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segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Amazônia: estonteante dependência do Saara

Luis Dufaur *

Poeira fertilizante do Saara todo ano passa por cima do Atlântico e sustenta a vida na Amazônia e no Caribe

Amazônia é a maior floresta tropical úmida da Terra. E o Saara é o maior e mais quente deserto do mundo.

Na aparência, nada de mais diverso e sem relação um com outro. Uma imensa selva verde úmida no coração da América do Sul, e um infindável areal, composto de poeira e pedra, onde sopram ventos ardentes no norte da África.

Porém, se, por ventura, os dois estivessem vitalmente unidos? Se o mais pleno de vida dependesse do mais morto para sobreviver, quem ou o quê poderia ter criado essa inter-relação?

Por certo, uma interdependência tão profunda foge à imaginação do homem e a qualquer instrumentalização ou fabrico também humano.

Também fugiria às regras da teoria da evolução de Darwin, segundo o qual tudo o que há procede de uma realidade pré-existente, e essa de outra, por uma série intérmina e jamais demonstrada de mutações atribuíveis ao azar e à necessidade.

Há, porém, um fenômeno que envolve ventos e minérios sem vida e que sustenta a vida vegetal e animal na maior floresta tropical úmida do planeta.

Amazônia: estonteante dependência do Saara criada por Deus

Chegando no III milênio a ciência com seus mais avançados instrumentos pode documentar e mensurar esse fenômeno colossal.

Dito fenômeno une essas duas imensas realidades geográficas tão dissemelhantes passando por cima de um oceano.

Pela primeira vez um satélite da NASA mensurou em três dimensões a quantidade de poeira do Saara trazida pelos ventos por cima do Atlântico.

E calculou não só a poeira, mas também o fósforo que vem no meio dela: 22.000 toneladas de fertilizante puro, do qual a selva da Amazônia depende para existir.

A equipe comparou o conteúdo de fósforo da poeira do Saara na depressão de Bodélé com dados das estações científicas de Barbados, no Caribe, e de Miami, nos EUA.

Os resultados do estudo foram publicados na Geophysical Research Letters, revista da American Geophysical Union, segundo divulgou a NASA (vídeo embaixo).

O líder do trabalho foi Hongbin Yu, cientista da atmosfera da Universidade de Maryland que trabalha no Goddard Space Flight Center da NASA em Greenbelt, Maryland. Yu e sua equipe fizeram os cálculos com base em dados coletados pelo satélite Calipso, da NASA, entre 2007 e 2013.

Yu e sua equipe estudaram a poeira que provém especialmente da Depressão de Bodélé, no Chade. Trata-se de um antigo lago seco cujas rocas compostas por micro-organismos mortos estão carregadas de fósforo.

Esse é um nutriente essencial para o crescimento das plantas e a vegetação depende dele para florescer.

O estudo analisou especialmente a depressão de Bodélé de onde sai boa parte do fósforo fertilizador








Os nutrientes são escassos no solo amazônico e alguns deles, como o fósforo, são lavados pelas chuvas. Sem os fosfatos (sais do fósforo), a floresta da Amazônia estaria condenada à morte.

Porém, segundo Yu, o fósforo que chega do Saara, estimado em 22.000 toneladas por ano, equivale aproximadamente à mesma quantidade levada pelas chuvas e pelas enchentes.

Esse fósforo é apenas 0,08% das 27,7 milhões de toneladas de poeira do Saara depositadas anualmente na Amazônia.

No total, os ventos do deserto africano levantam cada ano 182 milhões de toneladas de poeira. O volume encheria o volume de carga de 689.290 caminhões. O pó viaja 2.800 quilômetros sobre o Atlântico até cair na superfície arrastado pela chuva.

Perde-se uma parte pelo caminho. Chegando à costa do Brasil, ficam ainda no ar 132 milhões de toneladas. Por fim, 27,7 milhões de toneladas – capazes de encher 104.908 caminhões – caem sobre a superfície da bacia Amazônica. Outros 43 milhões de toneladas seguem para o Caribe.

É o maior transporte de poeira do planeta. Há importantes variações segundo os anos, dependendo dos ventos e de outros fatores.

Desta maneira o deserto morto sustenta a vida na exuberante floresta amazônica tropical e úmida. Sem o Saara a mata da Amazônia não existiria.

Vídeo: Amazônia: estonteante dependência do Saara criada por Deus

Quem desejar assistir o vídeo no Youtube (áudio em inglês), clique neste link: https://www.youtube.com/watch?v=ygulQJoIe2Y

Quem teria imaginado algo tão extraordinário funcionando há milênios de anos como uma engrenagem supremamente sábia? 




Há certos fenômenos naturais que nos obrigam a reconhecer um Criador de uma sabedoria e de um poder infinitos.

Isso apesar de uma intensa propaganda que chega ao absurdo de dizer que o ecossistema do planeta depende decisivamente de nós.

Sem o homem saber, desde que o Saara e a Amazônia existem o pó fertilizante do deserto africano chega na dose certa, mas colossal, todo ano, por cima do Atlântico.

Quem tem a sabedoria para imaginar esse processo sustentador de uma floresta como a amazônica da qual depende a Terra toda, a outros títulos?

Quem tem o poder para criar e depois garantir esses processos em sua regularidade constante há milênios?

Sem dúvida a ciência presta um inestimável tributo com uma descoberta como esta que postula a existência de um Deus criador e sustentador do céu e da terra.

* Escritor, jornalista, conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs.

Publicado em https://ecologia-clima-aquecimento.blogspot.com/2024/10/amazonia-estonteante-dependencia-do.html



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quarta-feira, 5 de abril de 2023

Mídia engana: a Amazônia não está se desertificando

Luis Dufaur *

Há um bombardeio informativo com o objetivo mal velado de enfiar nos leitores a ideia de que uma não demonstrada “mudança climática” catastrófica atribuível à civilização e ao ser humano que entre outras desgraças incomensuráveis estaria secando a floresta amazônica.

Mais ainda, a estaria levando-a a um “ponto de inflexão”, após o qual se tornará irreversivelmente uma savana de pastagem, perdendo=se definitivamente suas riquezas naturais únicas.


Mas isso não está acontecendo, observa “Climate Realism”. 

Entre os mais recentes – na realidade esse pânico enganador é renovado dia após dia pela grande mídia – está um artigo do “The Guardian do Reino Unido.


A CNN Brasil ecoou o mesmo trabalho. E ainda poderíamos citar muitos outros exemplos arroupados em demonstrações científicas ou pretensas tais.

  
O artigo do “The Guardian”, intitulado “Amazônia perto do ponto crítico de mudança de floresta tropical para savana – estudo”, afirma:

Alertaram os pesquisadores que grande parte da Amazônia pode estar prestes a perder sua natureza distinta e mudar de uma floresta tropical fechada para uma savana aberta, com muito menos árvores como resultado da crise climática. Qualquer mudança de floresta tropical para savana ainda levaria décadas para ter efeito total, mas, uma vez em andamento, o processo é difícil de reverter, segundo os ambientalistas.


As florestas tropicais suportam uma variedade muito maior de espécies do que a savana e desempenham um papel muito maior na absorção de dióxido de carbono da atmosfera. Partes da Amazônia estão recebendo muito menos chuva do que antes por causa da mudança climática, afirmam ainda os pessimistas.


A precipitação em cerca de 40% da floresta está agora em um nível em que se poderia esperar que a floresta tropical existisse como savana, de acordo com o estudo, que foi liderado pelo Centro de Resiliência de Estocolmo, com base em modelos de computador e análise de dados.


O trabalho de “The Guardian” se remete a um dos tantos outros no mesmo sentido que afirmam que até 40% da floresta amazônica existente está agora em um ponto onde poderia existir como uma savana em vez de uma floresta tropical, de acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications.


Escolhemos, então, o artigo tendencioso do “The Guardian” como exemplo, pois foi analisado e criticado por James Taylor, presidente do Instituto Heartland,  especializado na refutação desses boatos ideológicos. Taylor também diretor do Arthur B. Robinson Center for Climate and Environmental Policy.

  
Taylor sublinha que, na realidade, dados objetivos mostram que as chuvas estão aumentando na floresta amazônica tornando ainda menos provável que ela se torne savana.

O especialista observa que o estudo da Nature Communications aplica previsões duvidosas de declínio das chuvas na Amazônia para poder dizer que essa se transformará em savana dentro de poucas décadas.

E desfaz a enganação: felizmente, os cientistas têm acesso a dados reais de precipitação que são mais confiáveis do que modelos especulativos usados pelos fautores de suposições duvidosas.

Os dados do mundo real mostram que a precipitação na Amazônia está aumentando, em vez de diminuir.

Em 2018, os cientistas publicaram um estudo no
Environmental Research Letters, revisado por pares, examinando as tendências das chuvas na Amazônia.

Olhando especificamente para as chuvas durante a estação chuvosa da região, os pesquisadores relataram que “a precipitação na Amazônia tropical aumentou significativamente em ~ 180 a 600 mm (em diferentes conjuntos de dados) na estação chuvosa durante a era dos satélites de 1979 a 2015”.

É importante ressaltar que os cientistas determinaram que o aquecimento das temperaturas provocou mais chuvas.

“Os resultados mostram que o aquecimento multidecenal do Atlântico tropical contribuiu com mais da metade dessa mudança da precipitação nas últimas três décadas”, conclui o estudo do Environmental Research Letters

Os dados claros e objetivos, no entanto, mostram que o aquecimento climático estimula as chuvas na floresta amazônica contrariando uma eventual tendência para a seca, conclui o presidente do Instituto Heartland.


Publicado no https://ecologia-clima-aquecimento.blogspot.com/2023/04/midia-engana-amazonia-nao-esta-se.html

* o autor é escritor, jornalista, conferencista de política internacional, sócio do IPCO, webmaster de diversos blogs.

Nota do blogueiro:
Afirmações semelhantes e complementares estão também no livro "CO2 aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?", clique na capa do livro na aba direita deste blog para saber mais.

 

 

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quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Jornal The Guardian revela: mais de 90% das compensações de carbono da floresta tropical são inúteis

Richard Jakubaszko  

Agrofloresta
Em ampla e profunda reportagem o jornal The Guardian mostrou a farsa dos créditos de carbono. No link a seguir o leitor tem a reportagem original, e logo abaixo mostro alguns excertos da matéria, cuja autoria é de um jornalista inglês, cujo nome, ironicamente, é Patrick Greenfield.

https://www.theguardian.com/environment/2023/jan/18/revealed-forest-carbon-offsets-biggest-provider-worthless-verra-aoe


A investigação constatou que:
Mais de 90% das compensações de carbono da floresta tropical pelo maior fornecedor são inúteis, mostra a análise
do jornal;

A investigação sobre o padrão de carbono Verra descobre que a maioria são 'créditos fantasmas' e podem piorar o aquecimento global

Apenas um punhado de projetos florestais de Verra mostrou evidências de reduções de desmatamento, de acordo com dois estudos, com uma análise mais aprofundada indicando que 94% dos créditos não tiveram nenhum benefício para o clima.


A ameaça às florestas foi superestimada em cerca de 400%, em média, para os projetos Verra, de acordo com a análise de um estudo de 2022 da Universidade de Cambridge.


Gucci, Salesforce, BHP, Shell, easyJet, Leon e a banda Pearl Jam estavam entre as dezenas de empresas e organizações que compraram compensações de florestas tropicais aprovadas pela Verra para reivindicações ambientais.


Os jornalistas puderam fazer uma análise mais aprofundada desses projetos, comparando as estimativas feitas pelos projetos de compensação com os resultados obtidos pelos cientistas. A análise indicou que cerca de 94% dos créditos produzidos pelos projetos não deveriam ter sido aprovados.


Os créditos de 21 projetos não tiveram benefício climático, sete tiveram entre 98% e 52% menos do que o reivindicado usando o sistema de Verra e um teve 80% a mais de impacto, segundo a investigação.


Separadamente, o estudo da equipe da Universidade de Cambridge de 40 projetos Verra descobriu que, embora alguns tenham interrompido o desmatamento, as áreas eram extremamente pequenas. Apenas quatro projetos foram responsáveis ​​por três quartos do total de florestas protegidas.


Os estudos usaram diferentes métodos e períodos de tempo, analisaram diferentes gamas de projetos, e os pesquisadores disseram que nenhuma abordagem de modelagem é perfeita, reconhecendo as limitações de cada estudo. No entanto, os dados mostraram amplo consenso sobre a falta de eficácia dos projetos em comparação com as previsões aprovadas pela Verra.


Dois dos estudos passaram no processo de revisão por pares e outro foi lançado como uma pré-impressão.


No entanto, Verra contestou veementemente as conclusões dos estudos sobre seus projetos florestais e disse que os métodos usados ​​pelos cientistas não conseguem captar o verdadeiro impacto no solo, o que explica a diferença entre os créditos que aprova e as reduções de emissões estimadas pelos cientistas.


O padrão de carbono disse que seus projetos enfrentaram ameaças locais únicas que uma abordagem padronizada não pode medir, e trabalha com os principais especialistas para atualizar continuamente suas metodologias e garantir que reflitam o consenso científico. Encurtou o período de tempo em que os projetos devem atualizar as ameaças que enfrentam para capturar melhor os fatores imprevistos, como a eleição de Jair Bolsonaro no Brasil. A Verra disse que já utilizou alguns dos métodos implantados pelos pesquisadores em seus próprios padrões, mas não acredita que sejam adequados para esse tipo de projeto.


Yadvinder Singh Malhi, professor de ciência do ecossistema na Universidade de Oxford e pesquisador sênior de Jackson no Oriel College, Oxford, que não esteve envolvido no estudo, disse que dois de seus alunos de doutorado passaram pela análise sem detectar nenhum erro.


“Este trabalho destaca o principal desafio de perceber os benefícios de mitigação das mudanças climáticas do Redd+. O desafio não é medir os estoques de carbono; trata-se de prever com segurança o futuro, o que teria acontecido na ausência da atividade do Redd+. E olhar para o futuro é uma arte sombria e confusa em um mundo de sociedades, políticas e economias complexas. O relatório mostra que essas previsões futuras foram excessivamente pessimistas em termos de taxas básicas de desmatamento e, portanto, superestimaram amplamente seus benefícios climáticos do Redd+. Muitos desses projetos podem ter trazido muitos benefícios em termos de capacidade de conservação da biodiversidade e das comunidades locais, mas os impactos nas mudanças climáticas em que se baseiam são, lamentavelmente, muito mais fracos do que o esperado. Eu gostaria que fosse diferente, mas este relatório é bastante convincente.”

No livro "CO2 aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?" mostro outros detalhes da gigantesca farsa ambiental internacional, tanto do ponto de vista de ações para salvar a Amazônia como a inexistência de provas científicas para comprovar que existe o aquecimento global, seja antropogênico ou não.

 

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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Mapa da hipocrisia das emissões de CO2

Richard Jakubaszko   
O planeta que vivemos tem um problema fundamental que afeta a todos: a superpopulação de 7,5 bilhões de pessoas causa poluição do ar, da água e do solo. Ao mesmo tempo cria problemas sociais, econômicos e políticos insolúveis, pois precisa-se de dinheiro para resolver esses problemas, especialmente alimento, saúde e educação. Esse dinheiro tem de ser proveniente de impostos, e isto ninguém quer pagar. O cobertor é sempre curto. Ninguém discute nem uma coisa e nem outra. Ou seja, reduzir a velocidade do crescimento demográfico no planeta, e implantar políticas públicas fora das neuroses ambientalistas.

Governos e políticos de vários países no mundo inteiro prometem reduzir a pobreza, a fome, criar empregos, mas as tecnologias modernas tratam de reduzir os novos empregos. O mais novo ambiente de trabalho dos jovens são as ONGs ambientalistas, algumas delas são poderosas multinacionais, que aliciam estudantes para atazanar a vida de todos, especialmente governos que não estão alinhados com os "nobres propósitos" das ONGs de defender a natureza e o meio ambiente, e de impedir que o planeta venha a ter um aquecimento que provocará o aumento do nível dos mares, destruindo cidades praianas e ilhas mundo afora em todos os continentes. Essas ONGs vivem de contribuições de governos, recebem verbas de fundações "desinteressadas" e de empresas que não se sabe quais são e nem de onde.

A Amazônia (= a 1% da área total do planeta) ainda é a cereja do bolo, e todos querem acabar com o desmatamentos e as queimadas, e que as emissões de CO2 e dos GEE sejam zerados para salvar o planeta. Quanta mentira, e quanta enganação! Para acabar com os desmatamentos, conforme já sugeri anteriormente aqui no blog, basta a Europa proibir a importação de madeira do Brasil. Acaba com mais de 90% do desmatamento no dia seguinte... Simplesmente porque ninguém queima árvore. Árvore é madeira, e madeira é dinheiro vivo. Não, eles preferem ameaçar com a proibição de importar soja e carne do Brasil, coisas que a Amazônia pouco produz. É um jogo de cena, mais um do imenso leque no jogo geopolítico internacional. E que a mídia tupiniquim acompanha com manchetes desproporcionais em relação à realidade.

No mapa abaixo, está a hipocrisia mundial, pois os maiores emissores de CO2 "preocupam-se" com a nossa Amazônia, acusando o Brasil de não cuidar da grande floresta como eles imaginam que nós devemos cuidar dela. É o primeiro passo para que no futuro venham a reivindicar a posse territorial da Amazônia, provavelmente, com a imbecilidade crescente dos brasileiros, com o aplauso dos nativos, moradores daqui e de outras plagas.



 

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domingo, 10 de outubro de 2021

Cadê o fogo que estava aqui?

Evaristo de Miranda *

De junho a setembro deste ano, a redução 
de incêndios e queimadas foi de 13% no Brasil.
In God, we trust.
All others must bring data.
(Em Deus nós acreditamos.
Todo o resto deve apresentar dados.)
Edwards Deming


Chegou a primavera e, com ela, as chuvas. O relógio do clima tropical é preciso. Passado o equinócio de setembro, aos poucos se encerra o ciclo sazonal de queimadas e incêndios no Brasil. Como em outros temas, as queimadas têm sido objeto de uma preocupação seletiva da mídia. Nesta estação seca, as redações não se incendiaram com denúncias e acusações sobre queimadas e incêndios no Brasil. Nem aqui, nem no exterior. Poucos tocaram no assunto. Comportamento muito diferente do de 2020. A razão seria a redução do fogo no Pantanal e na Amazônia durante a estação seca de 2021. Contra fatos…

De junho a setembro deste ano, a redução de incêndios e queimadas foi de 13% no Brasil. O país registrou 124.995 focos de fogo, valor idêntico ao de 2019 (125.821). Em mais de 30 anos, entre 1988 e 2021, a média foi de 135.000 no período seco. Em 2020, foram 143.000 focos, valor acima da média. Variações interanuais podem ser grandes: já se registrou um mínimo de 57.000 queimadas no ano 2000 e um máximo de 265.000 em 2007.

Os dados são do monitoramento das queimadas por satélite, realizado pela Nasa. Há décadas, a ocorrência de qualquer fogo de alguma magnitude é detectada várias vezes por dia, por diversos satélites, em sua maioria norte-americanos. O sistema atual de referência internacional para monitorar queimadas e incêndios usa os dados do satélite Aqua M-T, da Nasa. A detecção dos pontos de calor ou fogos ativos pelo satélite é disponibilizada, em tempo quase real, num site conhecido como Firms (Fire Information for Resource Management System). E, no Brasil, esses dados são oferecidos pelo Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) no Programa Queimadas.

No Pantanal, a redução foi de 69% em relação a 2020. Situação parecida na Amazônia: uma redução de 26%, contrastando com o aumento de 2020. Quem divulgou os dados sobre a redução das queimadas e incêndios nesses dois biomas? Ou tentou entender as razões? Quem comparou a dinâmica do fogo nos seis biomas brasileiros e alhures? Cadê os interessados?


Como na parlenda Cadê o toucinho que estava aqui?, é a água que apaga o fogo. O peso climático sobre a ocorrência maior ou menor, adiantada ou atrasada, das queimadas é enorme. São flutuações em escala continental. Na América do Sul, a redução dos fogos detectados neste período de 2021 foi até superior à registrada no Brasil: menos 18%. Segundo dados do Inpe, tratados pela Embrapa Territorial, do total registrado na América do Sul (200.194), mais da metade ocorreu no Brasil (62%), seguido por Bolívia, Argentina (ambos com 11%) e Paraguai (9%). São valores relacionados à dimensão territorial dos países. Com números ponderados pela área, o Paraguai é o campeão de queimadas: 44 a cada 1.000 quilômetros quadrados; seguido por Bolívia, com 21; Brasil, com 15; e Argentina, com oito queimadas a cada 1.000 quilômetros quadrados.
 
O Ano da Graça de 2021 passará à história como um exemplo de redução nesse fenômeno indesejado? Alguém explicará as causas dessa variação? Provavelmente, não. O Poder Executivo, acusado pelo aumento das queimadas na Amazônia ou no Pantanal em 2020, será responsabilizado pela redução do fenômeno? Dificilmente. Nem no Dia da Amazônia, em setembro, as catilinárias e as diatribes sobre as ações humanas nesse bioma não saudaram a redução no número das queimadas.

Em agosto passado, artigo na Revista Oeste destacou quanto a distinção entre queimadas e incêndios é necessária para a adoção de políticas públicas e privadas adequadas à redução do uso do fogo no mundo rural. A solução é ampliar o emprego de novas tecnologias agropecuárias para substituir o uso do fogo em diversos sistemas de produção. A queimada é uma tecnologia agrícola. Não se trata de prevenir queimadas, como no caso dos incêndios, mas de substitui-las por tecnologias modernas.

Agricultores não queimam por malvadeza. Essa prática do neolítico foi herdada essencialmente dos índios (coivara). Povoadores europeus a adotaram, aqui e na América Latina. Ela é tradicionalíssima na África, onde também é utilizada como técnica de caça. É sobretudo o produtor não tecnicizado, descapitalizado e marginalizado do mercado quem emprega o fogo — ocasionalmente — para renovar pastagens, combater carrapatos, eliminar resíduos vegetais acumulados, limpar áreas de pousio etc. E eles são minoria: menos de 2%. Do total registrado de queimadas, mais de 15% ocorrem em terras indígenas, áreas urbanas e periurbanas, beira de estradas etc. Fora das fazendas. São 6 milhões de produtores e cerca de 110.000 queimadas rurais no Brasil. Mais de 98% dos produtores não empregam o fogo em seus sistemas de produção. Não se trata de uma prática generalizada. A única prática generalizada é acusar toda a agropecuária brasileira. Há como reduzir o uso do fogo a menos de 1% dos produtores e tentar eliminá-lo por completo. Alternativas técnicas à prática das queimadas existem.
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O apagão midiático parece resultar de uma verdade inconveniente: 
a redução das queimadas não interessa.
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Já com os incêndios é diferente. Esse fogo indesejável ocorre fora de hora e lugar. Destrói patrimônio público e privado. Reduz a biodiversidade. Mata pessoas. Sua prevenção é fundamental. Uma vez iniciados, eles são difíceis de controlar. Muitas fazendas, usinas de cana-de-açúcar e grupos de reflorestamento mantêm brigadas anti-incêndios treinadas e equipadas para atuar, com o Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil. Mesmo assim, neste ano, particularmente na região nordeste do Estado de São Paulo, ocorreram incêndios em canaviais provocados criminosamente ou por atos irresponsáveis. Na época da colheita, a palha seca da cana-de-açúcar é altamente comburente e queima como papel.

É paradoxal ver queimarem tantos canaviais como neste ano em São Paulo. Essa cultura foi a responsável pela maior redução do uso do fogo na agricultura observada no país. Nos anos 1990, a Embrapa monitorava as queimadas, com o sistema orbital NOAA-AVHRR, em colaboração com o Inpe. Os dados e mapas ainda estão disponíveis. Até a década de 1990, a colheita manual da cana-de-açúcar era precedida pela queima da palha, para facilitar o trabalho dos cortadores. Essa queima fazia parte até dos compromissos dos usineiros com os cortadores em acordos trabalhistas. Entre junho e novembro de 1994, o sistema NOAA-AVHRR registrou 4.380 queimadas de grande porte em São Paulo, concentradas na região canavieira. Programas e acordos levaram à mecanização da colheita e dispensaram há um tempo o fogo e a mão de obra dos boias-frias. Em 2009, no mesmo período, o sistema de monitoramento por satélite registrou apenas 299 queimadas.
Em 2020, incêndios e queimadas mobilizaram a mídia nacional e internacional, com acusações ao Brasil por parte de organizações não governamentais, do presidente francês, de outros chefes de governos e até com fotos de girafas e cangurus queimados. Neste ano, alguns até tentaram uns sinais de fumaça, mas faltou lenha ou fogo. O apagão midiático parece resultar de uma verdade inconveniente: a redução das queimadas não interessa. Apenas seu aumento. Os desafios colocados pelo uso do fogo na agricultura também não interessam. Levar tecnologias, financiamentos e conhecimentos para os pequenos agricultores reduzirem o uso do fogo também não. Só interessaria o incremento para acusar e culpar A ou B, como no ano passado? Aqui e no exterior? Em 2021, ainda não houve uma reportagem para atribuir o mérito da redução das queimadas a A ou B. Nem aqui, nem no exterior. Cadê o crítico? O gato comeu. C´est la vie.

* o autor é engenheiro agrônomo e doutor em ecologia, Chefe Geral da Embrapa Territorial – Campinas – SP.

Publicado em
https://revistaoeste.com/revista/edicao-81/cade-o-fogo-que-estava-aqui/#comment-119588



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quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Escritor norueguês analisa a relação ambígua de seu país com a Amazônia: “Somos parte da solução e do problema”

Débora Pinto

Estação de tratamento de água da Alunorte, refinaria da mineradora norueguesa Hydro em Barcarena (PA). Foto: Anders Vindegg/Hydro.   
Em seu novo livro, ‘A luta pela floresta’, o geógrafo social Torkjell Leira faz umbalanço dos 40 anos de relação da Noruega com a Amazônia. Uma relação ambígua, segundo ele, já que o mesmo país que investe bilhões em preservação também subsidia empreendimentos industriais que aceleram a degradação da floresta.

A Noruega investiu cerca de 900 milhões de dólares em conservação na última década através do Fundo Amazônia e outras iniciativas. Mas, segundo Leira, investimentos de companhias e instituições estatais norueguesas em atividades prejudiciais à floresta alcançaram um valor cinco vezes maior.

O geógrafo social norueguês Torkjell Leira é conhecido como um dos principais especialistas sobre o Brasil em seu país. Desde a experiência de um intercâmbio, há aproximadamente trinta anos, o também escritor passou a direcionar seus estudos e atividades de trabalho para as terras e gentes brasileiras — seu foco na Amazônia o levou a trabalhar por seis anos na Fundação Rainforest, além de coordenar projetos junto a comunidades para organizações e empresas na região. Há décadas Leira acompanha de perto as relações entre Brasil e Noruega no que se refere às questões ambientais e climáticas, sendo uma importante voz em defesa da floresta também quando está em sua cidade, a capital Oslo.

É a partir dessa perspectiva que o escritor lança no Brasil o livro A luta pela floresta: como a Noruega ajuda a proteger — e a destruir — o meio ambiente no Brasil, pelo selo Hiperbórea, da editora Rua do Sabão. Quase como um suspense, a narrativa parte das tubulações da mineradora semi-estatal norueguesa Hydro — às quais Leira teve acesso após escândalo ambiental de vazamento de rejeitos que ganhou proporções internacionais.

No desdobrar, vão sendo relatados os muitos pontos de conexão entre os dois países, desde os tempos dos chamados ciclos da borracha, em que representantes noruegueses da habilidade nórdica de navegação praticamente monopolizavam o transporte de produtos e pessoas na região, até as mais íntimas e contemporâneas relações entre agentes de poder político e econômico que fazem do Brasil, e mais especificamente do solo amazônico, um território de farto investimento nem sempre alinhado com a proteção à floresta.

Leira trata, com a mesma intensidade, da forma como a preservação da floresta tropical consolidou-se ao longo de décadas como uma prioridade na cultura dos noruegueses, destacando ainda o processo que levou à criação, em 2008, do Fundo Amazônia, maior projeto de colaboração entre Brasil e Noruega em prol da conservação, encerrado pelo governo Jair Bolsonaro em 2019.

Nesta entrevista exclusiva para a Mongabay, Torkjell Leira repercute a as informações publicadas em seu livro, analisa as delicadezas das relações atuais entre os dois países e rebate a narrativa que coloca as regulações a iniciativas internacionais em prol da floresta como ações de natureza neocolonial.

Escritor norueguês Torkjell Leira. Foto Siw Pessar

Mongabay: Em seu livro, você detalha o protagonismo e as ambiguidades da atuação da Noruega na Amazônia. Como é lançar essa obra no Brasil no momento em que o discurso governamental vigente demoniza iniciativas estrangeiras em território amazônico?

Torkjell Leira: É algo que me preocupa muito. Quando falamos da relação entre Brasil e Noruega hoje no que se refere ao meio ambiente, eu acredito que é difícil piorar. Mas, mesmo percebendo a delicadeza do momento, que envolve ainda o pior ataque aos povos indígenas provavelmente desde a época da ditadura militar — além de toda a drástica piora nas políticas ambientais sob Bolsonaro —, eu não posso deixar de tornar públicas as ações do governo e do setor industrial norueguês que são prejudiciais à floresta. Porém, eu também descrevo a íntima relação dos noruegueses com a causa da conservação amazônica e as muitas ações positivas em uma colaboração de pelo menos quarenta anos entre os dois países para a região. Realmente espero que o livro não seja usado para supostamente embasar críticas unilaterais à Noruega.

O escândalo ambiental ocorrido em 2018 envolvendo a gigantesca mineradora semi-estatal norueguesa Hydro na comunidade paraense de Barcarena é o fio condutor da narrativa que percorre de forma fortemente embasada outros aspectos questionáveis do investimento norueguês na floresta. Como os noruegueses receberam essas informações?

As pessoas ficaram chocadas. Eu mesmo fiquei bastante surpreso quando percebi, após um estudo rigoroso, o tamanho dos recursos que foram destinados para as forças e os atores que ajudam a destruir a floresta e a desproporção em relação ao que é destinado para a conservação. A Noruega investiu aproximadamente 8 bilhões de coroas [900 milhões de dólares, no câmbio atual] em conservação na última década, através do Fundo Amazônia e outras iniciativas. Mas se formos somar os investimentos em empresas brasileiras que degradam advindos do nosso fundo soberano do petróleo, os investimentos diretos das companhias norueguesas e a importação da soja brasileira que alimenta o nosso salmão, temos um valor pelo menos cinco vezes maior. Somos parte da solução, mas também parte do problema. Eu espero que as informações que estão no livro de alguma forma possam ajudar a reduzir o problema e a ampliar a solução.

Em 2019 os repasses noruegueses destinados ao Fundo Amazônia foram congelados após divergências com o governo brasileiro. Já em maio de 2020 foi a vez do fundo soberano noruegês excluir a Vale e a Eletrobrás de sua lista de investimentos por impactos negativos ao meio ambiente e aos direitos humanos. Como você avalia essa intensa retirada de recursos — e a narrativa que insinua tratar-se de uma estratégia neocolonial, um modo indevido de intervenção externa nas políticas ambientais brasileiras?

Sobre a retirada dos recursos por parte do fundo soberano, a pergunta que fica é: como empresas que sabidamente degradam o meio ambiente e prejudicam as populações locais estavam recebendo esse investimento até agora? É necessário que esses critérios sejam melhor elaborados, não adianta só querer fazer o papel bonito na história. O governo Bolsonaro fechou os comitês que cuidavam do Fundo Amazônia, levando o governo noruguês a encerrar o seu apoio e dissolvendo uma década de colaboração. Ninguém acha bom tirar dinheiro do Brasil. A única coisa que está sendo solicitada é que a legislação ambiental brasileira seja respeitada. É importante perceber que o discurso sobre neocolonialismo vale para entidades estrangeiras que atuam na proteção da floresta, enquanto as empresas de capital estrangeiro seguem sendo bem-vindas para explorá-la de maneira predatória.

Diante deste cenário estarrecedor é possível observar, do seu olhar, algum caminho para interromper a escalada de destruição na Amazônia?

Com certeza. Há dez anos o Brasil era uma referência mundial no combate ao desmatamento ao mesmo tempo em que experimentava crescimento econômico — e o sistema capitalista selvagem era o mesmo. Claro que hoje temos um cenário global distinto, mas o país sabe exatamente quais são as práticas que dão certo porque ele mesmo já implementou e teve bons resultados. Outros fatores favoráveis são a intensificação da pressão internacional e — algo que é novo — a importância que hoje é dada à questão ambiental por parte dos investidores estrangeiros, muitos deles inclusive noruegueses. É possível transformar a realidade desde que se tenha um governo que coloque a questão da conservação na centralidade da pauta e que aja com a intenção real de manter a floresta em pé. Eu realmente acho que é fundamental sabermos valorizar o que foi construído, aprendido — e não apenas lamentar o que estamos perdendo, mesmo que tantos esforços estejam sendo comprometidos. Para finalizar com uma expressão em português, eu diria: muita calma nessa hora.

Publicado originalmente em https://envolverde.com.br/escritor-noruegues-analisa-a-relacao-ambigua-de-seu-pais-com-a-amazonia-somos-parte-da-solucao-e-do-problema/


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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

O que o agronegócio deve esperar de Joe Biden?

Marcos Sawaya Jank *

Impacto do governo Biden no comércio agrícola, China, Amazônia e políticas climáticas.

Joe Biden venceu as eleições dos EUA e esse é o tema do 1º artigo da nova coluna AGRO GLOBAL do site de VEJA. Vamos analisar o impacto do novo governo sobre agronegócio, comércio, clima e Amazônia, mostrando porque Biden é a melhor escolha para o agro brasileiro.

A primeira grande mudança da gestão Biden nas relações internacionais será o resgate da liderança que os Estados Unidos sempre exerceram na coordenação multilateral do mundo, que se inicia já na independência dos EUA com a ação diplomática de Benjamin Franklin e os demais Founding Fathers contra o colonialismo europeu.

Para entender o papel histórico dos EUA no mundo, vale ler um livro magnífico que acaba de ser lançado: America in the World: A History of U.S. Diplomacy and Foreign Policy, de Robert Zoellick, que foi representante de comércio dos EUA (USTR) de 2001 a 2005 e depois Presidente do Banco Mundial. O livro analisa o papel que Franklin, Hamilton, Jefferson, Adams, Lincoln, os Roosevelts, Woodrow Wilson, Cordell Hull, Kennedy, Reagan, Bush e outros “líderes pragmáticos” tiveram na construção da diplomacia e da política externa dos EUA. A obra merece ser lida nesse momento crucial e conflitivo da democracia americana.

No final da 2ª guerra, o mundo pedia maior coordenação multilateral em temas como garantia da paz, comércio, finanças, desenvolvimento e outros. Os Estados Unidos assumiram posição central na criação de diversas organizações internacionais para promover paz, direitos humanos e solução de conflitos (ONU), finanças e desenvolvimento (FMI e Banco Mundial), comércio (o acordo do GATT, que depois virou a OMC - Organização Mundial de Comércio), saúde pública (OMS - Organização Mundial de Saúde) e muitas outras.

O momento turbulento e polarizado que vivemos hoje exige o aprimoramento da capacidade de coordenação dos países em novos temas como meio ambiente, mudança do clima, segurança biológica (contenção de pandemias), saúde pública, segurança cibernética, migração, anticorrupção, transparência e outros.

Com o America First, Trump deu as costas para o mundo e abandonou o papel histórico de concertação dos EUA. Em comércio, para agradar o seu público interno Trump propôs medidas enérgicas para “zerar” os principais déficits comerciais que os EUA mantinham no mundo, iniciando negociações país a país como se o comércio fosse um jogo de soma zero, que não é.

Pouco a pouco, Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico (TPP), um extraordinário acordo comercial ligando 12 países americanos e asiáticos do Pacífico. A seguir, repaginou o NAFTA à sua maneira, enfraqueceu a OMC ao se recusar a nomear juízes para o órgão de solução de controvérsias e retirou os EUA da Convenção do Clima. Trump se voltou para dentro do país, confrontando não apenas os novos inimigos do Oriente, como a China, mas também os seus vizinhos e aliados mais tradicionais do Ocidente. Na minha opinião, não deu certo.

Não há dúvida que Joe Biden vai seguir priorizando os interesses domésticos americanos acima de tudo, começando pela recuperação econômica do país. Mas, ao contrário de Trump, ele construirá a sua política externa a partir das medidas internas que serão adotadas, reduzindo o tensionamento e aumentando a concertação internacional.

É neste contexto que enxergo a possibilidade de novas formas de diálogo entre os EUA e a China. Com certeza a rivalidade EUA-China veio para ficar e não vai terminar com a eleição de Biden, até porque a China continuará crescendo rápido e ameaçando a hegemonia americana. Ao final de 2021, a economia chinesa estará 10% maior do que logo antes da pandemia. Os EUA estarão menores.

No agronegócio, não há dúvida que o Brasil se beneficiou da guerra comercial EUA-China, que começou logo após as eleições de Trump em 2017, e pode ser prejudicado por um acordo tácito entre as duas maiores potências do planeta. Mas comemorar guerras e disputas hegemônicas nunca foi uma boa ideia para quem só atua em campos laterais. Prefiro acreditar que a construção de regras multilaterais que valem para todos continua sendo a melhor opção do planeta. Podemos perfeitamente incrementar nossas parcerias estratégicas com os EUA e com a China, rejeitando a política de “comércio administrado” proposta por Trump que, espero, não será seguida por Biden.

Dentre as políticas de Biden, a que mais deve impactar o Brasil é uma nova postura dos EUA em relação ao tema da mudança do clima, radicalmente diferente da linha seguida por Trump. Meio ambiente, mudança do clima, promoção de fontes renováveis de energia e taxação de carbono estarão no centro da agenda de Biden. Os EUA vão retornar ao Acordo de Paris, colocando o tema da mudança do clima no centro da sua política externa, comercial e de segurança nacional, o que certamente incluirá uma forte pressão para reduzir o desmatamento no Brasil.

Muitos dirão que essa é uma agenda negativa para o Brasil. Eu prefiro acreditar que, na toada das pressões comerciais que o agro já vem sofrendo na região Norte, a eleição de Biden apenas reforça a necessidade de completarmos a “lição de casa” que estamos devendo para o mundo há décadas.

Estima-se que 95% do desmatamento brasileiro seja ilegal e, portanto, associado ao descumprimento da legislação brasileira. É nossa obrigação resolver esse problema, que começa com a necessidade de regularização fundiária das regiões norte e nordeste do país, que já dura décadas. Segue-se o problema da regularização ambiental, que ainda não foi efetivada, a despeito de o Código Florestal já ter completado o seu 8º ano de vida.

A verdade é que a agricultura brasileira é ao mesmo tempo vilã, vítima e solução no tema da mudança do clima. “Vilã” por estar associada ao desmatamento ilegal, que já atinge mais de 10 mil km2 por ano no Brasil. “Vítima” porque a agricultura vem sofrendo com eventos extremos e grandes instabilidades climáticas, como vimos esse ano no país. “Solução” porque acumulamos grandes ganhos de produtividade e dispomos de uma matriz energética limpa e diversificada - composta por diversos tipos de biocombustíveis e energias renováveis - fazemos 2 a 3 safras por ano e muitas outras conquistas qualificam a nossa agricultura como de “baixo carbono”.

A pecuária de corte será o setor mais pressionado pela eleição de Biden, pelo fato de que a cria de bezerros é a primeira ocupação agropecuária em áreas recém desmatadas do bioma Amazônico. Mas os biocombustíveis brasileiros como o etanol de cana-de-açúcar e o biodiesel de oleaginosas, podem ganhar bastante espaço na agenda internacional com a adesão dos EUA ao Acordo de Paris e a renovada pressão pela substituição de energias fósseis por energias renováveis, tema amplamente vocalizado por Biden durante a campanha. Vale lembrar que 73% das emissões de gases de efeito estufa responsáveis pela mudança do clima vem do setor de energia e transportes, e menos de 7% de desmatamentos e mudanças no uso da terra.

Em suma, creio que a eleição de Biden levará o governo brasileiro a abrir novos canais de interlocução com o governo americano. Deveria, também, buscar uma equidistância mais prudente da sua política comercial com os EUA e com a China, fortalecendo as nossas duas maiores parcerias estratégias. Apesar de os EUA serem os nossos principais concorrentes no agronegócio global, há muito espaço para ampliar a cooperação com aquele país em temas como segurança alimentar global, inovação, bioenergia e no reforço da coordenação multilateral.

Creio que a principal lição que deveríamos aprender com o retorno dos Democratas ao poder nos EUA é parar de insistir em ver o mundo como “cruzadas maniqueístas”, de uma luta permanente do bem contra o mal entre supostos poderes opostos e incompatíveis. Em vez de louvar amigos e atacar inimigos imaginários, melhor faríamos em identificar claramente os nossos interesses externos e desafios imediatos. Se fizermos isso, veremos que o nosso maior desafio é simplesmente fazer direito a “lição de casa”. Isso vale para as reformas internas prometidas, e ainda não realizadas. Vale também para os problemas ambientais e fundiários do bioma Amazônia, que agora terão de ser resolvidos, para o bem ou para o mal.

* o autor é professor de agronegócio global do Insper.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Monsieur Macron, presta atenção...

Richard Jakubaszko   

Flagrante da vida real mostra o quanto os políticos não percebem o que acontece à volta deles, tão preocupados que estão em se fazer notar e em serem o centro das atenções... Allez Monsieur Macron, proíba a França e a Europa de importarem madeira do Brasil que os desmatamentos e queimadas vão cair mais de 90%, veja só aqui



segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Amazônia em debate, vale a pena assistir

Richard Jakubaszko   

Recebi do pesquisador Zander Navarro, da Embrapa, a informação sobre o debate online a ser realizado em 8 de outubro próximo, às 11 horas. Quem desejar participar, no cartaz abaixo há um e-mail para enviar perguntas. 



 

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sábado, 26 de setembro de 2020

Aprosoja pede desligamento da Abag

Richard Jakubaszko
Rompimento ocorreu por divergências das ações necessárias para combater o desmatamento *

A Associação dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja Brasil) enviou nesta sexta-feira (25/9), uma carta à Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), pedindo desligamento da entidade. Com o rompimento, o presidente da Aprosoja Brasil, Bartolomeu Braz Pereira, participante do Conselho Diretor da Abag, renuncia ao cargo.

A fervura entre as duas entidades ganhou escala depois que a Abag decidiu compor o grupo de entidades e empresas que, junto à Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, listou um conjunto de sugestões para diminuir o desmatamento na Amazônia Legal. O manifesto foi entregue ao presidente Bolsonaro. Braz tem posicionado essa ação como “politicagem”.

A decisão do rompimento ocorreu em uma assembleia extraordinária, realizada nesta quarta-feira (23/9), e foi por unanimidade das 16 entidades estaduais que formam a Aprosoja. De acordo com a nota divulgada, a “decisão se deu em razão de entendimento de não mais serem convergentes os interesses da Aprosoja Brasil e esta entidade [Abag]”.

* Publicado originalmente no Portal DBO: https://www.portaldbo.com.br/aprosoja-pede-desligamento-da-associacao-brasileira-do-agronegocio/

NOTA DO BLOGUEIRO:
Entendo que seria uma questão de tempo, até mesmo inevitável, esse desenlace entre entidades associativas representativas dos produtores rurais, como a Aprosoja, e a entidade que representa os interesses das indústrias de insumos, como a Abag, que sanciona as sugestões da
Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura ao governo de Jair Bolsonaro, em razão do conflito. Acompanho com minúcias os conflitos desses interesses desde a questão da moratória da soja, lançada em 2006, e sempre me posicionei contrário à ela. Nunca entendi e tampouco aceitei a posição inicial da Aprosoja de aderir à moratória, pois os prejuízos dos produtores rurais estabelecidos na chamada região da Amazônia Legal eram evidentes, mesmo que estivessem com áreas de plantio e criação no bioma do Cerrado, como ocorre no leste, no sul e sudeste do Mato Grosso.

Registrei essa posição de meu entendimento no livro "CO2 aquecimento e mudanças climáticas: estão nos enganando?". A moratória da soja, uma decisão política posicionada pelo "politicamente correto", liderada pela Abiove, tinha como coautores a Abag e a própria Aprosoja. Os desmatamentos, e as queimadas, que se processam em áreas do bioma amazônico, entretanto, revelaram o conflito de interesses entre os associados da Aprosoja e da Abag, diante da evidente incompatibilidade das objetivas ações propostas pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, da qual a Abag é signatária. Diante disso ocorre o desenlace associativo, e os produtores rurais agora ficam sem o apoio dos seus parceiros fornecedores de insumos. Os dois lados perdem, porque se subdividem e tornam-se ainda mais minoritários.

Há males que vêm para o bem. Espero que a problemática dos desmatamentos e das queimadas seja discutida com objetividade e clareza a partir desse novo cenário. Continuar com posicionamentos suicidas, como tem sido feito pelos produtores rurais e pelas indústrias de insumos é perverso para todos, pois a mídia comanda o espetáculo com maestria, aplaudida por ONGs e interesses diversos inconfessáveis de governos estrangeiros, sejam de natureza política, econômica ou geopolítica, além da ambiental, monitorada pelo IPCC, na sórdida e criminosa campanha ambientalista, ancorada nas mudanças climáticas que antecedem o aquecimento definitivo do planeta, pré status do início do fim do mundo.

Como já me posicionei anteriormente, em diversas oportunidades (https://richardjakubaszko.blogspot.com/search?q=carta+aberta+a+macron ), aqui neste blog, e no livro, para acabar - ou reduzir substancialmente - com os desmatamentos ilegais bastaria exercer rígida fiscalização nas exportações de madeiras originárias da Amazônia, ou até mesmo a sua quase total proibição. As queimadas cairiam na mesma proporção. Porque ninguém queima árvores nos incêndios, chamados ironicamente pela mídia como queimadas. As queimadas ocorrem em áreas desmatadas, ilegais ou legais. Mas a emoção e o calor das discussões são levadas a um clímax emocional digno de uma prosopopeia grega, que antevê o fim da Amazônia.

Que fique claro que não sou a favor da motosserra, pois sou ambientalista, apenas não uso carteirinha. Todos os participantes desse imbróglio, ONGs, Aprosoja, Abag, Abiove, governo brasileiro, Ibama, ONU/IPCC, governos estrangeiros, ambientalistas, cometem erros grosseiros nas suas ações e propostas, posicionamentos que nunca levarão a um consenso e, especialmente, não trarão soluções para os problemas existentes.

A Amazônia não vai sumir do mapa, os desmatamentos e queimadas são consequências de processos evidentes diante da população de mais de 20 milhões de pessoas que a habitam e que lá sobrevivem com imensas dificuldades, especialmente indígenas e ribeirinhos. Refletem, sobretudo, os resultados perversos das atividades da superpopulação planetária, hoje com cerca de 7,5 bilhões de bocas que precisam de alimentos baratos. Não há mais como conter essa caminhada rumo ao precipício derradeiro da humanidade. Entendamos, em definitivo, que a superpopulação humana é a causa principal de todos os conflitos ambientais, políticos, sociais e econômicos, a que assistimos. Sem discutir e resolver essa questão básica, todos os demais problemas somente vão crescer e se agravar.