quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Alimentando milhões

Paulo Herrmann *
Como a parceria público-privado pode contribuir para a intensificação sustentável da agropecuária

As questões ambientais sempre foram relevantes, sobretudo no Brasil, lar de biomas fundamentais à conservação da vida no planeta. E cada vez mais ganham força globalmente, diante de desafios consideráveis como o efeito estufa. Em todos os segmentos da sociedade, ser produtivo já não basta: agora o importante é aliar produtividade com alta tecnologia, sem esquecer de cuidar do meio ambiente! A agricultura brasileira, por sua capacidade criativa e diversificada, há muito tempo tem contribuído enormemente para essa discussão. Foi assim, por exemplo, com o plantio direto, técnica de manejo sustentável aplicada pelos brasileiros desde os anos 70. Mais recentemente, a aprovação do Código Florestal, que busca unir os interesses dos produtores rurais e a proteção das florestas nativas.

O Brasil tem mais de 800 milhões de hectares, dos quais pouco mais de 300 milhões com potencial para a produção agropecuária. Isso significa que mais da metade do território nacional ou são áreas urbanas ou são áreas de preservação ambiental. E o restante está destinado às atividades agropecuárias. Mesmo utilizando praticamente apenas um terço do território nacional (arredondando os números), a agricultura brasileira segue batendo recordes de produtividade: acabamos de colher uma safra de 204,5 milhões de toneladas de grãos. Um feito histórico.

Há espaço para melhorias e inovação? Sim. E muito! Por três motivos essenciais: 1) a necessidade de se produzir alimentos para 9 bilhões de habitantes na Terra até 2050, segundo as estimativas, coloca o Brasil sob as luzes dos holofotes no cenário global. Somos o único país em condições de produzir o ano inteiro, sem parar; 2) nesse sentido, é preciso encontrar soluções para produzirmos cada vez mais sem que se aumente as áreas destinadas às atividades agropecuárias; e 3) mesmo produzindo a níveis invejáveis, os brasileiros ainda podem desenvolver técnicas de manejo agrícola recuperando terras degradadas, portanto, contribuindo para a preservação do meio ambiente. Por ser de interesse de toda a sociedade, entendemos que estes três pilares só seguirão adiante de maneira eficiente e sustentável com o estreitamento de parcerias público-privadas, de forma que as expertises e qualidades destes dois setores somem forças na transferência de conhecimento, tecnologias e investimentos.

Foi com esta leitura que, em 2012, criamos a Rede de Fomento à Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF), um conceito revolucionário que responde aos anseios dos três motivos essenciais citados anteriormente. A parceria público-privada foi elaborada para aproximar empresas e tecnologias que permitem a efetiva implantação do modelo, pulverizando o conhecimento. Com os esforços somados podemos incentivar para que o conceito iLPF e suas tecnologias cheguem a todos os produtores, acadêmicos e demais elos da cadeia agrícola. Ao longo dos anos, com o desenvolvimento das pesquisas com iLPF, o modelo pôde ser adaptado às diversas realidades nacionais de clima, solo e o tamanho das propriedades – demonstrando sua universalidade e potencial para a produção agrícola brasileira.

Iniciamos o acordo com Embrapa, Cocamar, John Deere e Syngenta e, posteriormente, agregamos esforços com as empresas Schaffler, Parker e Dow AgroSciences. O Governo Federal também fez sua parte e colocou a inserção do modelo iLPF como parte dos esforços para reduzir as emissões de gases de efeito estufa gerados pela agropecuária.

Ano a ano alguns resultados do iLPF podem ser conferidos em uma fazenda modelo que a Rede de Fomento mantém em Goiás e que é movida pela inteligência iLPF. A Fazenda Santa Brígida, em Ipameri, abre suas porteiras para mostrar seus resultados ao público, este composto desde especialistas no assunto até público em geral. Todos que tiveram oportunidade de conhecer o local viram que é possível aumentar a renda das propriedades de forma sustentável. E, como afirmou o pesquisador da Embrapa Cerrados José Roberto Rodrigues Peres, se o exemplo da Fazenda Santa Brígida fosse adotado em 100 milhões de hectares, seria evolução tecnológica sem precedentes no País e significaria, pelo menos, três vezes mais a produção de grãos e três vezes mais a produção pecuária, sem a abertura de novas fronteiras.

Além da fazenda modelo, existem ainda cerca de 200 Unidades de Referência Tecnológica (URT) espalhadas pelo o Brasil, que servem para testar a tecnologia e difundi-las no seu entorno.

Por experiência, sabemos que os produtores brasileiros são responsáveis e estão abertos a formas sustentáveis de produção. Hoje não podemos viver somente baseados em modelos antigos, que muitas vezes foram desenvolvidos para condições diferentes das atuais, sejam elas ambientais, econômicas, sociais e agronômicas.

O modelo iLPF é um importante diferencial do agronegócio brasileiro frente aos demais países produtores do mundo. No entanto, temos que acelerar cada vez mais a curva de adoção dessas novas tecnologias. É aí que a Rede de Fomento ganha importância, pois coloca de um mesmo lado a experiência do setor privado com a do setor público. Técnicas como o iLPF são de suma importância para que o Brasil possa se firmar como referência para a agricultura mundial e produzir, de maneira sustentável, ainda mais alimentos.

* o autor é presidente da John Deere Brasil
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2 comentários:

  1. Renato Villela, São Paulo13 de agosto de 2015 15:55

    Richard,
    gosto muito do modelo de integração entre lavoura e pecuária.
    Mas tenho dúvidas em relação à floresta. Muitas dúvidas. Principalmente eucalipto, por causa do preço do m3.

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  2. Ronaldo Trecenti, Brasília19 de agosto de 2015 14:29

    Muito obrigado. Excelente artigo.
    Abs,
    RT

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