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terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Um Nobel para o Brasil

Roberto Rodrigues *
Em 1970, o grande engenheiro agrônomo norte-americano Norman Bourlaug ganhou o prêmio Nobel da Paz por sua inestimável contribuição para o aumento da produção de alimentos nos países em desenvolvimento: multiplicou por 5 a produtividade do trigo no México e em países africanos. Seus conterrâneos calcularam que isso havia salvo da fome um bilhão de pessoas. Sabendo que não haveria paz onde houvesse fome, a Academia do Nobel conferiu a Bourlaug, com toda justiça, aquele galardão.

Foi a última vez que o Nobel da Paz teve uma conexão direta com a atividade rural. E já se passaram 50 anos!

Desde então, a agropecuária e o agronegócio tiveram um desenvolvimento espetacular em todo o mundo, mas em especial nos países tropicais, entre os quais se destacou o Brasil. Quando Bourlaug recebeu seu prêmio, o Brasil importava 30% dos alimentos que consumia, desde o feijão até o leite, passando por carne, trigo e mesmo arroz. Em 1976, produzíamos 47 milhões de toneladas de grãos e hoje, 242 milhões. A produção das carnes (bovinos, aves e suínos) era de 2,7 milhões de toneladas e hoje é de 28,7 milhões. E o Brasil se transformou desde então em um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo, levando segurança alimentar para bem mais de um bilhão de pessoas.

Claro que isso se deve aos avanços tecnológicos extraordinários, ao empreendedorismo dos nossos produtores rurais e a algumas políticas públicas que se sucederam desde então.

Mas sempre tem alguém que inspira e aponta o caminho em evoluções tão impressionantes.

E nós temos um gigantesco herói nesse processo: um engenheiro agrônomo mineiro que comandou a maior revolução tropical agrícola da história. Chama-se Alysson Paolinelli e é impossível contar sua saga no espaço de um artigo.

Paolinelli era o jovem Diretor da Escola Superior de Agricultura de Lavras, Minas Gerais, quando foi convidado pelo Governador Rondon Pacheco para ser Secretário de Agricultura de seu estado. Lá organizou o sistema de pesquisa agropecuária e de extensão rural com resultados tão rápidos que chamou a atenção do Presidente Ernesto Geisel e este o convocou para assumir o Ministério da Agricultura e Pecuária do Brasil. Daí em diante desfraldou com coragem a bandeira da autossuficiência alimentar brasileira, a partir da montagem da Embrapa onde, liderando uma equipe brilhante, partiu para a conquista do cerrado brasileiro.

Criou o Prodecer - Programa de Desenvolvimento do Cerrado, numa parceria entre os governos do Brasil e do Japão. Para esse empreendimento gigantesco, Paolinelli chamou as cooperativas agropecuárias do sul e do sudeste, e dessa maneira trouxe os pequenos produtores profissionais daquelas regiões. Com a tecnologia tropicalizada pelos técnicos da Embrapa que Paolinelli e seus companheiros tinham enviado para fora a estudar as rotas tecnológicas mais modernas, o cerrado explodiu em produção e produtividade, atraindo investidores de outras regiões do país. A soja, a bracchiaria e o zebu foram a ponta de lança dessa conquista e atrás dela vieram o milho e a produção de frangos e suínos, o café, a cana de açúcar, o algodão e as frutas.

Paolinelli também criou o Polocentro para estimular ainda mais a região central, e participou do Proalcool, maior programa mundial de alternativa ao petróleo cujos preços tinham aumentado muito nos anos anteriores. Montou programas de irrigação em grande escala no Nordeste e no Sudeste, viabilizando produções intensivas, sempre apoiando o agricultor.

Depois que saiu do governo, seguiu sua missão: foi Deputado Federal Constituinte e teve papel central na criação da Frente Parlamentar da Agricultura, que emplacou na Constituição de 1988 a novidade da Lei Agrícola. Foi presidente da CNA, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, modernizando a instituição que tem a representação legal do setor, e aí ajudou a criar e a liderar a Frente Ampla da Agropecuária Brasileira que tantas conquistas trouxe ao campo.

Como produtor rural, aplicou a integração Lavoura Pecuária Floresta desenvolvida pela Embrapa e impulsionou esse programa em 2005.

Hoje preside a Associação Brasileira de Produtores de Milho e o Fórum do Futuro, onde estuda os nossos Biomas, convencido de que a sustentabilidade da produção é a base da competitividade e será obtida com as tecnologias disruptivas.

Professor admirado, conferencista emérito, conselheiro de empresas e instituições, consultor global, Paolinelli tem um legado imensurável na transformação do Brasil na grande potência mundial do agronegócio, e no papel do país na alimentação de pessoas no mundo todo. Isso faz dele o maior brasileiro vivo.

Paolinelli segue batalhando para acabar com a fome, em busca da paz universal. Nada mais correto, então, do que este ilustre brasileiro receber o Nobel da Paz. É tempo de trabalhar por esse merecido troféu.

* Coordena o Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas, foi ministro da Agricultura.


NOTA DO BLOGUEIRO: 
Quem deseja votar acesse: http://chng.it/F4ZtJtkv
 


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sábado, 21 de janeiro de 2017

Brava gente (Excertos)



Roberto Rodrigues *
Assisti o Brasil sendo construído com duro trabalho incessante. Vi os primeiros gaúchos chegarem a São Gabriel do Oeste em cima de velhos caminhões de mudança deixando para trás tudo o que tinham, inclusive sua história familiar. Abastecia então o carro em postos precários, onde frentistas eram meninos e meninas de olhos azuis, pés descalços e mal vestidos, mas trazendo no rosto a coragem e a determinação de seus pais em plantar o futuro. Eram campos de terra fraca, desprezados pelos tradicionais agricultores do Sudeste. Passo lá agora e vejo centenas de milhares de hectares com a soja bufando, já no "canivete".

Esta gente extraordinária, mulheres e homens que batalham todos os dias, anos a fio, arrostando dificuldades de toda ordem, estão construindo de fato o nosso Brasil.

Esta gente extraordinária, mulheres e homens que batalham todos os dias, anos a fio, arrostando dificuldades de toda ordem, estão construindo de fato o nosso Brasil, ...a todo este imenso sertão brasileiro, não saberá jamais quem faz esse País bombar.

Toda essa brava gente brasileira quer progredir e avançar socialmente, não importando se são pequenos, médios ou grandes. Todos mourejam o dia todo torcendo ora por sol, ora por chuva, e sonham todas as noites com um futuro melhor para seus filhos e netos. E transformam seus sonhos na bela realidade do agronegócio brasileiro pujante e competitivo, sustentável e moderno.

Toda essa gente está preocupada com a brutal crise econômica, social e política em que maus gestores meteram o Brasil. Mas, apesar dessa crise sem precedentes, toda essa gente destemida continuará a plantar, tratar e colher sua soja, seu milho, seu algodão, seu arroz e feijão, seu café, sua cana-de-açúcar, suas frutas e verduras, seu cacau, suas pastagens, sua seringueira, seu tabaco, seu amendoim e seu girassol. Vai transformar grãos em carne de frango, de suínos e em leite e derivados, e pastos em carne bovina. Vai plantar eucaliptos e pinheiros, vai dar mercado para quem produz insumos e serviços, vai fornecer a matéria-prima para a indústria de alimentos e bebidas, de moda, de móveis e de livros. Vai gerar empregos, riqueza e renda. Vai abastecer todos os brasileiros e vai alimentar milhões de estrangeiros. Vai continuar com sua inquebrantável bravura a construir uma grande Nação.

Divulgado em 16.01.2017. O texto foi enviado pelo amigo Fernando Penteado Cardoso, engenheiro agrônomo, turma de 1923 da Esalq.

* o autor é engenheiro agrônomo, ex-ministro da Agricultura.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

60 anos da República Jacarepaguá (Esalq/USP)

Richard Jakubaszko
Entrevistei dois jacarepaguanos no Portal DBO, os jovens Xavier e Egito, para falar do evento Desafios do Agronegócio, que vai acontecer dia 14 de agosto próximo (sexta-feira) no anfiteatro da Esalq, em Piracicaba/SP.
Aos esalqueanos fica o convite: participem do evento, vai ser divertido e produtivo. Até o ex-ministro Roberto Rodrigues (esalqueano da turma de 1965) estará presente: vai fazer a palestra de abertura, e vai encerrar o evento.

Veja a programação no link, onde você poderá se inscrever: 
Inscrições e mais informações em www.desafiosagronegocio.com
Abaixo a entrevista, onde o Xavier, apesar de ser a primeira vez que enfrenta uma câmera, saiu-se muito bem como entrevistado.

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domingo, 1 de maio de 2011

Uma agressão ao nosso agronegócio

Roberto Rodrigues *
Em dezembro do ano passado a ONG Friends of the Earth Europe publicou um “estudo” chamado “Da floresta para o garfo: como a pecuária, a soja e o açúcar estão destruindo as florestas do Brasil e afetando o clima”.

O documento teve apoio financeiro da Comissão Européia, embora no prefácio esteja explicitado que não reflete a opinião do financiador. Ainda bem, porque destaca que a expansão da agropecuária no Brasil coloca em xeque o futuro da floresta amazônica e chama a atenção para o fato de que, sendo a Europa o maior mercado do agronegócio brasileiro, ela é, em parte, responsável por esse problema.

O “estudo” é um conjunto de críticas ao agronegócio nacional, onde o Brasil é caracterizado como o 4º maior emissor de CO2 do mundo, e 75% desta emissão viriam da agropecuária e das mudanças de uso do solo. Diz que a expansão da pecuária, da soja e da cana – causariam impactos negativos de caráter social, com a exclusão dos pequenos e médios produtores familiares, o que colocaria em risco a produção de alimentos, aumentaria o desemprego e os preços da terra, encarecendo a implementação necessária da reforma agrária.

E arremata propondo:

- que a União Européia adote medidas urgentes para reduzir a importação de ração animal e carnes do Brasil, incluindo a reforma da política agrícola do bloco (mais protecionismo!!!).

- apoiar o direito de propriedade dos pequenos produtores e dos povos indígenas no Brasil.

- fortalecer as leis ambientais no nosso país.

- rejeitar o comércio de crédito de carbono das florestas, incluindo a regra de REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação).

Como o “trabalho”, foi financiado e publicado com apoio de Comissão Européia, ganha credibilidade.

E, ao apontar para os “perigos” da expansão da soja, da cana e da pecuária no nosso país, a ONG claramente manifesta a necessidade de brecar isso. Ou seja, afastar o eficiente competidor do mercado. Um dado “assustador”: em 2020, a área da soja no Brasil poderá ser do tamanho da Nova Zelândia, ou 26,85 milhões de hectares. Apenas não informa que o Brasil tem 851 milhões de hectares, e isto seria apenas 3,5% do nosso território.

O estudo explora o desconhecimento da geografia. E ignora que o Plantio Direto, praticado entre nós desde a década de 70, melhora as características físico-químicas e biológicas da terra, reduz a incidência de erosão, e economiza óleo diesel, reduzindo as emissões de CO2, ocupando 26 milhões de hectares no Brasil! Ignora ainda os expressivos aumentos na produtividade da soja por hectare, reduzindo a demanda por novas áreas; desconhece a inoculação com Rhizobium que elimina a adubação nitrogenada nesta cultura; faz de conta que não sabe nada sobre a moratória da soja, através da qual os processadores desta oleaginosa não compram o produto oriundo de desmatamento desde 2006; e ignora os programas de governo chamados de ABC – Agricultura de Baixo Carbono, crescentemente exitosos...

Quanto à cana, há erros, como afirmar que os canaviais são fonte de emissão de CO2, esquecendo que a cana absorve CO2 em seu desenvolvimento, e que a partir de 2014 não haverá mais a queima desta gramínea para colheita: será feita com cana crua, mecanicamente. Não cita que as emissões de CO2 do etanol, considerando todo o ciclo da cana, são apenas 11% das emissões da gasolina; desconhece o zoneamento feito pela EMBRAPA o que exclui o Pantanal e a Floresta Amazônica da expansão da cana.

E, sobre a carne, é flagrante o medo da nossa explosiva competitividade, apesar de todos os problemas reais que temos como sanidade e pastagens degradadas.

Enfim, trata-se de mais uma agressão ao nosso agronegócio, metendo-se inclusive em questões políticas internas, sem a menor elegância.

É uma pena que gente inteligente e bem intencionada seja enganada por “trabalhos” desta natureza, tão parciais e comercialmente comprometidos.


* engenheiro agrônomo, professor da UNESP Jaboticabal, ex-ministro da Agricultura, presidente do Conselho de Agronegócio da FIESP e coordenador do Centro de Agronegócio da FGV-EESP.
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