segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Carta ao secretário Xico Graziano

Richard Jakubaszko
Circula afoita pela internet, pingando de e-mail para e-mail, uma carta atribuída supostamente ao eminente engenheiro agrônomo Fernando Penteado Cardoso, dirigida ao secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Xico Graziano, também agrônomo, mas que resolveu ser ambientalista e verde das lides tucanas. Pois Xico Graziano escrevinhou umas mal traçadas linhas e mandou ver no vetusto O Estado de São Paulo, um artigo a que intitulou de "Querela florestal", e agora leva uma réplica do nonagenário Cardoso, num autêntico caboclês, muito bem humorado, eis que o caipira do Dr. Cardoso, originário lá das Ituana, parece ser muito mais autêntico de origem do que o caboclo do Xico, que é lá das Araras, e é metido a ser intelectual. Confirmada a autenticidade e autoria da carta reproduzo a mesma aqui no blog, pois merece registro para a posteridade.


Carta ao Secretário Xico Graziano (em 6.11.09)


Caro Xico:
Ref. Crônica “Querela Florestal” * (OESP,3.11.09-A2)
O sitiante lá de Araras é bem letrado ao falar em “reserva legal surrupiada”, “algozes da floresta”, “novidade ambiental”. Talvez seja amigo de algum dos urbanóides que V. mencionou tempos atrás. Pena que não tenha uma proposta. Só querer que os outros resolvam, não resolve. Um simples neto de italianos, acaboclado, diria nos confins da antiga Ituana:


Olha seu moço. Quando meus avó chegaro d’ Itália, já tava tudo derrubado p’ra plantá café com milho, feijão e arroz nas entrelinha. O milho servia p’ra fubá, p’ros porco e p’ras galinha. Era um despropósito de fartura. Tinha de tudo. A gente plantava nas várzea porque a terra era mais fresca e sofria menos co’a seca. Bem que a várzea protegia a gente. Agora querem que a gente num plante mais p’ra protegê as baixada. Num dá. Nóis entende mais disso doque os mocinho da cidade. Tem que dexá nóis trabalhá p’ra levá comida p’resse povão que mora nas urbe.


Mato na beira dos rio era casa dos pernilongo das maleita, por isso a gente limpava tudo. Tinha rio chamado de pardo, de turvo, de vermelho porque as beirada desbarrancava, e inda era tudo mato nas marge qui diz ciliá. Arve é muito bonito, dá sombra e corta o vento. Tirando os mato diminui a geada, isso todo mundo sabe. Agora, dizê que arve muda o calor, o frio e a chuva, tô p’ra vê. Num acredito não.

Num sei quen inventaro a tar reserva de 20%. Por que esse número? Podia ser 15, 25 ou quarquer outro. Acho que contaro os dedo que a gente tem. Parece até tabelamento de juro. Ninguém bedece. Mandá plantá arve p’ra imatá as mata antiga, isso é conversa di moço da cidade. Não forma não. Tô p’ra vê. O tal 20% tem que caí fora. É pura invenção dos político ou de gente que não tem mais que fazê. Não diantô nada até hoje e não vai diantá nada daqui p’ra frente. Muita gente pensa qui nem eu mais farta corage p’ra falá, cum medo de lobisome. Essa gente só qué vê o nome d’eles nas letra grande dos jorná.
Bom mesmo era os governo comprá toda as mata qui sobrô e conservá elas p’ros bicho vivê e p’ras criançada passeá e conhecê como era a terra deles nos tempo dos índio e da bicharada. Podia até dar uns prêmio p’ra quem conservá uns capão ou intão uma gorgetinha p’ra formá bosque nos sitio e fazenda, um disconto quarquer que animasse a gente p’ra comprá as muda e matá as formiga. Uái, num dão mesada p’ra gente ficá discançando?

 
Outra coisa qui me quisila é esse tar de carbono. Num intendo. Si é o tar de gaz que os holandês sorta nas estufa p’ra ajudá as frô, intão é demais de bão. Os cristemo fica demais de bunito. Si é o gás qui nois sorta pelo nariz, intão num é veneno, vem lá de dentro. Diz que o tar carbono tá mudando o clima. Acho qui é bestera. Será qui o céu manda terremoto e as baita onda qui fais estrago danado?* Num credito. Si chove poco é carbono, si chove demais é carbono. Milagre assim só Deus fais. Tem aqueles baita computadô qui vomita o que vai acontecê p’ra frente. Bobage, só Deus sabe o que vai acontecê, máquina não.
Meus avô mi contaro que no 29 choveu p’ra daná. Inundô tudo o varjão do Tietê da Ponti Grande inté a Freguezia. Um marzão qui só vendo. Lá no Gronômico tem medidô di chuva do tempo dum tar di Darfe. Dissero qui as chuva d’agora tem sempre otra iguar otros ano p’atrás. No 29 era tanto d’agua que trapaiô os corretô di café e deu uma crisea qui quase acabô c’os situante e fazendero. Deu uma quebradera dos diabo. Será qui o tar di carbono era curpado? Acho qui num si falava d’ele n’aquele tempo.

Agora virô cunversa dessa moçada nova qui qué mostrá sabidoria.
No tempo das carpidera puxada com égua, a gente tinha que limpá bem a terra p’ra facilitá o serviço. Aí as água carregava tudo e era uma baita d’erosão. Agora nóis dexa o cisco cobrindo a terra e segura o mato com remédio. Bastante cisco segura as água que corre devagarinho e têm mais tempo de filtrá. Num tem mais enxurrada lavando terra p’ra baixo. Uma beleza esse tar di prantio direto. Dá inté gosto di prantá.
Si a gente pudé segurá as enxurrada, fazendo a chuva todinha filtrá na terra, já tá demais de bão. Vai garantí os óio dágua. Si num filtrá que nem nas mata, as nascenti seca tudo, mesmo cum arvoredo em vorta. Ond’é que já se viu as estrada municipár despejá tanta enxurrada com lama, areia, terra e tudo nos riberão, entupindo os córgo e os brejo. Isso sim, trapáia o tar di ambienti.

Agora tá na moda falá de sustentáver. Num sei bem o que qui é, mas acho que é p’ra sustentá a gente. Isso é demais de bão. Tem que sustentá a gente primero, despois si pudé a gente sustenta os bicho, os peixe, os passarinho. Num dianta essa cunversa fiada si não garantí o sustento de nóis qui trabalha o dia interinho de sol a sol.
Por que atazaná a vida da gente cum tanta cumpricação de papelada, registro, licença p’ra tudo? P’raque tanta meaça? Vai acabá a gente companhando os sem terra que vive num bem bão e tem presenti di comida di cesta, presenti di mesada, visita di padre, agrado dos politico pedindo voto e barulhera das TV fazendo eles ficá importante. Será que tenho que fazê compania p’ra eles? Quem vai intão prantá p’ra mandá comida p’resse povão das cidade?”

Perdão pela brincadeira. Abraço do colega admirador
Cardoso
*OESP-5.11.09, C3, pág.1, 5ª.col.

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