sábado, 12 de novembro de 2016

Comércio e protecionismo sob Trump

Marcos Sawaya Jank

Cenário protecionista obriga o Brasil a buscar outros parceiros comerciais

A eleição de Donald Trump torna o mundo menos globalizado. Não há dúvida de que a sua vitória reflete um movimento latente na sociedade americana contra políticas e políticos tradicionais e a busca por algo novo e diferente. É difícil saber o que vai acontecer após as eleições, uma vez que governar é diferente de discursar e sempre há grandes limitações, institucionais e monetárias, no que pode de fato ser feito.

Mas tudo indica que Trump fará movim
entos simbólicos em pelo menos duas áreas de grande apelo para o seu eleitorado: contenção de imigrantes e imposição de restrições comerciais em áreas que afetam a indústria americana.


Nesse sentido, um dos golpes mais duros poderá ser dado contra o multilateralismo e os grandes acordos comerciais. Se somarmos a vitória de Trump ao crescente nacionalismo europeu simbolizado pelo "brexit", é inevitável enxergarmos um paralelo com o período entre guerras do século 20. A exemplo do que aconteceu nos anos 1930, tudo indica que caminhamos para um novo período dominado por escaladas protecionistas, nacionalismos e xenofobia.


Aqui na Ásia, a percepção geral é que a eleição de Trump enterra de vez a TPP (Parceria Transpacífico), conduzindo o Sudeste Asiático a uma inevitável aproximação com a China, traduzida no reforço do Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), acordo comercial que reúne 16 países da Ásia e Oceania, e da iniciativa chinesa “One Belt One Road (Obor)" na área de infraestrutura.


Trump declarou que os EUA abandonariam a TPP, renegociariam os termos do acordo de livre-comércio com o Canadá e o México (Nafta) e elevariam em 45% as tarifas de importação sobre produtos chineses.


Desde o colapso da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca), em 2003, as relações do Brasil com os EUA no governo do PT nunca foram boas. O governo Temer trouxe grande esperança de forte alinhamento e retomada das relações. Agora é esperar para ver como a retórica da campanha vai se traduzir na realidade das políticas americanas, principalmente as políticas externa e comercial.


Mas não podemos ficar parados. Com a Europa e os Estados Unidos revendo relações internas e externas, na direção de rotas mais isolacionistas e protecionistas, creio que deveríamos olhar com mais cuidado para a região mais dinâmica do mundo, a Ásia. Esse imenso continente, ainda pouco conhecido pela maioria dos brasileiros, pode ser a grande esperança para o comércio e os investimentos num cenário de incerteza no Ocidente, ainda mais se considerarmos a vocação de setores globais do Brasil como alimentos, fibras, bioenergia, florestas plantadas e mineração. Desde 2000, o vetor dinâmico das exportações desses setores tem sido a Ásia. Nos investimentos, caminhamos no mesmo sentido.


Num mundo multipolar, é fundamental antecipar jogadas e definir claramente o que queremos e como chegar lá. Neste momento, o país que mais deseja incrementar as relações e investir no Brasil é a China. Exemplos são a compra recente de grandes empresas geradoras de energia no país e os investimentos anunciados nos setores do agronegócio e infraestrutura.


Contudo, contrapartidas adequadas são necessárias e precisam ser negociadas. Oportunidades imensas também existem na Índia e nos dez países que formam a Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), como comprovado pelo ministro Blairo Maggi em recente viagem pela região.


Num momento em que tanto o multilateralismo como o regionalismo sofrem um grande baque, talvez a única saída seja incrementar as relações bilaterais com parceiros que há um ano não estavam no nosso radar. A tempestade que se formou no horizonte da globalização parece ser negra e duradoura, mas não tem jeito: teremos de navegar através dela.


* o autor é especialista em questões globais do agronegócio.

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