Mostrando postagens com marcador livro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador livro. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

Adeus ao vírus - História do combate à febre aftosa é contada em livro

Richard Jakubaszko 
  
Doença de maior impacto econômico da pecuária mobilizou gerações de profissionais e produtores rurais numa cruzada épica

Mato Grosso está às vésperas da retirada da vacinação contra a febre aftosa em todo seu território, depois de 26 anos sem nenhum registro da doença. Não poderia haver, portanto, momento mais oportuno para o lançamento do livro “Adeus ao vírus – Erradicação da febre aftosa: a participação de Mato Grosso na maior epopeia veterinária das Américas”, de autoria dos jornalistas Martha Baptista e Sérgio de Oliveira.

Com base em depoimentos de pesquisadores, médicos-veterinários, pecuaristas e outros representantes da cadeia produtiva, os autores registram em mais de 300 páginas a longa batalha para a erradicação da febre aftosa em Mato Grosso, no Brasil e no continente sul-americano, com destaque para a parceria desenvolvida com a Bolívia.

O livro conta como o vírus da aftosa foi identificado no século XVI, na Itália, chegando às Américas no século XIX, e como foi sua erradicação em países como os Estados Unidos, onde não circula desde 1929. Conta também a traumática experiência de quem lidou com a doença quando ainda não havia disponibilidade de vacinas no país, passando pela fundação de entidades como o Panaftosa, estruturação dos serviços veterinários estaduais, criação dos Fundos Emergenciais privados, produção das primeiras vacinas a serem utilizadas em campanhas e a impressionante evolução desses imunizantes – um dos fatores primordiais para a erradicação da doença em nosso país. O Brasil foi declarado, em 2018, livre de aftosa com vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE).

“Adeus ao vírus” traz ainda um panorama da situação atual no continente sul-americano, onde apenas a Venezuela registra casos da doença, e abre espaço para a discussão do momento: se o Brasil está realmente preparado para retirar a vacinação.

O combate à aftosa foi, nas palavras de um dos entrevistados, “a maior epopeia veterinária das Américas”, e é essa história que o leitor encontrará nas páginas de “Adeus ao vírus”, contada por seus protagonistas. A publicação tem o patrocínio do Fundo Emergencial de Saúde Animal do Estado de Mato Grosso (Fesa-MT).

“Tendo como referência as dificuldades enfrentadas num passado recente e as lições aprendidas, estamos certos de que continuaremos a trilhar esta estrada, alcançando nossa meta num futuro muito próximo: ter Mato Grosso inteiro livre de febre aftosa sem vacinação – o coroamento desta história de sucesso” - afirma o presidente do Fesa-MT Antonio Carlos Carvalho de Sousa na apresentação do livro, que será lançado no dia 16 de dezembro, no Auditório da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), com as presenças de vários especialistas que contribuíram para a elaboração da obra.

Serviço
O que: Lançamento do livro “Adeus ao vírus – Erradicação da febre aftosa: a participação de Mato Grosso na maior epopeia veterinária das Américas” (Entrelinhas Editora, 2021).

Onde: Auditório da Famato, na Rua Eng. Edgard Prado Arze, s/nº, no Centro Político Administrativo, em Cuiabá - MT

Quando: 16 de dezembro de 2021 (quinta-feira), às 9h


 

.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

Um país se faz com homens e livros

Richard Jakubaszko   
Definitivamente, Bolsonaro é o laranja de uma elite recheada de coronéis, cujo objetivo é deixar o povo sempre na miséria e sem educação formal nas escolas, portanto, sem emprego, e sem renda para comprar livros. É o que se deduz da proposta feita pelo ministro Paulo posto ipiranga Guedes de taxar em 12% a venda de livros no Brasil.

Como os autores de livros ganham, em média, 10% de direitos autorais sobre as vendas de livros, o governo ganharia mais do que os autores, simples assim. O aforismo de Monteiro Lobato, de que "um país se faz com homens e livros" cai no vazio, perde-se na história, e deixa de ter significados.

O desgoverno Bolsonaro é um bando de alucinados que abre mão de criar impostos sobre movimentações do mercado financeiro, impostos sobre dividendos, que no Brasil nada paga (somos um dos 2 países do mundo que não recebe impostos dos ricos), sobre grandes fortunas e sobre heranças, como fazem os países desenvolvidos. E agora essa "ideia" de jacu, de taxar livros.

Ao mesmo tempo o desgoverno Bolsonaro e seu posto ipiranga ajustam o Orçamento Federal com incentivo de mais verbas para o setor de defesa e reduz o orçamento da Educação. Mais armas e menos livros, esse é o lema.

Se a gente conta isso para um ET ele vai rir... Em Portugal, faz tempo, o Brasil virou a piada do dia... E olha que nem estou falando do combate à epidemia do coronavírus, onde o Brasil "economiza" dinheiro do Orçamento, pois deixou de usar mais de 70% do dinheiro disponível no Ministério da Saúde.

Piedade, meu Deus, mas observe que entre os brasileiros ainda existe 35% de gente que aprova esse estrupício. Brasileiro não tem noção... Eça de Queiroz tinha razão...
 
 




.
 

quinta-feira, 19 de março de 2020

Sexo na mesa da cozinha

Richard Jakubaszko   
Acabei de ler o livro que tem o título em destaque neste post. Escrito por um professor da Universidade da Califórnia, Norman C. Ellstrand, catedrático em fisiologia das plantas, o autor esbanja ironia (e humor para americanos) para nos explicar que todos os vegetais "fazem sexo" com fins reprodutivos.

Não ficou claro pra mim a quais leitores Ellstrand pretendia atingir ao escrever a obra. A especialistas em fisiologia das plantas, com quase toda a certeza não. Mas a leigos a leitura de "Sexo na mesa da cozinha" pode se transformar quase em pesadelo, especialmente porque é um livro técnico e específico que foca em problemas únicos como as particularidades de reprodutibilidade de algumas culturas como beterraba branca, banana, abacate, tomate, canola, abóbora e milho, sempre com diversas citações bibliográficas. Entre uma e outra observação, o autor sempre demonstra as "dificuldades sexuais" dessas plantas para se reproduzirem, mesmo quando o método usado pela natureza para espalhar o pólen enviado pelos vegetais machos, considerando que a planta fêmea receptora esteja a 1 km ou mais de distância. Não chamaria a isso de sexo.

Em alguns capítulos, mas especialmente nos de milho e canola, Ellstrand comenta sobre os melhoramentos genéticos de plantas OGMs, sem deixar clara a sua posição, se é a favor ou contra, ou até mesmo de cautela, pois mantém confortável equidistância acadêmica, e aí é uma no cravo e outra na ferradura. O autor relata algumas opiniões de pânicos milenaristas apocalípticos divulgados por biólogos e ambientalistas, por exemplo, de que parentes silvestres dessas plantas ficariam com resistência aos mesmos herbicidas utilizados nas plantações comerciais. Confesso que nunca entendi essa crítica dos ambientalistas em relação aos OGMs, será que eles recomendariam o uso de glifosato para controle de milhos silvestres? Só se for, principalmente no caso específico do milho, que tem polinização cruzada com outras plantas, da possibilidade de um milho OGM transferir suas características para outras plantas silvestres, que não o milho. Mas que importância teria isso, seja agronômica ou econômica? Se alguém tem uma opinião bem clara e definida sobre isso, por favor comente e me esclareça, pois sou um mero jornalista especializado em agricultura que tive minha curiosidade pela leitura do livro diante do inusitado título.

O título do livro é inovador, criativo até, e pode chamar a atenção de estudantes de agronomia e biologia, apesar de não refletir a realidade do mundo vegetal. A certeza que fica é que Ellstrand segue à risca o aforismo de um amigo, citado por ele, que diz "Salve o mundo enquanto se diverte". Foi o que Ellstrand fez ao escrever esse intrigante e instigante livro, e nos finais de alguns capítulos exibe orgulhoso seus talentos culinários fornecendo exclusivas e domésticas receitas de saladas, panquecas, fritadas e outros pratos à base de legumes, frutas e vegetais.

O livro, com 299 pg, foi publicado no Brasil pela Editora Unesp, e pode ser adquirido pelos interessados através do e-mail atendimento.editora@unesp.br

..

segunda-feira, 3 de junho de 2019

O homem que inventou o Brasil

Richard Jakubaszko  

Livro: O homem que inventou o Brasil: Um retrato de José Bonifácio de Andrada e Silva
De Geraldo Luís Lino, prefácio de Aldo Rebelo
 

Pouco conhecido da grande maioria dos brasileiros, José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, pode ser considerado com todos os méritos como o “inventor” do Brasil independente. Em apenas 18 meses no governo, foi o principal responsável pela consolidação política e territorial do novo País, além de ter formulado o esboço de um projeto de Nação que, lamentavelmente, foi prontamente neutralizado pelas oligarquias escravocratas e latifundiárias que dominavam o Brasil, com o apoio do Imperador D. Pedro, que, em novembro de 1823, poucos meses após a demissão de José Bonifácio do cargo de ministro do Império, dissolveu a Assembleia Constituinte, exilou o Patriarca e passou a governar como um autocrata, até a sua abdicação, em 1831.

Como deputado à Assembleia Legislativa, em 1831-32, também nomeado tutor do futuro Imperador D. Pedro II, José Bonifácio participou das discussões que viriam a ser decisivas sobre a estrutura político-institucional do País, com o estabelecimento de uma federação de províncias dominadas pelas oligarquias locais, esquema que prolongaria o regime escravocrata até quase o final do século XIX e, mesmo após a Abolição, continuou controlando o Estado brasileiro de acordo com os seus interesses.

Mais atuais do que nunca, as ideias e propostas de José Bonifácio precisam ser revisitadas para a imprescindível retomada das discussões sobre a necessidade de um novo projeto nacional para o Brasil, que permita a sua inserção soberana em um cenário global marcado por rápidas e profundas transformações, e é com este propósito que a Capax Dei Editora coloca o livro à disposição do público.

Como afirma no prefácio o ex-deputado federal e ex-ministro Aldo Rebelo: “A genialidade de Bonifácio se firmou na negação da cópia dos modelos da época e na busca de um caminho próprio, que preenchesse as condições e as necessidades do Brasil de seu tempo. O pensamento do Patriarca guarda grande atualidade, quando hoje, no Brasil, direita e esquerda nada mais fazem que tentar reproduzir, em diferentes planos, padrões ideológicos e culturais importados da grande nação do Norte.” 


Para mais informações ou para comprar o livro:
Capax Dei, Rio de Janeiro, 2019 - 164 p., R$ 50,00 

Fone 21 2510.3656 – capaxdeieditora@gmail.com – www.capaxdei.com.br

.
 

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Ensaios à solidão

Carlos Eduardo Florence *

Publiquei o romance "Ensaios à solidão" pela Editora Labrador, cujos dados técnicos e referenciais seguem abaixo. 



Qualquer contato com a Labrador poderá ser feito com a Rosângela pelo fone 11 3641.7446
E-mail: adm@editoralabrador.com.br 
351 pg.
Preço de capa: R$ 49,90
REF: 9788587740359 Categoria Romance
 
Mais informações
: https://catavento.livreiros.com.br/produto/romance/ensaios-a-solidao/




* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.

Publicado no https://carloseduardoflorence.blogspot.com.br/* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA – Associação dos Misturadores de Adubos.

.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A supremacia militar perdida dos EUA

Jorge Figueiredo * 
O livro agora publicado por Andrei Martyanov, Losing Military Supremacy, é um epitáfio devastador para o imperialismo estado-unidense. Ele desmonta minuciosamente as razões porque os EUA já não têm a supremacia no plano militar – e destrói esse mito. O facto de o establishment dos EUA, dominado pelos neocons, ainda acreditar no seu próprio mito não o torna menos mítico. E o facto de os media de referência (os presstitutos, como diz Paul Craig Roberts) estarem constantemente a martelá-lo nas mentes do seu público não o torna mais sustentável – mentiras muitas vezes repetidas não se transformam em verdades.

A verdade verdadeira é que já estamos num mundo multipolar, mas os neocons que dominam o Estado Profundo não sabem disso. Recusam-se a reconhecê-lo e apegam-se teimosamente à ilusão de que os EUA continuam a ser a potência hegemônica do mundo. Isto já é absolutamente falso – mas os neocons não podem entender isso porque são ignorantes em assuntos militares. É um paradoxo que os mais belicosos deles sejam civis que nunca sequer fizeram o serviço militar, nem têm cultura tecnológica e histórica para entender as questões da paz e da guerra, as suas implicações e ramificações. A maioria da corja, que permeia tanto o Partido Democrata como o Republicano, só tem conhecimento de questões militares através de alguns Power Points assistidos em workshops. O autor refere-se mesmo ao “muito perigoso declínio das faculdades cognitivas americanas” (sic).

Martyanov, oficial russo graduado pela Academia Naval Kirov, é um profundo conhecedor da tecnologia militar. As suas análises são baseadas em conhecimento sólido e em experiência concreta. Elas são devastadoras para a classe dominante estado-unidense, para as suas elites militares e civis (estas últimas intelectualmente piores que as militares) e para o modo americano de fazer as guerras, ou seja, a guerra como um business para os monopólios ganharem dinheiro. Só com o disparo de 80 Tomahawks sobre a Síria, este ano, o seu fabricante faturou uns 140 milhões de dólares…

O livro está organizado em doze capítulos. Os seus títulos são significativos:
Introdução: O perigoso narcisismo da América
1 – A verdadeira medida do poder militar
2 – O nascimento da moderna mitologia militar americana
3 – As muitas interpretações equivocadas da II Guerra Mundial
4 – A incapacidade das elites americanas de apreenderem as realidades da guerra
5 – Déficits educacionais e caricaturas culturais
6 – Ameaça inflada, captura ideológica e questões de política doutrinária
7 – O fracasso para enfrentar o moderno realinhamento geopolítico
8 – O espectro da “Força esvaziada”

Conclusão: A ameaça de um maciço cálculo errado dos militares americanos



A alteração decisiva de Putin: Paz através da força
O perigo da situação presente é que "aqueles que manipulam a informação começam sinceramente a acreditar nas suas próprias falsificações, quando compram as suas próprias narrativas. Eles deixam então de serem manipuladores e tornam-se crentes numa narrativa. Eles próprios se tornam manipulados", considera Martyanov na introdução. Mas como saber a verdade? O autor responde citando Clausewitz: “é legítimo julgar um evento pelo seu resultado pois é o critério mais saudável”. E, neste aspecto, o registro histórico dos EUA é desastroso devido à incompetência “geopolítica, diplomática, militar e de inteligência”. Martynov dá muitos exemplos. Na verdade, desde 1950 os EUA nunca venceram uma guerra.

"Os Estados Unidos durante a guerra soviética no Afeganistão fizeram um enorme esforço para desencadear forças da Jihad que se tornaram uma metástase global. Mas, apesar deste esforço, o resultado final – tal como o dos Estados Unidos na Coreia, no Vietnam ou nos dias presentes no Iraque – foi o mesmo: nenhuma vitória à vista", lembra Martynov. E acrescenta: “há um enigma para a atual classe política americana, também conhecida como classe dominante: se os Estados Unidos são tão poderosos como alegado por muitos (…) então onde estão os resultados tangíveis do que ao longo de toda a história humana serviram como o mais importante teste de poder: vitórias em guerras?” Ele cita a pergunta de Patrick Armstrong, um observador americano: "Quando foi a última vez que os EUA venceram uma guerra? Quando foi a última vez que tropas treinadas dos EUA combateram eficazmente?". Talvez tenha sido a “vitória” da invasão de Granada, em 1983, ilha com 100 mil habitantes no Caribe e uma “tropa” de 500 homens…

O livro de Martyanov levanta problemas de fundo, que vão desde o sistema de ensino nos Estados Unidos até a deficiência congênita de muitos sistemas de armas concebidos pelo país (exemplos: o novo caça F-35 e os destroyers da classe Zumwalt, cada um dos quais custa US$4,4 mil milhões). Mas as realidades relativas à situação militar real dos EUA são negadas pela sua elite civil. Quanto à opinião pública, grande parte da sua errada percepção de onipotência deve-se a Hollywood. Figuras como o general Patton – que encarava a guerra como uma competição desportiva – foram glorificadas no cinema. E batalhas da II Guerra como a de Kursk, que envolveu três milhões de homens, 8000 tanques e 5000 aviões, ganhavam menos destaque que o desembarque na Sicília.

Mas para a situação presente há razões ainda mais fundas que “a degeneração intelectual geral das elites do poder estado-unidense” (sic) e a sua falta de cultura estratégica. Essas razões são de ordem sistêmica. Os Estados Unidos não precisam conceber e produzir bons sistemas de armas porque a sua existência não está nem nunca esteve ameaçada. Por isso a questão do armamento transformou-se num gigantesco negócio para os oligopólios que o dominam. O próprio sistema de aquisição de armas (procurement), prestando-se a toda classe de corrupção, reflete isso.

Exceto em 1814, no episódio em que a tropa britânica pôs Washington a ferro e fogo e incendiou a Casa Branca (retirando-se a seguir), os EUA nunca foram atacados no seu território. Por isso as suas costas podem permanecer indefesas, nunca houve ameaças de desembarques anfíbios. Esse facto histórico explica em parte a (in)cultura estratégica da sua elite, inclusive a financeira. Também por isso as armas não precisam serem muito boas e nem muito baratas. Elas são feitas para o lucro comercial, é preferível até que sejam caras, pois assim ganham mais. E a sua qualidade é boa só para combater os fracos, adversários subdesenvolvidos como o Iraque.

A ausência de cultura estratégica da elite do poder nos EUA remonta a décadas. Exemplo disso foi a opção monstruosamente dispendiosa pelos porta-aviões, que são mamarrachos imprestáveis para qualquer guerra moderna – servem só para intimidar ou agredir países fracos. Esta opção estratégica foi tomada em detrimento da opção mais moderna e menos custosa dos mísseis, desenvolvida pela URSS e agora pela Rússia. É divertido saber que houve mesmo uma espécie “sindicato” de pilotos da US Navy que se opunha aos mísseis, considerando-os “concorrentes” que poderiam vir a substituir a sua perícia profissional. Chegaram a propor que o alcance dos mísseis não ultrapassasse as 50 milhas…

O divisor de águas
O discurso de Putin em 1º de março deste ano foi um divisor de águas. Foi como o menino da fábula que perante a corte declarou em alto e bom som: “O rei vai nu”. Os novos sistemas de armas apresentados publicamente por Putin mostram a absoluta superioridade militar da Rússia. Já não há paridade. Há, sim, inferioridade dos EUA. As notícias que Putin revelou mostram a US Navy como uma força esvaziada: a frota tornou-se obsoleta e vulnerável diante das novas armas russas. Trata-se de novos mísseis, de armas submarinas autônomas que podem atravessar oceanos e de armas eletrônicas. Destas últimas já havia sido dado um indício com a “apresentação” feita ao USS Donald Cook no Mar Negro, que teve as suas capacidades de combate anuladas (écrans negros) por um caça russo. Quanto à célebre tecnologia furtiva (stealth) de aviões americanos, também elas foram anuladas por novos radares russos e novas tecnologias com base na radiofotônica. “Elas tornam a furtividade completamente obsoleta”, afirma Martyanov. O autor mostra abundantes pormenores técnicos para corroborar a sua análise.

Na guerra da Geórgia (2008), em que forças armadas treinadas pelos EUA atacaram a Ossécia, as forças russas responderam com a estratégia adequadamente chamada de “coerção à paz”. Venceram os agressores e restabeleceram a paz. Tudo indica que esta é a estratégia atual da Rússia: coagir à paz. O imperialismo ainda se comporta agressivamente, como se vê nestes dias na Síria. Mas a força inexorável da realidade dos fatos – a perda de paridade estratégica – acabará por se impor. A atual histeria anti-russa nos EUA, e entre os seus vassalos, tem muito a ver com o desespero. As ilusões de grandeza e o mito triunfalista dos EUA começam a definhar. Gradualmente a sua classe dominante terá de se conformar ao mundo multilateral e a ideologia neocon terá de ser enterrada.

09/Setembro/2018
Ver também:
Comando e controle
Esta resenha encontra-se em http://resistir.info/

* o autor é jornalista, de Portugal.

.

quarta-feira, 15 de março de 2017

A CIA é uma Gestapo gigantesca


Janio de Freitas *
A última novidade americana de que temos notícia já não é uma Casa Branca manicomial, mas não foge à linhagem das contribuições psicopáticas à cada dia mais desatinada "civilização ocidental". Além de penetrar à vontade nas comunicações telefônicas mundo afora, como aconteceu a conversas de Angela Merkel, Dilma Rousseff e outros governantes, e de entrar nos computadores alheios, o serviço de espionagem e sabotagem dos EUA – CIA – pode valer-se dos aparelhos domésticos de TV para captar e transmitir-lhe as conversas no respectivo ambiente. Sem palavras rastejantes, a CIA é uma Gestapo gigantesca, planetária, levada às últimas possibilidades de invasão das mentes e da vida humana.

Diante desse poder cibernético, o que pode o mundo, sua vítima, é repetir a divisão motivada pelo poder nuclear. De uma parte, os países que desviaram imensas fortunas para entrar no círculo atômico; de outra, os que se sujeitam à subalternidade ou preservam uma posição digna no mundo por meio de uma posição independente e estrategicamente habilidosa.
Michel Temer falou há pouco da importância reconhecida ao Brasil. Apenas três dias antes, o correspondente Henrique Gomes Batista transmitira as palavras do brasilianista Peter Hakim, presidente do Inter-American Dialogue: "Antes, toda vez que eu voltava do Brasil, as pessoas queriam saber o que o país estava fazendo, se havia novidades. Hoje o país perdeu a relevância". A palavra "hoje" define o que era o "antes".


No "antes", talvez referente sobretudo ao plano interno, a estratégia e a política internacionais do Brasil foram fundamentais para as "novidades". Mas foi também nele que isso começou a esvaziar-se, pelo plano secundário em que foi deixado por Dilma Rousseff. Sem reclamações internas. Primeiro, porque a imprensa/TV no Brasil faz jornalismo tipicamente periférico, repetidor de uns poucos (hoje em dia, pouquíssimos) temas do jornalismo internacional dos centros mundiais de decisão.
Além disso, porque interessar-se pela virada que a "política exterior ativa e altiva" introduziu, em seguida a um período caudatário dos ditames americanos até na política econômica, fortaleceria um governo e várias políticas indesejados pelo poder econômico. Por mais que estivesse beneficiado pela ação comercial incluída na nova política externa.


A África representou muito nessa política. Os Estados Unidos têm grande interesse na face africana voltada para o Atlântico Sul: ali está o petróleo alternativo para previsíveis problemas com sua fonte petrolífera na Arábia. Os americanos veem a África Ocidental como uma espécie de reserva sua não declarada. Mas a costa atlântica da África está voltada também para o Brasil. E em frente às jazidas e poços brasileiros, inclusive do pré-sal. A busca de relações profundas com essa África, importantes até para a soberania brasileira, levou a iniciativas que a Lava Jato entende como picaretagem. Na cooperação militar, a Marinha brasileira tem até presença expressiva na Namíbia.


Nessa política, as multinacionais brasileiras tinham um papel e uma fonte de ganho, com igual relevância. Sua atividade em quatro dos países africanos e em um sul-americano compõem os capítulos de um livro que, afinal e quase inexplicavelmente, moveu o jornalismo brasileiro para parte das iniciativas africanas do Brasil. É uma reportagem, rara no tema e ótima na realização, que proporciona também uma visão social e política, como um fundo que dá ao livro dimensão bem maior do que o indicado no título, "Euforia e Fracasso do Brasil Grande". Jornalista de primeiro time, Fábio Zanini deu uma leitura agradável e informativa a um tema desprezado que vale a pena conhecer.


E quem quiser saber o que é diplomacia, e o que nela foi a ação que por certo tempo incluiu o Brasil nas decisões mundiais, as respostas estão dadas pelo ex-ministro Celso Amorim, em "Teerã, Ramalá e Doha — memórias da política externa ativa e altiva". Livro ótimo, para hoje e para o futuro. Mas que dá certa nostalgia, no Brasil que "perdeu a relevância".


* o autor é jornalista


Publicado originalmente no jornal Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/janiodefreitas/2017/03/1865630-a-cia-e-uma-gestapo-gigantesca.shtml

.