exige o aprimoramento da capacidade de coordenação dos países em novos temas como meio ambiente, mudança do clima, segurança biológica (contenção de pandemias), saúde pública, segurança cibernética, migração, anticorrupção, transparência e outros.

Com o America First, Trump deu as costas para o mundo e abandonou o papel histórico de concertação dos EUA. Em comércio, para agradar o seu público interno Trump propôs medidas enérgicas para “zerar” os principais déficits comerciais que os EUA mantinham no mundo, iniciando negociações país a país como se o comércio fosse um jogo de soma zero, que não é.

Pouco a pouco, Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), um extraordinário acordo comercial ligando 12 países americanos e asiáticos do Pacífico. A seguir, repaginou o NAFTA à sua maneira, enfraqueceu a OMC ao se recusar a nomear juízes para o órgão de solução de controvérsias e retirou os EUA da Convenção do Clima. Trump se voltou para dentro do país, confrontando não apenas os novos inimigos do Oriente, como a China, mas também os seus vizinhos e aliados mais tradicionais do Ocidente. Na minha opinião, não deu certo.

Não há dúvida que Joe Biden vai seguir priorizando os interesses domésticos americanos acima de tudo, começando pela recuperação econômica do país. Mas, ao contrário de Trump, ele construirá a sua política externa a partir das medidas internas que serão adotadas, reduzindo o tensionamento e aumentando a concertação internacional.

É neste contexto que enxergo a possibilidade de novas formas de diálogo entre os EUA e a China. Com certeza a rivalidade EUA-China veio para ficar e não vai terminar com a eleição de Biden, até porque a China continuará crescendo rápido e ameaçando a hegemonia americana. Ao final de 2021, a economia chinesa estará 10% maior do que logo antes da pandemia. Os EUA estarão menores.

No agronegócio, não há dúvida que o Brasil se beneficiou da guerra comercial EUA-China, que começou logo após as eleições de Trump em 2017, e pode ser prejudicado por um acordo tácito entre as duas maiores potências do planeta. Mas comemorar guerras e disputas hegemônicas nunca foi uma boa ideia para quem só atua em campos laterais. Prefiro acreditar que a construção de regras multilaterais que valem para todos continua sendo a melhor opção do planeta. Podemos perfeitamente incrementar nossas parcerias estratégicas com os EUA e com a China, rejeitando a política de “comércio administrado” proposta por Trump que, espero, não será seguida por Biden.

Dentre as políticas de Biden, a que mais deve impactar o Brasil é uma nova postura dos EUA em relação ao tema da mudança do clima, radicalmente diferente da linha seguida por Trump. Meio ambiente, mudança do clima, promoção de fontes renováveis de energia e taxação de carbono estarão no centro da agenda de Biden. Os EUA vão retornar ao Acordo de Paris, colocando o tema da mudança do clima no centro da sua política externa, comercial e de segurança nacional, o que certamente incluirá uma forte pressão para reduzir o desmatamento no Brasil.

Muitos dirão que essa é uma agenda negativa para o Brasil. Eu prefiro acreditar que, na toada das pressões comerciais que o agro já vem sofrendo na região Norte, a eleição de Biden apenas reforça a necessidade de completarmos a “lição de casa” que estamos devendo para o mundo há décadas.

Estima-se que 95% do desmatamento brasileiro seja ilegal e, portanto, associado ao descumprimento da legislação brasileira. É nossa obrigação resolver esse problema, que começa com a necessidade de regularização fundiária das regiões norte e nordeste do país, que já dura décadas. Segue-se o problema da regularização ambiental, que ainda não foi efetivada, a despeito de o Código Florestal já ter completado o seu 8º ano de vida.

A verdade é que a agricultura brasileira é ao mesmo tempo vilã, vítima e solução no tema da mudança do clima. “Vilã” por estar associada ao desmatamento ilegal, que já atinge mais de 10 mil km2 por ano no Brasil. “Vítima” porque a agricultura vem sofrendo com eventos extremos e grandes instabilidades climáticas, como vimos esse ano no país. “Solução” porque acumulamos grandes ganhos de produtividade e dispomos de uma matriz energética limpa e diversificada - composta por diversos tipos de biocombustíveis e energias renováveis - fazemos 2 a 3 safras por ano e muitas outras conquistas qualificam a nossa agricultura como de “baixo carbono”.

A pecuária de corte será o setor mais pressionado pela eleição de Biden, pelo fato de que a cria de bezerros é a primeira ocupação agropecuária em áreas recém desmatadas do bioma Amazônico. Mas os biocombustíveis brasileiros como o etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de oleaginosas, podem ganhar bastante espaço na agenda internacional com a adesão dos EUA ao Acordo de Paris e a renovada pressão pela substituição de energias fósseis por energias renováveis, tema amplamente vocalizado por Biden durante a campanha. Vale lembrar que 73% das emissões de gases de efeito estufa responsáveis pela mudança do clima vem do setor de energia e transportes, e menos de 7% de desmatamentos e mudanças no uso da terra.

Em suma, creio que a eleição de Biden levará o governo brasileiro a abrir novos canais de interlocução com o governo americano. Deveria, também, buscar uma equidistância mais prudente da sua política comercial com os EUA e com a China, fortalecendo as nossas duas maiores parcerias estratégias. Apesar de os EUA serem os nossos principais concorrentes no agronegócio global, há muito espaço para ampliar a cooperação com aquele país em temas como segurança alimentar global, inovação, bioenergia e no reforço da coordenação multilateral.

Creio que a principal lição que deveríamos aprender com o retorno dos Democratas ao poder nos EUA é parar de insistir em ver o mundo como “cruzadas maniqueístas”, de uma luta permanente do bem contra o mal entre supostos poderes opostos e incompatíveis. Em vez de louvar amigos e atacar inimigos imaginários, melhor faríamos em identificar claramente os nossos interesses externos e desafios imediatos. Se fizermos isso, veremos que o nosso maior desafio é simplesmente fazer direito a “lição de casa”. Isso vale para as reformas internas prometidas, e ainda não realizadas. Vale também para os problemas ambientais e fundiários do bioma Amazônia, que agora terão de ser resolvidos, para o bem ou para o mal.

* o autor é professor de agronegócio global do Insper.

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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Aristóteles e o leite de vaca


Xico Graziano *
Que qui é isso? Querem proibir a mamadeira?
Será verdade que o leite de vaca é um alimento nocivo, conforme apregoado por alguns médicos na internet? Ou será mais um mito construído contra o agro? A resposta vem de Aristóteles, o grande filósofo grego.


A lógica aristotélica ajuda o raciocínio humano a se aproximar da verdade, quer dizer, aos fatos. Divergindo do idealista Platão, seu mestre, Aristóteles valorizava o conhecimento prático, empírico, na busca do entendimento do mundo.

Voltemos ao leite. Se fosse verdade que o leite de vaca é um alimento prejudicial à saúde das pessoas, ele não faria parte da nutrição humana durante milênios. Se o leite causasse mal, seus derivados como queijo, manteiga e coalhada não comporiam a culinária de povos variados espalhados pelo mundo.

Simples assim. Não tem lógica condenar o leite de vaca como alimento humano. Nem é lógico nem se embasa no conhecimento empírico, ou seja, na realidade. Trata-se, portanto, de uma cilada do raciocínio. Basta percorrer a civilização ocidental. Se o leite fosse do mal, os europeus estariam todos doentes. Há séculos.

A base da falácia contra o leite reside no fato, este sim concreto, de que parte da população humana apresenta intolerância à lactose ou, ainda, reação alérgica às proteínas lácteas. Entenda a diferença entre os dois problemas de saúde.

A lactose é um tipo de açúcar próprio do leite. Ao ser ingerida pelo ser humano, precisa ser digerida pela ação de uma enzima chamada lactase. Ocorre que muitas pessoas apresentam deficiência de produção de lactase no organismo, o que resulta em má digestibilidade – intolerância – do leite.

A alergia, por sua vez, se caracteriza por reações às proteínas presentes no leite, como a caseína, a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina. Por isso ela é conhecida como "alergia à proteína ao leite de vaca" (APLV), provocando cólicas, gases, refluxo, entre outros sintomas.

Estima-se que a alergia à proteína do leite bovino (APLV) afete 2,2% das crianças brasileiras nos primeiros anos de vida. Para superar o problema, normalmente as crianças alérgicas ao leite de vaca se nutrem com leite de cabra. Com relação à intolerância, hoje em dia a indústria de alimentos incluiu a lactase ao leite normal, de forma que o consumidor, ao beber, não sofrerá de gases, dores de barriga, mal-estar.

Resumindo: o fato de algumas pessoas serem alérgicas, ou intolerantes, aos produtos lácteos levou ao surgimento de mitos, explorados por médicos, charlatões e incautos. Uns defendem seus interesses particulares. Outros exibem ignorância.

Não é raro na alimentação ocorrer tais deformações do conhecimento. Lembrem-se que o temor do colesterol permitiu que a gema do ovo fosse condenada ao extremo pelo risco de enfarte cardíaco. Um mito já desmentido pelo conhecimento científico recente na medicina.

Da mesma forma, a mesma sina levou ao banimento, no passado, da banha de porco na cozinha. Para alegria do óleo advindo de cereais (milho) e grãos (soja). Ou, ainda, das restrições ao uso da manteiga no pão. Para gosto da margarina. O marketing empresarial se mistura aos mitos.

Para completar as afrontas lógicas à história da alimentação, alguns bobocas disfarçados de ecologistas passaram a atacar o consumo humano de leite de vaca em nome do "direito do bezerro". O argumento é patético. Segundo os defensores do bezerro, os seres humanos não têm o direito de "roubar" a bebida deles.

Nesse caso, nem Aristóteles resolve. As vacas leiteiras, selecionadas milenarmente na Europa, ou na Índia, e depois aprimoradas pela genética moderna, produzem em média, por baixo, 25 litros de leite por dia. Seus filhos, os dignos bezerrinhos, sinceramente, não conseguem se empanturrar com tanto leite. Se o fizessem, morreriam de diarreia.

Chega a ser engraçado. Mas o assunto é sério. O Brasil consome uma média de 170 litros equivalentes (equivalentes em litros devido ao consumo de queijos e outros derivados lácteos) de leite por habitante/ano. Está acima da média mundial, de 116,5 litros eq hab/ano, mas abaixo dos países desenvolvidos, que consomem de 250 a 300 litros eq hab/ano.

Em nome da nutrição do povo e da saúde coletiva deveríamos estar, todos, lutando para elevar o consumo de leite e seus derivados entre a população brasileira. Mas perdemos tempo discutindo mentiras que, de forma consciente ou não, associam-se a razões comerciais. Ou, como no caso dos veganos, à causas idealísticas.

Siga Aristóteles. E tome leite à vontade.


* o autor é engenheiro agrônomo, doutor em Administração, professor de MBA na FGV e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)



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segunda-feira, 27 de maio de 2019

Eduardo Macedo Linhares, um mito da pecuária

Richard Jakubaszko  
Tive a honra e a alegria de entrevistar o Dr. Eduardo Macedo Linhares para o Portal DBO. Da conversa ficou estampada a competência do pecuarista, formado em odontologia, que, junto ao irmão Azhauri e o primo João Vieira de Macedo Neto (Macedinho) impulsionaram a Cabanha Azul. e desde os anos 1990 a TAG, no sentido de modernizar e aprimorar a genética na pecuária nacional, ajudando o Brasil a se tornar o maior exportador de carne bovina do planeta, algo impensável no século XX e mesmo no início deste século e milênio.


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terça-feira, 9 de abril de 2019

Mau tempo se aproxima para o agronegócio no Brasil

Richard Jakubaszko 

O aumento projetado de impostos pode sufocar a produção de grãos e carnes, e inviabilizar exportações brasileiras.  

Alguns estados brasileiros estão com gigantescas quedas de arrecadação, outros se declararam em situação de falência, como Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Para não paralisar os governos, inclusive pagamento de salários do funcionalismo estadual, projetam criar novos impostos ou aumentar alíquotas dos existentes, e até mesmo desativar algumas isenções concedidas no passado.

Há dois caminhos para revitalizar o aumento das arrecadações estaduais, incluindo especialmente o agronegócio. Na primeira hipótese, cancela-se a norma do Convênio 100/97 do Confaz – Conselho de Secretários Estaduais da Fazenda, que reduziu ou zerou a incidência de ICMS sobre fertilizantes, agroquímicos e máquinas agrícolas, por decisão consensual desde 1997, e que é renovada a cada 4 anos. Com isto, certeza de aumentos nos custos de produção para a lavoura e criação, de uma tacada só, algo na ordem de 20%, em média, isto porque a indústria repassará esses impostos aos produtores rurais.¹

Da mesma forma, haveria incidência de ICMS sobre venda de produtos agrícolas, como grãos e carnes, com destino a outros Estados. Um agricultor, ou criador, que planta ou cria num estado não vai “exportar” para o estado vizinho, mesmo que sua cidade esteja na divisa estadual, porque o comprador vai reduzir o ICMS do preço de venda.

A projeção de aumentos de arrecadação e de alíquotas varia de Estado para Estado, mas todas as análises de planilhas preveem um significativo aumento de arrecadação, o que depende do nível de atividades rurais exercidas em cada região.

Lei Kandir
Num segundo momento, as bancadas de deputados federais e senadores no Congresso Federal discutem ainda um projeto de lei para revogar a Lei Kandir. Criada em 1996, essa lei desonera as exportações de produtos primários e semi elaborados da incidência de ICMS. Mas há uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional nº 37 – que é de 2007) em tramitação no Senado. A PEC revoga a não incidência de ICMS na exportação de produtos não industrializados e semi elaborados. Autor: senador Flexa Ribeiro (PSDB/PA) Data: 02/05/2007.

O fim dos benefícios da Lei Kandir aos exportadores e a possibilidade de não renovação do Convênio 100/1997, que isentam de ICMS as exportações e o comércio de insumos agrícolas entre estados, podem provocar prejuízos de cerca de R$ 80 bilhões ao setor agropecuário nacional. O alerta foi feito em março último pela Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil) durante a primeira reunião do ano da Câmara Setorial da Soja, órgão consultivo ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Como todo mundo está “preocupado” com as tuitadas diárias dos políticos, os esquemas de aprovação dessas novidades do ICMS são debatidos na calada das noites e vão aparecer a qualquer momento.

Com o fim da lei Kandir, o agro brasileiro vai pro brejo

Revogando a Lei Kandir, para permitir aos estados brasileiros cobrarem ICMS para aumentar a arrecadação, a atitude dos governos estaduais mostra-se como um tiro no pé. Mesmo que isso possa vir a destruir o agronegócio, que é o principal responsável (48%) por nossa pauta de exportações, e responsável também pelo superávit da balança comercial, isso aparentemente não tem importância.

A anulação da Lei Kandir provocará um grande retrocesso no país, é a maior ameaça ao agronegócio brasileiro, se for aprovada pelo Congresso Nacional. Com a sua aprovação, o ICMS voltará a incidir sobre as vendas ao exterior de produtos como petróleo, minério de ferro, grãos, como soja e café, e ainda fumo, frutas, carnes bovina, avícola e suína in natura, entre outros produtos, tornando-os menos competitivos no mercado internacional. Por tabela, a revogação da Lei Kandir vai desestimular o plantio de soja e café. Segundo cálculos primários de especialistas, a queda na área de plantio de soja pode ser superior a 30% em termos de área, porque é esse o percentual da produção que destinamos às exportações, em soja por exemplo.

A proposta agora vai para votação no plenário do Senado. Como é uma emenda constitucional, o Executivo não tem poder de veto ou mesmo de sancionar o texto aprovado pelo Congresso Nacional, que entra em vigor imediatamente.

A Lei Kandir, em vigor desde 1996, corrigiu um antigo e enorme desequilíbrio no Brasil. Pela simples razão de que governos estaduais taxavam as exportações, e assim o Brasil tinha mais uma jabuticaba, a exportação de impostos, pois nenhum país do planeta exporta impostos. O que se busca com exportações são duas coisas: geração de empregos internos qualificados e a internalização de moeda forte.

Quando se instituiu a Lei Kandir o saldo da balança comercial do agronegócio estava em US$ 12,2 bilhões anuais. A partir daí as exportações tiveram um salto enorme. Em 2016, por exemplo, nosso saldo foi positivo de US$ 71 bilhões. Se for revogada a Lei Kandir teremos mais desemprego, além da queda nas exportações, e as consequências serão o aprofundamento de uma nefasta recessão como a que enfrentamos no país, que provoca enorme desemprego.

Nessa hora os estados não pensam na internalização de divisas, ou que as exportações ajudam a segurar a inflação. E o nosso PIB vai acusar isso, negativamente.

A PEC 37 retira a competitividade brasileira no mercado internacional, e colocará o Brasil como um esmoleiro no mercado. É elementar prever a queda na produção de grãos como soja e café, que somente poderá atender ao mercado nacional. Ao mesmo tempo, a aprovação da PEC 37/2007 não aumentará a arrecadação dos governos estaduais, nem mesmo se considerarmos a incidência do ICMS sobre os minérios, setor em que Brasil tem sérios problemas de competitividade, mesmo inexistindo hoje a incidência de impostos sobre exportação. Ou seja, a PEC 37 vai piorar o que está ruim.

A tentativa de ressuscitar a PEC 37/2007, apoiada por governos estaduais, é uma ação desesperada dos governadores para aumentar a arrecadação e coloca o Brasil na marca do pênalti. Como toda atitude impensada, estabelece-se uma gambiarra na economia e que, por ser uma emenda constitucional, é de difícil alteração no futuro. Não dá para entender a ganância de alguns governadores, pois a Lei Kandir, em contraponto à PEC 37, obriga o governo federal a estabelecer uma compensação aos Estados, através de repasses que cobrem parte da não arrecadação do antigo ICMS que ficou faltando a partir de 2006.

Lamentavelmente, os brasileiros, empresários especialmente, estão sempre a reboque dos políticos. Na sequência, vamos chorar o leite derramado. Na França, como exemplo civilizado de país moderno, quem já andou por lá a turismo sabe que de toda compra feita (exceto perfumes, vinhos, cosméticos, e serviços como hotéis e restaurantes) é só guardar a nota fiscal e apresentá-la no aeroporto na hora do embarque, para receber em devolução o IVA (Imposto de Valor Agregado, equivalente ao nosso ICMS), na hora, em moeda forte, de 12% do que se pagou. Porque os franceses consideram essas compras uma exportação de produtos, e, como tal, devem ser isentas, porque o objetivo é gerar empregos internamente. Mas essa política é seguida também por outros países da comunidade europeia, especialmente a Alemanha.

No Brasil, somos a casa da mãe Joana, o país das jabuticabas, onde o rabo abana o cachorro, os políticos praticam impunemente as besteiras que querem, e ainda são reeleitos.

Resta saber como se comportará a Frente Parlamentar da Agropecuária, vai aprovar essa PEC? Revogar a Lei Kandir, é um crime de lesa-pátria, se se for considerar a atual situação econômica e política do Brasil. Fiquemos atentos, a PEC 37/2007 encontra-se ainda tramitando no Senado, podemos pressionar os senadores, quem se habilita?

Conversando com alguns políticos a respeito do imbróglio da PEC 37, ouvimos argumentos erráticos e equivocados, ou um viés urbano de situação, no sentido de que a PEC 37 poderia estimular a saída definitiva do Brasil da situação de país agrário, que só exporta commodities, para eles, políticos, um tipo de produto sem valor agregado e que gera pouca renda. Alegamos que um grão de soja ou café tem muita tecnologia embutida para a sua produção, tanto quanto um avião. E gera mais emprego e renda do que fabricar avião, seja nas fazendas, seja nas cooperativas, seja até mesmo nas empresas fornecedoras de insumos, nas tradings, bancos, e ainda sobre receita de exportação, para compra de automóveis e todos os outros itens de consumo, como geladeiras, TVs ou celulares adquiridos pelos produtores rurais e demais membros da cadeia do agronegócio.

Se o Brasil deseja agregar valor, não é esse o caminho de renovar um velho imposto, pelo contrário, a PEC trava e engessa qualquer outra política pública de agregar valor ou de facilitar exportação, pois quem paga o imposto é o produtor rural, não o importador. Com esse imposto, diante da baixa rentabilidade dos produtores rurais, e dos riscos inerentes ao agro, como fatores climáticos, pragas e doenças, a PEC desestimula até mesmo o plantio, vai gerar o caos, e nos levar para o brejo.

Afora isso, só nos restam as orações dirigidas ao divino para impedir que os chineses e o mundo árabe não sucumbam às tentações de retaliar o Brasil e reduzir importações de grãos e carnes, pois as habilidades nas relações exteriores não são o forte do Brasil nesse momento, fato que nos faz antever nuvens muito escuras no horizonte próximo, prenunciando tempestades que podem ser evitadas se houver pelo menos bom senso.

1 – Hoje, exatamente 5/4/19, ao publicarmos este artigo no www.portaldbo.com.br - o Confaz deliberou prorrogar as isenções constantes no Convênio 100/97, entretanto, a prorrogação foi por 12 meses, até 30/4/20, quando então voltarão a discutir o assunto.
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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Vai faltar comida pra muita gente?

Richard Jakubaszko
O questionamento do título é uma preocupação de governos e planejadores no mundo inteiro. Dai o fato de se falar tanto em segurança alimentar, pois o planeta anda com 7,5 bilhões de bocas para serem alimentadas, das quais quase 1 bilhão anda passando fome, em destaque alguns países africanos e mesmo asiáticos ou na América Latina.

Existem poucas áreas no mundo para se expandir as terras de plantio, apenas o Brasil ainda possui terras disponíveis, além de sol e água, três coisas essenciais para se fazer agricultura. Apesar do Código Florestal, poderemos crescer até 30% da área hoje destinada aos plantios, especialmente em terras degradadas de pastagens, e também nas áreas do cerrado e do Nordeste. No resto do mundo, Europa, EUA e Ásia, as áreas de expansão possíveis são inferiores a 20% do que já se usa hoje em dia. Na África falta água, apesar de sol em abundância, e o mesmo ocorre na Austrália, com enorme área desértica. Nos polos é impossível de se fazer agricultura. Seria desejável que estivesse acontecendo o aquecimento global, pois debaixo do gelo do Alaska, Sibéria, Groelândia e imensas áreas no norte da China, haveria terras para se fazer agricultura.


Apesar de tudo, alguns urbanos brasileiros insistem em massacrar os produtores rurais brasileiros, acusando-os de criminosos ambientais, por usarem agroquímicos e pelo desmatamento.

Recebi do engenheiro agrônomo Odo Primavesi, lá de São Carlos (SP), uma definição antológica que ele encontrou em uma publicação técnica sobre a produção de alimentos, e que reproduzo abaixo:

Existem riquezas suficientes na Terra para atender as necessidades básicas das pessoas, mas não para atender a cobiça humana.

Uma pessoa pode precisar de um médico, advogado, arquiteto, e outros profissionais algumas vezes em sua vida, porém necessita de um agricultor/produtor rural pelo menos três vezes ao dia.
Better Crops with plant food, v.99, n.3, p.24, 2015

No texto original, em inglês: “A person may need a doctor, lawyer, architect, and so many other professionals a few times in one´s life, but needs a farmer at least three times a day.”


Antológico, né não?
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segunda-feira, 14 de maio de 2018

O pó da terra, na Agro DBO

Richard Jakubaszko 
Circulando a edição nº 99 de maio/2018 da Agro DBO, com matéria de capa do jornalista Ariosto Mesquita sobre o uso de pó de rochas para remineralizar os solos das lavouras.

A entrevista do mês, com o economista Daniel Latorraca, superintendente do Imea - Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária, traz uma análise sobre uma nova e promissora ideia nascida por lá, sobre o Fazendas Alfa, um projeto que reúne 53 produtores visionários e futuristas com vocação para assumir riscos na aplicação de novas tecnologias para que se possa obter um avanço de produção através da melhoria da produtividade nas lavouras.

A todas essas, começamos a preparar a edição nº 100, que sairá com data de capa de junho/2018, com artigos supimpas, resumindo a grandiosidade do crescimento do agronegócio nos últimos 15 anos, e projetando o futuro brasileiro nesse segmento de produzir alimentos para o Brasil e o mundo.

No vídeo abaixo há mais informações sobre os conteúdos da edição nº 99:
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