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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Aristóteles e o leite de vaca


Xico Graziano *
Que qui é isso? Querem proibir a mamadeira?
Será verdade que o leite de vaca é um alimento nocivo, conforme apregoado por alguns médicos na internet? Ou será mais um mito construído contra o agro? A resposta vem de Aristóteles, o grande filósofo grego.


A lógica aristotélica ajuda o raciocínio humano a se aproximar da verdade, quer dizer, aos fatos. Divergindo do idealista Platão, seu mestre, Aristóteles valorizava o conhecimento prático, empírico, na busca do entendimento do mundo.

Voltemos ao leite. Se fosse verdade que o leite de vaca é um alimento prejudicial à saúde das pessoas, ele não faria parte da nutrição humana durante milênios. Se o leite causasse mal, seus derivados como queijo, manteiga e coalhada não comporiam a culinária de povos variados espalhados pelo mundo.

Simples assim. Não tem lógica condenar o leite de vaca como alimento humano. Nem é lógico nem se embasa no conhecimento empírico, ou seja, na realidade. Trata-se, portanto, de uma cilada do raciocínio. Basta percorrer a civilização ocidental. Se o leite fosse do mal, os europeus estariam todos doentes. Há séculos.

A base da falácia contra o leite reside no fato, este sim concreto, de que parte da população humana apresenta intolerância à lactose ou, ainda, reação alérgica às proteínas lácteas. Entenda a diferença entre os dois problemas de saúde.

A lactose é um tipo de açúcar próprio do leite. Ao ser ingerida pelo ser humano, precisa ser digerida pela ação de uma enzima chamada lactase. Ocorre que muitas pessoas apresentam deficiência de produção de lactase no organismo, o que resulta em má digestibilidade – intolerância – do leite.

A alergia, por sua vez, se caracteriza por reações às proteínas presentes no leite, como a caseína, a alfa-lactoalbumina e a beta-lactoglobulina. Por isso ela é conhecida como "alergia à proteína ao leite de vaca" (APLV), provocando cólicas, gases, refluxo, entre outros sintomas.

Estima-se que a alergia à proteína do leite bovino (APLV) afete 2,2% das crianças brasileiras nos primeiros anos de vida. Para superar o problema, normalmente as crianças alérgicas ao leite de vaca se nutrem com leite de cabra. Com relação à intolerância, hoje em dia a indústria de alimentos incluiu a lactase ao leite normal, de forma que o consumidor, ao beber, não sofrerá de gases, dores de barriga, mal-estar.

Resumindo: o fato de algumas pessoas serem alérgicas, ou intolerantes, aos produtos lácteos levou ao surgimento de mitos, explorados por médicos, charlatões e incautos. Uns defendem seus interesses particulares. Outros exibem ignorância.

Não é raro na alimentação ocorrer tais deformações do conhecimento. Lembrem-se que o temor do colesterol permitiu que a gema do ovo fosse condenada ao extremo pelo risco de enfarte cardíaco. Um mito já desmentido pelo conhecimento científico recente na medicina.

Da mesma forma, a mesma sina levou ao banimento, no passado, da banha de porco na cozinha. Para alegria do óleo advindo de cereais (milho) e grãos (soja). Ou, ainda, das restrições ao uso da manteiga no pão. Para gosto da margarina. O marketing empresarial se mistura aos mitos.

Para completar as afrontas lógicas à história da alimentação, alguns bobocas disfarçados de ecologistas passaram a atacar o consumo humano de leite de vaca em nome do "direito do bezerro". O argumento é patético. Segundo os defensores do bezerro, os seres humanos não têm o direito de "roubar" a bebida deles.

Nesse caso, nem Aristóteles resolve. As vacas leiteiras, selecionadas milenarmente na Europa, ou na Índia, e depois aprimoradas pela genética moderna, produzem em média, por baixo, 25 litros de leite por dia. Seus filhos, os dignos bezerrinhos, sinceramente, não conseguem se empanturrar com tanto leite. Se o fizessem, morreriam de diarreia.

Chega a ser engraçado. Mas o assunto é sério. O Brasil consome uma média de 170 litros equivalentes (equivalentes em litros devido ao consumo de queijos e outros derivados lácteos) de leite por habitante/ano. Está acima da média mundial, de 116,5 litros eq hab/ano, mas abaixo dos países desenvolvidos, que consomem de 250 a 300 litros eq hab/ano.

Em nome da nutrição do povo e da saúde coletiva deveríamos estar, todos, lutando para elevar o consumo de leite e seus derivados entre a população brasileira. Mas perdemos tempo discutindo mentiras que, de forma consciente ou não, associam-se a razões comerciais. Ou, como no caso dos veganos, à causas idealísticas.

Siga Aristóteles. E tome leite à vontade.


* o autor é engenheiro agrônomo, doutor em Administração, professor de MBA na FGV e membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)



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sábado, 19 de abril de 2014

Filho de Lula ri de histórias sobre fazendas e Friboi


por Gilberto Nascimento

Fábio Luís, acusado de ser dono de grandes áreas de terra e supostas mansões e aviões, quer punição aos boateiros.
Uma das áreas mostradas em foto
na internet é, na verdade, a 
Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz
(Esalq), de Piracicaba-SP.
Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do ex-presidente Lula, foi alvo de piadas e brincadeiras de blogueiros presentes à entrevista com o seu pai na terça-feira, 15 de abril, em São Paulo. Ele foi questionado por não estar, naquele momento, cuidando de suas fazendas ou administrando os negócios da Friboi. Lulinha riu. O filho do ex-presidente é alvo de boatos na internet de que seria dono de grandes áreas de terra e supostas mansões e aviões, além de empresas. Uma das áreas mostradas é, na verdade, o prédio da sede da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), de Piracicaba-SP.

Agora, ele até trata a questão com bom humor. Mas Lulinha, que acompanhou a entrevista com o pai no Instituto Lula, pediu a abertura de um inquérito no 78º. DP, na capital paulista, para a identificação dos responsáveis por esses comentários.

Seis internautas já foram chamados a depor. Apenas um, Daniel Graziano, ainda não compareceu. Daniel é gerente administrativo e financeiro do Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), ligado ao ex-presidente tucano. É filho de Xico Graziano, coordenador da área de internet do pré-candidato do PSDB à presidência, Aécio Neves. Procurado no iFHC, ele não retornou. Os outros intimados - Roger Lapan, Adrito Dutra Maciel, Silvio Neves, Paulo Cesar Andrade Prado e Sueli Vicente Ortega - disseram acreditar que os comentários sobre compra de fazendas e aviões fossem verdadeiros e não teriam “pensado na hora de fazer as postagens”. O advogado de Lulinha, Cristiano Zanin Martins, diz aguardar o resultado das investigações para definir se entrará ou não com processo contra as pessoas que “macularam a imagem” de seu cliente.

Filho pop
Lulinha mora no Paraíso, na capital paulista, numa área de classe média. No seu prédio, nenhum morador conversa com ele. Por outro lado, diz ser abordado o tempo todo pelos porteiros, faxineiros, garçons e frentistas que querem bater papo e perguntar sobre seu pai.

COMENTÁRIOS DO BLOGUEIRO:
Não sei quais as verdades nessa história toda.
Nos últimos meses recebi dezenas desses e-mails com o prédio da Esalq estampado e afirmando ser a sede da milionária fazenda do Lulinha. Esses e-mails vieram de amigos e conhecidos.
Isso é um fato. Respondi aos primeiros que chegaram, apontando a mentira, mas nenhum, que me lembre, reconheceu o erro de estar "repercutindo" mensagens mentirosas. Faz parte da cultura brasileira...

Se houve, de outro lado, denúncia do Lulinha e seu advogado, em queixa-crime na 78ª Delegacia de Polícia, e se são os nomes citados acima os apontados como suspeitos e responsáveis pela mentira espalhada na blogosfera é outra história. Se há um inquérito rolando também é outra coisa, não conferi, apenas registro a mentira da Esalq, essa eu sei que é mentira.
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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Farofa de besouro

Xico Graziano
Causou impacto, recentemente, a invenção do hambúrguer de laboratório. Pudera! Ninguém imaginava que as pesquisas com células-tronco, reconhecidas na saúde humana, pudessem produzir algo parecido com uma fábrica de carne. Assunto empolgante.

Existe forte movimento científico, puxado por pesquisadores heterodoxos, tentando descobrir novas fontes de proteína, necessárias para vencer o desafio alimentar da humanidade. Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO/ONU), a demanda por comida de boa qualidade aumentará, no mínimo, 60% até 2050. Crescimento populacional, urbanização, aumento de renda e elevação da expectativa de vida das pessoas são os fatores principais desse movimento.

A previsão negativa de Malthus, feita em 1798, ficou famosa na História da humanidade. Mas não vingou. A agricultura conseguiu vencer o dilema entre o crescimento populacional e a oferta de alimentos, seja expandindo as terras cultivadas, seja, simultaneamente, elevando sua produtividade por área por meio da incorporação de tecnologia. A fome que, desgraçadamente, ainda persiste alhures se deve à má distribuição da renda entre as famílias, não à incapacidade de produção rural. Problema econômico, não agronômico.

Porém, mesmo passando por sucessivas “revoluções verdes”, parecem agora surgir dificuldades adicionais para a agropecuária prosseguir em sua saga vitoriosa. Primeiro, porque os reclamos ambientais da modernidade limitam a incorporação de novas terras, ainda florestadas, à produção, conforme se percebe claramente no Brasil. A opinião pública, ao contrário do passado, não quer o desmatamento. Antes inexistiam limites à força expansiva no campo e, assim, todas as terras cultiváveis da Europa, do Oriente Médio, dos Estados Unidos, do Japão, da China e da Índia acabaram cedendo sua natural biodiversidade ao plantio e à criação. Floresceram as cidades.

Comparadas ao Velho Mundo, na América Latina a urbanização e a expansão da agropecuária se deu tardiamente. De forma semelhante, em muitos países asiáticos, como a Malásia e a Indonésia, e na maioria da África a ocupação produtiva do território somente agora é que ocorre para valer. Existe ainda, nesses países, disponibilidade de terras aráveis. Mas a grita da sociedade em favor da preservação ambiental restringe a sua ocupação. O machado, ou a motosserra, perderam totalmente o prestígio.

Em segundo lugar, em vastas localidades surgem restrições à continuidade da boa prática agrícola. O risco aterrador da desertificação pode atingir, ao final deste século, 40% da superfície terrestre. Na África, a degradação nos países subsaarianos periga afetar até 50% do território. Na Ásia e na América Latina, estimam-se 357 milhões de hectares prejudicados. Segundo a teoria do aquecimento global, cerca de metade das terras produtivas sofrerá com graves secas. O equilíbrio hídrico compromete-se pelo rebaixamento do lençol freático ao norte da China, onde residem 550 milhões de pessoas. Na Austrália é a salinização dos solos o grande vilão. Só notícia ruim.

Existem outros fatores. Economistas agrários mostram que os chamados “ganhos marginais” do avanço tecnológico são decrescentes, quer dizer, será cada vez mais difícil incrementar a produtividade da terra. Argumenta-se também, com certa razão, que o confinamento de animais está elevando o uso de rações balanceadas, fabricadas à custa da produção de grãos, especialmente soja, milho e sorgo. Se, por hipótese, fosse eliminado o consumo de carne, como apregoam os vegetarianos, sobrariam mais cereais no mundo, embora isso alterasse a qualidade na dieta humana. Por fim, muito alimento está sendo direcionado para o consumo dos bichos de estimação, cães e gatos, cuja população só aumenta.

Por essas e outras, um novo paradigma alimentar se gesta nos ousados laboratórios. Não apenas se sintetiza carne, como também se buscam fontes de proteína não convencionais. Nessa equação futurista, os insetos colocam-se na dianteira. Gafanhotos, besouros, baratas, grilos, formigas apresentam, em média, cerca de 50% de proteína em seus organismos, o dobro da encontrada nas carnes de mamíferos e aves, cinco vezes mais que em cereais ou batata. Ademais, seus esqueletos pectíneos se mostram ricos em ferro e vitaminas. Com elevada capacidade de reprodução, prevê-se facilidade na criação de insetos, possibilitando ter volume e rendimento na produção. Vem aí a insetocultura.

A entomofagia, quer dizer, a prática de ingerir insetos, sugere asco. Mas para muitas populações tradicionais eles são iguaria. No Vale do Paraíba paulista, abdomes da formiga saúva, conhecidos como bunda de içá, comem-se na frigideira há tempos. No Maranhão, larvas de besouro (boró ou gongo) encontradas no coco do babaçu são consumidas desde as origens indígenas. Noutras regiões do mundo, insetos também fazem parte do costume alimentar. No Japão fazem-se pratos com as cantantes cigarras, abatidas antes que sua casca endureça. Na Indonésia apreciam-se as libélulas. No México, ovos de formigas negras gigantes denominam-se “caviar dos insetos”. Os vietnamitas e os chineses gostam de escorpiões. Grande é a lista de esquisitices entomofágicas.

Tudo depende do costume alimentar, que muda com o tempo. Hoje em dia se ingerem petiscos indecifráveis como nuggets, kani, snacks, sem que as pessoas tenham ideia do seu conteúdo, cor e sabor artificiais. Precisando, acostumar-se-iam com uma farofa de besouro, bem temperada. Tem mais. Algas, micro-organismos, vermes, cascas, componentes ricos em proteínas, calorias e vitaminas, entraram na agenda da comida do futuro. Na mira do gourmet.
* O autor é agrônomo, foi secretário de Agricultura e secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xicograziano@terra.com.br 

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quarta-feira, 6 de junho de 2012

Debate de agrônomos, sobre o Código Florestal.

Richard Jakubaszko
Destaco abaixo o texto completo do artigo do agrônomo Xico Graziano, que se diz um ambientalista (publicado no Estadão, 29/5), e logo a seguir a réplica do também agrônomo Fernando Penteado Cardoso, ambos esalqueanos, mas com uma visão sutilmente diferenciada da história e de outros quesitos ambientais. Vale a pena comparar as opiniões, eis que se transformam num debate interessante.

Código Florestal, o Retorno
Por Xico Graziano *
Entre tantas dúvidas sobre o Código Florestal, uma certeza o agricultor José Batistela carrega: ele não precisa, nem quer, ser anistiado. Ninguém jamais o convencerá de que incorreu em crime ambiental ao abrir as fronteiras agrícolas do Brasil. Julga tal suposição uma afronta ao seu caráter.
Descendente de italianos, cheio de bisnetos, seu José anda meio depressivo pelo que escutou no rádio e na televisão. Sente-se desprestigiado na sociedade urbanizada que ajudou a erigir e agora lhe vira as costas, não lhe reconhecendo nas mãos os calos ganhos no árduo trabalho da roça. Esquecem-se os citadinos de sua saga familiar, há mais de século iniciada com a abertura daquelas terras roxas na região de Araras, destinadas a plantar os cafezais que forjaram a pujança paulista. O machado, sim, e a maleita, também, fazem parte de sua história. Renegada no presente.

A mistura entre desmatadores e pioneiros representou a pior desgraça gerada nessa infeliz polêmica sobre a legislação ambiental do campo. Uns, condenáveis, outros, elogiáveis, ambos se misturaram no discurso exagerado, enganoso mesmo, brandido pelos radicais do ambientalismo. Em nome de nobre causa - a defesa ecológica -, cometeram uma tremenda injustiça com os nossos antepassados, equiparando-os aos criminosos da floresta. Cuspiram em suas origens.

Semelhantes a qualquer outro povo espalhado no planeta, os pioneiros da Nação brasileira, certamente, suprimiram muitas florestas virgens. Começaram pela Zona da Mata nordestina, onde o latifúndio açucareiro se instalou ocupando a faixa úmida e ondulada que acompanha a costa atlântica. Depois, durante a corrida para a mineração, chegou a vez de o montanhoso solo mineiro ser desbravado. O mesmo ciclo de progresso estimulou a exploração pecuária nos pampas gaúchos. Pedaços da vida selvagem cediam espaço para a civilização humana crescer.

Mais tarde, a frente de expansão adentrou a Mata Atlântica do Sudeste, buscando a excelente fertilidade das terras roxas. São Paulo, por intermédio dos bandeirantes e, depois, dos imigrantes, assumia a dianteira econômica, e política, do País antes mesmo do fim da escravatura. Nessa época, o navio trazendo o pai de José Batistela aportava no Porto de Santos. O que o movia era o sonho da prosperidade no além-mar.

O tempo passou. Somente quando a agronomia realizou uma de suas maiores façanhas tecnológicas - a conquista do Cerrado no Centro-Oeste - a última fronteira se efetivou. Há 40 anos se iniciava a interiorização do desenvolvimento nacional, processo que ainda receberá da historiografia o devido reconhecimento na consolidação do País. Confundir essa ocupação histórica do território com o dano ecológico causado pelos devastadores do presente significa tola, ou mal-intencionada, visão.

Nossos avós, definitivamente, não são criminosos ambientais, tampouco criaram "passivos" a serem recuperados. Ao contrário, eles geraram ativos produtivos para a civilização. Como se teriam erguido, e abastecido, as cidades sem a lavra do solo virgem? Impossível. Derrubar árvores, drenar várzeas, combater peçonha foram exigências do progresso material da sociedade, aqui como alhures, turbinado pela explosão populacional.

Haverá, com certeza, um limite para a exploração planetária. O que permite tal hipótese é o avanço tecnológico. Quanto mais as modernas técnicas garantem, no campo, maior produtividade por área explorada, mais se facilita a preservação de espaços naturais. Boa comprovação disso se encontra na pecuária brasileira. O volume de carne produzido hoje no Brasil exigiria, se mantido o nível de tecnologia de 30 anos atrás, um assustador acréscimo de 535 milhões de hectares nas pastagens. Economizou-se uma Amazônia.

No patamar de conhecimento atual, estima-se que as áreas já exploradas do território nacional seriam suficientes para atender à demanda de mercado por alimentos e matérias-primas. Ou seja, após séculos de expansão sobre os biomas naturais, vislumbra-se um ponto de equilíbrio entre derrubar e produzir. Mais que utopia, o desmatamento zero torna-se uma possibilidade real.

Seu José Batistela, agricultor da velha guarda, tem dificuldade para entender esse assunto da "pegada ecológica" da humanidade. Mas concorda com a punição dos picaretas que, na Amazônia ou onde mais, zunem a motosserra afrontando conscientemente a lei florestal. Sabe que os tempos mudaram.

Aqui está o xis da questão: como consolidar, e regularizar, as áreas produtivas da agropecuária nacional sem facilitar a vida para os bandidos da floresta. Infelizmente, no debate polarizado sobre o novo Código Florestal, tudo virou um só dilema: anistiar, ou não, os desmatadores, colocando todos no mesmo saco. Desserviço à inteligência.

Chegou a hora de passar a limpo essa encrenca entre ruralistas e ambientalistas. Má interpretação, exageros, preconceitos confundiram a opinião pública, até no exterior. Na Europa, especialmente, ecoterroristas venderam a ideia de que o Código Florestal acabaria com a Amazônia. Mentira deslavada. Abaixada a bola com a (correta) promulgação da Lei 12.651/2012, com vetos, seguida da imediata publicação da Medida Provisória 571, há que retomar a capacidade de interlocução.

Doravante valeria a pena ouvir a voz da sensatez. Recuperar a biodiversidade não se sobrepõe à proteção humana. Não faz nenhum sentido regredir, salvo o imprescindível nas matas ciliares, o território produtivo do País. Muito menos facilitar os desmatamentos.

Código Florestal, o Retorno. Assim se poderia chamar o filme. Só que, nesse novo enredo, José Batistela ocupará um papel honrado. Xico Graziano

* Ex-Secretário Estadual do Meio Ambiente de São Paulo, é engenheiro agrônomo, mestre em Economia Rural e doutor em Administração.


CONTRAPONTO
São Paulo, 4 de junho de 2012
Carta aberta
Nossos avós não são criminosos ambientais
Prezado colega  Xico Graziano:
Venho parabenizá-lo por sua crônica de 29 de Maio (OESP,A2) fazendo justiça aos pioneiros do século 19 e parte do século 20 que abriram o sertão para plantar café.

Nesta fase ingrata da mídia avassaladora, mistificando por vezes a opinião pública, principalmente dos urbanitas, é confortante, pela franqueza e realismo, ler no OESP (29/5,A2), um dos principais jornais do país:
“... cometeram uma tremenda injustiça com os nossos antepassados, equiparando-os aos criminosos da floresta. Nossos avós, definitivamente, não são criminosos ambientais, tampouco criaram “passivos’ a serem recuperados.  Ao contrário, eles geraram ativos produtivos para a civilização. Como se teriam erguido, e abastecido, as cidades sem a lavra do solo virgem? Impossível.  Derrubar árvores, drenar várzeas, combater peçonha foram exigências do progresso material”.

Mais adiante V. pode confundir seriamente os leitores ao fazer média com os ambientalistas caçadores de manchetes, repetindo seus chavões monótonos e cansativos ou perseguindo bruxas, ora interpretadas por “picaretas que zunem a motosserra, ...criminosos ambientais,... bandidos da floresta.”
A generalização cria um dilema par os leitores. Porque seriam hoje picaretas, criminosos e bandidos se não o eram antes? São pessoas que continuam assumindo riscos e desconforto, no afã de produzir carne vermelha, cereais e outros produtos agrícolas. Os picaretas perambulam pelas metrópoles, jamais labutam nas florestas.

Pena que o crédito aberto aos pioneiros do século 19 não tenha sido estendido a seus semelhantes do século 20, que nos anos 1970 a 1990 abriram mais de 20 milhões de ha de vegetação primária, com motosserra para plantar capim na mata pesada, com correntão  para semear cereais no cerrado mais leve.
Esses desbravadores, tanto quanto nossos avós, são os responsáveis pela extraordinária expansão da agropecuária de que tanto nos orgulhamos. São ainda os fundadores e autores de uma série de cidades com IDH médio de 0,80, de que nos blasonamos.

Nesses dois séculos nada teria sido feito sem as aberturas da vegetação nativa. A remoção do dossel arbóreo para possibilitar a incidência da luz solar sobre o solo é um procedimento sem alternativa no processo da fotossíntese inibido pela sombra.

Eles, os pioneiros desbravadores, removeram a sombra para produzir milhões de t de alimentos e para implantar cidades do mais alto nível. E essa produção serve para suprir as necessidades da população brasileira - crescentemente urbanizada (hoje são 85% do total) – e ainda gerar excedentes exportáveis que trazem bilhões de dólares para a nossa economia.

E não foram irresponsáveis, em relação ao interesse de seus sucessores, tornando desfavorável o ambiente da produção. O ambiente solo-água-ar se mantem em alto nível e plenamente sustentável graças às tecnologias praticadas. Muito pelo contrário, criaram em milhões de hectares uma fertilidade antes inexistente nas terras fracas de origem.

A abertura de muitos milhões de ha não comprometeu o clima local, que permanece adequado até nossos dias, nem a disponibilidade de água, ora disputada por uma população crescente. As regiões abertas no citado período abrigam hoje milhões de habitantes com elevado nível de vida.

Além do mais, o engenho humano tem possibilitado uma produção crescente de alimentos, de fibras e de bioenergia com mais eficiência do que antes por unidade de área utilizada e por unidade de trabalhador empregado.

Essas considerações nos deixam perplexos.  Muito mais perplexa fica a faixa da população menos doutorada, imersa nesse mar de contradições, de sofismas e de demagogia, ora exaltada pela mídia que nos envolve e nos avassala.
Cordial abraço esalqueano
Fernando Penteado Cardoso **

** Engenheiro Agrônomo Sênior, ESALQ, turma de 1936.
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