segunda-feira, 14 de junho de 2010

Pensar pode até doer


por Vilmar S. D. Berna

Vilmar Berna é escritor e jornalista, editor da Revista e do Portal do Meio Ambiente. Mais informações:

No passado, os antigos acreditavam que o mundo era plano, até que se comprovou que era redondo. Por muito tempo se pensou que o universo inteiro girava em torno de nosso mundo, e era até uma heresia pensar o contrário e muita gente morreu na fogueira por isso. Hoje, achamos que o mundo existe para nós, como se fôssemos os donos do Planeta e não apenas um dos seus passageiros.

O mundo real é o que é, em qualquer época e lugar.
Para uns, uma pedra é só uma pedra, bem real, para outros pode ser uma poesia, ou um minério num estágio de ser transformada em outra coisa, ou um tropeço, ou uma parte do caminho, ou uma arma, ou para construir uma moradia. Ninguém estará mais certo ou errado do que outro, pois uma pedra pode ser tudo isso mesmo e até muito mais! 

Entretanto, a interpretação que fazemos desse mundo é uma idéia que construímos a partir de nossos sentidos e da interpretação que o nosso cérebro faz a partir de suas percepções. Participam ainda neste processo nossos sonhos, ideais, crenças, valores, condição humana, vivências, maior ou menor inteligência, percepção e sensibilidade etc. Assim, não existe um mundo igual para todos. Cada um de nós constrói e reconstrói o mundo a sua maneira. E mais. A cultura também faz o mesmo, só que em nível coletivo, tecendo uma idéia de mundo que faça sentido para um grupo ou povo, para a sua época e lugar.

Então, para uns indivíduos ou povos, o mundo é regido por deuses voluntariosos que comandam nossas vontades; para outros, os deuses se incorporaram nas forças da natureza de onde nos vigiam e controlam; para outros, deuses não existem e somos todos resultado de uma evolução caótica e desordenada. E estas concepções do mundo não são menos verdadeiras que outras, por que para quem acredita nelas, simplesmente a realidade é assim e pronto! 

Para alguns povos indígenas, faz parte da sua visão de mundo, de sua compreensão da realidade, a possibilidade do espírito desprender-se do corpo durante uma pajelança e viajar através dos ventos ou dos rios para ir buscar em outro lugar a informação sobre uma planta para curar uma nova doença.

Para outros povos, como os hindus, faz parte da realidade a idéia de que este mundo é uma espécie de estágio probatório onde devemos cumprir nossos karmas até estarmos libertos dos desejos e sofrimentos.

Outros povos, cristãos, construíram uma idéia de mundo onde acreditam que Deus e o Diabo exercem suas influências sobre nós e nossas escolhas e atitudes e sentem-se a vontade para estabelecerem normas e mandamentos, ainda e apesar do livre arbítrio.

O mundo, a realidade, não são o que são. São o que permitimos que seja em nossa idéia de mundo e de realidade. Por isso, o tempo todo estamos construindo e reconstruindo esse mundo até que a realidade faça sentido para nós, e nos deixe confortáveis com a nossa idéia de mundo e de realidade.

Somos tão obcecados por viver num mundo que faca sentido que chegamos a negar aspectos da realidade quando não se encaixam em nossa idéia do mundo. Esta nossa tendência é explorada, por exemplo, por estelionatários, para o mal, e por mágicos, para nossa diversão, pois tendemos a ver apenas o que queremos ver e negar o que não queremos, mesmo que estejam diante de nossos olhos!

E mais, além de negar as partes da realidade que não se encaixarem em nossa idéia de mundo, quanto mais nos sentirmos ameaçados ou desconfortáveis, mais tenderemos a buscar apoio em líderes carismáticos capazes de desqualificar oponentes e apontar erros nas idéias dos outros, para que só uma idéia de mundo prevaleça, a nossa, naturalmente. Assim como gostamos de conforto para o nosso físico também gostamos de conforto para o nosso espírito. E pensar pode doer demais nesses casos...

E é aí que mora o perigo, quando se abre uma larga avenida tanto para negar aspectos da realidade que existem, por não conseguirmos comprovar, pelo menos ainda, quanto para afirmar a existência de coisas e aspectos que não passam de mera fantasia e mistificação. É com esse material que principalmente jornalistas, escritores, cientistas precisam trabalhar, questionando cada passo e, mesmo quando se pensa que avançou, de vez em quando é preciso retroceder para começar tudo de novo, por um outro ângulo da realidade que deixamos de perceber. Como agora, em que nossos problemas ambientais deixam claro que nossa espécie não é a dona do mundo, como se estivesse no centro do universo, mas é apenas uma parte bem pequena dele, e já esta ameaçada de extinção.
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Um comentário:

  1. Acabei de postar no site do GPP - Grupo Plantio na Palha, de Dourados, MS. www.plantionapalha.com.br No "Tema da Semana".
    Grande abraço
    Sérgio Miranda

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