quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Depois do Estadão, agora é a Folha: “Flávio não tem a menor condição de ser presidente”

Do blog O Cafezinho 

Quatro dias depois de o Estadão classificar Flávio Bolsonaro (PL) como candidato em “falência ética”, a Folha de S.Paulo publicou, nesta terça-feira (16), editorial com conclusão igualmente dura: o senador “não tem a menor condição” de ocupar a Presidência da República. É o segundo grande jornal de referência do país a chegar à mesma sentença em menos de uma semana, um alinhamento editorial que, mesmo entre veículos historicamente mais próximos do establishment liberal do que do campo progressista, já não trata a candidatura de Flávio como mera alternativa política legítima, mas como risco institucional a ser publicamente sinalizado ao eleitor.

O editorial parte de um dado revelador sobre a própria origem da candidatura: segundo a Folha, a escolha de Flávio pelo pai, Jair Bolsonaro, condenado pelo STF por tentativa de golpe de Estado, surpreendeu setores da direita não alinhados ao bolsonarismo raiz, que preferiam um nome com maior experiência administrativa, como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), hoje relegado a apoio de bastidor. Mesmo sem entusiasmo do chamado centrão, o jornal reconhece que a polarização acirrada tornou Flávio competitivo, com pesquisas recentes e já documentadas por este site em múltiplos institutos, mostrando empate técnico com Lula no segundo turno.

É justamente essa competitividade, argumenta o editorial, que torna mais urgente o escrutínio: crescer nas pesquisas não resolve as dúvidas sobre preparo, apenas aumenta a necessidade de examiná-las. A Folha reconhece que Flávio acumula mais de duas décadas de mandatos eletivos como deputado estadual pelo Rio aos 21 anos, quatro mandatos na Alerj, senador desde 2018, mas argumenta que extensão de carreira não equivale a preparo administrativo, já que o senador nunca comandou pasta executiva ou governo.

O ponto central da crítica, porém, é político, não curricular: a candidatura se apresenta explicitamente como continuação do “projeto nacional” de Jair Bolsonaro, incluindo a promessa declarada de indulto ao pai em caso de vitória. Para a Folha, a questão não é responsabilizar Flávio por atos de terceiros, o jornal faz questão de reconhecer isso, mas cobrar posição inequívoca sobre limites constitucionais ao poder, algo que o editorial considera não resolvido enquanto o discurso de confronto institucional seguir sendo parte da identidade da campanha.

O ângulo que mais distingue este editorial do já publicado pelo Estadão é a crítica ao alinhamento com Donald Trump em temas de soberania nacional como tarifas comerciais, terras raras e política climática, todos eixos que este site vem documentando ao longo do ano como parte central do embate entre os dois campos presidenciais. A Folha classifica essa proximidade como “postura de subserviência diante de interesses estrangeiros”, argumento que ecoa diretamente o discurso de soberania que Lula vem repetindo desde o pronunciamento de 7 de Setembro, também já registrado por este site.

O editorial resgata ainda um episódio biográfico específico e pouco lembrado: quando deputado estadual, Flávio concedeu a mais alta honraria da Alerj a um policial que na época já respondia por homicídio e que depois seria identificado como integrante de milícia. Somado à menção às “rachadinhas” no antigo gabinete parlamentar e ao “diálogo amistoso” com Daniel Vorcaro no financiamento do filme Dark Horse, saga que este site acompanha desde maio, com pelo menos uma dezena de matérias sobre delações, editoriais e desdobramentos judiciais, o jornal constrói um quadro de padrão de relacionamentos problemáticos ao longo de toda a trajetória pública do senador, e não apenas um episódio isolado.

Mesmo reconhecendo, como o próprio texto ressalva, que nenhum desses elementos “autoriza atribuir ao senador crimes que não tenham sido comprovados”, a Folha conclui que a soma de dúvidas sobre experiência administrativa, compromisso democrático e vínculos políticos exige que Flávio “demonstre preparo” e “reconheça, sem ambiguidades, os limites estabelecidos pela Constituição”, uma cobrança que, lida ao lado do editorial do Estadão da semana anterior, sugere que o núcleo mais influente da imprensa brasileira tradicional está, de forma coordenada ainda que não combinada, elevando o padrão de exigência sobre a candidatura mais competitiva da oposição a menos de três semanas do primeiro turno.


Publicado originalmente no blog O Cafezinho:

https://www.ocafezinho.com/2026/09/16/depois-do-estadao-agora-e-a-folha-flavio-nao-tem-a-menor-condicao-de-ser-presidente/

 

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