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terça-feira, 16 de dezembro de 2014

O Big Bang brasileiro

Rogério Arioli Silva *
O advento da delação premiada para o Brasil pode ser comparado com a descoberta do bóson de Higgs para o restante do mundo. A existência desta partícula - que havia sido prevista em 1964, foi confirmada em 14 de março de 2013, e reafirmou algumas teorias que necessitavam da sua comprovação para serem legitimadas. A delação também fez isso. Todo mundo falava, todo mundo sabia da presença da corrupção. Entretanto, ninguém tinha a coragem (?) de assumi-la, como sendo o cordão umbilical das relações incestuosas com o estado brasileiro.

Somente existiram condições tecnológicas de provar a existência do bóson após a construção, em 2008, do Grande Colisor de Hádrons. Esse imenso laboratório de 27 km de extensão e 175 m de profundidade, localizado na fronteira entre a França e a Suíça é uma espécie de pista de corrida de partículas. Postas a correr numa velocidade próxima à da luz elas irão colidir, simulando o que ocorreu no Big Bang, ou seja, no momento da criação do universo.

Certamente os túneis escavados pelas grandes construtoras brasileiras por onde, historicamente, transitam os bilhões surrupiados serão bem maiores do que estes míseros 27 km. Saem de Brasília e se ramificam para todos os locais do país onde alguma obra pública esteja prevista. São canais subterrâneos imensos onde habitam ratos de terno e gravata, sejam empresários, políticos e autoridades de governos que se esgueiram nas sombras fétidas do esgoto brasileiro. Graças a isso faltam esgotos no país e pessoas morrem de doenças ligadas à falta de saneamento básico.

Essa quadrilha tem seu “modus operandi” aperfeiçoado ao longo de décadas de vida nas sombras. Historiadores dizem que o país já começou mal e a corrupção veio junto com as caravelas portuguesas. Não importa se é verdade ou não. O que importa é que agora, com a delação, ela possa diminuir, embora seja muito difícil que termine nesta geração. Na ânsia de salvar a própria pele os corruptos viraram delatores. Essa é a característica dos roedores. Alteram seus hábitos alimentares de acordo com as circunstâncias, podendo tornar-se predadores uns dos outros. É o caso, agora. Se alguém imaginava existir alguma ética nesses assaltantes do dinheiro público, enganou-se.

Não cabe a indignação com aquele advogado que, na defesa do seu cliente, afirmou não ser colocado nenhum paralelepípedo no Brasil sem o devido pagamento de propina. A única ressalva é o termo usado. Propina é um termo pesado demais. Que tal comissão? Ou quem sabe “agrado”? De todo modo, apesar da crueza do termo, ele está coberto de razão. Ao invés da justiça criticá-lo, pela exposição de tão dura realidade, seria melhor enquadrá-lo. Aliás, por que não enquadrar todo o advogado que defende o corrupto, se este for efetivamente condenado?

Todo cidadão tem o direito à defesa, é o que dirão os arautos dos direitos humanos. Entretanto, aqueles humanos que não são corretos devem pagar pelos seus crimes, e essa responsabilidade deveria também atingir alguns advogados, sim. Se eles também são pagos com o dinheiro oriundo da corrupção, não há porque não enquadrá-los. Pode ser a garantia de que pelo menos os mais caros e famosos declinarão da defesa de alguns figurões corruptos e endinheirados.

A partícula de Deus, como é popularmente conhecido o bóson de Higgs, tem potencial para destruir o universo, alertou o famoso físico inglês Stephen Hawking. Segundo ele, apesar de improvável, ao atingir elevados níveis de energia, a partícula poderá tornar-se instável, provocando uma decadência do vácuo e um colapso do espaço-tempo. Seja lá o que isso signifique, não se imagina que a delação premiada tenha o mesmo poder. Todavia, contém o potencial de provocar grandes danos a um governo que está apenas começando. Dependendo da postura assumida, se houver leniência, ou qualquer tipo de interferência dos poderes constituídos no aprofundamento das investigações, haverá resposta das ruas.

A parte da sociedade que age com honestidade e retidão de princípios não consegue mais conviver com a carne putrefata daqueles que, ao invés de servir o cidadão, servem-se dele de maneira gananciosa e imoral. Essa doença contagiosa que metastaseou-se em grande parte dos órgãos brasileiros precisa ser tratada com o devido rigor, nem que isso signifique sua extirpação pura e simples. Pelo menos a parte restante viverá com a devida dignidade. O mundo descobriu a partícula de Deus. A delação premiada levou o Brasil a descobrir, sem querer, a linguagem do Diabo.


* o autor é engenheiro agrônomo e produtor rural no MT.
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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Rengueando cusco


Rogério Arioli Silva *

Lá pelos lados do Rio Grande do Sul quando o frio é muito intenso os gaúchos usam o termo “frio de renguear cusco”. Para os menos conhecedores do vocabulário campeiro seguem as devidas explicações aurelianas: renguear é um verbo transitivo indireto que significa tornar-se coxo ou mancar-se, ou ainda, claudicar. Cusco, por sua vez, significa cão pequeno, de raça comum, podendo até mesmo incluir-se na categoria de “guaipeca”. Pois é esse friozinho que deve acontecer na América do Norte neste início de 2014.

Segundo algumas previsões meteorológicas nos próximos dias poderão acontecer temperaturas abaixo de 34°C negativos e, em alguns locais onde venta muito, como a cidade de Chicago, por exemplo, é possível que a sensação térmica atinja temperaturas ao redor de 50°C negativos. Mais de 800 voos já foram cancelados no território americano, sendo que 94 deles apenas no aeroporto JFK em Nova Iorque. Para desespero dos catastrofistas ambientais que, há bem pouco tempo, previram ondas de calor insuportáveis e o término da agricultura em muitos locais do planeta, esse frio é ainda mais dolorido.

Em 2012 aconteceram recordes de temperaturas baixas na Europa, inclusive causando a morte de centenas de pessoas em países como a Polônia, Ucrânia, Bulgária, Romênia além da Grécia, Itália e França. O Rio Danúbio ficou congelado em vários quilômetros, algo que não acontecia há 30 anos. Também a região da Sérvia e Montenegro registraram as temperaturas mais baixas dos últimos 50 anos. O verão de 2013 foi considerado um dos mais frios dos últimos 200 anos na Europa, o que causou desânimo a muitos arautos dos fins dos tempos que, certamente, foram obrigados a reutilizarem cachecóis e sobretudos já quase aposentados.

Informações da NASA (Agência Espacial Norte Americana) registram que nos invernos de 2010 e 2013 a Antártida ficou ainda mais fria, segundo uma tendência que vem acontecendo nos últimos 35 anos. Na região de Vostok, na Antártida, houve registro de temperatura de 93,2 °C negativos na data de 10/08/2010, a menor desde que a mesma vem sendo medida. A superfície gelada daquela região também vem crescendo há um quarto de século. Negligenciando essas informações, o barco de bandeira russa “Academic Shokalsky” tripulado por uma equipe de estudiosos do aquecimento global e capitaneados pelo professor australiano Chrys Turney, aventurou-se naquele continente em busca de dados sobre o aquecimento global. Não deu outra: encalhou no gelo e seus ocupantes precisaram ser resgatados pelo quebra-gelo “Polar Star” da guarda costeira americana. Novamente, para vergonha dos aquecimentistas globais, os fatos insistem em pregar-lhes peças constrangedoras.

O cientista britânico James Lovelock, criador da hipótese de Gaia – nesta teoria a terra é considerada um superorganismo onde todos os eventos se inter-relacionam entre si ̶ realizou seu mea culpa em 2012 após prever, no ano de 2004, que milhões de pessoas morreriam em decorrência do aquecimento global. Reconheceu, com a humildade que falta a muitos cientistas modernos, que ainda sabe-se muito pouco sobre o clima da terra e que o alarmismo nem sempre gera bons frutos.

Na queda de braço entre os cientistas muitos também defendem a teoria de que a terra estaria entrando em uma nova era glacial. Os efeitos das explosões solares cada vez mais são considerados como fundamentais para a modificação do clima terrestre e ainda são muito pouco conhecidos. Nós leigos, muitas vezes confundimos o clima com o tempo, justificando mudanças de temperaturas diárias como se fossem “sinais” das alterações climáticas.

A paranoia do aquecimento global gerou negócios milionários pelo mundo afora e os países em desenvolvimento foram injustamente responsabilizados pelas consequências deste fenômeno. Os Estados Unidos e a China, respectivamente primeiro e segundo maiores emissores de gases de efeito estufa, não embarcaram muito nessa onda, sobrando para o Brasil a vanguarda nas ações contra o aquecimento. Essa proatividade brasileira ainda não rendeu nenhum arrefecimento no patrulhamento que o país sofre, pois ainda segue sendo rotulado, injustamente, como o inimigo público número um do meio-ambiente mundial.

Nesse início de ano, com o prenúncio das baixíssimas temperaturas da América do Norte, sugiro que aqueles que tanto divulgaram o aquecimento global escolhessem Nova Iorque para realizar seus protestos. Só recomendo que, assim como os gaúchos, procurem enfrentar esse baita frio com um grande e grosso poncho, além deixarem seus cuscos em casa, em nome do bem estar animal.

* O autor é engenheiro agrônomo e produtor rural no MT.
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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Purgante salino

Rogério Arioli Silva *   
A bula do produto ao lado mencionado o recomenda para constipações e repleção gastrointestinal nos bovinos, equinos, ovinos, caprinos, suínos e cães. O Google, atual “pai dos burros”, agora informatizados, ensina que constipação, intestinalmente falando, nada mais é do que prisão de ventre. Repleção gastrointestinal, por sua vez, é o conhecido empanzinamento ou timpanismo, ou ainda, uma distensão do rúmen bovino devido à incapacidade do animal expulsar os gases produzidos na fermentação dos alimentos. Feitas essas considerações veterinárias passo a defender, ardorosamente, a utilização desse produto para certo tipo de seres humanos.

Ao assistir na semana passada um programa televisivo onde foi promovido o debate sobre a situação do pré-sal, suas consequências e desdobramentos ao futuro do país, tive a certeza de que aqueles os quais ainda defendem o bônus político dessa descoberta devem ser tratados com o dito purgante. Explico: É oportunista e demagógica a postura marquetizada de que o Brasil será transformado a partir da descoberta do petróleo no pré-sal. Segue em curso uma discussão eleitoreira sobre a aplicação de lucros que, é bom que se diga, ainda são virtuais, para essa riqueza adormecida nas profundezas da costa brasileira.

O ufanismo sempre fez parte do ideário brasileiro. Passando pela brasilidade do Deus até o gigantismo pela própria natureza, nem sempre essa mania de grandeza trouxe bons frutos ao país. Ainda mais quando incentivada pelos próprios governos que, cada um a seu modo, pela mediocridade dos seus feitos, apelam para esse pseudo “destino manifesto” tropical. Nesse roteiro, comédia e drama se alternam e, como dependentes químicos, passamos da euforia à depressão como num passe de mágica, queimando neurônios que farão falta num futuro próximo.

O debate ao qual me refiro teve, de um lado, a abordagem técnica dos altos custos envolvidos na retirada do petróleo em águas profundas e, do outro, aquele viés nacionaloide que caracterizou (e ainda o faz) os governos populistas da América Latina. A palavra “estratégica” apareceu tantas vezes que já nem se conseguia mais diferenciar qual o seu verdadeiro significado: a representação de uma importância que transcende o aspecto econômico ou um conceito abstrato infame, travestido de inconfessável dividendo político.

Aos leigos, categoria na qual me incluo sem nenhum tipo de preconceito, pareceu que a riqueza do pré-sal pode ser maior ou menor dependendo de como se consolidarem, no futuro, as novas opções de energia pesquisadas atualmente. O gás de xisto norte-americano pode ser um divisor de águas importante, assim como a energia eólica, solar e nuclear para as quais a Europa está se voltando. Também o biodiesel e o etanol, embora dependentes da disponibilidade de extensões territoriais, por certo resultarão numa menor demanda por combustíveis fósseis. Ao saber que o petróleo a ser extraído no pré-sal somente terá viabilidade econômica com a cotação do barril acima de U$ 80,00 não existe ainda a garantia de grandes lucros a quem o explorar. Dependerá do barateamento das tecnologias geradas para sua extração a viabilidade do negócio. Daí o excesso de otimismo mostrar-se contraproducente.

Apesar da minha assumida laicidade (qualidade do que é leigo) aprendi que o timpanismo também ataca os seres humanos. O abdômen inchado nem sempre é sinal de sobrepeso, mas também pode ser característica de quem engole ar, além de outras coisas é claro. Nesse caso, para aqueles que não conseguem se livrar do excesso de arrogância e sempre vinculam fatos positivos a essa ou aquela vertente política, é perfeitamente indicado o purgante salino. O que não é nem um pouco recomendável, pelo bem da salubridade, é permanecer ao lado desses cujos, no momento em que o expurgo estomacal vier a consolidar-se.

De todo modo, em não havendo viabilidade econômica no petróleo de águas profundas, certamente haverá abundância de sal, o que, por si só, já é uma riqueza considerável. Talvez não seja suficiente para curar todas as mazelas brasileiras alçando-nos ao clube dos ricos como alguns querem fazer crer, mas certamente promoverá, na sua associação ao purgante, uma desobstrução intestinal fabulosa capaz de conferir leveza aos pensamentos arrogantes de muita gente.

* o autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT
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quinta-feira, 25 de abril de 2013

Uma ponte longe demais

Rogério Arioli Silva *
Quem hoje está nos arredores dos “cinquentinha” lembra que um dos principais passatempos dos jovens nos sábados à tarde eram as sessões de cinema. Naquele tempo, geralmente os filmes vespertinos em cartaz eram três, sendo um do gênero western (“bang- bang”), uma comédia e um de guerra. Filmes brasileiros eram proibidos para menores, pois era o auge da pornochanchada gênero que agredia mais pela péssima qualidade do que pela nudez propriamente dita. O filme que empresta o título a este artigo foi muito marcante e até hoje é muito comentado por inúmeras razões.

Trata-se da história de um erro militar estratégico e, por isso catastrófico, ocorrido durante a segunda guerra mundial, onde os aliados tentaram dominar várias pontes através das linhas alemãs, que já dominavam grande parte da Europa. A operação conhecida como “Market Garden” aconteceu em setembro de 1944 e causou mais baixas ao exército aliado do que o próprio desembarque na Normandia, o conhecido dia “D” (6 de junho de 1944) que marcou o início da capitulação do exército alemão.

Talvez pelo efeito que um erro estratégico possa ter com seus desdobramentos muitas vezes irrecuperáveis, este filme me vem à cabeça sempre que percebo excesso de planejamento e falta de objetividade. Transferir para questões atuais situações ocorridas no passado de forma alguma se traduz em saudosismo, muito pelo contrário, demonstram a lucidez e sabedoria de quem sabe aprender com erros alheios que, não raro, perdem-se na memória.
Através da realidade, colidimos com o futuro, conforme ensina o filósofo Ortega Y Gasset, porém a compreensão do passado fornece a amálgama do resultado presente.

Voltando ao referido filme, também composto de um elenco notável que talvez nunca mais tenha sido reunido na história do cinema moderno, o realismo oferecido é fantástico, e parece que o espectador também participa como ator naquele teatro bélico devastador. Aliás, muitas vezes os coadjuvantes prestam colaboração tão valiosa quanto os atores principais, pois ao protagonismo secundário nem sempre a crítica consegue atingir, o que acaba facilitando o desempenho.

A manifestação de governantes falando em planejamento de ações quando já são decorridos mais da metade de seus mandatos, provoca uma total descrença nas políticas públicas concebidas para promover o resgate da leprosa infraestrutura brasileira. Papéis são rabiscados, discursos empreendidos, bravatas vomitadas, factoides disparados e, todavia, as ações continuam imersas no imbróglio burocrático em que o país se enredou. Com a justificativa de melhorar as contas públicas subtrai-se a diminuta capacidade de investimento das empresas, levando-as a uma situação pré-falimentar que abre as portas à sonegação.

A sociedade foi escravizada. Trabalha cada vez mais para perpetuar uma máquina perdulária, irresponsável, contaminada pela corrupção e pelo desvio que, pela sua ineficiência, promete o paraíso e direciona ao inferno.  De planos e projetos as gavetas transbordam. Nem sequer fecham mais, pois abertas estão mais acessíveis a novas e inexequíveis propostas. Enquanto se empreende uma caminhada como num passeio outonal, observando a paisagem, os concorrentes correm em busca de eficiência e competitividade.  O aparato ambientalista impede que as obras importantes para a infraestrutura nacional saiam do papel tornando-se realidade e, consequentemente, beneficiando toda a população. No centro das decisões estratégicas permite-se, de maneira leniente, uma ingerência nefasta de quem não tem compromisso com o desenvolvimento do país.

A visão revanchista e demagógica de sacrificar quem acumulou algum bem em detrimento de quem não o fez, embota as ações no sentido de proporcionar criação de novas riquezas para todos. Toda vez que alguém sentir vergonha de ser bem sucedido de maneira honesta é porque algo está errado, pois, jamais a apologia do sucesso deve ceder lugar a do fracasso.

No filme descrito inicialmente o general alertou ao seu marechal de campo que talvez aquela ponte estivesse “longe demais” para o sucesso da operação. Parece que, às vezes, a construção da infraestrutura necessária ao ganho de competitividade não será alcançada devido às dificuldades que o país impôs a si mesmo. Assim como na guerra, a estratégia econômica não deve distanciar-se muito do objetivo final, sob pena de ambas perecerem.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT
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sexta-feira, 29 de março de 2013

Continua lindo


Rogério Arioli Silva *

Apesar do orgulho que sinto em ter nascido no Rio Grande do Sul, na próxima encarnação (se vier a acontecer) tenho o indisfarçável desejo de nascer carioca. Aquele marzão no horizonte, sol à vontade, cerveja gelada, futevôlei, garotas de Ipanema, samba, carnaval, mulatas e aquele jeito despreocupado de se levar a vida. Ou ser levado por ela como diz o poeta. Definitivamente o Rio não parece Brasil. É muito melhor. Parece, talvez, o Brasil em férias.

Todos os grandes eventos são destinados para lá. Para lá se dirigem boa parte dos turistas com seus dólares, euros, ienes, pesos e outras tantas moedas dispostas a serem gastas nas belezas e atrações múltiplas que a cidade oferece. A gastronomia, a hotelaria, os eventos culturais como museus, teatros e shows disponíveis aos cariocas ou a quem os visita são incomuns em outros locais do país. Trata-se de realidade semelhante aos países mais desenvolvidos do mundo, embora ainda existam ilhas de exclusão. Graças a isso não é comum encontrarem-se cariocas fora do Rio de Janeiro. Sair pra que, se tudo de bom acontece por lá?

Fatos ocorridos recentemente confirmam como o Rio é diferente. Como exemplo evidencia-se a polêmica da divisão dos royalties do petróleo, na qual o estado tem se beneficiado amplamente nos últimos anos e nem pensa em abrir mão dos recursos amealhados. Dinheiro ganho é dinheiro gasto e, normalmente, esta ordem inverte-se quando se trata de despesa pública. Como diria um conhecido economista, o estado possui a mesma lógica dos bebês: engole muito de um lado e não tem nenhuma responsabilidade no outro. Resulta disso o desespero estampado pelo governador carioca, quando informado que sua fonte royaltiana deverá minguar com a nova divisão proposta pelo Congresso.

Semana passada, após a visita da Presidente Dilma ao Vaticano, o Papa Francisco confirmou sua vinda ao Brasil para participar da Jornada Mundial da Juventude que ocorrerá no mês de julho, onde mesmo? Logicamente na cidade maravilhosa, onde mais poderia ser? Ao Papa deve ser oferecida a prerrogativa de estar próximo do paraíso, no caso o Rio, do que adentrar-se pelo inferno interiorano que, por exemplo, tornou-se Cuiabá após as obras copamundescas. (nababescas=ostentatórias).

E o Rock in Rio então? O maior festival de música do mundo, que já foi até internacionalizado, começou naquela cidade e prepara-se este ano para sua 13ª edição sendo a quinta no Rio. Uma cidade do rock construída dentro de outra cidade, para receber os ícones mundiais da música, agradando seus fãs em meio a shoppings e todo o conforto oferecido nos seus 250 mil m2 disponíveis.  Coisas do Rio.
Também não é por acaso que o “maior show da terra”, o carnaval, seja celebrado no Rio de Janeiro. Luxo, beleza, dinheiro à vontade, gente bonita, famosa e, indispensavelmente, engajada nos padrões ambientalmente corretos da atualidade. Mas a parte ambiental deixe-se para o restante do país, o Rio não precisa preocupar-se com ela, a não ser, logicamente, como motivo carnavalesco.

Durante a tumultuada retirada dos indígenas do antigo Museu do Índio, localizado ao lado do estádio do Maracanã, que havia sido invadido por uma dúzia deles no ano de 2006, evidencia-se ainda mais a existência de dois brasis. Não houve nenhum acordo com os silvícolas e seus simpatizantes que foram expulsos a baionetas e gases de efeito moral, dando lugar ao novo projeto arquitetônico, em harmonia com o reformado estádio. No restante do Brasil são os produtores rurais que são expulsos a pontapés para assentarem-se indígenas que, usados pela Funai e ONGs associadas, são apresentados como museus humanos, fatos que rejeitam cada vez mais. Mas no Rio é diferente: saem os índios e assunto encerrado. No Brasil real pouco importa se produtores são jogados na beira de estradas e perdem suas terras sem direito à indenização.  Não interessa se a realidade mostra que índios já possuidores de milhões de hectares vivem na mesma penúria do que aqueles que não as possuem. No Rio é diferente. No Rio parece que as leis funcionam e que o respeito à propriedade resta preservado.

É por isso que se pode afirmar sem nenhum receio, assim como fez o compositor Gilberto Gil que: “O Rio de Janeiro continua lindo”. Aos outros brasileiros, entre eles os produtores rurais, despejados pela insana política indigenista, resta acalentar, guardado no fundo do peito, o desejo de, na próxima, nascerem cariocas.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT
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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Desafios de um crescimento medíocre


Rogério Arioli Silva *










A publicação da queda na expectativa de crescimento do PIB brasileiro em jornais estrangeiros como o El País (espanhol) e o Le Figaro (francês), e ainda na revista inglesa The Economist, desencadeou uma série de explicações por parte do Governo Dilma do motivo pelo qual a economia brasileira não consegue deslanchar. Mesmo com iniciativas positivas como as reduções da taxa Selic, a abertura de linhas de crédito com juros subsidiados e a desoneração tributária a economia patina, assim como os veículos que trafegam na precariedade das estradas de algumas regiões produtoras de grãos do Centro-Oeste.

Muito já se discutiu sobre o “custo Brasil”, esta chaga que se espalhou de maneira endêmica nos locais onde, justamente, o país possui excelentes vantagens comparativas: o campo. Dentro das porteiras das fazendas a competitividade brasileira é invejável graças ao trinômio da excelência: clima tropical, tecnologia adaptada ao tropicalismo e produtores com gene empreendedor. A simples análise do último trimestre do ano demonstra esses fatos, com o crescimento da agropecuária atingindo 2,5% contra 0,6% do PIB nacional. Alavancadas pelo excepcional aumento nas exportações do café, milho e algodão os números da agropecuária mostram o caminho para robustecer a mediocridade do crescimento da economia brasileira.

Mesmo com o estrangulamento dos portos, mesmo com o modal rodoviário oneroso para longas distâncias, mesmo com a precariedade das estradas, mesmo com os maiores juros do planeta, a agropecuária sobrevive e cresce, ganhando espaço no comércio internacional. Isso tudo a despeito de todas as barreiras impostas tanto no aspecto social, ambiental e sanitário, que procuram impedir a competitividade nacional através de inúmeros contenciosos e descabidas exigências.

O Ministro Mantega tenta justificar o pífio crescimento brasileiro atrelando-o à crise econômica que atinge a Europa e os Estados Unidos, posicionamento que não deixa de ser coerente e verdadeiro. Entretanto, é inegável o fato de que as medidas anunciadas pelo governo no sentido de melhorar a logística e infraestrutura parecem não sair nunca do discurso. É preciso agilidade. É preciso priorizar certas decisões mesmo que as mesmas contrariem interesses menores.  Anunciam-se planos de investimentos que atacam, de fato, os gargalos logísticos brasileiros, mas os mesmos restam atolados no lamaçal burocrático que o país criou contra si mesmo.

A agropecuária tem demonstrado, de forma inquestionável, sua capacidade de crescer acima do PIB brasileiro como ocorreu na última década (média de 3,67% contra 3,59%/ao ano, segundo o IBGE). Este fato, por si só é um indicativo de que à medida que a logística melhorar o crescimento agropecuário crescerá ainda mais, incrementando os números de toda a economia.

Os esforços dos governos na ampliação do crédito permitindo que as classes C e D sejam inseridas no mercado consumidor é uma grande conquista, mas não será capaz de gerar um crescimento duradouro pelo fato de que, ao destinar todos os seus recursos ao consumo as pessoas negligenciam sua poupança.  Os brasileiros já são tradicionalmente pouco afeitos à poupança, preferindo antecipar o consumo ao invés de guardar o dinheiro e depois consumir. Isto não seria um problema muito sério se os juros do crediário por aqui não fossem estratosféricos, o que consome boa parte dos recursos daqueles que optam por tomar crédito. Esta conjugação de fatores acaba tornando o crescimento econômico cíclico e não regular, como seria necessário ao país.

Além disso, os investimentos em infraestrutura na casa dos 2% do PIB não são capazes nem de compensar as depreciações destas obras, quanto mais de receberem o acréscimo dos volumes de produtos oriundos do aumento da produtividade agropecuária. Neste aspecto, foi positivo o abandono do ranço estatizante do atual governo em direção à privatização ou à parceria do investimento privado. Já foi amplamente comprovado que o estado brasileiro não possui os recursos suficientes para fazer frente às demandas de infraestrutura e logística. 

A resposta para o crescimento robusto e sustentável da economia brasileira passa pelas mãos da agropecuária e, quanto mais tempo esta verdade for negligenciada, maiores serão os desafios a serem enfrentados no futuro.
 
* Engº Agrº e Produtor Rural no MT


COMENTÁRIO DO BLOGUEIRO: 
Na verdade não é um comentário meu, mas uma nota publicada na Carta Maior:
Da Carta Maior
"A revista Economist sabe, e se não sabe deveria saber o que está acontecendo no mundo; a revista Economist, suponho, enxerga o que se passa na Europa; sobretudo, não é cega a ponto de não ver o que salta aos olhos em sua própria casa". (Leia nesta pág.a reportagem de Marcelo Justo sobre a Economist,direto de Londres). 
" A economia inglesa despenca de cabo a rabo atrelada ao que há de mais regressivo no receituário ortodoxo, numa escalada pró-cíclica de fazer medo ao abismo. Então que motivações ela teria para criticar o Brasil com a audácia de pedir a cabeça do ministro da economia de um governo que se notabiliza por não incorrer nas trapalhadas que estão levando o mundo à breca?"
"O coro contra o Mantega não me convence. Nem nas suas alegações, nem nos seus protagonistas, nem na sua batuta".
"Não acredito nessa geração espontânea nas páginas da Economist,por mais que isso combine com o seu conservadorismo. Não acredito que a motivação seja econômica e não acredito que o alvo seja o Mantega".
 .

sábado, 10 de novembro de 2012

O resgate do conhecimento


Rogério Arioli Silva *

As provas do ENEM são a grande dor de cabeça dos jovens da atualidade. Ao buscarem uma pontuação que lhes permita o acesso à Universidade, esses futuros profissionais precisam enfrentar medos irreais, característicos das aflições adolescentes, e os reais, formalizados pelas cotas implantadas através da nova sistemática educacional. Desesperos e inseguranças à parte é preciso boa dose de serenidade, além de amplo conhecimento para obter um desempenho competitivo.

É justamente aí que reside o problema. A maioria dos jovens atualmente não possui a mínima familiaridade com o estudo. Entendendo-se por estudo aquele momento particular de concentração em que o cérebro procura acumular informações para, posteriormente, evoluir no processo cognitivo. Acostumados que estão ao contato virtual, na sua rapidez e descompromisso, existe uma dificuldade da atual geração em concentrar-se nos detalhes. Sabem de quase tudo um pouco, porém de maneira superficial ou, como resumiu a banda Kid Abelha em sua conhecida canção, nada tanto assim.


A leitura cada vez faz menos parte da rotina das pessoas, dos jovens então nem se fala. Os resumidos diálogos dos Faces, Twíteres e Orkuts são castradores de conhecimentos. Detalhes ortográficos, linguísticos, semânticos e tudo mais que faça parte da bela língua portuguesa restam jogados numa dimensão minimalista como se supérfluos fossem. Embora os diálogos curtos também se prestem à comunicação, como resultado desta negligência intelectual, as redações tornaram-se atos de bravura desafiadora aos candidatos, capazes de ensejar prantos e risos não necessariamente nesta ordem. Como escrever corretamente, se isto parece algo primitivo, característico de povos que habitaram a terra nos primórdios da civilização?

Novos tempos, velhas preocupações. Chaplin, na sua obra prima “Tempos Modernos” escrita em 1936, já alertou sobre a brutalidade das máquinas ocupando o espaço do homem. Agora o desafio é mais aterrador: a máquina ocupa o lugar do cérebro, mantendo o homem como um apêndice da sua atividade. As máquinas escravizam ao invés de se tornarem ferramentas de modernidade. Computadores já invadiram salas, quartos e cozinhas. Resta apenas o banheiro, que pelo caráter de extremo individualismo, ainda resiste sabe-se lá até quando. Não é necessário pensar, alguém já o fez. Basta que se siga o que foi definido, sem maiores esforços nem questionamentos.

O que parecia ser a redenção da humanidade através do acesso aos acontecimentos em tempo real e da informação num click, serviu mais para reduzir o tempo disponível ao invés de ampliá-lo. O mundo encontra-se ao alcance da mão, mas ao invés de dissecá-lo para melhor entendê-lo, copia-se e cola-se, sem maiores responsabilidades. Esta atitude não é apenas dos jovens, mas de todos, acostumados que estão com o caráter descartável da excessiva exposição bigbrotheriana de tudo e de todos.

Definitivamente há um espectro rondando o futuro do conhecimento e porque não dizer dos próprios relacionamentos humanos. A materialidade dá lugar à fluidez. Nada é o que parece. E o que parecia já mudou de aparência, como acontece com as sombras espectrais. Resta pouco a ser desvendado e, portanto, a ser estudado e discutido. Nos ágeis cliques dos dedos automatizados a mensagem corrompe a fala, o diálogo, o papo desafiador. Atrás dos aparelhinhos coloridos os defeitos humanos inexistem, apenas divulga-se o que é aprovável pela maioria.

Embora pareça uma dose de excessiva crítica ao que ocorre atualmente nos relacionamentos e na busca do conhecimento, é possível perceber-se vida inteligente em grande parte dos jovens. Talvez a mesma esteja subutilizada pelo excessivo apelo consumista a que é submetida, mas, mesmo latente, é capaz de reagir quando provocada. É preciso justamente isto: Desafios. Esta inteligência, embora marginalizada pela futilidade comercial apelativa, é capaz de sobrepor-se de maneira contundente no momento em que a fome de conhecimento se instala. Conhecimento libertador, capaz de gerar luzes onde persiste a escuridão quase indevassável da alienação moderna.

Cabe à geração mais velha, por vezes entediada com seus problemas e frustrações, tornar-se farol para desafiar esses jovens a encontrarem valores imprescindíveis à convivência e ao resgate do conhecimento.

* O autor é Engº Agrº e Produtor Rural no MT

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quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Carta aberta aos cooperativistas: só o associativismo salva!


Richard Jakubaszko
O cooperativismo não será capaz de enfrentar sozinho o que vem aí pela frente, pois será uma verdadeira guerra mundial, e sangrenta, ninguém tenha dúvida disso. Teremos uma crise de restrição de alimentos – e de fome – em muitos países, pois os preços tendem a se elevar ainda mais dos que os praticados hoje, agora catapultados não apenas por uma seca nos EUA, mas também pelo aumento de demanda asiático e por causa da especulação financeira que transformou alimentos como soja e milho em prosaicos “derivativos”, levando neste pacote a avicultura e a suinocultura.

Esse panorama, num primeiro momento, pode prenunciar bons lucros aos produtores de grãos. Os bons lucros, entretanto, vão se reduzir na medida em que os insumos subam de preços, bem como o transporte, o armazenamento e o custo da terra. Como os estoques mundiais andam muito baixos, isto vai provocar guerras, rebeliões e migrações, governos democráticos serão depostos, assim, como outras ditaduras. 

O tabuleiro de xadrez onde se desenrola esta guerra, encontra os agricultores brasileiros, especialmente eles, desprotegidos de toda sorte de políticas públicas, onde se destaca o seguro agrícola, um dos temas abordados nas páginas da Agro DBO 38, de outubro 2012, em circulação desde o início deste mês, e que poderá ser lida através do nosso site: www.agrodbo.com.br

Nesta Carta Aberta nos dirigimos a todas as cooperativas brasileiras produtoras de grãos, e seus respectivos presidentes, e, em especial às maiores do setor:

CAROL – José Oswaldo Galvão Junqueira
COAMO – José Aroldo Galassini
COCAMAR – Luiz Lourenço
COMIGO – Antônio Chavaglia
COOPAVEL - Dilvo Groli
COTRIJAL – Nei Mânica

Só o associativismo salva os produtores brasileiros, especialmente os pequenos e médios. Como os agricultores não têm representatividade política em nível nacional, quem vai atuar em nome deles e de seus interesses? O que vimos na aprovação legislativa sobre o Código Florestal é uma pequena amostra grátis do que vem aí pela frente face às discussões que vão ocorrer pela sociedade urbana quando os preços dos alimentos subirem: se subir é porque há perigo de faltar, e, na sequência, surgirão propostas de confisco dos alimentos, até mesmo taxas sobre exportação, para garantir o abastecimento interno, multas e prisão para quem estiver mantendo estoque dos grãos, enfim, não é difícil imaginar as dificuldades que possam surgir se os preços subirem acima do suportável, pelos governos e pela população.

Somente o associativismo pode salvar os produtores de grãos brasileiros, especialmente os pequenos e médios.

Preços cada vez mais altos
O mais recente relatório divulgado em setembro último pela FAO, o órgão das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, revela que a elevação no preço dos alimentos chegou a níveis críticos, principalmente para os países pobres que necessitam importar alimentos para dar de comer às suas populações.

Segundo os dados da FAO, nos últimos meses os preços do trigo registraram alta estratosférica de até 80%. O milho, um aumento de 40%. Uma perversa combinação entre crescimento de demanda, especulação financeira, secas, e produção de energia a qualquer custo, está entre os fatores causadores dessas altas. Afinal, as quebras nas safras de dois gigantes na produção de grãos, EUA e Rússia, ocorreram em virtude dos efeitos de secas prolongadas. O relatório da FAO afirma que 22 países já enfrentam uma crise prolongada com altos índices de fome mesmo antes dessa forte alta. Portanto, além do agravamento da situação desses que já enfrentam uma crise alimentar, deve-se esperar que novos países se juntem ao contigente de esfomeados.

Mesmo assim, o preço desses alimentos tem estado em constante alta, pois além do prato dos humanos, essas commodities alimentam animais e os veículos abastecidos por biocombustíveis.

Outro problema apontado por economistas da FAO é a especulação orquestrada pelos mercados futuros. “A financeirização por meio de manobras especulativas contribui para elevar os preços dos alimentos”, afirma a entidade.

Nesse clima, fica a pergunta: de que forma as cooperativas poderiam atuar na defesa de seus interesses e dos seus cooperados? De nenhuma forma, respondemos nós. Nem na grande mídia haveria defensores dos agricultores, pois representam a opinião dos urbanos, e estes, como sabemos, andam com inédita antipatia pelo agronegócio. Assim, prevemos que nem mesmo a Frente Parlamentar Agropecuária, de cunho essencialmente político, mostraria a cara para defender os produtores, na hipótese de subida desmedida dos preços pela ameaça de faltar alimentos.

Só o associativismo, com forte atuação política, seria capaz de apresentar a defesa dos agricultores em situação como estas. De outro lado, enquanto esse prognóstico não se confirma, existem muitas batalhas e demandas de interesses dos produtores que estão sendo perdidas pela falta de interlocutores preparados, ou por atores que não possuem representatividade, mas falam em nome dos produtores, diariamente, nos meios de comunicação.

Outro exemplo gritante das diferenças e problemas enfrentados pelos agricultores está expresso em artigos da edição 38 da Agro DBO, dos colunistas Daniel Glat e Rogério Arioli, ambos agrônomos e produtores rurais, quando relatam a tranquilidade dos agricultores americanos diante de uma seca perversa que, se ocorresse no Brasil, jogaria milhares de agricultores em negociação de dívidas ou quebraria a quase todos. Lá existe seguro (de renda) rural aos produtores, enquanto aqui no Brasil temos um seguro que garante apenas aos bancos de receberem o que emprestaram. Em outro artigo, também na edição 38 da Agro DBO, o cafeicultor Luiz Hafers já se antecipa no alerta sobre cotas e impostos, ou melhor, confiscos.

A questão é que a ganância estúpida do mercado nos tempos modernos busca colocar o consumidor em sua condição de “pagante”. Só assim dá para entender a inversão de prioridades ao se colocar em limitação o uso de novas áreas na futura produção dos alimentos, tal como prevê o Código Florestal.

O fato é que se deixarem as coisas como estão pode-se esperar o registro de novas revoltas ao redor do mundo, semelhantes as que têm ocorrido cada vez com maior frequência em diferentes regiões do planeta, em destaque o mundo árabe, mas também na Ásia e na África. Muitas das manifestações entre os árabes tinham também como motivação a escassez ou a alta no preço dos alimentos, mas o agravamento da situação atual não será bom conselheiro na hora de pedir calma aos revoltosos. Afinal, se não for possível comprar comida para colocar no prato das famílias, não haverá bom senso e bons argumentos capazes de evitar atitudes não civilizadas.

A união só pode vir através das cooperativas
É tempo de as cooperativas liderarem a instalação de uma associação nacional, de cunho técnico, com atuação política, que seja representativa, que seja forte, e que expresse os verdadeiros interesses da agricultura. Para defender os agricultores dos futuros e breves ataques, que surgirão de todos os lados. Para buscar equilíbrio nas decisões de governo que se destinam a regular o mercado, sempre em favor dos consumidores, nunca beneficiando os produtores. Para que se evolua com o seguro rural. Para que se tenha uma lei de CLT (Consolidação da Lei Trabalhista) ajustada ao meio rural, que é diferente do urbano. Para que se obtenha segurança jurídica na posse da terra e nas relações com os mercadistas. Ou as cooperativas, e seus líderes, acreditam que poderão defender os seus cooperados sob o manto das cooperativas? Nem antes, nem hoje e nem no futuro. Não é essa a função do cooperativismo, mas apenas de um associativismo.

Que se estabeleça o associativismo, sob as bençãos e liderança do cooperativismo, para dar sustentabilidade aos agricultores. Não há outro caminho: só o associativismo salva a agricultura. Só o cooperativismo tem recursos suficientes para essa empreitada, e só o cooperativismo pode provocar o senso gregário dos produtores rurais, hoje inexistente no Brasil, ao contrário do que se verifica nos EUA e Europa.
Aos cooperados que concordam com nossa proposição sugerimos conversar com os presidentes de suas cooperativas, pedindo que pensem a respeito.
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