sexta-feira, 3 de abril de 2009

A longa noite da República

por Mauro Santayana *
(publicado em 1º abril 2009, no Jornal do Brasil. Enviado pelo sempre atento engenheiro agrônomo Paulo Brandão)
Hoje (não ontem) o golpe militar de 1964 faz 45 anos. Foi na primeira madrugada de abril que o presidente do Congresso declarou vaga a Presidência da República, com Jango em território nacional. A ditadura foi longa, perversa e sangrenta mentira, que prometia a ordem democrática e trouxe a tortura, os assassinatos, o medo e a corrupção. A mentira no poder por mais de duas décadas tornou-se uma vacina política. É quase impossível que haja outro golpe militar em nosso país.

A República fora uma aspiração civil a partir da Inconfidência Mineira, mas não seria proclamada em 1889 sem os militares. A Guerra do Paraguai e o Abolicionismo haviam reunido, em 1870, na mesma causa antimonárquica, paisanos e fardados. Até o golpe de 64, o poder de fato sobre a República foi disputado pelos bacharéis e militares. Depois de Deodoro e Floriano, os civis se revezaram na Presidência, sempre sob a pressão militar, até 1910, quando exerceram a Presidência com o marechal Hermes da Fonseca. No quatriênio seguinte, o mineiro Wenceslau Braz iniciou o processo de afirmação civil, que a morte de Pinheiro Machado, em 1915, facilitaria. Como assinalam historiadores do período, os levantes militares, pouco ou nada tinham de ideológicos. Foram, a partir de 22, manifestações corporativas contra a predominância do poder civil, que a eleição de Arthur Bernardes iria consolidar. O corporativismo é infecção crônica no Brasil. O pretexto para o levante dos 18 do Forte de Copacabana, foram cartas falsas, atribuídas a Bernardes, nas quais o marechal Hermes era chamado de "Sargentão".
Os tenentes só viriam a ter visão social do Brasil com a Coluna Prestes. Essa visão inverteria a razão dos tenentes de 22, levando-os à posição de esquerda da Aliança Liberal no movimento de 30. Os tenentes queriam o poder, certos de que só a força resolveria a questão social. Assim surgiu o movimento de 1935, que foi tipicamente militar, embora se identificasse com reduzido grupo de civis de esquerda. Frustrada a rebelião, continuou a tensão entre militares e políticos do Estado Novo, que só se entendiam no campo da direita mais reacionária. Continuou em 1945, com o putsch de 29 de outubro, contra Vargas, amainou-se no governo híbrido e chocho do marechal Dutra e se rearticulou contra o segundo governo de Vargas, levando-o ao suicídio em 54.
O setor legalista dos militares, nascido da II Guerra Mundial, conteve os golpistas em 11 de novembro de 55, assegurando a posse de Juscelino em janeiro do ano seguinte. O mineiro conseguiu driblar as tentativas golpistas de Jacareacanga e Aragarças, e entregou, sem tropeços maiores, o poder a seu sucessor. Depois da renúncia de Jânio, os militares voltaram a articular-se, para tentar impedir à aliança PTB-PSD (nascida do varguismo) de exercer o governo com Jango. Ao assumir diretamente o governo, o que não faziam, de forma explícita, desde a eleição de Prudente de Moraes (Hermes governara sob forte influência civil), os militares levaram quase 20 anos para descobrir que a realidade não lhes permitia continuar no poder.
O fim do regime de exceção, em 1985, não foi o fim do entulho autoritário. O STF julga, hoje, a constitucionalidade ou não de uma lei da ditadura, de 1967, que limitou a liberdade profissional, intelectual e política dos cidadãos, exigindo dos novos jornalistas licença universitária. Para o nosso constrangimento, isso se fez a pedido de jornalistas, que fechavam os olhos à censura e à perseguição a seus colegas, em troca de falso status social, e do "fechamento" do ingresso na categoria aos pobres, em benefício da classe média.
Fora o argumento de que a liberdade de expressão, por todos os meios, é o mais exigido dos direitos humanos, cabe a indagação lógica, se o jornalismo é técnica ou manifestação ética e política. Na experiência de 57 anos de trabalho, estou certo de que o jornalismo é tanto mais autêntico quanto mais distanciado for dos esquemas técnicos, e mais próximo estiver do compromisso ético, só assumido nos embates do cotidiano. Para o resto, basta conhecer a língua pátria, que muitos professores de jornalismo - e seus discípulos - desconhecem. Poderão objetar que minha posição se deve ao fato de ser autodidata, como tantos outros de minha geração. É uma opinião respeitável.
* jornalista, autodidata.
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6 comentários:

  1. Boa lembrança, nas lides do dia a dia muitas vezes nos esquecemos de prestar atenção ao processo histórico que nos trouxe até aqui. Ao contrário do Santayana, tenho um diploma de jornalismo, mas sou filho e neto de jornalistas de primeira linha que não frequentaram faculdades de comunicação.
    Me lembro, ainda criança, no interior de Goiás, no início de abril de 1964, minha professora de primário perguntou ao pai quando ele iria fazer a barba. A resposta foi: "Quando o Castelo Branco cair". Em Minha imaginação aquilo soou como uma eternidade, pois nada é mais sólido do que um castelo, e imagine então um castelo branco, no alto de uma colina, imponente e para sempre.
    O castelo demorou a cair, mais de vinte anos se passaram até voltar a germinar a democracia.

    Richard, obrigado por trazer este texto e lembrar a gente que a ditadura não foi fácil, que foi branda, e que violentou a vida de muita gente.
    abs
    Dal

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  2. Só faltou um B no historico que se refere a açiança PTB-PSD no mais sem reparos um texto que de que nós nunca deveremos nos esquecer como o judaismo tem a seu holocausto nos temos historicamente o nosso. Nunca devemos nos esquecer.

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  3. Pois é, Richard.

    Obrigado por lei a cursar uma escola de jornalismo, só posso dizer que criamos monstros e não sabemos como deles nos livrar. A discussão deve, portanto, envolver as novas gerações de profissionais que, com raras exceções, parece que estão sendo doutrinadas a pensar como assessores de imprensa e não como jornalistas. E longe de mim a idéia do Sartre de que todo jornalista tem que ser, obrigatoriamente, de esquerda.

    RBdC

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  4. A discussão vai ser longa e polêmica, mais uma vez, mas o STF deve colocar um ponto final nessa história, porque do jeito que está não deve e nem pode ficar. Na sequência o Congresso deve votar uma "nova Lei de Imprensa" e, pressionado pelo sindicalismo, vai reavaliar o diploma, caso contrário a maioria das escolas vai fechar.
    Acho que o melhor de tudo ainda é a lembrança e colocação do Santayana sobre o golpe de 64, pois nos livros de história contemporânea ainda se fala em "revolução" (não esqueçamos que a história é sempre escrita pelos vencedores...), para que não aconteça de novo.

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  5. Recebi e-mail do engenheiro agrônomo Marcio Scaléa, lá de Minas Gerais:
    Richard
    Obrigado pelo texto.
    Eu não tenho bem certeza do que é pior: a longa noite da República ou o largo inverno da esquerda no poder.
    Acho que você entende o que quero dizer.
    O que é pior: não ter segurança, pois a "segurança" pode acossá-lo a qualquer momento (longa noite) ou a absoluta falta de segurança que vivemos hoje: em minha família sofremos dois assaltos em menos de um ano e TODOS os envolvidos estão em liberdade a nos ameaçar, protegidos que estão pelos 'direitos humanos' e pela legislação em vigor.

    Vivi a revolução, era universitário naquele momento. E ser contra ou a favor da 'revolução' era uma opção. Quem se declarava contra o status podia ser acossado. Assim como quem não tinha nada a ver com o sistema, contra ou a favor, mas numa percentagem baixíssima. Hoje, é questão de estatistica : tantos por cento da sociedade será assaltado, sequestrado, assassinado, etc. Se você estiver nessa percentagem, você será alvo, aconteça o que acontecer. O medo, o adormecer por absoluto cansaço, a perspectiva de ser acordado por um criminoso em seu quarto de dormir ou em seu estabelecimento, os telefonemas anônimos a te ameaçar são uma constante, o assalto, seja à "fatia superior" da sociedade ou ao pobre assalariado ao retirar seu soldo no banco, são uma regra.

    Insegurança por insegurança, ainda prefiro a longa noite.
    Ver um Gabeira, maconheiro e assaltante, posar de modêlo de respeito é muito triste. Ver uma Dilma, pretender à presidencia, é lamentável. Ver um código ambiental absolutamente louco, é algo acima da capacidade de entendimento de qualquer ser normal.

    Acho que o que governa um país ou um povo é a perspectiva de futuro. E as perspectivas de futuro do povo brasileiro (não do Brasil, pois só o fato de ter um vasto mercado interno a ser abastecido lhe dá grande vantagem competitiva) são terríveis: pressão ambiental (pois é muito simples criticar o que se faz qdo não se tem a responsabilidade da produção).
    É facílimo criticar a derrubada do cerrado. Difícil é entender que essa derrubada, qdo associada ao Plantio Direto e à ILP, é fonte de grãos e de carne (ou leite), de sequestro de CO2 e de empregos, como foi enfático o Dr.Borlaug em suas afirmações (sem falar no Dr.Fernando P. Cardoso, 94 anos de vida e de experiência).
    Mas me alonguei demais, a sensação de ter trabalhado toda uma vida em prol da sustentabilidade e da legalidade, e não ter isso tudo valorizado me derruba e deprime.
    Fácil é apregoar que a braquiaria (a quem tanto devemos) é "invasora exótica" causando significativos prejuízos ambientais em áreas de preservação. Difícil é aceitar que o uso de um "agrotóxico" no combate dessa braquiaria nessas mesmas áreas de preservação é algo viável e que só não é aceito por posições muito mais políticas do que ambientais ou ´preservacionistas'.

    Triste futuro nos aguarda, tenho certeza.
    Só espero não estar aqui para presenciar essa novela, de fim absolutamente previsível.
    Marcio Scaléa

    RESPOSTA do blogueiro:
    Caro Scaléa,
    lamento profundamente sua situação de assaltado, e de sua família. Informo que, ao contrário de você, no período da ditadura, fui assaltado 4 vezes, 3 delas com armas de fogo apontadas no peito, e 1 das vezes junto com minha mulher. Nos últimos 20 anos fui roubado, mas não assaltado, em 2 vezes. Estatisticamente, nem a longa noite da ditadura ou esses anos de esquerda e centro-esquerda (considerando os tucanos de centro, o que é discutível, me parece que estão mais à direita), explicam o fenômeno. É questão de cultura, e de excesso demográfico, na minha opinião, não há dinheiro de impostos que garantam políticas públicas para proporcionar segurança, educação, saúde, transporte, estradas...
    Sobre a questão ambiental lembro que esse fenômeno é mundial, não começou aqui, apenas copiamos o modismo, somos macaquitos como nos chamam os hermanos argentinos. Acho que temos de explicar, educar os ambientalistas, gozar a cara deles quando dizem as besteiras que dizem, ignorantes (porque ignoram) que são.
    De toda forma, ditadura nunca mais, nem pense nisso que os caras podem acordar, pelo amor de Deus! Leia a "ditabranda" aí em cima...

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  6. Richard, gostei do artigo do Santayana, mas não concordo no todo. Acho que jornalismo é ética e técnica também. Só que pelo visto a ética ou melhor a deontologia jornalística está em extinção no Brasil. É tudo desanimador. O Cláudio Abramo dizia que o "Jornalismo é o exercício diário da inteligência e a prática cotidiana do caráter".
    Lembro-me que uma professora da ECA/USP, dizia que talvez a única razão efetiva da existência das faculdades de Jornalismo era o ensino e discussão da questão ética.
    Com a chegada da desregulamentação profissional, agora estou curioso para ver os oportunistas. O que vai ter de picareta vendendo matéria, entrevista, ameçando publicar fofocas se não pagar, etc. etc. etc. Vamos ver o popuzudas virando repórteres, apresentadoras, etc. Vamos ver jogadores de futebol como o Pelé, Neto etc., comentando coisas fantásticas sobre o esporte.
    A bem da verdade, a imensa maioria dos estudantes de Jornalismo é bem fraquinha mesmo, mas há uma minoria que dá conta do recado. É só ver as redações dos grandes jornais, tvs, rádios, revistas e sites da mainstream press. Mas se pensarmos que apenas 3% dos egressos dos cursos de Comunicação entram no mercado de trabalho, o número de focas que tem qualidade é suficiente.
    Ah! Não tenho posição formada sobre a obrigatoriedade do diploma de Jornalismo. Há mais de 20 anos pesquiso o tema e não consigo chegar a uma conclusão. Há momentos que sou a favor e outros que sou contra.
    A propósito, sou bacharel em Jornalismo e professor da disciplina

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