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quarta-feira, 26 de outubro de 2022

O fotógrafo e as sincronicidades perigosas

Rinaldo Arruda *
Olhando no retrovisor o caminhoneiro Vilmar viu o carro se aproximando rápido, já no topo da longa subida, quando sua velocidade diminuía.


- Maria, se prepara, segura firme, se esse cara me passar mais uma vez vou jogar a carreta em cima dele.


Vilmar resolveu trazer a mulher junto nessa viagem para Juína, no nortão matogrossense. O asfalto tinha chegado até lá, já não era tão difícil como antigamente.


Mas agora o problema era outro. Se antes a estrada, a lama, os buracos, as pontes destruídas paravam os caminhões e estabeleciam uma solidariedade entre todos naquele mundo de dificuldades, agora eram os assaltos às carretas carregadas que preocupavam e era cada um por si. O asfalto não pára ninguém, todos se movimentando de um ponto ao outro, ninguém para mais para ajudar.


Eram muitos os assaltos no trecho, por isso Vilmar só viajava de dia, assim como outros caminhoneiros.

Já ia passando Campo Novo do Parecis, lá onde Mato Grosso parece um mar, só que de soja, o verde plano se espalhando de horizonte a horizonte, só cortado pela fita de asfalto e pelos linhões de energia elétrica, torres gigantes em fila até se perder de vista, como guardiões, como sentinelas robóticas alienígenas desse mar de soja.


Então, nessa paisagem estranha, é a mulher que vê primeiro: um carro parado e um homem apontando uma máquina fotográfica para eles na carreta. Conforme foi se aproximando Vilmar percebe os sucessivos cliques da máquina. Passa por ele, vê pelo espelho que o homem entra no carro e devagar volta para o asfalto, seguindo sua carreta.


Esquisito, comenta com a mulher. Logo o carro os alcança, ultrapassa e perde-se na distância.

Continuam navegando no estranho e tedioso mar de soja, por sobre a fita cinza negra do asfalto.


Passou-se um tempo, já tinha até esquecido o fotógrafo, distraiam-se olhando o movimento de um avião pulverizando as plantações. De repente, olha de novo o carro parado ali! É o mesmo carro, o mesmo fotógrafo que lhes aponta novamente a máquina, diretamente para a frente do caminhão. Passam apreensivos, sentindo-se perseguidos...


Fala pelo rádio com a central, a mulher tinha anotado a placa do carro. Pedem para verificar. Dali a pouco chega a resposta: o numero da placa corresponde a um carro Monza, não a um Pajero.


Tiveram certeza: placa falsa, provavelmente carro roubado, bandido na certa. Por que as fotografias? Será que envia de algum modo pela internet para outros o interceptarem???


Seguiram em frente com grande apreensão, comunicaram a sua central que estavam sendo seguidos por um carro suspeito. A central diz para ficar em contato, não se arriscar, não parar para conversar, parar num posto de gasolina.


Pelo retrovisor vê novamente o carro se aproximando rápido. Fala para a mulher: se segure, dependendo se ele me passar vou jogar o caminhão para cima dele!


O fotógrafo

Durante muito tempo vinha praticamente todos os anos para o Mato Grosso. Na década de 1980, jovem antropólogo, pesquisou os Rikbaktsa, povo indígena da bacia do rio Juruena. Viu aquela região no início dessa última onda de colonização, que instalou o modelo atual de ocupação, baseado na monocultura da soja e na criação extensiva do gado. Quer dizer, conheceu aquela região quando sua mata estava em pé e os habitantes de lá viviam dela, da floresta. O avanço da agricultura industrial, da rede rodoviária, das hidrelétricas, da expulsão do homem do campo, do inchamento das cidades, da lógica e das práticas capitalistas a vinha desfigurando desde então.


Fazia cerca de 10 anos que não visitava os Rikbaktsa. Nos últimos anos alguns deles é que o visitaram em São Paulo, reacendendo a saudade dos muitos amigos e conhecidos que lá fizera e da região em que vivera alguns anos. Resolveu visitá-los nas férias de janeiro.


Chovia sem parar desde que chegara a Cuiabá, dois dias atrás. Hoje seguia para Campo Novo do Parecis e de lá iria para Brasnorte. Dormiria lá e na manhã seguinte seguiria até a aldeia do Barranco Vermelho, já dentro da terra indígena Rikbaktsa.

Parou a chuva pouco depois de Campo Novo do Parecis, quando o mar de soja se tornava absoluto, dominando os 360 graus da paisagem. Os linhões de energia elétrica de alta voltagem seguiam a perder de vista na paisagem plana. Altas torres, com braços e formas estranhas segurando fios de horizonte a horizonte por sobre um tapete verde uniforme. Paisagem quase alienígena, estranhíssima para quem havia conhecido a exuberância e a variedade das matas que a cobriam.


- Putz! Que paisagem louca! Olha essas nuvens pesadas emoldurando a cena!


Parei o carro para fazer umas fotos. Foto difícil. Difícil passar na imagem a grandiosidade depressiva dessa uniformidade. Quando a gente fotografa fica parecendo sem graça, nenhum contraste, nenhuma variedade, nada que estimule ou desafie o olhar. Mas, vamos lá.


Desci do carro bem quando na estrada vazia surgia um caminhão. Deixei-o se aproximar e quando estava perto cliquei várias vezes, aproveitando a linha cinzenta do asfalto e o caminhão se aproximando para criar um ponto de ruptura, permitindo ao olhar perceber a escala da cena.


Várias fotos depois segui viagem, de novo naquela monotonia de mais soja a perder de vista, vigiadas por fileiras de torres de aço enormes ligadas por fios de alta voltagem até além do horizonte.


Subitamente, um ponto em movimento. Um avião monomotor vermelho, bem pequeno, voava baixo, pouco acima da soja, pulverizando a plantação. Ia longe e voltava até a estrada, ultrapassava-a, fazia uma volta apertada, quase uma acrobacia e voltava pulverizando. Parei de novo para fotografar.

Bem quando o avião subia numa curva acrobática sobre a estrada estava passando um caminhão, quase estragando a cena. Cliquei várias vezes tentando fixar várias posições do avião temendo que o caminhão avançasse demais roubando a cena.


Já no entroncamento para Brasnorte avistei desde longe o gigantesco armazém de soja com o nome da família Maggi, letras enormes, ocupando toda uma lateral, ao lado de um posto de gasolina. Meio com preguiça de parar de novo, fotografei da janela, sem sair do carro, esse lugar de entesouramento de toda aquela linha de produção vegetal, do maior produtor de soja do mundo.


Segui em frente, alcancei Brasnorte, procurei uma pousada, deixei minhas coisas no quarto e de lá saí para jantar.


Vilmar

Vilmar segurava firme a direção com um sentimento meio ruim no peito, sem tirar o olho do retrovisor, enquanto seu perseguidor se aproximava rápido. Na última hora vacilou. Quando viu, o carro, bem mais veloz, já terminava a ultrapassagem distanciando-se na estrada à sua frente.


- E se ele não for assaltante? Não deu para jogar a carreta...

- Você fez bem Vilmar, acho que ele já foi embora, o apoiou Maria.


Estavam chegando no posto de gasolina, bem no entroncamento para Brasnorte quando veem o carro parado na beira da estrada; esperando por eles?


Vilmar entra no posto já falando alto, pedindo socorro. – Estamos sendo seguidos por um carro suspeito, olha ele ali, parado. Os funcionários do posto saem para olhar e o carro se afasta em direção à Brasnorte.


Ligam para a polícia da cidade e contam toda a história, pedindo proteção.


- Não saia daí, vamos já para aí. Qual é a placa do carro? Antes de sair conferem a placa e confirmam que é mesmo de um carro Monza e não de um Pajero.


Meia hora depois já encontram seu Vilmar e dona Maria, escoltando-os até Brasnorte. A polícia local procura o carro suspeito na cidade e ao redor, enquanto Vilmar e a mulher resolvem dormir em Brasnorte e seguir viagem só no outro dia, pois já anoitecia.

O professor
Eu estava na mesa esperando servir o comercial. A moça já tinha trazido a coca-cola, estavam preparando o resto da comida, quando chegaram os policiais.


Estavam parados lá fora, perto da porta, me olhando. Entraram e aproximando-se: - O pajero parado em frente é seu?

-É...

- Tem documento?

- Claro, está no carro. Levantei e fomos andando para lá.


Várias perguntas meio estranhas depois (de onde era, o que fazia, se tinha documento provando que era professor, o que estava fazendo ali, etc.) o policial dispara numa pergunta meio acusadora: - Você fotografou uma carreta hoje à tarde lá na estrada, depois de Campo Novo dos Parecis?


- Provavelmente fotografei até mais de uma carreta, fotografei plantações de soja, armazéns, silos, várias paisagens, a estrada. Como disse, estou numa viagem meio de turismo, vim parando, tirando fotos do que achei interessante. Qual o problema?


Estava mais calmo, até achando tudo meio engraçado. Com quem estavam me confundindo? Falei que era professor da PUC de São Paulo, mostrei a carteirinha de sócio da associação de professores, meus documentos, conversamos numa boa e eles foram relaxando, percebendo o equívoco.


Me disseram como explicação: “Desculpe professor, estamos apenas fazendo nosso trabalho. O motorista de uma carreta achou que o estava perseguindo, nos chamou, queria vir tirar satisfação com você. Dissemos para ele esperar que nós íamos verificar primeiro.


- Já percebemos que a mulher dele anotou uma letra errada da sua placa, como o número era de um Monza achamos que seu carro era roubado. Agora está tudo em ordem. Desculpe, pode jantar sossegado.


Voltei, refletindo sobre o absurdo da situação. Chegou meu comercial, comi com apetite e saí para pegar o carro e ir dormir no hotel. Pensava se os policiais ainda não estariam ali por perto, queria pedir a eles que me desculpassem junto ao caminhoneiro por tê-lo assustado inadvertidamente.


Os policiais não estavam à vista, mas lá fora estavam Vilmar, sua mulher e mais dois caminhoneiros como apoio, me esperando sair.


Vilmar já havia sido esclarecido pela policia, mas a desconfiança ainda teimava em botar a cabeça de fora. Chamou dois caminhoneiros conhecidos para acompanhá-lo numa conversa comigo, só como garantia de segurança.


Foi só aí que eu soube de sua angústia e das coincidências que pareciam reafirmar cada vez mais que eu o perseguia. Minha última parada para fotografar o armazém do Maggi fora a gota d’água. Teve certeza absoluta que eu tramava algo contra ele! No seu entendimento, naquele momento já sabiam que eu era bandido pois minha placa era falsa e quando me viram parado ali, bem no entroncamento, onde ele teria que parar antes de virar em direção a Brasnorte, teve certeza que seria atacado de alguma maneira.


Entrou no posto em busca de socorro, pensando: - Consegui escapar na hora H!


E eu, gelei de repente, minha adrenalina bombou meu coração quando percebi que quase fora morto. Só não jogou a carreta em cima do meu carro por um triz, vacilou, ele ia mesmo jogar, alguma coisa indefinida o conteve, um laivo de uma dúvida. E se ele matasse um inocente?


Conversamos bastante, repetimos muitas vezes a história, ele a dele e eu a minha, até que os dois descarregaram a tensão. A dele de uma tarde inteira e a minha, só da última meia hora, mas que veio forte e intensa quando percebi que por pouco não morri ali, naquele mar de soja, vitima de um equívoco, construído em cima de uma série de pequenas coincidências.


Mas, me pergunto, como fiz a ele, por que um homem parado na beira de uma estrada tirando fotografias pode ser ameaçador dessa maneira? O cara ia me matar! Ou a polícia poderia!


Que mundo é esse em que vivemos? Tá todo mundo louco?

  

* Rinaldo Arruda, na aldeia Primavera, em janeiro de 2011, onde cheguei a salvo, e olhando bem ao redor antes de fotografar qualquer outra coisa.

O autor é mestre e doutor em antropologia e professor aposentado pela PUC/SP; é autor de diversos livros, entre eles "Os Rikbaktsa: mudança e tradição". Foi presidente do Conselho Diretor da Operação Amazônia Nativa - OPAN por 3 gestões e tem dezenas de estudos e pesquisas científicas publicadas.



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quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

O café no Brasil e no Estrangeiro - Augusto Ramos, 1923.


João Romero  

Antigamente as pessoas tinham uma visão holística das coisas como um todo, ou não sabemos pensar hoje em dia? Tire suas conclusões...



 
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quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

domingo, 8 de dezembro de 2019

O perigo que corremos


Daniel Strutenskey Macedo 
As revoltas que estão acontecendo em vários países é fruto de da convergência de duas coisas: a maior comunicação entre as pessoas e a maior concentração de renda dos países. A maior comunicação traz tudo à tona, as pessoas são estimuladas a reagir. Reagir num sentido ou em sentido contrário, o que provoca tensões sociais. A maior concentração de renda num pequeno percentual de ricos torna mais difícil a vida das pessoas comuns e que aspiram melhoria de vida. Melhoria que não chega e que não apresenta perspectivas. Daí o pessimismo. As críticas. Críticas que refluem para intensificar a comunicação pessoal e que são amplificadas nas mídias sociais, as quais lhes dão intensidade e força. Força e intensidade perigosa, que causa disputas, rupturas, passeatas, manifestações violentas.

Grupos organizados utilizam as mídias sociais com robôs para influenciar a população e conseguir apoio para as suas posições e aspirações sociais, econômicas e políticas. Fala-se muito em Fake News, mas não são elas que produzem efeito, mas, sim, o fato das Fake News pegarem, serem bem recebidas pelos grupos que pensam e sentem de maneira semelhante aos que produziram a Fake News. Não é uma questão de ser Fake ou não, mas de encontrar nas pessoas sentimentos semelhantes aos conteúdos que noticias e mensagens (falsas ou não) passam para o público. Portanto, o problema são os sentimentos, as ideias, as crenças e os valores das pessoas. Ou seja, cultura!

A cultura é construída no seio familiar, no grupo próximo a nossa criação, na educação formal das escolas, nos nossos ambientes de trabalho, nos filmes, novelas, series, musicas, publicidade, jornalismo. O que sentimos é profundo e tem origem familiar e do grupo social próximo. Dizer que os filmes, as novelas e o jornalismo são responsáveis pelo que estamos passando é dizer bobagem. São nossos sentimentos que formaram nossa personalidade que filtram o que vemos, ouvimos, assistimos, participamos. Tanto assim, que não conseguimos mudar a maneira de ver o mundo nem nos nossos filhos. Cada um tem a sua cabeça, as suas preferências, a sua vida, o seu mundo. Logo, os conflitos são frutos das diferentes formas que as pessoas veem o mundo, o modo como sentem a vida. Tudo o que eu escrever e defender aqui, neste momento, não mudará o seu pensamento, o juízo que você tem e faz das coisas. Você continuará acreditando e defendendo o seu modo de pensar e sentir, os seus valores. O que as redes sociais fazem é unir em grupos os mesmos modos de pensar e sentir.

E quando as mensagens são de ódio, de preconceito e de revolta, elas ganham força, pois reúnem milhões de pessoas. Formam, digamos assim, uma grande boiada e se essa boiada estoura causa problemas. É isto que está acontecendo. As boiadas estão formadas e estão em disparada. Aqui no Brasil as boiadas foram formadas na ultima campanha eleitoral. Primeiro batendo nos petistas e depois reunindo bolsonaristas.

O Partido dos trabalhadores praticamente acabou depois que se corrompeu. Quem é jovem e não viveu os anos 60 não sabe que o Partido dos Trabalhadores, o original, não causou problemas, pelo contrário foi uma iniciativa política de fazer política pacifica e acabar com os movimentos extremistas. E como, ao nascer, conquistou os trabalhadores, os grupos extremistas, se sentindo isolados e sem espaço, ingressaram no partido para poder participar, não ficar de fora. Apesar disto, a partir daí tivemos um período de paz politica, pois a base do partido dos trabalhadores contava com muitos militantes da igreja, com famílias, que não eram extremistas. Depois, quando conquistou poder público e cargos, o partido também utilizou as negociatas para ter recursos de campanha. Por causa disto, de ter feito o que os outros partidos faziam e fazem, o partido dos trabalhadores acabou. Não é mais o partido que tivemos nos anos 80 e 90.

Nasceu o bolsanarismo. Nasceu com o vigor e o idealismo de reforma, justiça e melhoria social que anteriormente fez nascer o antigo partido dos trabalhadores. Só que agora como um partido chamado de Liberal, “palavra da moda”, mas bastou onze meses para mostrar que disputa interesses pessoais, divulga Fake News através de robôs, ataca politicamente professores, estudantes, sindicalistas, artistas, índios, umbandistas e intelectuais. Qual seja, divide a sociedade brasileira. Não é republicano, não é democrata. Mas faz de conta de que é e atrai multidões que desejam justiça, reformas, melhoria de vida. É parecido com o que aconteceu com o PT, com a diferença que o PT atacava o Liberalismo e os capitais. Ataque idiota, pois nossa economia é capitalista. O problema não é o capital, mas a forma como o capital contribui socialmente para a Nação e o Estado. Agora os bolsonaristas atacam o Socialismo e Comunismo. Regimes econômicos que nem existem mais. Até a Rússia é capitalista. E a China então, mas que de comunista só tem o nome do partido. As suas ações são de mercado, de aumento de capitais, de abertura de novas empresas e novos produtos, de conquistar os mercados do mundo. Os grupos bolsonaristas, no entanto, dão guarida a essas bobagens, pois por detrás de tudo estão os valores e os sentimentos dos que pensam de maneira igual ou semelhante.

O perigo, portanto, é a exacerbação dos ânimos e o choque dos grupos adversários, das boiadas. Quem pagará a conta? As famílias. Todas. Até aquelas que agem de modo sensato e equilibrado, que respeitam as opiniões alheias, que não utilizam jargões e frases de efeitos, mas de argumentação fundamentada em valores cristãos. Cristãos de verdade e não esses que estão divulgados por bolsonaristas e petistas.

Nós, que não nos identificamos com estes grupos extremistas, e que somos maioria, precisamos nos unir e divulgar nossa indignação pelo que os dois grupos estão fazendo. Não é este o clima político que queremos para o nosso país, para a nossa nação. Nação plural, mas orgulhosa de si e de seus valores republicanos e cristãos. Queremos reformas, mas com equilíbrio, com a mediação, com negociações respeitosas.


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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Liquidificador é uma arma

Richard Jakubaszko  
Síntese das imbecilidades que foram vomitadas pela equipe que tomou posse em Brasília neste janeiro de 2019: o liquidificador é uma arma. Vejam o que dizem as pesquisas:
(Parece sério, mas é humor imbecil. Obra de arte enviada pelo jornalista Delfino Araújo)

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sábado, 28 de abril de 2018

9ª Sinfonia, de Beethoven

Richard Jakubaszko  
Em minha opinião a humanidade atingiu a perfeição, quase divina, quando Beethoven compôs a 9ª Sinfonia. Nestas horas a gente chega a desacreditar que houve a evolução das espécies, conforme teoria de Darwin. Não dá para acreditar que um descendente de macaco tenha criado essa maravilha musical, amparado na matemática e no talento, e ainda por cima o alemão já era surdo. Quem acreditar em contrário que me argumente, afinal, este é um blog de debates. Adianto que vai ser difícil de me convencer do contrário.

Obs. O vídeo acima está com mais de 88 milhões de visualizações.

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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Genial pintura chinesa da história humana

Richard Jakubaszko
Criada por 3 artistas chineses, trata-se de uma obra contemporânea, moderna, preparada para a internet. Nela estão retratadas algumas das personalidades mais importantes da história da humanidade, como Mao Tsé Tung, Marx Einstein, Napoleão, Ghandi, Júlio César, Freud, Hitler, Darwin, Fidel Castro, Alfred Nobel, Lênin, artistas como Michelângelo, Bethoven, Chaplin, Picasso, e até esportistas.

O único brasileiro presente é Pelé. Mas Santos Dumont foi lembrado, na figura do 14-BIS, em cima de uma das mesas. Da mesma forma, Gutemberg é retratado por uma bíblia, na mesma mesa. A Muralha da China, as Grandes Pirâmides de Gizé, as estátuas da Ilha de Páscoa, e outras construções notáveis estão “escondidas” ao longo da tela. Aparecem várias personalidades vivas, como Bill Gates, Mike Tyson, Elisabeth II, Príncipe Charles, Michael Jordan e Bill Clinton. Foram registradas algumas das invenções mais importantes, mas esqueceram de muitas, talvez as mais relevantes.

Apenas como curiosidade, e não de crítica, anotei a falta de alguns nomes muito importantes, se não vitais, na história mundial, como Jesus Cristo, Moisés, Newton, Bach, Cristóvão Colombo, Marco Polo, Copérnico, Voltaire, Camões, Nero, e a ausência de citação de qualquer Papa da igreja católica, até mesmo de Pedro, o primeiro papa, ou de Gregório, assim como de alguns santos e de outros religiosos importantes ao longo da história, como Santo Agostinho, Lutero, Buda, alguns reis da Inglaterra e de todos os luízes da França, também de Maria Antonieta, Robespierre, afinal, foram personagens centrais da Queda da Bastilha, inegavelmente um dos acontecimentos mais importantes da história humana. Além disso, até mesmo Cleópatra foi desconsiderada. O comentário é pertinente porque a tela incluiu nomes como Bruce Lee e outros de menor relevância, pois até mesmo Osama Bin Laden está lá. Esqueceram também de quase todos os filósofos gregos, apenas Aristóteles foi lembrado.

Os 3 artistas criadores dessa tela se “auto homenagearam”, eles estão no canto superior direito da tela, ao lado de Dante, e a tudo observam, debruçados sobre a Muralha da China.


A tela é enorme, ao passar o mouse em cima de cada figura aparece o nome da personalidade (no link abaixo), e a um duplo clique você é encaminhado para a página do mesmo na Wikipédia, onde se revelam dados sobre cada um dos retratados.
Boa viagem pela história, mesmo com os esquecimentos, pois vale a pena, há muito para aprender. Se esse pessoal todo está junto no paraíso, ou pelo menos uma parte está no inferno, não dá pra saber, mas que deve ser interessante, deve sim: http://cliptank.com/PeopleofInfluencePainting.htm

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sábado, 27 de janeiro de 2018

Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente

Mauro Santayana *
(Do blog com equipe) - Inspirados pelo livro de 1937, de Dale Carnegie, “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, e por personagens recentes de nossa história, subitamente elevados à condição de celebridades, ousamos, como no caso do Pequeno Manual do Grande Manuel, nos aventurar no atrativo mercado das obras de autoajuda, em 15 passos (três a mais que os alcoólatras anônimos) com o tema “Como manter uma colônia ou eliminar um concorrente”.

Sem mais preâmbulos, vamos à receita:

1 – Comece por cortar a sua possibilidade de financiamento, apoiando a criação de leis que impeçam o seu endividamento, mesmo que ele tenha uma das menores dívidas públicas entre as 10 maiores economias do mundo e centenas de bilhões de dólares em reservas internacionais, que você esteja devendo muito mais do que ele com relação ao PIB, e que ele seja o seu quarto maior credor individual externo.

2 – Apoie, por meio de uma mídia comprada cooptada ideologicamente e também de entrevistas de “analistas” do “mercado”, estudos e “relatórios” de “consultorias de investimento” controladas a partir de seu país e da pressão de agências de classificação de risco, às quais você não daria a menor bola, um discurso austericida, privatista e antiestatal para a economia do seu concorrente.

3 – Com isso, você poderá retirar das mãos dele empresas e negócios que possam servir de instrumento para o seu desenvolvimento econômico e social, inviabilizar o seu controle sobre o orçamento público, e eliminar a sua liberdade de investimento em ações estratégicas que possam assegurar um mínimo de independência e soberania em médio e longo prazo.

Companhias estatais são perigosas e devem ser eliminadas, adquiridas ou controladas indiretamente.

Elas podem ser usadas por governos nacionalistas e desenvolvimentistas (que você considera naturalmente hostis) para fortalecer seus próprios povos e países contra os seus interesses.

4 – Aproveite o discurso austericida do governo fantoche local para destruir o seu maior banco de fomento à exportação e ao desenvolvimento, aumentando suas taxas de juro e obrigando-o a devolver ao Tesouro, antecipadamente, centenas de bilhões em dívidas que poderiam ser pagas, como estava estabelecido antes, em 30 anos, impedindo que ele possa irrigar com crédito a sua economia e apoiar o capital nacional, com a desculpa de diminuir – simbólica e imperceptivelmente – a dívida pública.

5 – Estrangule a capacidade de ação internacional de seu adversário, eliminando, pela diminuição da oferta de financiamento, o corte de investimentos e a colocação sob suspeita de ações de desenvolvimento em terceiros países, qualquer veleidade de influência global ou regional.

Com isso, você poderá minar a força e a permanência de seu concorrente em acordos e instituições que possam ameaçar a sua própria hegemonia e posição como potência global, como o é o caso, por exemplo, da UNASUL, do Conselho de Defesa da América do Sul, do BRICS ou da Organização Mundial do Comércio.

6 – Induza, politicamente, as forças que lhe são simpáticas a paralisar, judicialmente - no lugar de exigir que se finalizem as obras, serviços e produtos em andamento - todos os projetos, ações e programas que puderem ser interrompidos e sucateados, provocando a eliminação de milhões de empregos diretos e indiretos e a quebra de milhares de acionistas, investidores, fornecedores, destruindo a engenharia, a capacidade produtiva, a pesquisa tecnológica, a infraestrutura e a defesa do país que você quer enfraquecer, gerando um prejuízo de dezenas, centenas de bilhões de dólares em navios, refinarias, oleodutos, plataformas de petróleo, sistemas de irrigação, submarinos, mísseis, tanques, aviões, rifles de assalto, cuja produção será interrompida, desacelerada ou inviabilizada, com a limitação, por lei, de recursos para investimentos, além de sucessivos bloqueios e ações e processos judiciais.

7 – Faça a sua justiça impor, implacavelmente, indenizações a grandes empresas locais, para compensar acionistas residentes em seu território.

Se as ações caírem, quem as comprou deve ser bilionariamente compensado, com base em estórias da carochinha montadas com a cumplicidade de “relatórios” “produzidos” por empresas de “auditoria” oriundas do seu próprio país-matriz, mesmo aquelas conhecidas por terem estado envolvidas com numerosos escândalos e irregularidades.

Afinal, no trato com suas colônias, o capitalismo de bolsa, tipicamente de risco, não pode assumir nada mais, nada menos, do que risco zero.

8 – Concomitantemente, faça com que a abjeta turma de sabujos – alguns oriundos de bancos particulares – que está no governo, sabote bancos públicos que não estão dando prejuízo, fechando centenas de agências e demitindo milhares de funcionários, para diminuir a qualidade e a oferta de seus serviços, tornando as empresas nativas e o próprio governo cada vez mais dependentes de instituições bancárias – que objetivam primeiramente o lucro e cobram juros mais altos – privadas e internacionais.

9 – Levante suspeitas, com a ajuda de parte da imprensa e da mídia locais, sobre programas e empresas relacionadas à área de defesa, como no caso do enriquecimento de urânio, da construção de submarinos, também nucleares, e do desenvolvimento conjunto com outros países – que não são o seu – de caças-bombardeios.

Abra no território do seu pseudo concorrente escritórios de forças “policiais” e de “justiça” do seu país, para oferecer ações conjuntas de “cooperação” com as forças policiais e judiciais locais.

Você pode fazer isso tranquilamente – oferecendo até mesmo financiamento de “programas” conjuntos – passando por cima do Ministério das Relações Exteriores ou do Ministério da Justiça, por exemplo, porque pelo menos parte das forças policiais e judiciais do seu concorrente não sabem como funciona o jogo geopolítico nem tem o menor respeito pelo sistema político e as instituições vigentes, que são constantemente erodidas pelo arcabouço midiático e acadêmico – no caso de universidades particulares - já cooptados, ao longo de anos, por você mesmo.

Seduza, “treine” e premie, com espelhinhos e miçangas – leia-se homenagens, plaquinhas, diplomas, prêmios em dinheiro e palestras pagas – trazendo para “cursos”, encontros e seminários, em seu território, com a desculpa de “juntar forças” no combate ao crime e ao “terrorismo” e defender e valorizar a “democracia”, jornalistas, juízes, procuradores, membros da Suprema Corte, “economistas”, policiais e potenciais “lideranças” do país-alvo, mesmo que a sua própria nação não seja um exemplo de democracia e esteja no momento sendo governada por um palhaço maluco, racista e protofascista com aspirações totalitárias.

10 – Arranje uma bandeira hipócrita e “moralmente” inatacável, como a de um suposto e relativo, dirigido, combate à corrupção e à impunidade, e destrua as instituições políticas, a governabilidade e as maiores empresas do seu concorrente, aplicando-lhes multas bilionárias, não para recuperar recursos supostamente desviados, mas da forma mais punitiva e miserável, com base em critérios etéreos, distorcíveis e subjetivos, como o de “danos morais coletivos”, por exemplo.

11 – Corte o crédito e arrebente com a credibilidade das empresas locais e o seu valor de mercado, arrastando, com a cumplicidade de uma imprensa irresponsável e apátrida, seus nomes e marcas na lama, tanto no mercado interno quanto no internacional, fazendo com que os jornais, emissoras de TV e de rádio “cubram” implacável e exaustivamente cada etapa de sua agonia, dentro e fora do país, para explorar ao máximo o potencial de destruição de sua reputação junto à opinião pública nacional e estrangeira.

12 – Dificulte, pelo caos instalado nas instituições, que lutam entre si em uma demoníaca fogueira das vaidades por mais poder e visibilidade, e pela prerrogativa de fechar acordos de leniência, o retorno à operação de empresas afastadas do mercado.

Prenda seus principais técnicos e executivos – incluídos cientistas envolvidos com programas de defesa – forçando-os a fazer delações sem provas, destruindo a sua capacidade de gestão, negociação financeira, de competição, em suma, no âmbito empresarial público e privado.

13 – Colha o butim resultante de sua bem-sucedida estratégia de destruição da economia de seu concorrente, adquirindo, com a cumplicidade do governo local – que jamais teve mandato popular para isso – fabulosas reservas de petróleo e dezenas de empresas, entre elas uma das maiores companhias de energia elétrica do mundo, ou até mesmo uma Casa da Moeda, a preço de banana e na bacia das almas.

14 – Impeça a qualquer preço o retorno ao poder das forças minimamente nacionalistas e desenvolvimentistas que você conseguiu derrubar com um golpe branco, há algum tempo atrás, jogando contra elas a opinião pública, depois de sabotar seus governos por meio de simpatizantes, com pautas-bomba no Congresso e manifestações insufladas e financiadas de fora do tipo que você já utilizou com sucesso em outros lugares, em ações coordenadas de enfraquecimento e destruição da estrutura nacional local, como no caso do famigerado, quase apocalíptico, esquema da “Primavera Árabe” ou a tomada do poder na Ucrânia por governos de inspiração nazista.

15 – Finalmente, faça tudo, inclusive no plano jurídico, para que se entregue a sua colônia a um governo que seja implacável contra seus inimigos locais e dócil aos seus desejos e interesses, a ser comandado de preferência por alguém que já tenha batido continência para a sua bandeira ou gritado com entusiasmo o nome de seu país publicamente.

* o autor é jornalista, editor do blog Mauro Santayana
Publicado em http://www.maurosantayana.com/2018/01/do-blog-com-equipe-inspirados-pelo_18.html