domingo, 3 de maio de 2009

Gripe suína – o espirro dos porquinhos...

Richard Jakubaszko 
Foi Júlio César, o imperador ícone do Império Romano, quem explicou que, para manter o povo calmo e tranquilo, sem revoltas, bastava dar à plebe pão e circo. Maquiavel, ao que me consta, nada acrescentou nesse milenar aforismo imperial. 

Com a mídia contemporânea tornou-se uma prática comum nos tempos modernos incutir-se medo e pânico à população, para mantê-la quieta e atenta com as desgraças do cotidiano e com suas próprias mazelas. Nem sempre o pão está disponível com a fartura desejada, mas o circo, todavia, está sempre presente, seja no futebol, na inflação ou na crise financeira internacional, nas endemias, na política (quer maior circo do que uma eleição?). 

O medo e o pânico das guerras, o terrorismo internacional, o aquecimento do planeta, o banditismo urbano e rural, e dezenas de outras maldades que enchem as páginas dos jornais e revistas, são antecipadas pelos telejornais, e nos últimos anos via Internet, sendo esta tão escandalosa quanto qualquer um dos outros meios de comunicação. 

É o que acontece com a gripe suína. Mais um pânico que alcançou as manchetes. Começa pelo nome incorreto, injusto e inapropriado, pois bem que poderiam denominá-la, desde o início, de gripe mexicana, afinal foi lá que tudo começou com esse novo vírus A, o H1N1. 
Já tivemos a gripe espanhola no século anterior, esta sim, com um nível de mortalidade que deixaria os mexicanos envergonhados. 

Mas os especialistas da OMS – Organização Mundial da Saúde, estão preocupados com sua performance midiática, deram o nome de gripe suína. 

Pronto, ninguém da mídia contestou ou perguntou porque, afinal já havíamos tido a gripe aviária, e o nome pequeno satisfaz as necessidades, é de fácil comunicação, até porque ninguém iria se preocupar com as centenas de milhares de suinocultores do mundo inteiro. 
Estes já se encontram em pânico, pois a carne de porco começa a ser rejeitada por alguns consumidores menos informados. Alguns países já proíbem a importação de carne suína, outros partem para o sacrifício de centenas de animais, vigiados de perto pela mídia, queimando os pobres porcos e enterrando-os a seguir. 

Não importa que falte a comida, o circo vai em frente e o pânico extremado é contido através dessas ações midiáticas, pois não se pode exagerar. O pânico tem de ser mantido sob controle, caso contrário pode degringolar. 

Leio na Folha de São Paulo, em matéria de Marcelo Ninio, que ”Ainda não há indícios de propagação em grande escala do vírus A (H1N1) fora da América do Norte, afirmou (em 2 de maio) a Organização Mundial da Saúde (OMS), alertando, porém, que uma pandemia do que vinha sendo chamado de gripe suína continua iminente”. 
Ótimo, é bom saber que reduziu, mas ainda é iminente? É, a mídia é assim, faz um carinho com uma mão e dá paulada com a outra! 
Em outras páginas do mesmo jornal, nos telejornais, e também na Internet, a todo o momento, entra um repórter para afirmar que “O Brasil, está agora com quinze suspeitos”. 
Até o ministro Temporão deu entrevista, semana passada, para confirmar que já tínhamos um “suspeito” no Brasil. O jornal O Globo faz piadinha na sua primeira página através de uma charge, com porcos chovendo na cabeça de Lula. Meus Deus! O que é que o urubu tem a ver com as garças? 

Ah! Do lado tem outra matéria, afirmando que o Brasil não está preparado para controlar a gripe suína, e só depois vem o esclarecimento de que agora essa gripe se chama de vírus A, seguida do novo nome H1N1. 

Sim, agora deu para entender, a mídia ideologiza o noticiário, e já vai encontrando culpados. Já o coitado do porco, que nada tem a ver com a história, continua no foco da mídia: gripe suína.

Ao mesmo tempo as lideranças das associações de criadores de suínos do mundo inteiro, inclusive no Brasil, liderados por Pedro de Camargo, já pediram à leviana e inconsequente OMS para mudar o nome da gripe. A OMS concordou, admitiu o erro, mas apenas acrescentou as letrinhas ao lado do já conhecido nome. E a mídia repete em eco... 

Desde ontem o circo da OMS começou a arrefecer no México, os novos números de pessoas contaminadas caíram de forma sensível. Como toda gripe, ou virose, assim como foi a gripe aviária, há um pico inicial e depois amaina. Mas a mídia quer “sangue” e ainda procura novas formas de explorar o tema, manter o medo e o pânico em evidência, afinal isso aumenta a audiência e vende mais jornal. 

Num telejornal da Globo News, que veiculou notícia importada, o repórter da TV canadense “quase” entrevistou um porco, trancado na sua baia em uma fazenda no interior do país. Mal explicou que o porco foi contaminado por humanos... é isso ai!!! É o contrário... 

Aqui no Brasil também tivemos essas demonstrações de criatividade por parte dos repórteres. Quando assisti uma entrevista do governador José Serra, do Estado de São Paulo, lá na Agrishow, em Ribeirão Preto, no dia 27 de abril, fiquei na certeza de que agora a mídia e os políticos estão exagerando. O governador, não esqueçamos, foi ministro da Saúde deste país, e não deveria brincar com essas coisas. Fez piada e ironia com o que chama de “porquinhos”, conseguiu ser mais leviano do que a OMS. 

Demonstrou despreparo como governador para entender a situação, por isso faço sugestão ao seu eficiente secretário da Agricultura, João Sampaio, que é também um produtor rural respeitado, que informe ao governador Serra que ele deve ter perdido todos os futuros e possíveis votos de suinocultores que venham a assistir a essa entrevista. Fez humorismo de péssima qualidade. 

Mas, veja você mesmo, caro leitor, esse lamentável, irônico e inapropriado comentário do candidato a candidato a presidente da república, que já está lá no Youtube, e tire suas próprias conclusões: 

 
A indústria farmacêutica parece ser a grande beneficiária do novo pânico, as pessoas correm aos bandos para comprar nas farmácias os antivirais, de altíssimo custo. Foi assim com a gripe aviária. Foi assim com a febre amarela. A mídia faz um desserviço lamentável aos seus leitores. 

Júlio César tinha razão na questão do circo e do pão. A diferença daqueles tempos é que o circo romano estava no Coliseu, entre gladiadores, e entre feras, comendo cristãos, enquanto o nosso circo contemporâneo é uma tenda mequetrefe de periferia. Pelo andar dessa carruagem eleitoral assistiremos em 2010 a um festival circense de quinta categoria, com todo o apoio da mídia.

Em tempo: hoje, 13 de maio de 2009, portanto muitos dias depois do início dessa "pandemia" que ameaçava dizimar a raça humana, conforme a imprensa, os primeiros casos confirmados começam a deixar os hospitais, e declaram que tiveram uma tosse, alguns mal estares, uma febrezinha de 37.8 graus, ou seja, a gripe suína virou uma marolinha... he, he, he...
__

14 comentários:

  1. Richard como sempre impecável na argumentação e justeza e claridade de seus pontos de vista. Gostaria apenas da permissão para transferi esta crônica para o Observatório da Imprensa porque tem a ver com critica ao circo midiático especialidade deste site. Obrigado e aguardo a resposta. Fausto José de Macedo, São Paulo, jornalista, rg 5.394.751-4

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  2. Olá Fausto,
    obrigado pela manifestação. Já mandei o texto para o OI desde hoje pela manhã, amanhã deve entrar no site.
    Abraços!

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  3. Recebi e-mail da Ercília Fernandes, lá de Londrina, PR, jornalista que faz assessoria de imprensa para o Instituto Gênesis:
    Caro Richard:
    Li seu artigo sobre a Gripe provocada pelo vírus A (H1N1).
    Apesar de concordar com alguns pontos, gostaria de ressaltar que a situação no México é BEM PIOR do que a mídia está mostrando.
    Abaixo, o e-mail que recbi de amigos que moram lá..
    bjs
    Ercília
    ----- Original Message -----
    From: Robson Bueno
    To: Robson Bueno
    Sent: Friday, May 03, 2009 10:08 PM
    Subject: NOTICIAS DO MEXICO

    Queridos amigos,
    Gostaria de agradecer-lhes pela preocupação e orações por nossas vidas e também pelo México.

    A situação no país não é nada alentadora. Os casos estão crescendo de uma maneira alarmante. Um amigo, que trabalha diretamente com os líderes políticos mexicanos (e que por razões óbvias não posso declinar o nome) me contou hoje que somente num dos hospitais da Cidade do México, já faleceram mais de 1.000 pessoas. Numa pequena clínica da mesma cidade, 8 médicos já morreram. A população está muito assustada.

    Os casos de pessoas infectadas já estão aparecendo em outros estados e, parece, o governo não está tendo o controle da situação, apesar de todos os esforços que é necessário reconhecer.

    Em Puebla, cidade onde moramos e que está distante da cidade do México somente 1 hora e meia, já foram canceladas as classes e as escolas foram fechadas. Também foram fechados todos os locais públicos, como: cinemas, teatros, alguns locais de trabalho. As IGREJAS receberam a ordem de cancelar todos os cultos religiosos. Não existem máscaras na nossa cidade para ser compradas. A população está muito assustada. Estamos no grau 5 de alerta e perigo. Caso cheguemos ao grau 6, vamos ter o toque de recolher. Ninguém poderá sair de casa. Também fecharão os supermercados, postos de gasolina, aeroportos...
    Por favor, continuem orando por nós. Orem também pela misericórdia de Deus sobre o povo mexicano.
    Dios los bendiga mucho,
    Robson

    RESPOSTA: Ercília, acho que seu amigo que está no México está muito assustado. Está em pânico total, o que é humano e natural. A mídia anda dizendo que os novos casos reduziram, e que a situação está sob controle. Ou seu amigo anda vendo TV demais, ou a imprensa internacional está mal informada (o que não parece ser o caso), ou o governo mexicano está escondendo fatos. De toda forma, como ele diz, são notícias de amigos, que ele repassou a vc. Nessas horas cada ser humano vira jornalista, e dá-lhe má notícia...
    Repasse o end. do blog para seu amigo, se ele desejar fazer comentários e dar novas notícias lá do México estamos às ordens.Richard

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  4. Caro Richard,

    Parabéns! Mais um artigo lúcido e ligado aos fatos. Me impressiona realmente a falta de sensibilidade e bom senso de boa parte da mídia sobre os mais diversos temas.

    De que adianta explicar que não tem nada a ver com suínos se continuam chamando de gripe suína?

    Um abraço,

    Paulo Henrique Leme

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  5. Recebi e-mail da Marlene Orlovas, São Paulo:
    Olá Richard!
    Lí o seu artigo e gostei muito. Concordo com o seu ponto de vista. Tudo é um circo mesmo neste país!
    abs.
    Marlene Orlovas
    RESPOSTA: mas não exageremos no pessimismo, dá pra consertar muita coisa através do nosso voto. Pensemos antes de votar, pensar não dói!

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  6. Monise Guimarães5 de maio de 2009 13:41

    Boa Tarde Richard,
    Li este primeiro tópico e achei incrível a forma como você define a negatividade que a mídia certas vezes tem sobre assuntos tão grandes e influentes, como essa tal gripe do porco (coitadinho).
    Fascinante e ao mesmo tempo assustador.
    Estou ansiosa pelo resto.
    Parabéns e sucesso!

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  7. Monise,
    pra vc, que é visitante nova do blog, recomendo a leitura do meu artigo título "Vou parar de ler jornais", está no "arquivos do blog, aí do lado, no ano de 2007, ou início de 2008... clica nas setinhas que vc encontra...

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  8. Boa noite Richard.

    Eu me chamo José Henrique, e sou estudante de Gestão em Agronegócios pela Universidade de Franca - SP, conforme descrito em seu texto "gripe suína - o espirro dos porquinhos" gostaria de ter um melhor esclarecimento sobre esta doença, sua transmissão, seus riscos de se tornar um pandemia, quais sintomas apresenta.

    Desde já agradeço, fico a espera de uma resposta.

    js.henrique@terra.com.br
    05/05/2009

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  9. Olá José Henrique,
    é uma gripe, talvez mais forte, de um vírus em provável mutação, do tipo A, como foi a gripe aviária que assustou o mundo inteiro nos últimos 2 anos, e que não chegou por aqui nos trópicos. Como escrevi, a OMS é midiática, e a mídia exagera, escandaliza, banaliza.
    A transmissão é igual a todas gripes, por espirro ou contato, aperto de mão, beijo etc. Além dos sintomas típicos de gripe (dores no corpo, vias respiratórias comprometidas)apresenta febre, vômitos, e pode levar crianças e velhos à morte. Tem maior nível de transmissão em ambientes fechados, como cinemas, igrejas, aviões, teatros, ônibus etc. Isso acontece com todas as gripes, mas a dengue apresenta maior taxa de mortalidade.
    Os perigos de uma pandemia são evidentes, o vírus viaja de avião, porém tem curta duração fora do corpo humano ou de animais. A OMS ainda não sabe dizer com exatidão o comportamento desse novo vírus, daí os escândalos que provoca com suas declarações aterrorizadoras.
    Na minha opinião deve arrefecer com a entrada do verão no hemisfério Norte, e nem deve chegar por aqui, mas isso é só a minha opinião, pois o vírus pode discordar disso e provar que estou errado...

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  10. Grande mestre Richard, parabéns pelo artigo. Realmente a política do Pão e Circo continua por outros meios. Abração.

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  11. Recebi por e-mail:
    Parabéns, Richard!!!!!!!!!
    Eu nem me dei ao trabalho de ficar lendo muito a respeito. Com números tão ridículos, tava na cara de qualquer pessoa minimamente bem-informada, que era mais um oportunismo da nossa imprensa global. Que pobreza!!!
    Mas que dá vontade de rasgar o “diproma”, dá!!!
    Marisa Rodrigues
    RESPOSTA: agora a situação começa a mudar de rumo. Hoje, de uma só vez, tivemos 4 confirmações da gripe tipo A H1N1 em brasileiros, espalhados por São Paulo, Capital, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Vamos ver o carnaval que a mídia vai fazer...

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  12. Não que eu seja adepto da teoria da conspiração, mas chega a passar pela minha cabeça que o 'batismo' dessa gripe com o nome de 'suína' pode estar atendendo a interesses de pecuaristas que criam outros animais de corte. Sei que o blog é ligado ao agronegócio, então antecipadamente peço desculpas se feri suscetibilidades de algum leitor.
    Sérgio - engenheiro de produção

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  13. Sérgio,
    quando da gripe aviária houve uma teoria da conspiração de que os autores eram os suinocultores...
    Carne de porco tem um estigma perverso entre judeus e muçulmanos, e isso respinga por todo lado. Chinês quando fica doente come carne de porco, e nós vamos para a canja de galinha.
    Na minha teoria conspiratória lá na OMS eles são "publicitários" de quinta categoria, dão nomes inadequados para essas endemias. Mas acho que cabe melhor na foto de "culpados" a indústria farmacêutica, tem um interesse direto na questão, que faz a caixa registradora tilintar com uma musiquinha irresistível...

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  14. Recebi e-mail do jornalista Gustavo Porpino, da Embrapa Cerrados, Planaltina, Brasília:
    Bom dia, Richard,
    estou de volta ao batente depois de um mês de férias. Cheguei segunda dos EUA. Por lá fala-se muito menos de gripe suína do que por aqui. Não vi ninguém da alfândega americana trabalhando de máscaras nos aeroportos. Já nos aeroportos brasileiros, até o pessoal da PF estava de máscaras e luvas.
    Na ida, antes do embarque, o pessoal da Anvisa reuniu todos os passageiros e distribui recomendações. Segundo eles, ninguém poderia deixar de usar máscaras enquanto estivesse em solo americano. Não usei máscaras em momento nenhum.
    No Rio de janeiro, por exemplo, as balas perdidas matam por ano mais do que a gripe suína matou até o momento, e não creio que a população esteja saindo às ruas com colete a prova de balas.
    Gostei mesmo foi de uma nota que li na coluna de Claudio Humberto. A gripe suína chegou ao Brasil, mas pegou dengue.
    Abraço, Gustavo Porpino

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