segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As figuras referenciais no reino da hipocrisia

Luís Nassif *
Uma análise histórica das crises nacionais revelaria o seguinte

1. Fases de turbulência e de perda de referenciais. Morre o velho sem o que o novo tenha sido criado, gerando a grande crise.

2. Em períodos de estabilidade, o processo de criação de reputações é lento. Na transição, especialmente quando surgem novas formas de comunicação – como o rádio, nos anos 20, e as redes sociais, agora – a construção de reputações muda de padrão. Surgem novos personagens, dando um bypass nos caminhos tradicionais, esboroando a hierarquia anterior e abrindo espaço para novas celebridades.

3. Sem referenciais, há uma disputa selvagem pelo novo protagonismo. É a chamada síndrome da teoria do caos. Se o caos é completo, sem nenhuma espécie de pré-requisitos, se não é mais pré-condição a erudição, os diplomas, a hierarquia, a biografia, porque não eu, Zebedeu? A meritocracia entre juízes, procuradores, delegados em geral, Ministros do Supremo não se dá mais no terreno especializado das respectivas corporações, mas na qualidade de aparecer na mídia.

4. Esse processo se torna mais agudo devido à crise de confiança na racionalidade que supostamente imperava no mundo que acabou. Hoje em dia, um meme de rede social vale mais do que a verborragia – muitas vezes vazia – dos velhos personagens.

5. Em algum momento, novos valores se consolidarão, como os positivistas gaúchos nos anos 30, o MDB dos anos 80. Haverá uma reorganização inicial no mercado de ideias, uma reconstrução penosa de valores, que, pouco a pouco, irão entrando pelas instituições, criando um novo normal até a crise seguinte.

Na transição, mais do que em qualquer outro, as figuras referenciais se tornam imprescindíveis. Cada instituição precisa do seu estadista, da sua figura referencial que impeça o esboroamento dos valores constituídos ao longo de décadas.

A figura referencial precisa ter historia coerente, clareza sobre o chamado interesse público ou nacional; desprendimento para não se contaminar pelo oportunismo, grandeza para sobrepor os princípios ao lero-lero do dia a dia e coragem para investir contra a voz da besta.

O Brasil anda tão carente dessas figuras que ontem Elio Gáspari tentou transformar Rosa Weber, a frágil Rosa Weber, em um monumento de solidez. Por falar pouco e ter tido a suprema coragem de derrubar a sentença de um juiz de 1a instância, nos cafundós do país, pretendendo impedir que os serviços públicos atendam venezuelanos no país.

Eça de Queiroz consagrou personagens que falavam pouco - e nada diziam. Gaspari acredita piamente silêncio dos acacianos.

Como jabuti não sobe em árvore é de se indagar qual o condicionamento pavloviano que se pretende impingir na frágil Rosa. Porque nesses tempos de perda de rumo, de alarido infernal, o exercício predileto de alguns colunistas e veículos é o direcionar votos de Ministros. É o que explica Merval Pereira, a voz mais oficiosa dos Marinhos, requerer o cancelamento da inscrição do PT nas próximas eleições.

E não são apenas os tribunais que seguem o clamor das ruas e os ventos medievais.

O MPF tem uma luta épica histórica contra a lei da anistia. O combate à tortura deveria ser cláusula pétrea em sua hierarquia de valores. No entanto, há procuradores na rede enaltecendo Brilhante Ustra, o mais notório dos torturadores. E nada acontece, sequer a censura moral de seus colegas, muito menos sanções dos conselhos de classe.

Entrou-se definitivamente no reino da hipocrisia, que marca a última etapa da transição.

No Supremo, bravos Ministros votam em defesa da Constituição, desde que haja garantia de maioria para os votos em favor do golpe.

Esse mesmo jogo de cena se dá nos inquéritos da Procuradoria Geral da República.

O caso da conta de Aécio Neves em Liechtenstein está na PGR desde 2010. Mesmo com a lista da Odebrecht, com a delação detalhada de como recebia as propinas de Furnas, o então PGR Rodrigo Janot recomendou o arquivamento da denúncia, enquanto investida destemidamente contra Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann.

Apenas após o grampo da JBS, Janot solicitou acesso à conta, através da cooperação internacional.

Semana passada, a Policia Federal apresentou seu inquérito sobre Aécio, sem levantar uma prova sequer. Em função disso, o Ministro Gilmar Mendes arquivou o inquérito.

Em seguida, a PGR cumpriu burocraticamente sua missão de questionar o arquivamento, argumentando que a PF não tinha provas porque ainda não consultara a conta. E a decisão de Gilmar proibia de consultar. Não explicou porque a conta jamais foi entregue à PF antes da decisão e Gilmar. E porque a Globo é mencionada em inquéritos da Espanha, Suíça e Estados Unidos sobre os escândalos da FIFA, e continua imune à ação do MPF.

Muitas vezes, vozes sensatas se indagam a razão desses personagens não zelarem por sua biografia. É que eles não têm o menor sentimento de história, de país, da própria instituição. É como se pudessem entrar na próxima etapa vitoriosos e, portanto, com a sua biografia zerada, da mesma maneira que os Ministros que julgaram Olga Benário ou os coronéis que conduziam os IPMs da pré-ditadura.

Esse jogo de cena é mantido pela Associação Nacional pela Hipocrisia, um órgão supra-institucional que se garante pela máxima “sou, mas quem não é?”.

Chegará o momento em que a bolha será furada. E aí, será possível que, 25 anos depois, se ouça alguma autocrítica, sincera como foi a da Globo sobre o apoio à ditadura.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN.
Publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/noticia/as-figuras-referenciais-no-reino-da-hipocrisia-por-luis-nassif
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sábado, 11 de agosto de 2018

Azul em sustenido

Carlos Eduardo Florence *
Me fiz em sustenidos só e só por ter sido, como recordo, em um destes outonos iguais quando o sonho se fantasiava de verbo, o tempo amadurecia entre as águas procurando seus destinos e os destinos se perdiam nos prováveis. Deu-se, pois, em métricas e dúvidas os acontecidos. Os pássaros se preparavam para acasalarem, apaixonados, melodiando, singelos como para o que tão bem foram criados e assim enfeitarem os provérbios e a natureza. Deus agraciava naquele instante de nostalgia o futuro, deixando repousar o passado e o presente, por ser o único que operava nas três dimensões temporais e o demônio desdizia a sorte enquanto escalavrava a frieira do casco caprino. Coisas banais, mitológicas, mas que afetavam o cotidiano da pequenina vila em que me desgastava pelos dias a passarem. Os sinos se fizeram em tons menores para me convidarem às meditações e preces.

Simultâneo, não se entendiam, procurando os mesmos descaminhos dos improváveis entre os devaneios e as metáforas os poetas entremeando, indefinidos, suas parábolas e os filósofos se perdiam em tertúlias platônicas, mas nada afetava as crianças brincando de alegria para invejarem os carentes.

Sentei-me à praça conversando com a melancolia deixando-me acompanhar às indecisões das nuvens desenhando abstrações embaladas por caprichos e brisas. Não me defini se estaria em alfa, angustiado ou se o beija flor ousaria com suas asas cadenciadas romper o silêncio. Real, estas indefinições ocupavam-me entre os escaninhos da depressão e o silêncio ruidoso do beija flor não fazia mais do que embaralhar as ideias pobres e preguiçosas com intentos de azucrinar os verdes.

Por ser de destino e paz, a alegoria vinda da boca da noite se acomodava para dormir entre as ameixeiras e se disfarçava entre as flores que gostariam de se aninharem pelos infinitos brincando nos regaços das correntezas disfarçadas nas pedras, sem métrica ou pecado. Sem quererem encerrar, pois o sol ainda teria o que dizer um restado de dia caindo, se preparavam os bulbos para frutos se tornarem, amadurecerem e se desfazerem das melancolias. Isto retardava o meu outono e os meus pensamentos.

A menina brincava de amarelinha, alongando sua pedra de toque para o infinito de seu destino enquadrado para saltitar ágil até sua meta e sonho. Invejei sua ambição que não ultrapassava a fantasias do quadrado pequeno onde cabia a imensidão do seu sorriso, da sua alegria e da sua ambição. Os balões foram liberados das redondilhas dos bardos aprendendo a imitar as estrelas a brincarem nos azuis.

A tarde caiu repetindo sua rotina nas horas das preguiças e das preces. Preferi me recolher subindo as vielas tortas como os meus pensamentos. A menina dos saltos sobre as nuances das amarelinhas se escondeu nas frestas contorcidas da alegria e me deixou entre sonhos amarfanhados em pencas graúdas de solidões.
  
* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.
Publicado no https://carloseduardoflorence.blogspot.com.br/
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sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Os trabalhadores mais rápidos do mundo

Richard Jakubaszko 
Gente maluca, mas muito rápida, tem coisas que a gente fica besta de ver. O vídeo mostra os trabalhadores mais rápidos do mundo.
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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Negócio fechado

Richard Jakubaszko   
A matéria de capa da Agro DBO de agosto 2018 traz a reportagem “Negócio fechado”, em texto do jornalista Ariosto Mesquita, que relata a expansão do cooperativismo, especialmente o paranaense, para outros estados onde a agricultura está se consolidando. Assim, vemos que o cooperativismo mostra a força do seu lado capitalista, investindo em outros mercados para fazer crescer a atividade, seja captando novos cooperados, conquistando novos clientes, e obtendo matéria-prima para alavancar novas agroindústrias processadoras de alimentos. De outro lado, o cooperativismo exerce a força máxima da sua filosofia, o “todos por um”, em que o trabalho de todos reverte para benefícios comuns.

O ex-ministro da Agricultura Luís Carlos Guedes Pinto, em artigo nesta edição, desenha uma proposta inédita ao governo e aos líderes do agro, a ideia de zerar o subsídio ao crédito agrícola destinado aos agricultores chamados de profissionais, e com o montante dessa economia proporcionada ao Tesouro Nacional direcionado para alavancar o sistema de seguro agrícola e de renda agrícola. Sistema que ainda é insignificante no Brasil se comparado a outros países com agricultura profissionalizada, onde o seguro de renda existente garante aos produtores rurais a sobrevivência, mesmo em casos de quebra drástica de safra.

O pioneiro do plantio direto, o holando-brasileiro Franke Dijkstra concedeu entrevista exclusiva para Agro DBO e relatou o que foi a epopeia de descobrir e implantar o sistema de plantio na palha. Dijkstra relata que na época foi chamado de louco, mas enfatiza que não havia opção, era dar certo ou morrer como produtor rural. A entrevista é uma narrativa objetiva e direta, um registro histórico que faltava na imprensa brasileira especializada no agro. E se não tivesse dado certo?

O professor de mecanização agrícola da Universidade Federal do Mato Grosso, o agrônomo Thiago Machado, escreveu artigo sob encomenda da redação da Agro DBO para demonstrar que há maneiras paliativas para driblar a ausência de conectividade e mesmo assim usar algumas das facilidades das novas tecnologias embarcadas e da agricultura de precisão.

No horizonte do agro há uma luz amarela, considerando que a crise econômica ainda não chegou, pois a Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) divulgou que o Índice de Confiança do Agronegócio caiu 8,6 pontos percentuais no trimestre, fechando em 98,5 pontos, abaixo do índice de 100, considerado o nível de normalidade.

No vídeo abaixo mostramos uma série de destaques da edição 102 da Agro DBO, vale a pena ler a edição impressa.


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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Pedreiros geniais

Richard Jakubaszko 

A criatividade humana nunca tem limites, até mesmo no pesado trabalho braçal. O vídeo demonstra isso de forma incontestável, assistam, vale a pena.

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