sábado, 11 de maio de 2013

Paradoxos do nosso tempo na área rural e urbana

Hélio Casale *
Paradoxo é um conceito que é ou parece contrário ao senso comum. Por outro lado, “uma mentira repetida ou praticada seguidamente, acaba por virar uma verdade”.
A seguir, alguns dos principais paradoxos que podem ser facilmente observados no nosso dia a dia e sobre os quais devemos meditar e agir para conseguir uma saída que nos dê mais segurança e liberdade para vivermos coerentemente junto aos nossos familiares e demais convivas.

Dia claro x dia chuvoso

As notícias veiculadas diariamente por repórteres de rádio e televisão quando falam sobre o clima em dias chuvosos, geralmente afirma que o tempo está ruim, céu preto, carregado. Mas será que é mesmo ruim o tempo com água que limpa a atmosfera dos agentes poluidores, que torna o ar das grandes cidades novamente respirável, que faz as plantas crescerem e se multiplicarem, que ameniza a temperatura ambiente? Em países chamados de primeiro mundo, os repórteres dizem, para a mesma situação, que o céu está prateado, que o dia está lindo. Uma pequena diferença no modo de ver a situação, que muda o comportamento das pessoas, podendo levar tristeza e preocupação, quando deveria simplesmente nos alegrar.

Desprezo pelo trabalho e pelo estudo
Para que trabalhar, para que estudar, se o Governo de plantão vai suprir as minhas necessidades? Será eterno esse assistencialismo eleitoreiro? Posso acreditar em dias melhores sem trabalho, em um mínimo de esforço? Seremos nós brasileiros, os únicos que poderão receber tais privilégios?

Normalmente, quem trabalha as horas regulamentares apenas sobrevive e quem se dispõe a estender suas horas de trabalho além das normais e convencionais são aqueles que mais evoluem, crescem, se sobressaem, enriquecem.
Nossos antepassados, principalmente os imigrantes estrangeiros, pelas dificuldades passadas com as guerras e carência de alimentos básicos, trouxeram em suas mentes, que seus descendentes deveriam estudar, conquistar um espaço, um diploma. Ter um diploma, hoje em dia, passou a ter menor importância em vista do sucesso efêmero alcançado por alguns poucos oportunistas que conquistaram posição de destaque nacional sem um mínimo de estudo.

Corte da grama de canteiros de jardins públicos ou privados, área central e lateral de rodovias
Muito comum se ver o corte seguido de amontoa juntando os resíduos e, finalmente, de sua remoção para aterros distantes. Com essa prática comum se consegue o empobrecimento dos nutrientes vegetais de tais áreas e a grama fica a cada temporada mais fraca. Com o passar do tempo, deverá ser necessário recorrer à adubação química, para que o gramado volte a cumprir seu papel de recobrir o solo, evitar erosão e dar um belo visual à área.
Algumas empresas já descobriram que é muito mais barato fazer o corte com maior frequência entre um e outro e deixar os resíduos espalhados pela área sendo dispensável o trabalho de amontoar e remover o rico material cortado. De outro lado, se evita empobrecer o solo da área, que continuará sempre bonita e vistosa.

Plantio de árvores
O que se observa é que aquele que se atreve a plantar uma árvore, cria um problema para si próprio. Não pode conduzir seus galhos, não pode podar, não pode cortar. Tais serviços são privilégio de “especialistas” que, encastelados em repartições públicas, quando saem para qualquer serviço, sempre expõem uma taxa a pagar.
Pensando bem, para que ficar fiel depositário de uma ou mais árvores se me tiram o privilégio de cuidar delas? Aí reclamamos que as grandes, e até mesmo as pequenas cidades, têm pouca área verde. Pudera! O que se poderá esperar, se a população, antes de ser orientada, é simplesmente tolhida de fazer mais verde?

Plantio de árvores e jardinagem pública
Deve-se reconhecer o esforço para plantar mais e mais árvores. Na cova aberta não se coloca qualquer adubo mineral ou mesmo um corretivo de solo para nutrir as plantas via suas raízes e fazer com que a planta cresça sadia, vigorosa. Logo após o plantio, escreve-se nas folhas – se vire e pronto. Aí, as mudas saem lentamente e a grande maioria acaba morrendo antes mesmo de se tornarem adultas. Em grandes avenidas, os canteiros centrais têm plantas quase sempre morrendo de fome. Reformar é barato? A “moda ambientalista”, praticamente não permite que se empreguem adubos minerais, apenas adubos orgânicos e o resultado – gastos excessivos com manutenção dessas áreas e pobreza permanente do visual.

Gaiola de árvores
É comum ver árvores recém-plantadas envoltas por triângulo ou um quadrado, geralmente de ferro, para proteger as mudinhas. Na realidade, quem mais protege a muda é o tutor. Quando esse tutor apodrece ou se quebra, o que se vê é a árvore, cuja copa está ao sabor do vento, esfregar o tronco na parte superior da gaiola e aí se forma um calo, uma ferida, que geralmente leva a morte precoce da muda. Como sugestão – um tutor mais reforçado e manutenção mais frequente, além de investir em educação dos transeuntes.

Manejo das matas
Andando por esse Brasil afora o que se observa são florestas tombadas, transformadas em Reserva Legal, sendo o titular da área o fiel depositário que não pode tirar dali um simples cabo de enxada, de machado. Como a maioria das matas já foi broqueada, pegaram fogo em outros tempos, os cipós estão tomando conta e abafando as plantas, reduzindo o potencial de crescimento e desenvolvimento das espécies mais nobres. Uma floresta paulista, das mais badaladas é a que abriga os jequitibás, lá em Santa Rita do Passa Quatro onde, mesmo da rodovia Anhanguera, se pode observar que as árvores principais estão sendo dominadas, abafadas, envoltas pelos cipós e a floresta está sumindo. Nenhuma ação governamental, a que se saiba, está sendo tomada para recuperação dessa área nobre. A ordem, a regra mais comum é a seguinte – em mata nativa, não se toque, nem se rele. Morte lenta decretada por ambientalistas que deveriam cuidar do meio ambiente e estão de olhos fechados para a natureza.

Erva de passarinho
Trata-se de uma erva predadora que se desenvolve na copa de árvores e com suas gavinhas as sufoca e com sua folhagem espessa as abafa. Sua disseminação se faz através de sementes que, quando comidas por passarinhos e morcego frugíferos, são expelidas pelas fezes saindo viscosas e adubadas ficam grudadas nos ramos e ali germinam. A germinação é rápida e o crescimento mais rápido ainda cobrindo a planta principal e levando-a a morte lenta e certa. A remoção dos galhos infestados é um imperativo que requer urgente intervenção humana.

Matas ciliares e reserva legal, tomadas por cipós

É comum se observar a presença de cipós dominando as matas, abafando o desenvolvimento das espécies mais nobres e permanecem imexíveis, pois se alguém se atrever a controlar os cipós será impedido bravamente pelos ecologeros de plantão. Um forte exemplo de reserva legal sendo destruída por cipós é o Parque Estadual da Vassununga, em Santa Rita do Passa Quatro.

Falar mal do Brasil
Enquanto os estrangeiros defendem com unhas e dentes seus países de origem, entre nós brasileiros, é comum a crítica pela crítica. Falar mal do Brasil parece que confere “status”, dá prestígio, quando deveria, na realidade, envergonhar. Aqui, vale lembrar as últimas Olimpíadas de Pequim, quando o esforço de diversos atletas reconhecidamente entre os melhores do mundo conseguem uma honrosa 2ª colocação: a maior parte da imprensa falada e escrita, rapidamente, ou mesmo levemente, os esquece. Somente brasileiro que alcança o 1º lugar tem alguma glória e, assim mesmo, por pouco tempo, efêmera. Vale mais prestigiar um estrangeiro que um da terra.

Tratamento de águas
Tratar a água servida é uma obrigação que deveria ser seguida por todas as áreas da sociedade. Enquanto a maioria das cidades ainda não tem seu esgoto totalmente tratado e o despeja nos efluentes, as indústrias, laticínios, etc., são obrigados, sob pena de sansões graves, a tratar as águas servidas para em seguida jogá-la no esgoto comum. À margem das grandes represas dos rios Tietê, Grande, Sapucaí, as cidades ainda não têm tratamento de seus esgotos e os despejam ali, sem qualquer ação do poder público, que simplesmente está fazendo que não vê.

Empregados de cemitérios
Trabalhadores rurais quando obram a céu aberto no campo, têm de estar protegidos com botas, polainas, luvas, máscara, chapéu de aba larga, camisas de mangas compridas, etc., ou os fiscais do Ministério do Trabalho oneram os empregadores com pesadas multas. Nos cemitérios, os encarregados dos sepultamentos, entram nas carneiras, um ambiente úmido e sabe-se lá o quanto contaminado por fungos, vírus, bactérias, totalmente desprotegidos.
A lei e as regras, que deveriam ser para todos, não reconhecem os coveiros como trabalhadores e os ignoram a própria sorte. Outras classes de trabalhadores como, por exemplo, os formiguinhas, catadores de lixo de rua, também estão a mercê da própria sorte.


Cumprimento
Quer deixar atônito um taxista, um ascensorista, um atendente público, um guarda de trânsito, um guarda rodoviário, um guarda municipal, um varredor de rua, um caixa de supermercado, é só lhe dar um bom dia. A pessoa olha assustada, parecendo nunca ter ouvido um cumprimento, tal o grau de isolamento em que vive. Estamos vivendo mais e melhor, mas a cada dia mais isolados. Que será de nós?

Pesquisa x extensão agrícola
Nos países, ditos mais avançados, é comum o Serviço de Extensão Agrícola estar estreitamente ligado a uma Universidade. O extensionista leva os problemas do campo para a Universidade que os resolve e a solução volta ao campo pela mesma rede de extensionistas.
Em nosso país o serviço de extensão agrícola está um tanto longe das Universidades e o treinamento do pessoal é dos mais falhos. Resultado – cada um se vira como pode. Mesmo assim ainda estamos nos saindo bem diante de tão pequeno apoio.

Anais com resultados da pesquisa em escolas de agronomia
Está ficando moda a publicação dos anais em inglês, dando a entender que tais resultados são para serem usados primeiramente por estrangeiros e os técnicos nacionais que não entendem a língua ficam de fora.

Mérito
Profissionais da rede pública ou privada não estão recebendo aumento salarial, promoções e outras benesses em função do seu desempenho, o mérito da conquista. Geralmente se nivela pela média. Professores que mais se empenham, mais se destacam, ficam anos a fio, no mesmo patamar dos acomodados. Até quando?


Pequenas represas em propriedades rurais
Pequenas barragens espalhadas pela propriedade rural reduzem o correr rápidos das águas, faz com que a evaporação da água torne o ambiente mais úmido, mais agradável para os homens, as plantas, os animais.
Fazer qualquer represamento de água é tarefa praticamente proibida, só permitida com autorização de funcionários públicos ligados a área do meio ambiente. Não basta querer fazer um bem para sua área, para a natureza, para o meio ambiente, tem-se que beijar as mãos dos funcionários públicos, nem sempre devidamente preparados para sua função.
Regras de manejo das pequenas águas estão impedindo o progresso e deixando o meio ambiente a deriva.

Defensivo x agrotóxico
Quando um médico receita um medicamento ele receita um remédio, sem chamá-lo de homotóxico Quando o Engenheiro Agrônomo receita um defensivo, ele prescreve um agrotóxico. Todo e qualquer remédio tem seus efeitos colaterais. Todo e qualquer defensivo também têm seus perigos. Porque essa diferença de tratamento? Ignorância, má fé?

Irrigação cafeeiros por pivô equipado com lepas
Por incrível que possa parecer a grande maioria dos pivôs com lepas soltam a água por cima da copa dos cafeeiros fazendo um arraste substancial dos nutrientes necessários ao bom desenvolvimento das plantas. A água que deveria entrar pelas raízes, a boca das plantas, é colocada na folhagem. Acaba fazendo uma irrigação de privilégio, desequilibra a nutrição, encarece o processo produtivo.
Falta de observação prática, desleixo, facilidade, conveniência, falta de conhecimento, tradição, visão distorcida, seja qual for a causa, temos de centralizar as lepas no meio das entrelinhas e abaixar a sua ponta de maneira a irrigar o solo para conseguir maximizar a produtividade dos cafeeiros.

Quanto é x quanto me dá

O agricultor seja ele pequeno médio ou grande é quem sustenta os da cidade levando alimentos a sua mesa. Os da cidade os desprezam, desvalorizam, chamando-os de caipiras, atrasados, incultos, mas se beneficiam do seu trabalho. Quando vai vender a produção, o resultado do seu trabalho sempre está a perguntar – quanto me paga hoje pelo produto. Quando vai adquirir insumos para aplicar nas suas lavouras esta é a pergunta – quanto me faz esse produto.
Essa relação de postura, entre quem produz e quem vende, está distorcida de qualquer propósito e deve ser mudada, pois uma classe trabalhadora não pode se sujeitar eternamente a ficar sempre por baixo.
 

Aborto
Um bispo católico reprova o comportamento de médicos que fazem o aborto de duas crianças, os excomunga e a mídia faz o maior estardalhaço sobre o ocorrido, reprovando tal atitude.
Praticamente unanimidade para criticar aquele que defendeu a oportunidade de vida para “apenas” duas crianças. Não se falou, não se comentou sobre a intenção maior do prelado em mostrar ao país e ao mundo que são feitos mais de 55 milhões de abortos a cada ano. São mortos no nascedouro cerca de 55 milhões de indivíduos sem direito algum a defesa. Um verdadeiro assassinato em massa praticamente 10 vezes maior que o famoso holocausto de judeus pelas tropas de Hitler. Isso é pouco ou...
 

Liberdade sexual
Os homens e mulheres estão, a cada dia, se mostrando seres irracionais por defenderem a total liberdade sexual. Governantes de plantão estão aplicando verbas generosas para confecção e distribuição de camisinhas para se poder fazer sexo sem responsabilidade, nem paternidade. Adquire e distribui um gel para facilitar o coito anal entre parceiros do mesmo sexo. Imaginemos animais, ditos irracionais, na natureza, sendo colocados para acasalar ou cruzar fora do período. Simplesmente não há aceitação e sai briga por todo lado. Seremos nós humanos realmente os racionais nesta terra?


Maconha
Uma erva que propicia a iniciação na droga. Leve, suave, sorrateira. Um verdadeiro desastre. Mesmo sabendo seu efeito nocivo aos usuários, às famílias, aos cofres públicos, um Ministro de Estado, da administração atual, se dá ao desplante de acompanhar a marcha de uns poucos alienados pedindo que se oficialize o uso da maconha neste país. Dá para entender?

Sequestro de carbono
A liberação de carbono vem liderando as emissões de gases de efeito estufa e causando mudanças na temperatura e clima mundiais a ponto de motivar movimento de ambientalistas das mais variadas correntes. Não se pode mais desmatar, tirar a vegetação de cerrado, a floresta inicial. Se no lugar dessas vegetações o homem repovoar com pinus, eucaliptos, plantar café, milho, soja, capim também estará sequestrando o tão decantado carbono que se acumula na massa vegetal que está sendo produzida nessas mesmas áreas. Mas isso não vale. Temos de deixar o mato em pé, manter o bioma intocável. Produzir alimentos não é importante. Vale lembrar aqui uma frase do fisiologista Dr. Paulo de Tarso Alvin quando diz – mais sequestra carbono um hectare de alface em crescimento que um hectare de floresta amazônica em clímax.


Origem das espécies
Onda fomentada por ecologistas pouco estudiosos, ou mesmo mal intencionados, sugere ferrenhamente que ao plantar árvores e fruteiras na recomposição das matas ciliares, etc., seja feita apenas com plantas de espécies nativas.

Esquecem-se da máxima que diz – as plantas, em geral, vão muito melhor quanto mais longe do lugar de origem. Vejamos o quanto é correta essa assertiva: o café é do continente africano, a laranja é da China, o abacate, do México, a manga, da Índia, a seringueira é da Amazônia e vai muito melhor na Malásia, o alho é da Ásia, alface, da Ásia, batata dos Andes peruanos, cebola, da Pérsia, cenoura, da Ásia e da Europa, até o Chuchu não é nosso, é da America Central e México, a uva, do Mediterrâneo e assim por diante.

A pergunta que se impõe – por que não plantar uma árvore, uma fruteira, uma hortaliça, sem se preocupar com sua origem e tão somente com seus benefícios? Árvore é árvore, planta é planta, esteja onde estiver, vinda de onde tenha vindo. Vamos cuidar delas, para o nosso próprio bem e de todos.

Estamos vivendo dias de não pode, onde o Estado está a cada dia assumindo mais funções e responsabilidades e deixando seus filhos alheios, sem responsabilidade direta. Como o Estado é reconhecidamente perdulário, descompromissado, estamos entrando numa roda sem fim a espera de dias melhores sem esse tutoramento irracional a que estamos sendo submetidos a título de salvação nacional.

Por fim, emende e acrescente quem quiser, modifique se puder e todos deem graças a Deus.



* O autor é Engenheiro Agrônomo pela ESALQ/USP, desde 1961.
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