Luís Fernando Veríssimo *
Se você concorda que os portugueses não pisaram na África e que os próprios negros enviaram seus irmãos para nos servir, acabo a amizade pelo desconhecimento da História.
Se você concorda que de 170 projetos, apenas 2 aprovados, é o mesmo que 500, acabo a amizade por causa da Matemática.
Se você concorda que o alto índice de mortalidade infantil tem a ver com o número de nascimentos prematuros, acabo a amizade por causa da Ciência.
Se você concorda que é só ter carta branca para que a PM e a Civil matem quem julgarem merecer, acabo a amizade por causa do Direito.
Se você concorda que não há evidências de uso indevido do dinheiro público, mas acha que é mito quem usa apartamento funcional “pra comer gente”, acabo a amizade pela Moral.
Se você concorda que Carlos Brilhante Ustra não foi torturador e que merece ter suas práticas exaltadas, acabo a amizade por falta de Caráter.
Se você concorda que o Bolsonaro participou, aos 16 anos, da perseguição ao Lamarca, acabo a amizade por falta de Verossimilhança.
Se você concorda que não temos dívida social com um povo que foi arrancado do seu mundo pra servir a outro e que diferenças de tratamento étnico-racial é historinha, acabo a amizade por Racismo.
Se você concorda que as mulheres devem ganhar menos por gerar vidas e que são frutos de fraquejadas, merecendo serem estupradas ou não, de acordo com a sua aparência, acabo a amizade por Misoginia.
Se você concorda que não há possibilidade das pessoas viverem sua sexualidade livremente, com direitos e deveres como qualquer cidadão ou cidadã, mas que devam apanhar para aprender o que é certo, acabo a amizade por Homofobia.
Como vocês podem ver, não acabo a amizade por causa de política.
Acabo pela ignorância, truculência e pelo desrespeito que acompanha quem diz que não se acaba amizade por causa de política.
O fascismo não se discute, se combate.
* o autor é escritor
NOTA DO BLOGUEIRO:
Publiquei o texto acima, creditando-o a Luiz Fernando Veríssimo, pois assim me foi encaminhado. Entretanto, não consegui confirmar a autoria. Como os textos de Veríssimo são publicados apenas em alguns jornais, especialmente O Globo, e restrito a assinantes, dificilmente são reproduzidos pelo Google, dificultando a confirmação da autoria.
Este blogueiro, por considerar o texto acima uma ideia brilhante, lúcida, acredito que até o próprio Veríssimo avalizaria seu conteúdo, é por isso que o publiquei aqui no blog. Se alguém souber se é do Veríssimo, ou de outrem, atualizo o comentário. O texto está sendo difundido pela qualidade de seu conteúdo, e não pelo nome famoso do pseudo autor.
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terça-feira, 9 de outubro de 2018
domingo, 28 de fevereiro de 2016
O sono da memória
Luis Fernando Veríssimo Não há problema em publicar o Mein Kampf do Hitler, cujos direitos de edição recém-caíram em domínio público. O livro interessa a historiadores e estudiosos da psicologia de massa e a qualquer pessoa curiosa sobre o poder de suas ideias, um poder capaz de galvanizar uma nação e mudar radicalmente sua história. Eu só acho que as novas edições de Mein Kampf deveriam vir com um DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos descobertos em Auschwitz e outros campos de extermínio, no fim da 2ª Guerra Mundial. Cenas terríveis dos esqueletos das cidades bombardeadas e dos milhares de refugiados tentando sobreviver em meio aos escombros, enquanto o mundo ficava sabendo, nos julgamentos dos criminosos, das barbaridades cometidas em concordância com a kampf do Hitler. Assim, o comprador do livro teria o nazismo como teoria e o nazismo na prática. As ideias e suas consequências.
Novas edições de Mein Kampf deveriam vir com DVD encartado, com cenas dos cadáveres empilhados e dos moribundos esquálidos em Auschwitz.
Seria bom se as ideias viessem sempre acompanhadas de suas consequências. As pessoas pensariam melhor no que dizem e pregam, para não terem remorso depois. Já se disse que muitas barbaridades teriam sido evitadas no mundo se existisse algo parecido com o remorso antes do fato, uma espécie de remorso preventivo. Não se imagina o próprio Hitler se arrependendo de suas teses e, diante dos horrores que elas desencadearam, dizendo “Ei, pessoal, não era nada disso!”. Está claro que no cerne patológico da pregação de Hitler há uma volúpia de destruição, um desejo secreto de caos que tem tanto a ver com o romantismo alemão quanto com a geopolítica da época. Mas outros não têm o mesmo motivo para desprezarem as consequências. Ou para esquecerem-se delas.
Naquela famosa legenda de uma gravura do Goya está escrito que o sono da razão cria monstros. Pior que o sono da razão, Goya, é o sono da memória. As pessoas que hoje defendem a volta da ditadura militar no Brasil esqueceram-se de como foi. Esqueceram-se das prisões arbitrárias, das torturas, do terror e dos assassinatos de Estado, da censura, do número de estrelas nos ombros como única credencial para governar. Se não lhes falta memória, lhes falta razão. Ou miolos.
O Jair Bolsonaro, principal proponente da volta à ditadura, é o deputado mais votado do Rio. Tem uma multidão de apoiadores. E tem mais do que isso: na recente mudança no Comando Militar do Sul, Bolsonaro foi um convidado especial do novo comandante para a cerimônia de posse. Não se sabe se o comandante também é um nostálgico como ele. De qualquer maneira, tenho tido longas conversas com a minha paranoia, tentando acalmá-la.
Publicado originalmente em O Globo, em 31/1/2016:
Republicado do blog Limpinho & Cheiroso: http://limpinhoecheiroso.com/2016/02/04/luis-fernando-verissimo-o-sono-da-memoria/
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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
O incrível e o inacreditável
Luis Fernando Veríssimo
"Incrível" e "inacreditável" querem dizer a mesma coisa - e não querem. "Incrível" é elogio. Você acha incrível o que é difícil de acreditar de tão bom. Já inacreditável é o que você se recusa a acreditar de tão nefasto, nefário e nefando - a linha média do Execrável Futebol Clube.
Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do corner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.
Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase "ir de mal a pior".
Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana n.º 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr do sol que enleva.
Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.
Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.
Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.
Incrível é um solo do Yamandu.
Inacreditável é este verão.
Incrível é qualquer demonstração de um talento superior, seja o daquela moça por quem ninguém dá nada e abre a boca e canta como um anjo, o do mirrado reserva que entra em campo e sai driblando tudo, inclusive a bandeirinha do corner, o do mágico que tira moedas do nariz e transforma lenços em pombas brancas, o do escritor que torneia frases como se as esculpisse.
Inacreditável seria o Jair Bolsonaro na presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara em substituição ao Feliciano, uma ilustração viva da frase "ir de mal a pior".
Incrível é a graça da neta que sai dançando ao som da Bachiana n.º 5 do Villa-Lobos como se não tivesse só cinco anos, é o ator que nos toca e a atriz que nos faz rir ou chorar só com um jeito da boca, é o quadro que encanta e o pôr do sol que enleva.
Inacreditável é, depois de dois mil anos de civilização cristã, existir gente que ama seus filhos e seus cachorros e se emociona com a novela e, mesmo assim, defende o vigilantismo brutal, como se fazer justiça fosse enfrentar a barbárie com a barbárie, e salvar uma sociedade fosse embrutecê-la até a autodestruição.
Incrível, realmente incrível, é o brasileiro que leva uma vida decente mesmo que tudo à sua volta o chame para o desespero e a desforra.
Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas.
Incrível é um solo do Yamandu.
Inacreditável é este verão.
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quinta-feira, 12 de dezembro de 2013
Veríssimo, os pesos e as medidas no STF.
Richard Jakubaszko
Veríssimo, os pesos e as medidas no STF.
“Oficialize-se já dois sistemas de pesos e medidas diferentes”.
Veríssimo, os pesos e as medidas no STF.
“Oficialize-se já dois sistemas de pesos e medidas diferentes”.
Publicado no blog do Paulo Henrique Amorim: http://www.conversaafiada.com.br/brasil/2013/12/07/verissimo-propoe-fim-da-hipocrisia-em-casos-de-corrupcao/
sexta-feira, 1 de novembro de 2013
Épico
Luis Fernando Veríssimo O futebol de calçada era com narração, e o próprio jogador fornecia a narração. Jogava e descrevia sua jogada ao mesmo tempo, e nunca deixava de se autoentusiasmar. "Sensacional, senhores ouvintes!" (Naquele tempo os locutores tratavam o público de "senhores ouvintes".)
"Sensacional! Mata no peito, põe no chão, faz que vai mas não vai, passa por um, por dois... Fau! Foi fau do beque! O juiz não deu! O juiz está comprado, senhores ouvintes!"
Fau era "foul" e beque era "back", na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. A bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?
Mas éramos gênios na nossa própria narração.
"Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta... Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes... Só ele joga nesse time!"
A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heroica. Faltava o Homero.
Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.
"Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!"
Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.
Publicado em O Estado de S.Paulo / 26 de setembro de 2013
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,epico-,1078961,0.htm
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Fau era "foul" e beque era "back", na língua daquela terra estranha, o passado. E o juiz, claro, era imaginário. Tudo era imaginário no futebol de calçada, a começar pela nossa genialidade. A bola era de borracha, quando não era qualquer coisa remotamente redonda. A bola número cinco oficial de couro ganha no Natal não aparecia na calçada, tá doido? Estragar uma bola de futebol novinha jogando futebol?
Mas éramos gênios na nossa própria narração.
"Lá vai ele de novo. Cabeça erguida! Passa a bola e corre para receber de volta... Que lance! O passe não vem! Não lhe devolvem a bola! Assim não dá, senhores ouvintes... Só ele joga nesse time!"
A narração dava um toque épico ao futebol. Lembro que na primeira vez em que fui a um campo, acostumado a só ouvir futebol pelo rádio, senti falta de alguma coisa que não sabia o que era. Tudo era maravilhoso, o público, o cheiro de grama, os ídolos que eu conhecia de fotografias desbotadas no jornal ali, em cores vivas... Mas faltava alguma coisa. Faltava uma voz me dizendo que o que eu estava vendo era mais do que estava vendo. Faltava a narrativa heroica. Faltava o Homero.
Na calçada éramos os nossos próprios heróis e os nossos próprios Homeros.
"Atenção. Ele olha para o gol. Vai chutar. Lá vai a bomba. O goleiro treme. Ele chuta! A bola toma efeito. Entra pela janela. E lá vem a mãe, senhores ouvintes! A mãe invade o campo. Ele tenta se esquivar. Dá um drible espetacular na mãe. Dois. A mãe pega ele pela orelha. Pela orelha! E o juiz não vê isso!"
Mesmo se nem tudo merecesse o toque épico.
Publicado em O Estado de S.Paulo / 26 de setembro de 2013
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,epico-,1078961,0.htm
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quarta-feira, 17 de julho de 2013
Coceira nas costas
Luis Fernando Veríssimo
A CCC, coceira crônica nas costas, longe do alcance das nossas unhas, é um martírio constante. Quem sofre de CCC vive pedindo que alguém lhe coce as costas e, na falta de alguém, recorrendo a qualquer meio para acabar com o tormento. É conhecido o caso trágico daquele agente do governo dos Estados Unidos encarregado de negociar com os índios peles-vermelhas no oeste americano e que depois do acordo concluído, quando o cachimbo da paz com sua haste longa lhe foi passado, não aguentou e usou o cachimbo para coçar as costas. Dos seus restos comidos por lobos só sobrou o escalpo.
* * *
A CCC provoca situações embaraçosas. É comum ver-se pessoas esfregando as costas numa quina de parede ou, em casos extremos, rolando pelo chão para aliviar a coceira. O que, obviamente, prejudica sua vida social.
- Cheguem para trás. É um ataque epilético!
- Não, não. É coceira nas costas
A CCC também causa mal-entendidos. Como no caso daquele casal cujas vozes eram ouvidas em todo o prédio.
- Aí, aí. Um pouco mais para o lado.
* * *
A CCC provoca situações embaraçosas. É comum ver-se pessoas esfregando as costas numa quina de parede ou, em casos extremos, rolando pelo chão para aliviar a coceira. O que, obviamente, prejudica sua vida social.
- Cheguem para trás. É um ataque epilético!
- Não, não. É coceira nas costas
A CCC também causa mal-entendidos. Como no caso daquele casal cujas vozes eram ouvidas em todo o prédio.
- Aí, aí. Um pouco mais para o lado.
- Assim?
- Mais rápido.
- Está bom assim?
- Está. Está!
- Mais rápido?
- Não, assim está bom. Só um pouco mais para...
- Mais rápido.
- Está bom assim?
- Está. Está!
- Mais rápido?
- Não, assim está bom. Só um pouco mais para...
- Assim?
- Isso! Ai meu Deus. Sim! Sim!
O casal ficou com fama de ter uma vida sexual movimentadíssima, quando se tratava apenas de CCC. * * *
Pelo menos você sabe que presentes dar para alguém que tem CCC: qualquer objeto que lhe permita coçar as próprias costas. Uma colher de madeira comprida, um telescópio portátil, um pedaço de antena... Até um cachimbo da paz.
- Isso! Ai meu Deus. Sim! Sim!
O casal ficou com fama de ter uma vida sexual movimentadíssima, quando se tratava apenas de CCC. * * *
Pelo menos você sabe que presentes dar para alguém que tem CCC: qualquer objeto que lhe permita coçar as próprias costas. Uma colher de madeira comprida, um telescópio portátil, um pedaço de antena... Até um cachimbo da paz.
* * *
Catálogo (Da série Poesia Numa Hora Dessas?!)
Deus, vaidoso como qualquer artista
Pensa em publicar um catálogo da sua obra
De Gênesis até anteontem.
Só ainda não sabe o que botar na capa:
As Cataratas do Iguaçu, uma noite de luar
Ou a Patrícia Pillar.
* Publicado em O Estado de São Paulo, 07/07/2013: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,coceira-nas-costas-,1051070,0.htm
Catálogo (Da série Poesia Numa Hora Dessas?!)
Deus, vaidoso como qualquer artista
Pensa em publicar um catálogo da sua obra
De Gênesis até anteontem.
Só ainda não sabe o que botar na capa:
As Cataratas do Iguaçu, uma noite de luar
Ou a Patrícia Pillar.
* Publicado em O Estado de São Paulo, 07/07/2013: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,coceira-nas-costas-,1051070,0.htm
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