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quinta-feira, 16 de outubro de 2025

A anistia que não deve ser

Ricardo Viveiros *

Existe a proposta de anistiar aqueles que, em 8 de janeiro de 2023, vandalizaram os prédios dos três poderes em Brasília. Tal movimento em busca de perdão para terroristas é não apenas equivocado, mas um verdadeiro atentado ao estado democrático de direito. A Constituição Federal, no artigo 5º, inciso XLIII, é clara: “[…] a prática do terrorismo não é passível de anistia.”. Essa premissa deve ser defendida com tenacidade, pois a anistia que se articula pode abrir perigoso precedente. Além do que, no “passar o pano”, está a intenção de beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro, indiciado e inelegível.

Em uma democracia, a legitimidade do poder emana do respeito às instituições e à ordem constitucional. Ao conceder perdão a baderneiros, que atacaram símbolos da nossa república, corre-se o risco de legitimar uma cultura de impunidade. A ideia de que ações violentas de golpistas podem ser relevadas afronta àqueles que lutam pela democracia. Seria um incentivo ao desrespeito às instituições, no qual a desestabilização se torna estratégia viável para aqueles que não aceitam o legítimo resultado das urnas.

A polarização política que permeia nosso país é evidente e danosa. Entretanto, o diálogo e a negociação são sempre preferíveis à violência. A anistia a atos terroristas não apenas deslegitimaria os esforços de pacificação e reconciliação, mas também incentivaria a ocorrência de novos episódios de vandalismo e desrespeito à Constituição. Afinal, se os autores de ações criminosas se sentirem seguros de que não haverá consequências, o ciclo de violência poderá gerar novos eventos, como o recente ataque com bombas ao STF.

O que se espera de um Estado democrático é a proteção de suas instituições, e isso passa pela responsabilização de quem comete crimes. A anistia, portanto, não representa um gesto de paz, mas sim uma capitulação diante de atos ao arrepio da lei. Não podemos nos esquecer de que o uso da força para derrubar a ordem estabelecida deve ser tratado com rigor, e a impunidade não pode ser a resposta.

É importante criar um ambiente em que as divergências sejam resolvidas por meio do diálogo e da política, e não pela destruição do patrimônio público em nítido recado de repúdio à democracia. Alguns argumentam que a anistia é um caminho para a reconciliação. No entanto, essa abordagem ignora a gravidade dos atos cometidos e o impacto que tiveram sobre a sociedade. A reconciliação verdadeira se baseia no reconhecimento dos erros, na busca pela justiça e na reparação das vítimas. O castigo pune, o arrependimento educa.

A sociedade brasileira precisa ser capaz de distinguir o legítimo exercício da liberdade de opinião do ódio manifestado em nome dela. A anistia a terroristas não é apenas uma questão legal; é uma questão moral. Devemos nos lembrar das lições do passado e dos riscos que corremos ao minimizar a gravidade de atos irresponsáveis.

O momento é de reafirmar nosso compromisso com a democracia e com a justiça, não apenas em palavras, mas em ações. O respeito às instituições e à lei deve ser inegociável. A anistia não é a resposta; a responsabilidade, sim. Vamos construir um futuro em que a violência não seja a solução, mas, sim e em especial, o respeito mútuo e a efetiva busca pelo desenvolvimento sob o princípio da paz.

* O autor é jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura; autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita e Memórias de um tempo obscuro.

 

 

 

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

Carta aberta ao mundo, da mãe de Julian Assange

Richard Jakubaszko  
Subscrevo de forma incondicional o apelo da mãe de Julian Assange, que abaixo reproduzo, ao mesmo tempo envergonhado, como jornalista e blogueiro, por assistir a vergonhosa perseguição feita pelo governo dos EUA a um jornalista e blogueiro australiano por ele ter publicado documentos verdadeiros, mas considerados secretos, contendo terríveis verdades sobre, afinal, quem são os maiores terroristas do planeta.


Carta aberta ao mundo, da mãe de Julian Assange
"A dor de ver o meu filho, que arriscou a vida para denunciar a injustiça, inculpado e privado do direito a um julgamento justo, reiteradamente".
Christine Ann Assange [*]

Há cinquenta anos, quando dei a luz pela primeira vez como jovem mãe, pensei que não podia haver dor maior, mas logo a esqueci quando segurei meu belo bebé nos braços. Chamei-o Julian.

Agora percebo que estava equivocada. Há uma dor maior. A dor incessante de ser a mãe de um jornalista premiado e respeitável, que teve a coragem de publicar a verdade sobre crimes governamentais de alto nível e sobre a corrupção.

A dor de ver o meu filho, que tentou publicar verdades importantes, manchado a nível mundial.

A dor de ver o meu filho, que arriscou a sua vida por denunciar a injustiça, inculpado e privado do direito a julgamento justo, reiteradamente.

A dor de ver um filho saudável deteriorar-se lentamente, porque foi-lhe negada a atenção médica e sanitária adequada em anos e anos de prisão.

A angústia de ver o meu filho submetido a cruéis torturas psicológicas, numa tentativa de romper o seu imenso espírito.

O constante pesadelo de que seja extraditado para os EUA e a seguir passe o resto dos seus dias enterrado vivo em isolamento total.

O medo constante de que a CIA possa cumprir seus planos para assassiná-lo.

A onda de tristeza quando na última audiência vi seu corpo frágil cair exausto por um mini derrame cerebral, devido ao stress crônico.

Muitas pessoas ficaram traumatizadas ao ver uma superpotência vingativa que usa seus recursos ilimitados para intimidar e destruir um indivíduo indefeso.

Quero agradecer a todos os cidadãos decentes e solidários que protestam globalmente contra a brutal perseguição política sofrida por Julian.

Por favor, continuem a levantar a voz aos seus políticos até que seja a única que ouvirão.

Sua vida está nas suas mãos.

#YoSoyAssange
#JusticiaPorJulian

30/Dezembro/2021
[*] Mãe de Julian Assange.


O original encontra-se em https://www.lahaine.org/mundo.php/carta-abierta-de-la-madre

 

 

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Ambientalistas são terroristas?

Richard Jakubaszko  
Aparentemente é o que a notinha de chamada na primeira página do jornal aponta que o governo inglês incluiu os ambientalistas na mesma caixa de terroristas, vejam só:
é evidente que não há como concordar com isso. Apesar de ser um cético do aquecimento, que é a maior fake news do século XXI, pois sou ambientalista e ativista juramentado. Minha luta é contra a poluição em todos os sentidos (tem de reciclar todos os resíduos!!!), e ainda contra o consumismo, contra o excesso populacional do planeta (que é a causa principal da poluição), e até das imbecilidades praticadas pelas tribos ambientalistas e governos, especialmente a falta de terra ao redor dos troncos das árvores em nossas calçadas, que impedem as árvores de receber água em suas raízes, por isso ficam doentes, são atacadas por cupins e desabam, e a água que as árvores não absorvem rola sobre o asfalto, inundando tudo nas partes mais baixas das cidades.

A decisão do governo inglês, de qualificar os ambientalistas como terroristas, deve-se ao exagero do ativismo exótico e furioso praticado por certos grupos, de protestar de forma agressiva, de pretender legislar, impondo proibições e restrições à toda sorte de práticas humanas, urbanas ou rurais, como proibir sacolinhas e canudinhos de plástico, lutam para proibir coisas que em nada vão melhorar a vida da humanidade, entre elas os alimentos transgênicos. Organizados em ONGs "especializadas" eles metem o bedelho em tudo, seja proteção da Amazônia, proibição de pesca e de caça, defesa dos índios, minorias como quilombolas, e maiorias como LGBT (hétero, hoje em dia, parece ser minoria...), tudo em busca da sustentabilidade que o excesso populacional impossibilita ou torna utopia. Lutar a favor dos índios acho justo, mas há limites nisso.

A reação do governo inglês, por essa ótica, é uma ação que aparentemente faz sentido, pois as pessoas sentem-se encurraladas pela pressão dos ativistas do ambientalismo, cuja briga maior é a redução dos gases de efeito estufa (GEE). No caso dos ingleses, imputar ao ambientalismo a qualidade de terrorismo pode, quem sabe, outorgar direitos de qualquer 007 a fazer justiça com as próprias mãos. E isso pode acender uma fogueira enorme, que será difícil de apagar, pois os ânimos políticos que presenciamos, no mundo inteiro, andam pra lá de exacerbados.

Desejo que os ambientalistas tenham bom senso, pois se a moda pega vai complicar a vida de muita gente. Agora, convenhamos, que a Inglaterra é exótica e peculiar ninguém duvida disso, né não? De toda forma, pelo menos os ingleses possuem um humor refinado. Da minha parte, acho curiosa a situação de ambientalistas virarem terroristas, já que, sendo cético do aquecimento, mas sendo também um ambientalista, eis que os ambientalistas me combatem, me xingam de "negacionista", me desqualificam, até de terraplanista já me qualificaram. Num noticiário de TV, depois que fui entrevistado por uma repórter, os comentaristas reagiram de forma absolutamente hilária, pois "entenderam" que, pelo fato de eu ser cético do clima, eu não apoio o uso de vacinas, em verdade um crime de lesa-pátria. Na minha família todo mundo tomou todas as vacinas.

De toda forma, na Inglaterra, a partir de agora os ambientalistas serão combatidos como terroristas. Da minha parte já superei traumas do passado. Até o século passado meu sonho de consumo era ter uma espingarda de cano duplo, pra acabar com uma dupla de sertanejos com um único tiro. Depois, a evolução, o sonho passou a ser uma espingarda de cano triplo, pois incluía um ambientalista, afora a dupla sertaneja, para serem dizimados com tiro único. A questão é que, como afirmei, isso foi superado, mas as pessoas andam um tanto "eletrificadas", e reagem agressivamente a atos dos mais simples. Perguntar a alguém hoje em dia se está tudo bem, pode resultar numa resposta ácida, tipo "o que é que você tem com isso?". Pois então, assim vamos chegando a tempos em que os valores se acentuam, mudam, são esquecidos e  modernizados, e não duvido de que dentro em breve um sorriso amplo para alguém poderá ser considerado desaforo, ou bullying, aos que não têm dentes.

A pergunta que ninguém faz é: você sabe o que de fato está acontecendo com as relações humanas?

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segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Sexo, poder e dinheiro.

Richard Jakubaszko 
A trilogia sexo, poder e dinheiro é a mola mestra que impulsiona a humanidade desde tempos remotos, e teve início talvez logo depois de se inventar a escrita. Evidentemente que esse negócio de dinheiro veio algum tempo depois da escrita, mas consolidou-se num amálgama perfeito ao sexo e poder. Depois, quando Gutenberg desenvolveu os "pinos móveis", que permitiram o aparecimento da mídia impressa, o mundo mudou definitivamente, e quem já tinha algum poder exerceu mais influências ainda na sociedade da informação - como meio de se obter sexo, poder e dinheiro - do que a Queda da Bastilha, muitos séculos depois, ou do que se fermentou antes durante a Inquisição ou mesmo na Renascença.

Hoje, a humanidade continua a mesma, o mundo "evoluiu", ficou mais sofisticado, e por consequência muito mais complicado, a mídia diversificou-se desde Gutenberg, assumiu formatos diferenciados de engajamento com os poderosos (rádio, cinema, TV, internet, celular), mas o jogo estratégico de conquista e manutenção do poder revelou-se extremamente sutil, especialmente quando executado por especialistas do marketing, seja no campo político, religioso, ambiental ou dos mercados financeiros e de consumo de massa. Atualmente, o poder midiático é fundamental para a dominação e manobra da opinião pública, seja por TV ou jornais, mas a internet, através das redes sociais, exerce um contraponto interessante e que vai estabelecer a necessidade de os historiadores no futuro quebrarem cabeça para avaliar as realidades das importâncias de cada segmento da comunicação nas influências da "opinião do consenso", conhecido também como pensamento único, onde decisões emocionais e pontuais predominam, seja numa eleição, no consumo ou no comportamento da população. Todo mundo hoje tem opinião sobre absolutamente tudo, mesmo em temas complexos e de alta capilaridade nas influências sobre a sociedade humana como um todo. E isso serve como apoio para quem detém o poder, pois foi deste poder que o consenso foi gerado e amplamente divulgado, invariavelmente submetendo-se as agendas específicas aos objetivos de interesses econômicos e políticos, e até mesmo ideológicos, tudo junto e misturado.

O exemplo mais concreto disso é o "politicamente correto", como distorção da realidade, um pré condicionamento para evitar confrontos, pois o poder não admite a existência de debates ou polêmicas. A mídia, as TVs especialmente, direcionam a sociedade, seja nos noticiários, comandados por um jornalismo engajado, e até mesmo nas telenovelas e programas de auditório, e nessa faixa muito estreita o politicamente correto faz fronteira com o ridículo, seja na economia, na política ou em tendências sociais. O fenômeno não é apenas brasileiro, ocorre na maioria dos países ocidentais, e até mesmo na Ásia e Extremo Oriente, onde o processo avança a passos largos, internacionalizando, digamos assim, ou ocidentalizando os orientais, educando e "evangelizando" os latino-americanos. Pura hipocrisia, no estado da arte.

Aparentemente a guerra é entre esquerda e direita, pelo menos como pano de fundo, mas há um surdo movimento de embate entre capital e trabalho, em que lutas fratricidas se espraiam através das páginas dos jornais ou nas telinhas, e o mais importante parece ser o que não sai publicado nesses espaços midiáticos, especialmente quando o judiciário ou alguém poderoso está envolvido, o  que não é um fenômeno nacional, mas universal. Acompanhar esse mosaico de tendências requer extremo cuidado, pois as chamadas fakenews estão presentes, direcionando a imbecilização da população, especialmente a classe média, que assim se torna o fermento polarizador dos movimentos sequenciais no tabuleiro, onde jogamos todos nós as convicções que nos são apropriadas ou dos desejos alimentados por sonhos e utopias, impregnados em todas as células de nosso DNA.

A trilogia "homenageada" neste texto estabelece e define, portanto, os interesses e conveniências dos atores participantes de cada imbróglio semeado em todos os pontos do planeta, seja na política, na economia, nas tendências da moda e até mesmo, e principalmente, na questão climática, onde o jogo é de cachorro grande e as utopias (ou seriam ameaças?) disruptivas prometem a perspectiva de muita grana para cair na bolsa de cada agente influenciador, seja vendedores de usinas eólicas, solares ou nucleares, mas até mesmo nos caixas das ONGs, financiadas por esses interesses para convencer a mídia, e os políticos no poder, de que existe o aquecimento. No momento, atacam como se fossem terroristas, prometem e ameaçam o início do fim do mundo para todos, estabelecendo o pânico, para que este medo abençoe, viabilize, e autorize as decisões emocionais a serem tomadas pelos políticos, de incentivos às práticas de sustentabilidade. Em nome da precaução, portanto, tome paulada na sociedade, seja em forma de atos legislativos e regulatórios, proibições, novos impostos, novas regras de consumo, algumas proibidas, outras autorizadas.

A sociedade humana, na busca individual e até mesmo no coletivo, tem por objetivo, guardadas as devidas proporções, o status ideal da elite, busca ser igual, deseja ascender social e economicamente, almeja o ser aceito, pretende ter, e quando conquista o ter fixa novos horizontes e desideratos futuristas, alimentando o redemoinho dos sonhos humanos, sempre crescentes, nunca atingíveis. O ter substituiu o ser, desvirtuando a importância de que chega ao poder, que só existia se se tinha o ser. A verdade é que, com uma população superior a 7,5 bilhões de pessoas hoje no planeta o ambiente se tornou inóspito e alguns esperam (e outros desejam) uma hecatombe ambiental (um dilúvio?), quem sabe uma guerra nuclear regional, ou talvez uma pandemia, tipo peste negra no período medieval europeu, ou algum outro evento inesperado, que proporcionaria uma redução aguda nos números demográficos absolutos, dizimando de 2 a 3 bilhões de pessoas de uma só vez, especialmente em países pobres, reduzindo as demandas, e, por tabela, a pressão nas caldeiras das agendas políticas e econômicas. Nesse sentido, as 17 Metas da Sustentabilidade divulgadas pela ONU são ridículas e inócuas, pois eles não obtiveram nenhum sucesso nas 3 Metas do Milênio, que previam acabar com a fome, entre outras utopias. Nesse sentido, os governos dos países desenvolvidos, e a própria ONU, adotaram Thomas Maltus como guru do futuro. Malthus foi quem previu que a produção de alimentos seria insuficiente para atender à crescente população. Recomendava, ao fim, que os líderes incentivassem as populações pobres a lutarem (e se matarem) para conquistar o pão de cada dia.

Independentemente da guerra atual na busca do poder e do dinheiro, o sexo banalizou-se, mas nem por isso deixou de ser parte integrante da trilogia. Pelo contrário, a diversidade de gêneros, hoje exposta de forma clara e transparente, introduziu outros atores no conflito, tornando o jogo mais competitivo ainda, e mais dramático, na medida em que desde a 2ª Grande Guerra a mulher entrou na batalha pelo poder, pelo dinheiro, e pela sobrevivência, seja nas empresas ou na política. Como contraponto a isso, as famílias estruturadas, como era norma antigamente, são cada vez mais raras, devido aos conflitos estabelecidos, em que os jovens, símbolos da síndrome do filho único, não aceitam dividir direitos, e pior, não desejam assumir responsabilidades e deveres. Ao primeiro problema, cortam-se as relações e estabelece-se o conflito. Na corda bamba dessa insanidade moderna encontram-se a individualidade e o egoísmo. A primeira, própria dos filhos únicos, mas sem exclusividade. A segunda, incentivada por psiquiatras e psicólogos.

Diante de tanta egolatria, as religiões, especialmente as igrejas pentecostais e neopentecostais, estabelecem seus territórios de domínio, ou seja, do poder, e com ele o dinheiro, mantendo notável atividade política. Algumas religiões, especialmente as evangélicas, atuam de forma estruturada, espalhando o ódio contra quem pensa ou age diferente de seus líderes e seguidores. Apoiados financeiramente por políticos e governos, incentivam os combates, de forma sofisticada, com um marketing agressivo, onde o assassinato de reputações é a ferramenta mais utilizada. O que conduz o embate universal a um círculo vicioso e perverso, de onde não se encontram saídas do labirinto.

No embalo das insanidades que se amontoam diariamente, a grande mídia atua como regente, sempre a pretexto de defender a população, mas na realidade como porta-voz das elites políticas e empresariais, cujos interesses escusos prenunciam a inviabilidade política e financeira de se executar projetos sociais que beneficiem a parte da população mais pobre, excluída de participar dos benefícios sociais parcialmente conquistados, especialmente saúde e educação. Por que, como sempre, as elites negam-se a pagar impostos, e estabelecem meios de sobreviver confortavelmente às custas do beneplácito e do butim dos governos.

A continuar a situação, entramos no caos político e social de uma falsa democracia. Pela ausência de lideranças mundiais e locais para conduzir as manadas humanas a planícies verdejantes e seguras, estamos iniciando o pré apocalipse. Antes que o fim ocorra, já que para o precipício nos encaminhamos, haverá o grito de liberdade e justiça por parte dos excluídos, questões mais importantes do que sexo, poder e dinheiro, que ocorre quando a sobrevivência está em jogo. Há necessidade de que se estabeleça o bom senso, de entregar os anéis para que não se percam os dedos e a vida. A Queda da Bastilha, como referencial histórico, é exemplo ignorado e providencialmente esquecido na genética da humanidade. Logo, é fácil concluir que, a continuar como está o carnaval da besta, poderá não restar pedra sobre pedra.
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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Fome e injustiça

Richard Jakubaszko
Crianças da etnia Rohingya esperam por alimentos. Mais de 1 milhão de pessoas estão nessa diáspora, que há meses vem sendo praticada impunemente. São “apenas” pessoas, mas é muita gente, e isso se torna uma estatística banal; são todos pobres, muçulmanos, refugiados, é uma guerra étnica, há fuga, perseguição e expulsão de Myanmar, depois são trancafiados em campos de refugiados, melhor dizendo, campos de concentração em Bangladesh. Todos com fome, inclusive crianças.

É um horror perceber que o mundo contemporâneo e capitalista não fica mais indignado com as injustiças, com o terrorismo de estado praticado por nações ricas, e também por nações pobres.

O mundo moderno não comporta solidariedade. Não se sabe mais o que é isso. Perdeu o sentido. O mundo contemporâneo sente piedade de uma baleia, de um urso, de um macaco ou de um pássaro, mas seres humanos, ou crianças com fome, injustiçadas, perseguidas e massacradas, não despertam qualquer tipo de sentimento, nem das pessoas e nem da mídia.

Liberdade, igualdade, fraternidade. A revolução francesa inverteu a lógica e a espiritualidade da vida. Há que se começar pela fraternidade.

Deus deve saber o que está acontecendo, e por que.

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sábado, 8 de abril de 2017

Síria e Trump: acabou-se a lua de mel. USA é sempre USA.

Luis Amorim (de Portugal)

Pentágono treinou "rebeldes" da Al Qaeda na Síria na utilização de armas químicas
por Michel Chossudovsky

Os media ocidentais refutam as suas próprias mentiras. Eles não só confirmam que o Pentágono tem estado a treinar os terroristas na utilização de armas químicas como também reconhecem a existência de um não tão secreto "plano apoiado pelos EUA para lançar um ataque com armas químicas na Síria e culpar o regime de Assad". Leia aqui.


O Daily Mail de Londres, num artigo de 2013, confirmou a existência de um projeto anglo-americano endossado pela Casa Branca (com a assistência do Qatar) para efetuar um ataque com armas químicas na Síria e atribuir a culpa a Bashar Al Assad.

O artigo seguinte no Mail Online foi publicado e a seguir removido. Note-se o discurso contraditório: "Obama emitiu advertência ao presidente sírio Bashar al Assad", "Casa Branca dá sinal verde a ataque com armas químicas".

Esta reportagem no Mail Online publicada em Janeiro de 2013 foi removida a seguir. Para mais pormenores clique aqui.

O treino do Pentágono de "rebeldes" (também conhecidos como terroristas do Al Qaeda) na utilização de armas químicas.

A CNN acusa Bashar Al Assad de matar seu próprio povo enquanto também reconhece que os "rebeldes" não só estão na posse de armas químicas como também que estes "terroristas moderados" filiados à Al Nusra são treinados na utilização de armas químicas por especialistas sob contrato com o Pentágono.


Numa lógica enviesada, o mandato do Pentágono era assegurar que os rebeldes alinhados com a Al Qaeda não adquiririam ou utilizariam ADM, ao realmente treiná-lo na utilização de armas químicas (soa contraditório):

"O treino [em armas químicas], o qual está a realizar-se na Jordânia e na Turquia, envolve como monitorar e proteger estoques de matérias-primas e manusear sítios e materiais com armas, de acordo com as fontes”. Alguns dos empreiteiros estão no terreno na Síria a trabalhar com os rebeldes para monitorar alguns dos sítios, segundo um dos responsáveis.

A nacionalidade dos treinadores não foi revelada, embora os responsáveis previnam contra a hipótese de serem todos americanos. (CNN, 09/Dezembro/2012). 
Captura de écran do artigo da CNN. O link original foi redirecionado para blogs da CNN.

Quem está a efetuar o treino de terroristas na utilização de armas químicas? De fonte confiável: a CNN. 

E estes são os mesmos terroristas (treinados pelo Pentágono) que são os alegados alvos da campanha de bombardeamento antiterrorista de Washington iniciada por Obama em Agosto de 2014:

"O esquema estabelecido pelo Pentágono em 2012 consistiu em equipar e treina rebeldes da Al Qaeda na utilização de armas químicas, com o apoio de empreiteiros militares contratados pelo Pentágono – e a seguir sustentar que o governo sírio era responsável por utilizar as ADM contra o povo sírio.

O que está a desdobrar-se é um cenário diabólico – o qual é uma parte integral do planeamento militar – nomeadamente uma situação em que terroristas da oposição aconselhados pelos empreiteiros ocidentais da defesa estão realmente na posse de armas químicas.

Isto não é um exercício de treino rebelde em não-proliferação. Enquanto o presidente Obama declara que "você será responsabilizado" (se "você", referindo-se ao governo sírio) utilizar armas químicas, o que é contemplado como parte desta operação encoberta é a posse de armas químicas pelos terroristas patrocinados pelos EUA-NATO, nomeadamente "pelos nossos" operacionais filiados à Al Qaeda, incluindo a Frente Al Nusra, a qual constitui o mais eficaz grupo combatente financiado e treinado pelo ocidente, em grande parte integrado por mercenários estrangeiros. Numa distorção amarga, Jabhat al-Nusra, um "ativo de inteligência" patrocinado pelos EUA, foi colocado recentemente na lista de organizações terroristas do Departamento de Estado.

O ocidente afirma que vem para resgatar o povo sírio, cujas vidas estão alegadamente ameaçadas por Bashar Al Assad. A verdade é que a aliança militar ocidental não só está a apoiar os terroristas, incluindo a Frente Al Nusra, como também a tornar disponíveis armas químicas para a sua "oposição" de forças rebeldes.

A fase seguinte deste cenário diabólico é que as armas químicas nas mãos de operacionais da Al Qaeda serão utilizadas contra civis, o que potencialmente poderia levar toda uma nação a um desastre humanitário.

A questão mais ampla é: quem é uma ameaça para o povo sírio? O governo sírio de Bashar al Assad ou a aliança militar EUA-NATO-Israel, a qual está a recrutar forças terroristas de "oposição", as quais estão agora a ser treinadas na utilização de armas químicas" (Michel Chossudosvsky - 08/Maio/2013). 07/Abril/2017 

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/
O presente artigo encontra-se em http://resistir.info/
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domingo, 28 de fevereiro de 2016

O sono da memória


Luis Fernando Veríssimo
Não há problema em publicar o Mein Kampf do Hitler, cujos direitos de edição recém-caíram em domínio público. O livro interessa a historiadores e estudiosos da psicologia de massa e a qualquer pessoa curiosa sobre o poder de suas ideias, um poder capaz de galvanizar uma nação e mudar radicalmente sua história. Eu só acho que as novas edições de Mein Kampf deveriam vir com um DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos descobertos em Auschwitz e outros campos de extermínio, no fim da 2ª Guerra Mundial. Cenas terríveis dos esqueletos das cidades bombardeadas e dos milhares de refugiados tentando sobreviver em meio aos escombros, enquanto o mundo ficava sabendo, nos julgamentos dos criminosos, das barbaridades cometidas em concordância com a kampf do Hitler. Assim, o comprador do livro teria o nazismo como teoria e o nazismo na prática. As ideias e suas consequências.

Novas edições de Mein Kampf deveriam vir com DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos em Auschwitz.

Seria bom se as ideias viessem sempre acompanhadas de suas consequências. As pessoas pensariam melhor no que dizem e pregam, para não terem remorso depois. Já se disse que muitas barbaridades teriam sido evitadas no mundo se existisse algo parecido com o remorso antes do fato, uma espécie de remorso preventivo. Não se imagina o próprio Hitler se arrependendo de suas teses e, diante dos horrores que elas desencadearam, dizendo “Ei, pessoal, não era nada disso!”. Está claro que no cerne patológico da pregação de Hitler há uma volúpia de destruição, um desejo secreto de caos que tem tanto a ver com o romantismo alemão quanto com a geopolítica da época. Mas outros não têm o mesmo motivo para desprezarem as consequências. Ou para esquecerem-se delas.

Naquela famosa legenda de uma gravura do Goya está escrito que o sono da razão cria monstros. Pior que o sono da razão, Goya, é o sono da memória. As pessoas que hoje defendem a volta da ditadura militar no Brasil esqueceram-se de como foi. Esqueceram-se das prisões arbitrárias, das torturas, do terror e dos assassinatos de Estado, da censura, do número de estrelas nos ombros como única credencial para governar. Se não lhes falta memória, lhes falta razão. Ou miolos.

O Jair Bolsonaro, principal proponente da volta à ditadura, é o deputado mais votado do Rio. Tem uma multidão de apoiadores. E tem mais do que isso: na recente mudança no Comando Militar do Sul, Bolsonaro foi um convidado especial do novo comandante para a cerimônia de posse. Não se sabe se o comandante também é um nostálgico como ele. De qualquer maneira, tenho tido longas conversas com a minha paranoia, tentando acalmá-la.

Publicado originalmente em O Globo, em 31/1/2016:

Republicado do blog Limpinho & Cheiroso: http://limpinhoecheiroso.com/2016/02/04/luis-fernando-verissimo-o-sono-da-memoria/

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quinta-feira, 19 de novembro de 2015

O alto preço de não dar valor à vida dos outros.


Claro que temos que repudiar, lamentar e condenar os atos terroristas em Paris. Foram atentados contra população civil, matando inocentes, muitos, talvez, opositores das intervenções militares da França e aliados na Síria, Líbia, Iraque, Afeganistão.

Se quisermos viver em um mundo melhor, que possa ser chamado de civilizado, precisamos considerar cada vida humana preciosa demais para aceitarmos que seja tirada. Não podemos aceitar o ato de matar como meio para atingir fins. Não matarás e ponto final.

Só que, infelizmente, enquanto os países imperialistas não derem esse mesmo valor à vida do africano, do árabe, do palestino, do afegão, haverá aqueles que, com a morte fazendo parte de seu cotidiano de guerras, sem dar valor à própria vida a ponto de se explodirem, também não darão valor a vida dos franceses, estadunidenses, ingleses etc.

Não construiremos um mundo melhor de se viver se aceitarmos a barbárie de atos terroristas. Mas só restará repudiar, lamentar e condenar os atos, enquanto a barbárie da política de guerra e da indústria bélica imperialista continuar destruindo vidas em países mais pobres para saquear suas riquezas e dominar a geopolítica.

Hollywood está repleta de filmes clássicos do velho oeste, onde uma criança viu sua família trabalhadora, pacífica e honesta ser dizimada por um bando de pistoleiros a mando de um poderoso vilão, dono de terras, ferrovia ou mina. A criança cresce e volta para vingar-se, como um herói fazendo justiça ao matar um por um os algozes de sua família. Será que essa história não passa também na cabeça de um menino iraquiano, afegão ou sírio, que teve sua família dizimada por bombas das forças europeias ou estadunidenses?

Ninguém nasce odiando os outros. O ódio é meticulosamente construído. Pelo opressor por ganância, egoísmo, sociopatias ou simplesmente preconceito e intolerância. O ódio do oprimido é construído pelo sofrimento, injustiça e humilhações impostas pelo opressor.

Quem tem o maior domínio sobre como desarmar o ódio, pelo menos no caso de países, é o opressor. Mas para isso é preciso parar de oprimir. A própria França tem lições em sua história. Na Argélia só teve paz dos argelinos quando reconheceu a independência. 

Publicado em  http://osamigosdopresidentelula.blogspot.com.br/2015/11/o-alto-preco-de-nao-dar-valor-vida-dos.html?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+blogspot/Eemp+%28Os+Amigos+do+Presidente+Lula%29
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