sábado, 23 de fevereiro de 2013

Para quem se importa com emergências globais – verdadeiras

Geraldo Luís Lino *
Em março de 2012, publicamos neste espaço um artigo com título quase idêntico a este. As motivações foram os anúncios de dois fenômenos cósmicos com potencial para acarretar enormes problemas para a humanidade, mas que não costumam receber mais que uma ínfima fração da atenção e dos recursos humanos e financeiros desperdiçados com pseudoproblemas, como a imaginária ameaça do aquecimento global antropogênico.

No final de fevereiro, a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (NASA) dos EUA havia anunciado a passagem do asteróide 2012 DA14 pela Terra, prevista para 15 de fevereiro de 2013, à astronomicamente insignificante distância de 27 mil quilômetros. Na mesma ocasião, uma forte tempestade solar atingiu o planeta, obrigando que fossem tomadas medidas de cautela, como o desvio de voos que fazem rotas polares.

O asteróide, com 45 metros de diâmetro e 130 mil toneladas, compareceu ao encontro como previsto, passando a 27.860 quilômetros da Terra, às 17h24 (hora de Brasília) da sexta-feira dia 15, cerca de 8.500 quilômetros abaixo das órbitas dos 400 satélites geoestacionários que circulam o planeta. Porém, o que ninguém esperava foi o meteoro que caiu, às 9h20 (hora local, 0h20 hora de Brasília), nos arredores da cidade russa de Chelyabinsk, a leste dos Montes Urais, gerando uma onda de choque que deixou mais de 1.200 pessoas feridas, algumas com gravidade, a maioria por estilhaços de vidraças quebradas, embora o dano mais sério tenha sido o desabamento parcial do teto de uma fábrica de zinco.

O meteoro, que não tinha qualquer relação com o asteróide, tinha dimensões estimadas em 17 metros e 10 mil toneladas e explodiu a uma altitude entre 25 e 30 quilômetros, mas, se tivesse caído diretamente sobre a cidade, o impacto – estimado como equivalente ao de uma bomba atômica de 300 quilotons – teria causado danos gravíssimos e, certamente, milhares de vítimas, entre mortos e feridos. Se tivesse chegado em horários diferentes, poderia ter atingido outras grandes cidades na mesma latitude de Chelyabinsk, como Moscou, Belfast e Dublin.

A perplexidade causada pelo incidente, amplificada pelas dúzias de vídeos gravados pelos habitantes da cidade (em grande medida, graças ao curioso hábito dos motoristas russos de gravar as suas viagens, para evitar golpes de atropelamentos deliberados), foi sintetizada pelo vice-secretário-executivo da Sociedade Astronômica Real (RAS) britânica, Robert Massey: “Eu estou coçando a cabeça para pensar em alguma coisa na história registrada, em que esse número de pessoas tenha sido ferido indiretamente por um objeto como esse… é muito, muito raro que se tenham vítimas humanas (AFP, 15/02/2013).”

De fato, embora se estime que cerca de 80 toneladas de meteoritos caiam diariamente sobre a Terra, a quase totalidade deles é de dimensões reduzidas e acaba se desintegrando com a fricção causada pela entrada na atmosfera. E, até agora, contavam-se nos dedos de uma mão as vítimas conhecidas de quedas de meteoritos. Não obstante, a impressionante coincidência de dois corpos celestes de dimensões consideráveis terem chegado ao planeta no mesmo dia, associada ao fato de o meteoro não ter sido detectado com antecedência, demonstram de forma insofismável a vulnerabilidade da humanidade diante de tais fenômenos, que terão que entrar, definitiva e seriamente, na lista de preocupações das autoridades de todo o mundo.

Evidentemente, a mentalidade “mercantilista” que tem orientado o enfrentamento das pseudoemergências mundiais, responsável, por exemplo, pelo dispêndio de centenas de bilhões de dólares na busca de “soluções” para o aquecimento global, é incompatível com o estabelecimento de um sistema de vigilância cósmica que permita ampliar consideravelmente os esforços atuais para o mapeamento dos chamados Objetos Próximos à Terra (Near Earth Objects-NEO). O orçamento de 2012 do programa NEO da NASA não passou de 20 milhões de dólares, equivalente a 0,5% do orçamento total da agência, quantia irrisória para os requisitos de uma iniciativa do gênero. Para comparação, o telescópio de infravermelho em órbita solar para a detecção e medição dos NEO com uma precisão de até 20%, proposto pela NASA em 2007, custaria 500 milhões de dólares – valor de dois caças F-35 Lightning II, que ainda não entraram em serviço efetivo e cujo desenvolvimento tem enfrentado sucessivos atrasos e aumentos de custos.

Ademais, considerando-se que os EUA têm demonstrado uma crescente inclinação a privatizar o seu programa espacial, projetos sem retorno econômico visível tendem a enfrentar obstáculos cada vez maiores para deixar a plataforma de lançamentos, mesmo engajados em um esforço de cooperação internacional, imprescindível para a implementação de uma iniciativa do gênero.

Igualmente, em 2007, o Painel Consultivo da Missão para Objetos Próximos da Terra da Agência Espacial Europeia (ESA) sugeriu uma missão espacial com o objetivo de lançar um projétil de 400 kg contra um asteróide, para a observação dos resultados. O projeto, que custaria 400 milhões de dólares (pouco mais que o custo de quatro caças Eurofighter Typhoon), foi devidamente engavetado – claro, por falta de recursos.

Em 2011, o governo da Federação Russa propôs aos EUA um programa de cooperação com tal finalidade, a Defesa Estratégica da Terra, mas foi ignorado. Em 16 de fevereiro, comentando a queda do meteoro, o vice-primeiro-ministro Dmitri Rogozin, autor da proposta, reiterou: “Eu tenho falado sobre a necessidade de algum tipo de iniciativa internacional relacionada ao estabelecimento de um sistema de alerta e prevenção de aproximações perigosas para a Terra, de objetos de origem extraterrestre. Nem a Rússia nem os EUA têm hoje a capacidade de desviar esses objetos (Interfax, 16/02/2013).”

Rogozin recordou as reações negativas à proposta original, feita quando ainda era o representante russo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN): “A resposta foi o ceticismo: ‘Isso não pode acontecer, porque pode nunca acontecer.’ Houve um certo ceticismo e muita gente deu gargalhadas.”

Outras ameaças reais ao planeta são as megatempestades solares, como a ocorrida em 1859, a mais intensa já registrada, que provocou o surgimento de auroras em latitudes tão baixas como o Caribe e, durante um dia inteiro, afetou seriamente o funcionamento das redes telegráficas – à época, a única utilização da eletricidade em grande escala. Se um evento semelhante ocorresse hoje, poderia acarretar gravíssimos problemas para as grandes redes de transmissão interligadas, queimando transformadores primários e deixando vastas regiões sem eletricidade, durante dias, semanas ou até meses.

Em 1989, uma tempestade bem mais fraca provocou um blecaute de 16 horas na província canadense de Quebec.

Tais fenômenos podem ser detectados antecipadamente por satélites especializados, inseridos em um sistema de alerta que transmitisse as informações captadas pelos satélites e as avaliações imediatas dos operadores do sistema às autoridades de países, regiões e até continentes inteiros, permitindo-lhes tomar as precauções necessárias – essencialmente, desligar os transformadores primários dos sistemas de transmissão de eletricidade, evitando que sejam danificados pelas sobrecargas geradas pelos intensos fluxos de elétrons provenientes do Sol.

Embora existam alguns satélites capazes de detectar as explosões solares, não há um sistema de alerta internacional capaz de neutralizar ou mitigar os eventuais efeitos das de maior intensidade. Outra vez, falta um nível de comprometimento e cooperação internacional que não está à vista – ao contrário do que ocorre com o enfrentamento das pseudoemergências climáticas.

Na quarta-feira 20, o Observatório da Dinâmica Solar da NASA observou o surgimento de uma enorme mancha solar, capaz de provocar as chamadas erupções de massa coronal, que arremessam no espaço colossais quantidades de partículas carregadas e, com frequência, atingem a Terra. Em um relatório divulgado na semana anterior, a Real Academia de Engenharia britânica afirmou que o mundo teria uma margem de antecedência de não mais que 30 minutos para se proteger, caso ocorra uma nova megatempestade como a de 1859 (O Globo, 22/02/2013). Dada a virtual inexistência de um sistema de alerta integrado, aparentemente, só nos resta torcer com as estatísticas.

Em 15 de fevereiro, a humanidade esteve bem perto de uma catástrofe de grandes proporções. Resta ver até quando continuaremos inertes, contando com as probabilidades, para evitar o enfrentamento efetivo dessas possibilidades reais.

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