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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Fraudes em verde e vermelho

Por Henrique Paul Dmyterko


“[...] Eu deixei a organização em 1986, depois de quinze anos como membro de seu comitê superior. Eu fui um dos seus cinco diretores internacionais durante os últimos seis anos em que lá estive. Eu passei a me sentir desconfortável com os rumos tomados por meus colegas diretores, em particular quando me dei conta de que eu era o único com educação científica dentre os diretores internacionais da organização. Eu também queria deixar para trás a política de confrontação, que se resume a dizer às pessoas aquilo que elas deveriam parar de fazer.

Além disso, o grupo tinha decidido fazer campanha pelo banimento do uso do cloro. Eu lhes perguntei se eles estavam cientes de que o cloro é parte da tabela periódica de elementos químicos e que o cloro contribuiu para um avanço na área de saúde pública uma vez que os antibióticos são baseados na química do cloro. Até hoje a política deles é pelo banimento do cloro e eu tive de sair. O cloro é o mais importante elemento químico para a saúde humana... ele é tóxico para as bactérias e para outras coisas que podem nos matar. [...]

[...] O mais recente ‘veneno invisível’, segundo a organização, são os alimentos geneticamente modificados. Essa é uma campanha completamente fabricada, sem nenhuma base. Se não fosse assunto tão sério, seria risível. Muitos povos pobres ao redor do mundo têm no arroz a sua dieta básica e, portanto, têm deficiência de vitamina A, o que pode levar à cegueira. Cientistas criaram um arroz geneticamente modificado, conhecido como golden rice, que contém beta-caroteno (vitamina C) e vitamina A. A organização conseguiu bloquear a campanha para a introdução do golden rice nos países em desenvolvimento onde agricultores poderiam receber as sementes de graça. [...]

[...] A segunda metade dos anos 1980 transformou-se numa era de extremismo ambientalista. Os extremistas [neo-marxistas, segundo o Prof. Ian Plimer, em seu livro Heaven and Earth: Global Warming, The Missing Science, p.437] são fáceis de identificar na medida em que são anti-seres humanos, anti-ciência, anti-tecnologia, anti-globalização, anti-empresas, anti-capitalista e, pura e simplesmente, anti-civilização. [...]

[...] Enquanto a sociedade sabe que suas indústrias liberam gases na atmosfera e que as temperaturas foram mais altas nas décadas de 1980 e 1990, não está claro que a atividade humana é a causa desses incrementos na temperatura. Gráficos referentes a um bilhão de anos de mudanças climáticas mostram períodos quentes conhecidos como estágios estufa e períodos frios, chamados de eras glaciais. Os níveis de CO2 variaram enormemente ao longo do tempo.


[...] O truque está na escolha do período de tempo. […] Na verdade, os níveis de CO2 atuais são menores do que em qualquer outro período da história da vida [neste planeta]. [...] A média é sete vezes e meia mais alta do que a atual”


A organização acima referida é o Greenpeace International, e as declarações foram dadas em dois artigos diferentes, uma em 07 de julho de 2008 ( http://www.greenspirit.com/logbook.cfm?msid=210 ) e outra em 06 de fevereiro de 2009 ( http://www.greenspirit.com/logbook.cfm?msid=214 ) por ninguém menos do que o Dr. Patrick Moore, um de seus fundadores. 

Tais declarações foram apagadas da Internet e consegui recuperar uma delas: https://web.archive.org/web/20130102103426/http:/www.greenspirit.com/logbook.cfm?msid=214 através da ferramenta WaybackMachine. 

Patrick Moore hoje se considera um “ambientalista sensato”, a ponto de defender a construção de mais usinas nucleares como fontes seguras de energia e de afirmar que a fanfarra sobre o desmatamento da Amazônia brasileira não tem base em fatos, mas segue uma agenda política.

Tão interessantes e importantes quanto o fato de que essas declarações tenham partido de um ex-alto dirigente da mais notória organização ativista verde (cerca de 100 milhões de membros no mundo todo), são a época em que se deu o rompimento entre Patrick Moore e o Greenpeace e o padrão de sua composição diretiva: a segunda metade da década de 1980 e a quase ausência de cientistas em favor da presença de ativistas políticos.

Com a queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da chamada Guerra Fria (não o fim do movimento comunista, que está vivo e passa muito bem), o movimento pelo fim das armas nucleares [Stop the Bomb], em grande medida financiado e/ou dirigido pela antiga URSS, ficou sem causa para defender. Pelo menos sem causa que pudesse ser levada adiante na mídia, sempre ávida por catástrofes iminentes.

Coincidentemente, e para a felicidade dos órfãos verdes, um pouco antes surgira uma nova e alarmante tese, a do aquecimento global antropogênico. Em 1988, a ONU criava o IPCC-Intergovernmental Panel on Climate Change [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas], que deu a oportunidade para os grupos ambientalistas transformarem o aquecimento global em seu tema principal. Em 1989, o aquecimento era um assunto quente e uma comissão do senado americano sobre ciência e tecnologia, presidida pelo então senador Al Gore Jr. discutia o tema ouvindo a opinião de especialistas tais como o Dr. Roger Revelle (que fora professor de Gore em Harvard) e o Dr. James Hansen. 

Os seus pareceres, apresentados àquele comitê do senado americano numa sala de audiências quente e abafada, davam conta de uma catástrofe ambiental iminente e clamavam por ações drásticas do governo americano. Ainda nesse cargo, Al Gore Jr. bloqueou verbas para que o MIT realizasse pesquisa independente sobre mudanças no clima. Afinal, por que financiar a concorrência a um negócio tão promissor?

Sobre Al Gore Jr. é necessário fornecer mais algumas informações. Ele começou sua carreira política organizando grupos e piquetes diante de fábricas – com a pressurosa cobertura da mídia—, acusando-as de produzir lixo tóxico, de envenenar os rios, o ar, etc. As empresas, temendo a publicidade negativa ou os longos e caros processos judiciais, tratavam de entrar em acordo com o esperto e ambicioso advogado verde. Fechado o acordo, a caravana de Gore partia para outro alvo.

Mas como Al Gore Jr. conseguiu arregimentar os componentes da sua caravana ambientalista? Voluntários não faltavam, pois é preciso reconhecer que havia e há um número enorme de pessoas de boa-fé e boa índole, iludidas pela nova religião política do ambientalismo. Mas voluntários não bastam, é preciso organização, dinheiro e conexões com a mídia. Uma das explicações possíveis está na família de Gore Jr. Seu pai, Al Gore Sr., um modesto professor do Tennessee que tentava reforçar o orçamento doméstico tocando violino em casamentos, foi eleito deputado no final dos anos 1930 e depois senador, em 1952, passando a desfrutar de uma vida luxuosa, estendida a seu filho.


O homem que financiou toda a carreira política de Gore Sr. foi Armand Hammer (1898-1990), o bilionário do petróleo (Occidental Petroleum) e das artes, o “capitalista vermelho”. Armand Hammer reforçou as ligações com os revolucionários bolcheviques, iniciadas por seu pai, Julius, e teve livre trânsito entre todos os líderes soviéticos, de Stalin a Gorbachev. Foi condecorado por relevantes serviços prestados à URSS. Contava com a ajuda de Gore Sr., um homem que segundo Hammer “estava no meu bolso”, era o “meu representante em Washington”.

Al Gore Jr. continuaria a prestar os mesmos bons serviços a Hammer, mas seu poder e influência pessoais aumentaram e o deixaram em posição destacada no senado americano. O aquecimento global foi e é a sua plataforma política, sua raison d’être, o seu ganha pão. Em 1992, a ECO-92 atraiu 20.000 ativistas ambientais ao Rio de Janeiro, além de políticos de 170 países. Al Gore foi o herói. Seu então recém publicado livro Earth in the Balance fez furor. Tudo isso contribuiu decisivamente para a sua escolha como candidato a vice-presidência na chapa encabeçada por Bill Clinton.

Enquanto isso, era formada a Climate Action Network. A causa virou moda, especialmente entre especialistas em clima tais como Robert Redford, Barbra Streisand, Meryl Streep, etc. Companheiros de viagem não paravam de engrossar a caravana. O IPCC lhes fornecia material de propaganda. Esse material vinha na forma dos famosos (ou infames) Relatórios.

Propaganda, porque os tais relatórios do IPCC mentiam já na alegação de que eram redigidos por cerca de 2500 “cientistas do clima”. Muitos dos nomes que aparecem como autores (1169 “autores”) são de ativistas políticos e ambientais, e não de cientistas. Isso é ainda mais importante pelo fato que esses “autores” é que entram no Summary for Policymakers (Sumário para os Formuladores de Políticas), a porção mais lida e divulgada dos relatórios. De fato, há ainda um grupo de 35 autores principais, por sua vez chefiado por um número ainda menor de pessoas (Ver: Heaven and Earth: Global Warming, The Missing Science, Plimer, pp.20-23 e pp. 442-45).

O Summary de 1996 afirmava que: “[O] balanço dos indícios sugere que há uma discernível influência humana sobre o clima global”.

O furor na mídia foi instantâneo, crescendo a pressão dos grupos ambientalistas sobre governos. O que não era sabido é que um dos 35 autores principais acrescentou essa afirmação ao Capítulo 8 do Relatório depois que este foi concluído e dele apagou passagens que diziam:

Nenhum dos estudos citados acima mostrou indícios claros e modo a que possamos atribuir as mudanças observadas à causa específica do aumento nos gases do efeito estufa [e] nenhum estudo até hoje positivamente atribuiu toda ou parte da (mudança climática observada) a causas de origem humana [e] quaisquer alegações de detecção positiva e atribuição de causa de mudança climática significativa provavelmente continuarão controversas até que as incertezas na variabilidade natural total do sistema climático sejam reduzidas. [...] Quando será identificado um efeito antropogênico no clima? Não é surpresa que a melhor resposta a esta questão seja: “Nós não sabemos”.

O Wall Street Journal denunciou essa fraude num editorial intitulado “Coverup in the Greenhouse?”, mas a denúncia parece não ter arrefecido o ânimo do IPCC ou de Al Gore Jr.

Este continuou a sua muito rentável carreira de garoto-propaganda do apocalipse. Além do livro, lançou um documentário, An Inconvenient Truth (Uma Verdade Inconveniente), que contém pelo menos 35 erros factuais. Ele não se cansa de percorrer o mundo dando palestras, todas muito bem pagas.

O que nem todos sabem é que Al Gore Jr. fundou a sua própria corporação “verde”, a Generation Investment Management LLP, com sede em Londres. É também membro do conselho de uma empresa de energia renovável e foi diretor do grande banco de investimentos Lehman Brothers, muito ativo no mercado de créditos de carbono, até quebrar em 2008, na esteira do rompimento da bolha imobiliária. Gore[1] emergiu ileso da crise.


[1] Não sou afeito a trocadilhos com nomes ou sobrenomes de pessoas. Todavia, duas das várias acepções da palavra gore são, respectivamente, sujeira de qualquer tipo e sangue derramado em carnificina.



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domingo, 9 de fevereiro de 2020

Antony Sutton: Um homem que pagou o preço da verdade

Henrique Paul Dmyterko *



Análise  
O que o público tem neste vídeo é a última aparição em público, numa entrevista filmada em1980, de um dos maiores historiadores e pesquisadores do século XX, Antony C. Sutton, na qual ele relembra parte daquilo que pôde constatar ao longo de muitos anos como pesquisador da Hoover Institution, Stanford University (mais precisamente como Research Fellow do Hoover Institute of War, Revolution and Peace) e como autor e pesquisador independente a partir de 1975.

A entrevista que hoje o espectador tem à disposição é relativamente antiga e já está na Internet (em partes ou em formato integral, mas sem legendas) há uns treze anos, salvo engano. Como nota adicional, acrescento que já vinha analisando a tese de que as eleições presidenciais americanas, bem com a escolha de líderes democráticos em outros países, acima de certo patamar, eram e são um jogo de cartas marcadas. Ou, em outras palavras: as disputas existem, as correntes políticas de fato se opõem, os eleitores votam naqueles candidatos que mais lhes agradam ou convencem, mas há outro poder, maior e quase invisível que há muito vem determinando quem transitoriamente ocupa os cargos ditos “de poder”. Usando de uma imagem um tanto tosca, é como se aos presidenciáveis americanos, antes ou depois de eleitos, fosse apresentada a dura realidade: “OK. Você venceu, mas você manda e faz até onde não nos atrapalhar, entendido?”.

 
Também é possível que a escolha dos candidatos já passe por esse crivo invisível aos olhos do público. Esse poder consiste numa elite mundial, originalmente anglo-americana ou até anterior, com pretensões dinásticas, que pouco se importa com as ideologias citadas de início: essas seriam meros instrumentos de manipulação segundo a dialética hegeliana. Muitos políticos, intelectuais de segunda linha, “celebridades”, e as sociedades em geral, não são os verdadeiros agentes, não totalmente. Antony Sutton confirma essa tese, ou por outra, ele já a tinha comprovado, mas foi parcialmente silenciado. Assim, quem de fato age é a estrutura montada por essa elite de banqueiros internacionais que alguns chamam de “governo mundial”, “governança mundial”, “nova ordem mundial”, “comunidade internacional” e, mais recentemente, o "ambientalismo".

 
São os mesmos agentes, as mesmas fundações, os mesmos banqueiros internacionais (ou seus descendentes) Mas que o espectador não tome “banqueiros” como um libelo contra o capitalismo, pois essa elite o considera útil até certo ponto. Capitalismo de verdade implica riscos, competição, confiança e liberdade genuína (não custa lembrar: dar crédito = credere = confiar), e aquilo que é menos desejado por essa elite (que inclui próceres da esquerda) são riscos.

 
Na verdade, a única ideologia desse grupo antigo e renovável por cooptação e recrutamento é também a criação de um mundo novo, um mundo com cerca de 1,2 bilhão de habitantes (somos hoje mais de 7,4 bilhões...). E se falo das eleições americanas com mais ênfase é por dois motivos:

1 - É delas que Sutton trata;
2- Os Estados Unidos foram e são o primeiro e maior alvo de todas as grandes experiências de engenharia social desde o início do século XX até hoje. É preciso primeiro controlar e mudar o mais forte.


A entrevista de Antony Sutton revela um pouco das pressões e perseguições que sofreu por conta de suas pesquisas e livros. Sua vida profissional foi praticamente destruída: foi um homem que pagou um alto preço por dizer verdades. Para mais detalhes de sua notável biografia, acesse http://www.reformation.org/antony-sutton-bio.htmlp://www.antonysutton.com/sutton-memorial/index.html e http://www.antonysutton.com/


Finalizando esta introdução, faço uma sugestão e um pedido ao público:

1. Não tome a entrevista como se essa fosse “A” Pedra da Roseta; na medida do possível, busque mais informações nos livros citados na bibliografia (indicada no final este texto) e as compare com a “história” contada alhures;
2. Há três ou quatro lacunas “(?)”. Se o ouvinte com ouvido mais apurado conseguir confirmar os nomes (com as devidas referências), agradeço desde já.

 
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Entrevista de Antony Sutton a Stanley Monteith, 1980: “Wall Street and the Rise of Hitler

Transcrição e tradução: Henrique Paul Dmyterko *. Engº Mecânico pela UFPR, 1987. Tradutor e escritor


Vídeo original: http://video.google.com/videoplay?docid=6987303668075230852#docid=6244851259954264539

Entrevistador: Dr. Stanley Monteith, Radio Liberty.


Bibliografia de Antony Cyril Sutton:

• Western Technology and Soviet Economic Development: 1917-1930 (1968)
• Western Technology and Soviet Economic Development: 1930-1945 (1971)
• Western Technology and Soviet Economic Development: 1945-1965 (1973)
• National Suicide: Military Aid to the Soviet Union (1973)
• What Is Libertarianism? (1973)
• Wall Street and the Bolshevik Revolution (1974, 1999)
• Wall Street and the Rise of Hitler (1976, 1999)
• Wall Street and FDR (1976, 1999)
• The War on Gold: How to Profit from the Gold Crisis (1977)
• Energy: The Created Crisis (1979)
• The Diamond Connection: A manual for investors (1979)
• Trilaterals Over Washington - Volume I (1979; with Patrick M. Wood)
• Trilaterals Over Washington - Volume II (1980; with Patrick M. Wood)
• Gold vs Paper: A cartoon history of inflation (1981)
• Investing in Platinum Metals (1982)
• Technological Treason: A catalog of U.S. firms with Soviet contracts, 1917-1982 (1982)
• America's Secret Establishment: An Introduction to the Order of Skull & Bones (1983, 1986, 2002)) How the Order Creates War and Revolution (1985)
• (How the Order Controls Education (1985)
• The Best Enemy Money Can Buy (1986)
• The Two Faces of George Bush (1988)
• The Federal Reserve Conspiracy (1995)
• Trilaterals Over America (1995))
• Cold Fusion: Secret Energy Revolution (1997)


Leituras recomendadas (outros autores):

1. Carroll Quigley, Tragedy & Hope, https://www.amazon.com/Tragedy-Hope-History-World-Time/dp/094500110X/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1279011344&sr=1-1 The McMillan Company, Nova York, 1966 (Quigley foi um professor e estudioso respeitado, sinceramente favorável à ideia de uma “nova ordem”, ou segundo ele mesmo, de “uma diversidade inclusiva”. Ao que parece, falou demais nesse seu livro [1.348 páginas], que logo sumiu de circulação e que só foi reeditado em 1975 (?) pela obscura GSG & Associates. Quigley foi professor de Bill Clinton, que fez questão de homenageá-lo em seu discurso de posse (1º mandato).
2. Carroll Quigley, The Anglo-American Establishment,1981 https://www.amazon.com/Anglo-American-Establishment-Quigley-Carroll/dp/0945001010/ref=sr_1_3?ie=UTF8&s=books&qid=1279011710&sr=1-3 

3. Modris Eksteins, Rites of Spring, 1989 https://www.amazon.com/Rites-Spring-Great-Birth-Modern/dp/0395937582/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1279011941&sr=1-1
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terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

Ambientalismo: a religião política e a politização da ciência


Henrique Paul Dmyterko *
Assistindo televisão, fui surpreendido por um locutor que, com voz quase solene, perguntava:

Qual a sua postura diante do planeta?”. Após um breve olhar em volta, respondi: “Sentado!”.

Conferi As Categorias de Aristóteles e lá estava: Postura é a posição relativa que as partes de uma substância têm quanto às outras e vice-versa, p.ex.: sentado, inclinado à frente. Minha postura final neste planeta será 'deitado', espero.

Deixando a blague de lado, o que o locutor me cobrava nada tinha a ver com as categorias do ser, e tudo com as novas categorias de pensamento de um gigantesco movimento de massa, uma religião política, conforme definição de Eric Voegelin. Esse movimento, chamado ambientalismo, exige que eu tenha uma posição política diante do planeta, um absoluto nonsense. Mas se a falta de sentido tivesse impedido o surgimento de movimentos de massa, a espécie humana não teria conhecido o nacional-socialismo, o comunismo, e tantos outros “ismos”. Pois o que esses movimentos têm em comum é um “ismo” fundamental, o gnosticismo, ou seja, a recusa em aceitar a estrutura da realidade. Dessa recusa resulta a rejeição de uma ordem superior, divina, e a consequente criação de uma ordem imaginária e mundana, onde seus idealizadores “constroem” um mundo novo ou um homem novo, ou ainda, como pretende o ambientalismo, uma nova relação entre o homem e o planeta, desprezando as mais óbvias noções de proporção. Maluquice? Sim. Mas quem pode dizer que as maluquices não têm efeitos?

O que está nas origens remotas do ambientalismo, e também em sua pregação atual, é o paganismo, o culto à Gaia, a mãe Terra, o anti-Cristianismo disfarçado em slogans politicamente corretos, sustentados pela argumentação apocalíptica de uma ciência engajada.

Tal engajamento, por si só, levanta dúvidas, tanto quanto à qualidade quanto às intenções finais desse movimento, dúvidas que levam à inevitável pergunta: quid bono? A quem isso beneficia? Beneficia somente àqueles que estão engajados no movimento, quer sejam políticos e governos (mais impostos, mais poder), cientistas (mais verbas e prestígio), figuras da mídia (mais assunto) ou ativistas (mais verbas para as suas ONGs), fechando um círculo nada virtuoso.

Para tornar um pouco mais claro o estágio atual do ambientalismo, comecemos pelo suposto consenso acerca do aquecimento global causado pela ação humana: tal consenso não existe, mas é veiculado de forma tão maciça que passa a ser aceito como tal. Um dos maiores críticos da noção de um aquecimento global provocado pelo homem é Ian Plimer, geólogo e professor australiano autor do livro Heaven and Earth: Global Warming, the Missing Science. Ele diz : “[...] A hipótese de que a atividade humana pode gerar aquecimento global é extraordinária, uma vez que é contrária a todo conhecimento válido que temos da física solar, astronomia, história, arqueologia e geologia”. “[...] Nós geólogos sempre reconhecemos que o clima muda ao longo do tempo. Onde nós divergimos daqueles que advogam a ideia de um aquecimento global antropogênico está em nossa percepção de escala. Eles estão interessados apenas nos últimos 150 anos. Nossa janela de tempo é de 4,5 bilhões de anos. Deste modo, o que eles estão tentando é extrapolar todo o enredo de Casablanca a partir de um minúsculo fragmento de uma cena de amor. E não dá para fazer isso. Simplesmente não funciona”.

Em seu livro, Plimer tenta resgatar o senso de perspectiva científica para um debate que foi “[...] sequestrado por políticos, ativistas do ambientalismo e oportunistas”. Sobre os modelos matemáticos usados para criar os cenários de catástrofe (descongelamento das camadas polares, elevação dos oceanos, inundações etc., etc.) que mantém o movimento em marcha, o Prof. Ian Plimer é direto e eloquente: “Eu sou um cientista natural. Estou lá fazendo trabalho de campo todos os dias, enterrado em m**** até o pescoço. E é por isso que sou cético quanto a esses modelos. Nenhum deles previu o atual período de resfriamento global. Não há problema de aquecimento global. Este [aquecimento] parou em 1998. Os últimos dois anos de resfriamento global apagaram quase 30 anos de acréscimo nas temperaturas”. Alguém leu ou ouviu isso na grande mídia?

Tão importante quanto a verificação de um resfriamento global é o fato de que a ideia do chamado efeito estufa causado pela atividade humana simplesmente não se sustenta e novamente por uma questão de escala. O dióxido de carbono – CO2 – contido na atmosfera, e para o qual a atividade humana contribui com uma porção minúscula, representa apenas 0,001 por cento do total de CO2 contido nos oceanos, na superfície das rochas, no ar (composto de 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e 1% de outros gases), nos solos e nos seres vivos. A única justificativa para a criação de leis e impostos sobre uma parcela tão insignificante está nas nada insignificantes quantias que seriam arrecadadas; somente nos Estados Unidos, algo em torno de US$ 7,4 trilhões ao longo de vários anos.

Numa análise do movimento ambientalista, o Prof. Plimer é categórico: “A eco-culpa é um luxo de primeiro- mundo. É a nova religião para as populações urbanas que perderam a sua fé no Cristianismo. O relatório do IPCC é a sua Bíblia e Al Gore e Lord Stern, os seus profetas”.

É evidente que as vozes de cientistas como Ian Plimer, Alan Carlin (falecido em abril de 2019), John S. Theon e de mais centenas de outros ao redor do mundo enfrentam oposição muito poderosa: a de governos tais como o de Barack Obama, que pretendia usar o “aquecimento global” como desculpa para mais impostos, regulamentos e protecionismo; interesses de companhias de energia e de investidores que pretendem fazer fortuna a partir de esquemas como o comércio de créditos de carbono; entidades tais como o Greenpeace, que dependem da ansiedade pública para a obtenção de recursos financeiros; e correspondentes “ambientais”, que precisam manter acesa a conversa sobre a “ameaça do aquecimento”, para justificar seus empregos. A mesma motivação se aplica a grande parte dos cientistas engajados nessa grande trapaça.

No entanto, se são os interesses financeiros que se opõem à verdade científica e ao bom senso, é a realidade econômica que pode dar um fim a essa empulhação global, pois ela não tem partido e acaba por se impor, ainda que dolorosamente. China e Índia já disseram um não a qualquer restrição à emissão de gases, o que praticamente sepultou a nova e caríssima legislação proposta pela administração Obama sobre emissão de gases, a Cap & Trade. Outros países, com destaque para a Austrália e Nova Zelândia, já estão dando marcha à ré em suas políticas quanto à emissão de gases. É uma simples questão de sobrevivência econômica, de sobrevivência humana.

O planeta? Continua girando, para a consternação dos adeptos dessa estranha e marota religião política chamada ambientalismo.


* o autor é Engenheiro Mecânico pela UFPR, 1987, tradutor e escritor

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