domingo, 12 de abril de 2009

O TOCADOR DE ATABAQUE

Richard Jakubaszko 
O delegado da Polícia Federal Protógenes Queiróz leu o poema abaixo antes de prestar seu depoimento de mais de 8 horas à CPI - Comissão Parlamentar de Inquérito, na Câmara Federal, em 8 de abril de 2009, diante de deputados e da imprensa. Para bom entendedor meia palavra basta, quanto mais um poema... Independentemente do poema, muita hipocrisia se ouviu durante a tarde - e parte da noite -, em que o delegado falou. Somos um país politicamente correto, delegados e juízes são suspeitos por investigarem gente da elite. 

O TOCADOR DE ATABAQUE de Eduardo Alves da Costa  
Querem o meu verso  
De nariz para o ar,  
Equilibrando a esfera,  
Enquanto alguém bate com a varinha  
Para me por no compasso. 
Pedem-me que não seja violento  
E me mantenha equilibrado  
Entre a forma e o fundo, 
Porque a platéia não deve sofrer  
Emoções fortes.  
Mas eu, nascido num tempo de sussurros,  
Tenho a voz contundente  
E por mais que me esforce  
Não sirvo para cantar no coro.  
Sei apenas tocar meu atabaque. 
Assim, que me perdoem  
Os amantes dos saraus 
E os arquitetos de labirintos,  
Que as senhoras se protejam com o xale  
E os corações delicados  
Se encostem à parede  
Para fugir às correntes de ar.  
Bato no atabaque
Até estourar os tímpanos fracos  
E chamo num grito de gozo  
As almas bravias 
Para dançarmos juntos  
Mordidos pela mentira do mundo  
Com os nervos envenenados  
E a jugular aos pinotes.  
Escutem, eu vou lhes contar a história  
Do leão que tinha um espinho na pata…  
Bato no atabaque e me consumo  
Como se o sangue fugisse  
Por um rio subterrâneo.  
Vamos, o senhor não pode enganar todos  
Durante todo o tempo.  
Bato no atabaque  
Quem quiser cantar  
Que me dê um tom.  
Por que ao sair do trabalho 
A gente não volta para casa  
De montanha-russa?
Bato no atabaque…  
Matou o patrão com cinco tiros  
Porque foi despedido Sem aviso prévio.
Bato no atabaque… 
Izabel, acho que meu pai,  
Quando souber,  
Vai me bater.  
Bato no atabaque… 
Moço, compra uma flor Pra namorada? 
Bato no atabaque…  
Você acha que eles bombardeiam a China? 
Bato no atabaque e o furacão me arranca pela raiz 
e eu sou um baobá atravessando os céus da Flórida 
para cair em Nova York,  
sacudindo a bolsa de valores como um enfarte.  
Não sei… prá mim Quem matou Kennedy Foi a reação. 
Bato, bato, bato no atabaque  
Até consumir o terceiro estágio de minha alma de astronauta e ficar girando, fora de órbita, para sempre. _

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