segunda-feira, 5 de março de 2018

Ladrão de cavalo e outras cismas

Carlos Eduardo Florence *

Muito senhor dos conformes, garantiu Seu Vazinho as alternativas como pontuou assossegado sobre o lombilho em viageiras cismas. – “Se nos caíssem nas mãos” daríamos represália de descarnar os matutos ciganos que sumiram com a mula, como fizemos com o Derempé Maricato, filho da puta que veio da Moncada dos Alepros, três léguas rio acima, lugar de mulher bonita, água farta, gente de má catadura. Pediu emprego e mesmo desconfiados acatamos.

Trabalhou com o carro-de-boi, prestativo, jeitoso, conversava macio com o tirante boi de guia como se falasse na solidão da orelha da namorada em noite de lua. Proseava ciciado no assovio mimoso, merecidamente, no infinito dos sustenidos com a tropa da carroça que entendia todas as manhas que ele procedia. Categórico no lombo de bicho xucro. Por caridade de confiar entravado nós finalmente amolecemos as vistas e ai, praga, ele se deu a roubar o cavalo zanho, queimado.

Manhoso o Derempé, ligeiro, arrematou junto uma égua alazã enxertada de um meu garanhão. Trocou o Derempé as montarias e arriou depois a égua amojando quase para dar cria, poderia ter abortado, ralou sumindo como se fosse o vento. Mas aconteceu, deus era grande, Jupitão, Tesourinha da Cota, Anacezio Poriaé, por batismo, tinha a alcunha pelas pernas embodocadas, tortas, razão de ração pouca na infância, e mais eu, atrelamos nos arribados detalhes: bosta dos animais, rabo tiquira enroscado, risquinho na pedra, casco de nada marcado no pedregulho.

Se deram pelo senhor, antecedemos nos preparos e vimos o saracura de longe amoitando num fundo de capoeira rala, picoto de quebrada brava em ponta de serra desajustada de caminho, pedreira, despenhadeiro de urubu ter medo de cair. Ali era o Sofrenço do Sino Velho, ponto de carcará amoitar solidão.

Tesourinha era ardiloso na garrucha, instigado de preparado na arte, sem premonitórios ou calunia de perdão atirou na altura das virilhas quando ele desmontou para fugir por uma pedra lisa, chapada, entre dois jacarandás bojudos. O tiro era intentado justo para castrar o desmamado, roto, lazarento ladrão. Proposital, intendente, maligno, atirou e acertou Tesourinha como queria, cientifico nas miras. Jupítão tinha um canivete corneta, coisa fina que meu pai dera para o tio e padrinho dele, ele herdou quando o tio morreu, ferramenta desprovida de receios para descarnar um animal de couro. Nos conseguintes, com o canivete corneta do Jupitão, judiosos nos demos animados despregando, vagarentos, as peles do safado encostado num pau-d’alho, desmerecidos de afobar.

Onde estávamos com o rapaz desajuizado era uma terra meio sem ninguém. Tudo se instalava ajustado para estas competências permitidas, sangrar o moço ladrão. O pau d’alho era apropriado de bonito nestas opulências. O Tesourinha desistiu de mais penúrias, pois a gatuno não atendeu de ficar observando ser descarnado acordado e desmaiou desaforado. Descontraiu as raivas maiores com pesar do coitado, assim atirou ele na nuca para não des-sofrer mais o ladrão e se persignou corretamente respeitoso. Amortalhou o moço ladrão, para o infinito, o Tesourinha.

* o autor é economista, blogueiro, escrevinhador, e diretor-executivo da AMA - Associação dos Misturadores de Adubos.

P
ublicado em http://carloseduardoflorence.blogspot.com.br/
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