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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Jornais vendem espaço publicitário para médicos que promovem “tratamento precoce” contra Covid-19

No chamado “manifesto pela vida", mais de 2 mil médicos defendem uso de hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco, entre outros medicamentos cuja eficácia contra Covid não está provada.


Jornal GGN – Os principais jornais impressos do Brasil despertaram críticas nas redes sociais, nesta terça (23), por terem cedido espaço de publicidade para médicos que promovem “tratamento precoce” para o novo coronavírus, sendo que, até agora, a ciência não indicou nenhum medicamento com eficácia comprovada contra o novo coronavírus.

Em anúncio de meia página em cerca de 11 jornais – incluindo O Globo, Folha e Estadão – mais de 2 mil médicos anunciantes defendem o uso de um coquetel de remédios que, combinados, poderiam reduzir os efeitos graves do vírus.

“Destacamos que a abordagem precoce não se trata apenas do uso de uma ou outra droga, mas da correta combinação de medicações como a hidroxicloroquina, a ivermectina, a bromexina, a azitromicina , o zinco, a vitamina D, anti-coagulantes entre outras, além dos corticoides que têm um momento certo para sua utilização nas fases inflamatórias da doença, sempre observando-se a adequação das combinações ao estado e evolução de cada paciente, que será acompanhado extensivamente inclusive com a realização de exames conforme necessários, e a recomendação de intervenções não farmacológicas, como a fisioterapia”, cita um trecho da publicação.

A cineasta Petra Costa, seguida no Twitter por mais de 221 mil pessoas, criticou a decisão editorial dos jornais da grande mídia. Parte deles, inclusive, se reúne no consórcio que diariamente apura e divulga os dados da pandemia.

“Os jornais mais lidos do país publicam anúncios de negacionistas da ciência promovendo falsos ‘tratamentos’ para a COVID19. Por dinheiro, atentam contra a saúde pública!! Não é por acaso que o Brasil já tem (oficialmente) 247.276 mortos. Um genocídio com muitos cúmplices…”, sustentou Petra.

O jornalista George Marques também atacou o anúncio. “Então quer dizer que a autoproclamada “imprensa profissional” está distribuindo em suas caras páginas (200 mil só na Folha de S. Paulo) para divulgação de fake news sobre o uso precoce com cloroquina, já cientificamente ineficaz contra a Covid? Quem diria.”

O grupo Sleeping Giants Brasil, que faz no Twitter um trabalho de fiscalização de empresas privadas e públicas que anunciam em veículos que promovem discurso de ódio, cobrou um pedido de desculpas dos jornais.

“Gostaríamos que Folha, O Globo, Jornal do Commercio (PE), Estado de Minas, Correio Brasiliense, Jornal Correio, O Povo e Gazeta Gaúcha publiquem amanhã no mesmo tamanho um pedido de desculpas e a verdade: NÃO EXISTE TRATAMENTO PRECOCE para Covid-19”, tuitaram.

Publicado no Jornal GGN: https://jornalggn.com.br/midia/jornais-vendem-espaco-para-
medicos-que-promovem-tratamento-precoce-contra-covid-19/

Comentário do blogueiro:
Será este o "novo normal", que a mídia alardeou durante o ano passado? Dá nojo perceber o quanto a mídia é escrota, ao publicar anúncios de bandidos. Dá asco, ainda, perceber que mais de 2 mil médicos, os que pagaram pelos anúncios, fazem tudo por dinheiro. Ao rever o post anterior a este, publicado domingo aqui no blog, constata-se que, realmente, a caminhada da humanidade deu em merda. Podemos reinicializar tudo...



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quinta-feira, 25 de abril de 2019

A (i)lógica do direito e o caso Lula

Luís Nassif *  
Quem tem a força, pode tudo. Mas não se utilize o fato das três instâncias terem concordado com essas aberrações, como sinal de imparcialidade da Justiça. Trata-se de estado de exceção na veia.

Em priscas eras, quando denunciei o então consultor geral da República (logo depois Ministro da Justiça) Saulo Ramos, ele tentou respondeu às acusações com um jurisdiquês incompreensível. Na época, consegui uma fonte privilegiada, o então Ministro do Supremo Tribunal Federal Sidney Sanches, que me deu um conselho de ouro: analise a medida do ponto de vista da lógica de uma pessoa racional.

A doutrina tem que espelhar o mundo real
Na época, Saulo deu parecer para conceder um ano de correção pela inflação a títulos da dívida pública emitidos um mês antes do final do congelamento do cruzado. Era uma tramoia óbvia, que ele procurava disfarçar citando capítulos e parágrafos da doutrina.

Algo similar está acontecendo com o julgamento de Lula.

Em qualquer sistema democrático, quem denuncia tem o chamado ônus da prova, a obrigação de provar a acusação. Em caso de dúvida, prevalece a versão do réu. Ou seja, o réu só pode ser condenado quando o conjunto de provas levantadas não derem margem a nenhuma dúvida sobre sua culpabilidade.

Vamos conferir algumas pérolas do julgamento de Lula pelas três instâncias – 13ª Vara, de Curitiba, turma do TRF4 e turma do Superior Tribunal de Justiça.

1 - O que caracteriza a propriedade de um imóvel é o registro. Podem ser também contratos de gaveta. Se não existe provas nem de um nem de outro, não se pode afirmar que o imóvel mudou de mãos. É o caso do triplex. A OAS até poderia pretender vender o imóvel a Lula. Se Lula não aceitou, seja porque não gostou, seja porque o assunto vazou, e não há nenhuma prova da transferência da propriedade, então não houve venda ou doação. Não havendo, não tem crime a ser apurado. Não existe enquadramento legal para o fato de, em algum momento, Marisa da Silva ter manifestado interesse pelo imóvel. A Lava Jato aceitou a suposição do “contrato de boca”, sendo que a boca acusadora foi de outro réu aspirando a delação premiada.

2 - A lavagem de dinheiro é caracterizada pelo ocultamento dos ganhos ilícitos. Como, por exemplo, a compra de bens em nomes de terceiros, para disfarçar a origem do capital. Se o imóvel continua em nome do proprietário original, e não há nenhuma prova da transferência do imóvel para terceiros, então não houve o crime da lavagem de dinheiro. A Lava Jato sustentou que a lavagem de dinheiro consistia, justamente, na não transferência do triplex para o Lula. É de um nonsense

3 - Corrupção e lavagem de dinheiro são tratados como uma ação única pelo STF. Não pode haver duas penas para uma só ação. As três instâncias aplicaram as duas penas porque, segundo os doutos juízes, a lavagem do apartamento prosseguiu muitos anos depois dos supostos fatos que teriam originado a propina. E qual a prova? O fato do triplex continuar em nome da OAS. Não há código nem jurisdiquês que legitime tal absurdo lógico.

4 - Não se levantou uma prova sequer sobre a compra do triplex por Lula. Mas a conclusão da Justiça, nas três instâncias, não foi a de que Lula seja inocente, mas a de que ele era muito esperto para ser apanhado e a operação era muito sofisticada. Fantástico! No mundo da lavagem de dinheiro, em que correm cifras bilionárias, transitando em paraísos fiscais, por estruturas complexas de dinheiro, de offshores, a tal operação sofisticada consistia em um tríplex meia boca em plena Guarujá, onde o beneficiário pela lavagem de dinheiro desfilaria publicamente pelas calçadas da cidade.

5 - A não ser em economias centralizadas, políticas econômicas são feitas para beneficiar setores da economia. Pode parecer estranho a procuradores e juízes, que pertencem ao lado improdutivo da economia, mas economia de mercado é assim. É papel dos governantes criar condições favoráveis às empresas nacionais, para que possam gerar emprego, impostos e investimentos. E é comum essas empresas apoiarem os partidos políticos cujas políticas públicas são benéficas ao setor. A propina é caracterizada por um percentual amarrado a uma obra específica. Além de não conseguir comprovar que o tríplex foi repassado a Lula, a Lava Jato não conseguiu estabelecer uma relação sequer entre o tríplex e os três contratos que a OAS tinha com a Petrobras. Por isso criou a figura do fato indeterminado.

6 - Toda a denúncia se baseou em uma delação na qual, para ter direito a benefícios, o delator teria que entregar o que os inquisidores pedissem. Justamente para evitar esse tipo de manobras, só são aceitas delações acompanhadas de provas. A Lava Jato aceitou as delações de Leo Pinheiro. Provas? Em determinado momento da delação, Pinheiro explicou ter destruído as provas, a pedido de… Lula, é claro. E a Lava Jato aceitou.

7 - Lula só poderia ser acusado de corrupção no período em que foi presidente – e, portanto, tinha ascendência sobre as pessoas indicadas. Para tanto, Moro colocou como data do crime 2009, último ano de Lula na presidência. Na hora de aplicar a pena, percebeu o fora. Há um prazo para a prescrição da pena, que tem relação direta com a pena aplicada. Com a pena que ele impôs a Lula, haveria a prescrição. É por isso que, quando o caso pulou para o TRF4, os três desembargadores – lendo votos escritos antecipadamente, com o mesmíssimo conteúdo – aumentaram a pena, atropelando o próprio Código Penal.

8 - No STJ, os quatro ministros – lendo votos preparados antecipadamente e todos com o mesmo teor – corrigiram as penas excessivas. Mas mudaram a data inicial da contagem da prescrição para 2014, que seria o período de influência de Lula no governo.

9 - Com a redução da pena, teoricamente Lula poderia pleitear prisão domiciliar em setembro. Mas, como era de se esperar, a Justiça age de forma sincronizada. E o juiz de primeira instância, do caso do sítio, tratou de acelerar o julgamento, para o TRF4 poder apreciar antes de setembro.

Quem tem a força, pode tudo. Mas não se utilize o fato das três instâncias terem concordado com essas aberrações, como sinal de imparcialidade da Justiça. Trata-se de estado de exceção na veia.

* o autor é jornalista editor do Jornal GGN
Publicado no Jornal GGN: https://jornalggn.com.br/artigos/a-i-logica-do-direito-e-o-caso-lula-por-luis-nassif/

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sábado, 30 de março de 2019

EUA pagam hotel e passagem para juízes brasileiros, mostra Nassif

Fernando Brito *
A magistratura brasileira, definitivamente, perdeu a vergonha e num sentido pior do que o daquele desembargador que apareceu ao lado do cantor Leonardo dizendo que “ele segura e eu como”.

Luiz Nassif, no GGN, reproduz o edital 18/2019, da Associação de Juízes Federais, convidando magistrados para um “Seminário sobre Delitos de Informática e Evidências Eletrônicas” organizado pelo Departamento de Justiça, o equivalente ao Ministério da Justiça dos Estados Unidos.

O governo americano, preste atenção, pagará passagem, hotel, transporte e alimentação para Suas Excelências, durante três dias, em São Paulo, de seis a oito de maio, em dias úteis e, em tese, de trabalho. Mas vão ganhar diárias, também, que maravilha!

A turma do governo norte-americano, como comprova a “bolada” repassada à “Fundação Lava Jato” do Deltan Dallagnol, não anda nada avarenta quando se trata de arranjar estes “bocões” para o Judiciário brasileiro.

Claro, sem nenhum interesse. Afinal, “americano é tão bonzinho”, não é?

Bem, eles estão cuidando do lado deles, mas é estarrecedor que não sobre aos nossos mui bem pagos desembargadores vergonha na cara para não aceitarem serem pagos por um governo estrangeiro, dentro do território nacional.

Não precisa nem do Leonardo para segurar.

* o autor é jornalista, editor do blog “Tijolaço”.

Publicado em http://www.tijolaco.net/blog/eua-pagam-hotel-e-passagem-para-juizes-brasileiros-mostra-nassif/

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sábado, 29 de setembro de 2018

Depois do STF, o risco de chantagem contra militares

Luis Nassif *
Em algum ponto do futuro, um novo Snowden poderá trazer luzes sobre um dos aspectos mais obscuros do golpe em curso: o poder da chantagem em cima de agentes-chave do processo.

A era da telemática trouxe à tona um volume inédito de informações sobre países, instituições, empresas e pessoas. As operações em paraísos fiscais, a lista do HSBC, o caso Banestado, a contabilidade da Odebrecht, dos doleiros, os arquivos sobre o narcotráfico, a espionagem direta norte-americana, através na NSA, grampeando o celular de Dilma Rousseff e Ângela Merkel.

Some-se à maneira fácil com que se destroem reputações através das redes sociais e dos sistemas de mídia, e se terá um prato feito a chantagem.

Chantageadores costumam levantar informações pontuais sobre um número determinado de vítimas. Mas, e quem têm acesso a um número ilimitado de fontes de informação e a facilidade das redes sociais para disseminá-las?

Há os seguintes indícios do uso dessas informações no golpe, através da alimentação das diversas operações ou da chantagem:

Globo – desde 2011 está refém do FBI devido aos escândalos da FIFA. Nesse ano houve a delação de J.Hawila. Apesar das investigações se concentrarem nos Estados Unidos, ocorreram denúncias contra executivos da FIFA e das confederações latino-americanas. Nenhuma denúncia contra a Globo. As investigações mais substanciosas estão sendo feitas pelo Ministério Público da Espanha e da Suíça – mas abafadas no Brasil pelo MPF nacional. Há suspeitas – repito: suspeitas – de que a jogada de alto risco da Globo, sendo o principal alimentador do golpe, se deveu a essas pressões.

Luís Roberto Barroso – a mudança de posição de Barroso, em questão de direitos, ocorreu imediatamente após informações sobre ele e sua família veiculadas por um site anônimo de Curitiba. Depois que mudou de lado, não foi mais incomodado. A mesma suspeita recai sobre Luiz Edson Fachin e sobre Cármen Lúcia. Neste caso, ela recebeu um recado de coluna da Globo, que estaria sendo vítima de um golpe, da pessoa que lhe vendeu por R$ 1,7 milhão uma casa que valia R$ 3 milhões. A pessoa em questão tinha relações com Carlinhos Cachoeira. Depois que mudou de lado, Cármen Lúcia nunca mais foi incomodada.

É possível que muitos magistrados tenham aberto mão de seus princípios garantistas por pressões de chantagistas, independentemente de as ameaças serem em cima de fatos concretos ou factoides. Dias Toffoli foi alvo de uma capa infame da Veja, assim como políticos que não aderiam ao golpe. E os vazamentos seletivos ou meras manipulações de delações passaram a ser arma diuturna de chantagem e pressão política.

A falta de critérios da mídia brasileira abriu essa avenida para chantagens, muito mais do que os fake news das redes sociais.

Dou essa volta para chegar a um ponto delicado: a possibilidade desse tipo de jogada estar ocorrendo sobre militares da ativa.

Há sinais concretos de que a maioria dos oficiais da ativa são legalistas, respeitadores da lei e da ordem. Muito mais que políticos, intelectuais, jornalistas, eles têm enorme apreço por sua reputação pessoal. Justamente por isso, são muito mais vulneráveis a esse tipo de pressão que um cidadão comum. É capaz de se sentirem constrangidos por apontamentos no SPC, alguma irregularidade fiscal, por algum erro administrativo em alguma licitação, qualquer episódio menor suscetível de ser escandalizado.

São fortes como instituição armada; vulneráveis como pessoas físicas pouco afeitas ao jogo de intrigas e pressões que cercam a política.

Há indícios – repito: indícios! – de que possa estar em andamento uma ofensiva similar à que dobrou figuras do Judiciário, visando obter adesões contra a normalidade democrática. Mas é importante ficar alerta a sinais que possam indicar algo nessa direção. As próprias Forças Armadas tem áreas especializadas em guerras híbridas.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN
Publicado no https://jornalggn.com.br/noticia/depois-do-stf-o-risco-de-chantagem-contra-militares


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segunda-feira, 13 de agosto de 2018

As figuras referenciais no reino da hipocrisia

Luís Nassif *
Uma análise histórica das crises nacionais revelaria o seguinte

1. Fases de turbulência e de perda de referenciais. Morre o velho sem o que o novo tenha sido criado, gerando a grande crise.

2. Em períodos de estabilidade, o processo de criação de reputações é lento. Na transição, especialmente quando surgem novas formas de comunicação – como o rádio, nos anos 20, e as redes sociais, agora – a construção de reputações muda de padrão. Surgem novos personagens, dando um bypass nos caminhos tradicionais, esboroando a hierarquia anterior e abrindo espaço para novas celebridades.

3. Sem referenciais, há uma disputa selvagem pelo novo protagonismo. É a chamada síndrome da teoria do caos. Se o caos é completo, sem nenhuma espécie de pré-requisitos, se não é mais pré-condição a erudição, os diplomas, a hierarquia, a biografia, porque não eu, Zebedeu? A meritocracia entre juízes, procuradores, delegados em geral, Ministros do Supremo não se dá mais no terreno especializado das respectivas corporações, mas na qualidade de aparecer na mídia.

4. Esse processo se torna mais agudo devido à crise de confiança na racionalidade que supostamente imperava no mundo que acabou. Hoje em dia, um meme de rede social vale mais do que a verborragia – muitas vezes vazia – dos velhos personagens.

5. Em algum momento, novos valores se consolidarão, como os positivistas gaúchos nos anos 30, o MDB dos anos 80. Haverá uma reorganização inicial no mercado de ideias, uma reconstrução penosa de valores, que, pouco a pouco, irão entrando pelas instituições, criando um novo normal até a crise seguinte.

Na transição, mais do que em qualquer outro, as figuras referenciais se tornam imprescindíveis. Cada instituição precisa do seu estadista, da sua figura referencial que impeça o esboroamento dos valores constituídos ao longo de décadas.

A figura referencial precisa ter historia coerente, clareza sobre o chamado interesse público ou nacional; desprendimento para não se contaminar pelo oportunismo, grandeza para sobrepor os princípios ao lero-lero do dia a dia e coragem para investir contra a voz da besta.

O Brasil anda tão carente dessas figuras que ontem Elio Gáspari tentou transformar Rosa Weber, a frágil Rosa Weber, em um monumento de solidez. Por falar pouco e ter tido a suprema coragem de derrubar a sentença de um juiz de 1a instância, nos cafundós do país, pretendendo impedir que os serviços públicos atendam venezuelanos no país.

Eça de Queiroz consagrou personagens que falavam pouco - e nada diziam. Gaspari acredita piamente silêncio dos acacianos.

Como jabuti não sobe em árvore é de se indagar qual o condicionamento pavloviano que se pretende impingir na frágil Rosa. Porque nesses tempos de perda de rumo, de alarido infernal, o exercício predileto de alguns colunistas e veículos é o direcionar votos de Ministros. É o que explica Merval Pereira, a voz mais oficiosa dos Marinhos, requerer o cancelamento da inscrição do PT nas próximas eleições.

E não são apenas os tribunais que seguem o clamor das ruas e os ventos medievais.

O MPF tem uma luta épica histórica contra a lei da anistia. O combate à tortura deveria ser cláusula pétrea em sua hierarquia de valores. No entanto, há procuradores na rede enaltecendo Brilhante Ustra, o mais notório dos torturadores. E nada acontece, sequer a censura moral de seus colegas, muito menos sanções dos conselhos de classe.

Entrou-se definitivamente no reino da hipocrisia, que marca a última etapa da transição.

No Supremo, bravos Ministros votam em defesa da Constituição, desde que haja garantia de maioria para os votos em favor do golpe.

Esse mesmo jogo de cena se dá nos inquéritos da Procuradoria Geral da República.

O caso da conta de Aécio Neves em Liechtenstein está na PGR desde 2010. Mesmo com a lista da Odebrecht, com a delação detalhada de como recebia as propinas de Furnas, o então PGR Rodrigo Janot recomendou o arquivamento da denúncia, enquanto investida destemidamente contra Lindbergh Farias e Gleisi Hoffmann.

Apenas após o grampo da JBS, Janot solicitou acesso à conta, através da cooperação internacional.

Semana passada, a Policia Federal apresentou seu inquérito sobre Aécio, sem levantar uma prova sequer. Em função disso, o Ministro Gilmar Mendes arquivou o inquérito.

Em seguida, a PGR cumpriu burocraticamente sua missão de questionar o arquivamento, argumentando que a PF não tinha provas porque ainda não consultara a conta. E a decisão de Gilmar proibia de consultar. Não explicou porque a conta jamais foi entregue à PF antes da decisão e Gilmar. E porque a Globo é mencionada em inquéritos da Espanha, Suíça e Estados Unidos sobre os escândalos da FIFA, e continua imune à ação do MPF.

Muitas vezes, vozes sensatas se indagam a razão desses personagens não zelarem por sua biografia. É que eles não têm o menor sentimento de história, de país, da própria instituição. É como se pudessem entrar na próxima etapa vitoriosos e, portanto, com a sua biografia zerada, da mesma maneira que os Ministros que julgaram Olga Benário ou os coronéis que conduziam os IPMs da pré-ditadura.

Esse jogo de cena é mantido pela Associação Nacional pela Hipocrisia, um órgão supra-institucional que se garante pela máxima “sou, mas quem não é?”.

Chegará o momento em que a bolha será furada. E aí, será possível que, 25 anos depois, se ouça alguma autocrítica, sincera como foi a da Globo sobre o apoio à ditadura.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN.
Publicado originalmente em https://jornalggn.com.br/noticia/as-figuras-referenciais-no-reino-da-hipocrisia-por-luis-nassif
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terça-feira, 8 de maio de 2018

A esquerda que quer voltar ao gueto

Luis Nassif
Há dois momentos que ameaçam um grupo político: o do sucesso e o da derrota.

O sucesso tende
a minimizar os riscos e os inimigos. Melhor exemplo foi o incomparável sucesso de Lula no período 2008-2010 e o de Dilma Rousseff nos dois primeiros anos, que os fez cegos aos movimentos de desestabilização que já estavam em andamento.


A derrota tende a promover a desesperança, como reação, despertar a busca de saídas mágicas. É um momento em que proliferam oportunistas, vendedores de poções mágicas do velho oeste, anunciando balas de prata aqui e acolá, que resolverão todos os problemas instantaneamente. Usam despudoradamente o recurso das fake news para oferecer informações ou análises falsas, explorando a boa fé dos que precisam se iludir para superar a decepção com os rumos do país.


Hoje em dia, os vendedores de poções e os radicais de gueto são as maiores ameaças à reconstrução de um centro-esquerda que consiga recuperar o poder.

Há dois enormes desafios pela frente: vencer as eleições e montar a governabilidade. Suponha-se, numa hipótese distante, que Lula conseguisse concorrer e vencer as eleições. Como governaria? Poderia abrir mão do PDT, do PSB, do PCdoB, de setores progressistas do PMDB, de lideranças da indústria e do trabalho? É evidente que não. E uma eleição sem Lula torna a construção de consensos uma necessidade ainda maior.


A maneira como parte da militância reage ao exercício da política, batendo em Fernando Haddad, o emissário de Lula para o pacto político, e investindo contra candidatos de outros partidos, como Ciro Gomes, é o caminho mais fácil para jogar a esquerda de volta ao gueto e aguardar algumas décadas a chegada de outro profeta para recompor a perspectiva de poder.


Nunca a negociação política foi tão crucial. O que se tem, na outra ponta não é Ciro Gomes, Haddad, Pimentel – eles são do mesmo lado de Gleisi, Lindbergh, Viana –, mas uma quadrilha que está desmontando o país, promovendo uma regressão de décadas nas políticas públicas, um partido da Justiça que avança cada vez mais sobre os direitos fundamentais. E tudo isso abrindo caminho para riscos ainda maiores, como o de Bolsonaro.


É momento que exige enorme dose de bom senso especialmente das lideranças; e realismo e compreensão da parte dos militantes e uma avaliação correta da correlação de forças.


Nesses tempos bicudos, há espaço para as posturas aguerridas, importantes para manter a chama acesa. Mas não da parte das lideranças. Há que se ter os guerreiros e os estadistas, os negociadores. A estes cabe a responsabilidade de deixar de lado mágoas, quizilas, idiossincrasias, e buscar o consenso.

Em poucos momentos da história, a presença de negociadores se fez tão necessária.


* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN.
Publicado em https://jornalggn.com.br/noticia/a-esquerda-que-quer-voltar-ao-gueto-por-luis-nassif

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quarta-feira, 21 de março de 2018

As cenas inéditas de pânico de Carmen Lucia

Luis Nassif
Quem achava que já tinha visto tudo no mundo jurídico brasileiro, não sabia da fenomenal capacidade de superação da ministra Carmen Lúcia em protagonizar o ridículo. Sua fuga da responsabilidade de colocar em julgamento a questão da prisão após condenação em segunda instância insere-se, com honra, na galeria dos mais ridículos episódios da história do Supremo Tribunal Federal (STF).

Em São Paulo, indagada sobre como se comportava ante as pressões (para colocar o tema em julgamento) declarou que simplesmente não aceitava as pressões. As pressões, no caso, advinham de sua responsabilidade de presidente da Corte, de cumprir o regimento e dar prioridade para votação de habeas corpus, conforme tradição ancestral dos tribunais.

Seu rompante equivaleria a de um médico, em pronto socorro, que se recusaria a acudir um acidentado, sob o argumento de que não aceita ser pressionado. Ou de um soldado no campo de batalha, andando celeremente de costas, para disfarçar a fuga da batalha.

Primeiro, jogou para o igualmente valente Luiz Edson Fachin a iniciativa de disponibilizar o HC para julgamento. Fachin disponibilizou a Carmen Lúcia não incluiu na pauta do mês de abril. Mais ainda: divulgou antecipadamente a pauta para deixar claro para a Globo que ela não estava fugindo do combinado. De não pautar o HC.

Em uma atitude inédita na história do STF, recusou-se a colocar o HC em votação, produzindo enorme incômodo em todos os colegas. O decano Celso de Mello procurou-a então para que marcasse uma reunião com os demais ministros para discutir a matéria, uma maneira de acordá-la do torpor pânico que a imobilizou. Carmen topou. Mas, logo em seguida, em entrevista à rádio Itatiaia, de Belo Horizonte, fez questão de esclarecer que a reunião fora proposta por Celso de Mello, não por ela, na melhor expressão do “afasta de mim este cálice”.

Na reunião marcada, para hoje, a ministra simplesmente não transmitiu o convite aos colegas, sustentando que a responsabilidade por tal seria do decano. Fantástico! Um ministro, ainda que decano, sem exercer a presidência do Supremo, se incumbindo da convocação de todos os ministros para uma discussão – atribuição que só caberia à presidente.

Os advogados costumam desculpar as fraquezas dos juízes sob o argumento genérico de que “eles também são humanos”. Mas Carmen Lúcia extrapolou tudo o que se imaginava sobre a covardia, o medo pânico de assumir responsabilidades, o pavor de afrontar a opinião pública.

Dia desses, a Folha publicou uma extensa reportagem sobre os órgãos que fazem lobby no Supremo, de OABs a associações. Não incluiu a maior fonte de pressão: as Organizações Globo. E a Globo, como sempre, não avaliou corretamente o pavor que infunde, levando a pobre Carmen Lúcia a protagonizar a pior cena de medo explícito da história da instituição.

* o autor é jornalista, editor do Jornal GGN
Publicado em https://jornalggn.com.br/noticia/as-cenas-ineditas-de-panico-de-carmen-lucia-por-luis-nassif

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